Já reparou que consegue levantar mais peso com um braço do que com o outro? Ou que uma perna parece mais estável e forte durante um agachamento ou ao subir escadas?
Esta é uma dúvida muito comum. A boa notícia é que, na maioria das pessoas, uma pequena diferença de força entre os dois lados do corpo é perfeitamente normal.
No entanto, quando essa diferença é muito grande ou surge acompanhada por dor, perda de mobilidade ou instabilidade, pode indicar que existe um problema que merece ser avaliado.
Porque existe diferença entre os dois lados?
O corpo humano não é completamente simétrico.
A maioria das pessoas tem um lado dominante, utilizado com mais frequência para escrever, chutar uma bola, subir escadas ou realizar tarefas do dia a dia.
Com o passar dos anos, essa utilização preferencial pode originar pequenas diferenças de força, coordenação e controlo muscular.
Além disso, cada pessoa possui diferenças naturais na anatomia, mobilidade e coordenação que também influenciam o desempenho.
Quando a diferença é considerada normal?
Em pessoas saudáveis, diferenças de força entre os membros de até cerca de 10% são geralmente consideradas compatíveis com a variabilidade normal.
Em atletas, dependendo da modalidade, podem existir assimetrias ligeiramente superiores sem que isso represente uma lesão.
Contudo, diferenças superiores a 10–15%, sobretudo após uma lesão, justificam uma avaliação mais cuidadosa, uma vez que podem aumentar o risco de nova lesão e comprometer o desempenho.
O que pode provocar uma perda de força de um lado?
As causas mais frequentes incluem:
- Lesões antigas no joelho, tornozelo ou anca.
- Dor persistente.
- Cirurgias.
- Imobilização prolongada.
- Inibição muscular após uma lesão.
- Alterações da mobilidade.
- Défices de equilíbrio e proprioceção.
- Padrões de movimento compensatórios.
Em muitos casos, o músculo não perdeu apenas massa muscular. O sistema nervoso pode estar a recrutar esse músculo de forma menos eficiente.
Nem sempre o músculo é o problema
É comum pensar que um lado está mais fraco porque “perdeu músculo”.
Na realidade, a dificuldade pode estar na ativação muscular.
Após uma lesão no joelho, por exemplo, o cérebro pode reduzir automaticamente a ativação do quadricípite como mecanismo de proteção. Este fenómeno, conhecido como inibição muscular artrogénica, pode persistir mesmo depois da cicatrização dos tecidos.
Por isso, aumentar apenas a carga do treino nem sempre resolve o problema.
Como avaliar uma assimetria?
Uma avaliação completa pode incluir:
- Testes de força.
- Equilíbrio unipodal.
- Agachamento numa perna.
- Mobilidade da anca, joelho e tornozelo.
- Avaliação da marcha.
- Controlo neuromuscular.
- Coordenação e qualidade do movimento.
O objetivo é perceber se a diferença é uma adaptação normal ou uma alteração que está a limitar a função.
Deve tentar ficar completamente simétrico?
Nem sempre.
O objetivo da reabilitação não é criar um corpo perfeitamente igual dos dois lados, mas reduzir assimetrias que aumentem o risco de lesão ou prejudiquem a função.
Em muitos casos, pequenas diferenças de força não provocam qualquer problema e fazem parte da variabilidade normal de cada pessoa.
O que diz a ciência?
A investigação mostra que pequenas assimetrias são frequentes em pessoas saudáveis.
No entanto, assimetrias importantes de força, especialmente após lesões do ligamento cruzado anterior (LCA) ou outras lesões do membro inferior, estão associadas a pior desempenho funcional e a um maior risco de nova lesão.
Por isso, mais importante do que comparar os dois lados é perceber se a diferença interfere com a capacidade de realizar as atividades do dia a dia ou o desporto sem dor.
Referências científicas
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https://bjsm.bmj.com/content/53/9/522
Grindem H, Snyder-Mackler L, et al. Simple Decision Rules Can Reduce the Risk of Reinjury After ACL Reconstruction. British Journal of Sports Medicine
https://bjsm.bmj.com/content/50/13/804
Lepley LK. Deficits in Quadriceps Strength and Activation After ACL Injury. Sports Health. 2015
https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC4482305/
American College of Sports Medicine (ACSM). Guidelines for Exercise Testing and Prescription
https://acsm.org/education-resources/books/guidelines-exercise-testing-prescription/
Dingenen B, Gokeler A. Optimization of the Return-to-Sport Paradigm After ACL Reconstruction
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/30239365/
Leitura complementar
Kyritsis P, Bahr R, Landreau P, Miladi R, Witvrouw E. Likelihood of ACL Graft Rupture: Not Meeting Return-to-Sport Criteria Before Return to Sport Is Associated With a Four Times Greater Risk of Rupture
https://bjsm.bmj.com/content/50/15/946
Ardern CL, Taylor NF, Feller JA, Webster KE. Fifty-Five Per Cent Return to Competitive Sport Following ACL Reconstruction Surgery
https://bjsm.bmj.com/content/48/21/1543
Posso ajudar?
Se sente que um lado do corpo está significativamente mais fraco, tem dificuldade em ativar determinados músculos ou continua com dor após uma lesão, uma avaliação individual pode identificar a causa da assimetria e orientar o tratamento mais adequado.
Sou Marcelo Barros, Personal Trainer desde 1995, antigo Personal Trainer oficial da Men’s Health (2003–2015), especialista em joelho e coluna, com formação em Osteopatia e em P-DTR (Proprioceptive Deep Tendon Reflex).
Realizo avaliações presenciais no Lemon Fit, no Parque das Nações (Lisboa), e acompanhamento online por videochamada.
O objetivo é identificar se essa diferença faz parte da normalidade ou se está relacionada com alterações da força, do controlo neuromuscular ou da biomecânica, construindo um plano de recuperação baseado na melhor evidência científica disponível.