A cardiomiopatia hipertrófica (CMH) é uma das doenças cardíacas hereditárias mais frequentes. Durante muitos anos, a recomendação era simples: evitar exercício físico intenso por receio de aumentar o risco de arritmias, síncope ou morte súbita.
No entanto, a investigação científica dos últimos anos veio alterar significativamente esta perspetiva.
Uma revisão sistemática com meta-análise demonstrou que o treino físico supervisionado pode ser seguro e trazer benefícios importantes, melhorando a capacidade funcional e a qualidade de vida de muitas pessoas com cardiomiopatia hipertrófica.
Isto não significa que qualquer exercício seja adequado. Significa que, quando existe uma avaliação médica e um plano de treino individualizado, muitas pessoas podem beneficiar da prática regular de exercício.
O que é a cardiomiopatia hipertrófica?
A cardiomiopatia hipertrófica caracteriza-se pelo espessamento anormal do músculo cardíaco, sobretudo do ventrículo esquerdo.
Esse aumento da espessura pode dificultar a saída do sangue do coração, alterar o enchimento cardíaco e favorecer alterações do ritmo cardíaco.
Os sintomas variam bastante entre indivíduos.
Algumas pessoas nunca apresentam sintomas, enquanto outras podem desenvolver:
- falta de ar;
- fadiga precoce;
- dor no peito;
- palpitações;
- tonturas;
- episódios de desmaio.
Apesar destes riscos, a maioria das pessoas consegue manter uma vida ativa quando a doença é corretamente acompanhada.
Porque razão o exercício era desaconselhado?
Durante décadas, acreditava-se que o exercício físico poderia aumentar significativamente o risco de eventos cardíacos graves.
Esta preocupação surgiu porque alguns casos de morte súbita em atletas jovens estavam associados à cardiomiopatia hipertrófica.
Como consequência, muitos doentes recebiam recomendações para reduzir drasticamente a atividade física.
Infelizmente, esta estratégia trouxe outro problema.
O sedentarismo aumenta o risco de:
- perda de capacidade cardiovascular;
- diminuição da força muscular;
- aumento de peso;
- diabetes;
- hipertensão;
- pior qualidade de vida;
- ansiedade e depressão.
Hoje sabemos que evitar completamente o exercício pode ser mais prejudicial do que benéfico para muitos destes doentes.
O que concluiu a revisão sistemática?
Os investigadores analisaram vários estudos científicos que incluíram pessoas com cardiomiopatia hipertrófica submetidas a programas de exercício supervisionado.
Os resultados foram bastante consistentes.
Os participantes apresentaram:
- melhoria significativa da capacidade funcional;
- aumento do consumo máximo de oxigénio (VO₂ máximo);
- maior tolerância ao esforço;
- melhor qualidade de vida;
- ausência de aumento significativo de eventos cardíacos graves durante os programas supervisionados.
Ou seja, quando existe acompanhamento adequado, o exercício parece ser bastante mais seguro do que se pensava anteriormente.
Porque melhora o exercício?
O treino físico provoca adaptações em praticamente todo o organismo.
Mesmo numa pessoa com cardiomiopatia hipertrófica, estas adaptações podem ser muito positivas.
Entre os principais benefícios encontram-se:
Melhor capacidade cardiovascular
O organismo aprende a utilizar melhor o oxigénio disponível.
Isso permite realizar tarefas do dia a dia com menor esforço.
Menor fadiga
Muitos doentes referem sentir menos cansaço após algumas semanas de treino estruturado.
Isto deve-se ao aumento da eficiência muscular e cardiovascular.
Melhor controlo da pressão arterial
O exercício ajuda a melhorar a função dos vasos sanguíneos e pode contribuir para uma melhor regulação da tensão arterial.
Melhor qualidade de vida
Além dos benefícios físicos, existe normalmente uma melhoria significativa da confiança para realizar atividades diárias.
Muitas pessoas deixam de sentir tanto receio de fazer pequenos esforços.
O treino deve ser supervisionado
Este é talvez o aspeto mais importante.
A mensagem da ciência não é que qualquer pessoa com cardiomiopatia hipertrófica possa iniciar treino intenso.
O verdadeiro benefício surge quando existe:
- diagnóstico correto;
- avaliação pelo cardiologista;
- estratificação do risco;
- prescrição individualizada;
- monitorização da resposta ao exercício.
Cada pessoa apresenta características diferentes.
Existem formas ligeiras da doença e outras bastante mais complexas.
Por isso, dois doentes com o mesmo diagnóstico podem necessitar de programas completamente diferentes.
Que tipo de treino parece mais adequado?
As recomendações atuais apontam sobretudo para exercício aeróbio de intensidade moderada.
Exemplos incluem:
- caminhada rápida;
- bicicleta;
- elíptica;
- natação tranquila;
- remo leve.
Também o treino de força pode ser incluído.
Neste caso, normalmente privilegia-se:
- cargas moderadas;
- maior controlo da respiração;
- evitar prender a respiração;
- evitar esforços máximos;
- progressão gradual.
O objetivo não é bater recordes.
O objetivo é melhorar a saúde cardiovascular com segurança.
A importância da intensidade
Um dos fatores mais importantes é controlar a intensidade do treino.
Em vez de treinar até à exaustão, normalmente procura-se trabalhar numa intensidade confortável.
Muitos programas utilizam:
- frequência cardíaca;
- escala de esforço percebido;
- sintomas apresentados durante o exercício.
Este acompanhamento reduz significativamente os riscos.
Quem não deve iniciar exercício sem avaliação?
Existem situações em que a avaliação médica é indispensável antes de iniciar qualquer programa.
Entre elas:
- sintomas importantes;
- episódios de desmaio;
- arritmias;
- dor torácica durante o esforço;
- obstrução significativa da saída do ventrículo esquerdo;
- história familiar de morte súbita.
Nestes casos, o plano de treino deve ser desenvolvido em conjunto com o cardiologista.
O papel do Personal Trainer
Um Personal Trainer com formação adequada pode desempenhar um papel muito importante.
O seu trabalho passa por:
- adaptar a intensidade;
- controlar os períodos de recuperação;
- ensinar a respirar corretamente;
- corrigir a técnica dos exercícios;
- reconhecer sinais de alerta;
- comunicar com a equipa médica quando necessário.
O treino deixa de ser apenas uma sessão de exercício.
Passa a ser uma intervenção estruturada de promoção da saúde.
O futuro da cardiologia
A cardiologia moderna está cada vez mais orientada para promover estilos de vida ativos.
Hoje já não se recomenda repouso absoluto para a maioria das doenças cardiovasculares.
Pelo contrário.
Sabemos que o exercício corretamente prescrito é uma verdadeira “medicação” capaz de melhorar a função cardiovascular, reduzir sintomas e aumentar a qualidade de vida.
A cardiomiopatia hipertrófica parece seguir exatamente essa tendência.
Cada vez mais estudos demonstram que o treino supervisionado pode fazer parte do tratamento.
Conclusão
Durante muitos anos, viver com cardiomiopatia hipertrófica significava limitar drasticamente a atividade física.
Hoje, a evidência científica mostra uma realidade diferente.
Quando existe uma avaliação médica adequada e um programa de treino individualizado, o exercício supervisionado pode melhorar significativamente a capacidade funcional, aumentar a qualidade de vida e ser realizado com segurança.
O segredo não está em treinar mais.
Está em treinar melhor, com acompanhamento especializado, respeitando as características de cada pessoa.
Posso ajudar?
Se tem cardiomiopatia hipertrófica ou outra doença cardiovascular e pretende iniciar um programa de exercício com segurança, posso ajudá-lo a construir um plano adaptado às suas necessidades, em articulação com as recomendações do seu médico.
Realizo acompanhamento presencial e online, com programas individualizados focados na saúde, segurança e melhoria da capacidade funcional.
Referências científicas
- Pelliccia A, Sharma S, Gati S, et al. 2020 ESC Guidelines on Sports Cardiology and Exercise in Patients with Cardiovascular Disease. https://academic.oup.com/eurheartj/article/42/1/17/5898937
- Ommen SR, Mital S, Burke MA, et al. 2024 AHA/ACC Guideline for the Diagnosis and Treatment of Hypertrophic Cardiomyopathy. https://www.ahajournals.org/doi/10.1161/CIR.0000000000001250
- Saberi S, Wheeler M, Bragg-Gresham J, et al. Effect of Moderate-Intensity Exercise Training on Peak Oxygen Consumption in Patients With Hypertrophic Cardiomyopathy. https://jamanetwork.com/journals/jama/fullarticle/2753518
- PubMed – Exercise Training in Hypertrophic Cardiomyopathy (Systematic Review and Meta-analysis): https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/
Disclaimer: Este artigo tem fins exclusivamente informativos e não substitui a avaliação por um médico cardiologista. Pessoas com cardiomiopatia hipertrófica devem obter autorização médica antes de iniciar ou alterar qualquer programa de exercício.