Nos
últimos anos, poucos atletas despertaram tanta curiosidade no mundo da nutrição e da fisiologia do exercício como o brasileiro Alessandro Medeiros. Conhecido por competir em provas de endurance seguindo uma dieta exclusivamente carnívora, Alessandro tornou-se um exemplo de como o organismo humano pode adaptar-se a diferentes estratégias alimentares quando estas são cuidadosamente implementadas.
A sua história ganhou notoriedade ao completar provas extremamente exigentes, incluindo um Ironman e o Ultraman, recorrendo a uma alimentação baseada apenas em alimentos de origem animal e, em algumas competições, realizando longos períodos praticamente sem ingestão de alimentos sólidos. Estes feitos despertaram o interesse de atletas, médicos e investigadores, que procuraram compreender de que forma o metabolismo consegue sustentar um esforço físico tão prolongado.
Embora o seu percurso seja impressionante, é importante recordar que se trata de um caso individual. Nem todos os organismos respondem da mesma forma, e uma estratégia alimentar deve sempre ser adaptada às características, objetivos e estado de saúde de cada pessoa.
Uma alimentação exclusivamente de origem animal
A dieta seguida por Alessandro Medeiros enquadra-se no chamado padrão alimentar carnívoro. Nesta abordagem, a alimentação baseia-se essencialmente em carne de vaca, cordeiro, porco, aves, peixe, ovos e, em alguns casos, pequenas quantidades de laticínios.
Os hidratos de carbono são praticamente eliminados da alimentação diária. Como consequência, o organismo reduz a utilização da glicose como principal fonte de energia e aumenta progressivamente a utilização da gordura corporal e dos ácidos gordos provenientes da dieta.
Após algumas semanas ou meses de adaptação, muitas pessoas entram num estado conhecido como cetose nutricional, no qual o fígado produz corpos cetónicos que podem servir como combustível para diversos tecidos, incluindo o cérebro e os músculos.
Segundo Alessandro, esta adaptação permitiu-lhe manter níveis estáveis de energia durante esforços muito prolongados.
O metabolismo adapta-se
Quando a ingestão de hidratos de carbono é muito reduzida durante um período prolongado, ocorrem diversas adaptações metabólicas.
Os músculos tornam-se mais eficientes na utilização da gordura como combustível, diminuindo a dependência das reservas limitadas de glicogénio.
Como um adulto magro possui apenas algumas centenas de gramas de glicogénio armazenadas, mas pode transportar dezenas de milhares de calorias sob a forma de gordura corporal, esta adaptação pode representar uma vantagem em exercícios de longa duração realizados a intensidade moderada.
Este fenómeno é conhecido há décadas na fisiologia do exercício e foi estudado em atletas adaptados a dietas cetogénicas.
No entanto, uma maior capacidade para oxidar gordura não significa necessariamente melhor desempenho competitivo em todas as modalidades.
Ironman e Ultraman
As provas de triatlo de longa distância representam um enorme desafio fisiológico.
Um Ironman inclui aproximadamente:
- 3,8 km de natação;
- 180 km de ciclismo;
- 42,2 km de corrida.
Já o Ultraman leva esta exigência para outro nível, ultrapassando os 500 quilómetros distribuídos por três dias consecutivos.
Completar estas provas exige uma preparação física extraordinária, uma recuperação adequada, excelente capacidade cardiovascular e uma enorme resistência mental.
Alessandro Medeiros conseguiu concluir estas competições recorrendo praticamente apenas às reservas energéticas do próprio organismo, ingerindo água e eletrólitos durante algumas provas.
Independentemente da estratégia nutricional utilizada, estes feitos demonstram anos de treino consistente e uma adaptação metabólica muito específica.
O interesse da comunidade científica
O percurso de Alessandro despertou curiosidade entre profissionais da saúde e investigadores.
A principal questão era compreender como um atleta conseguia manter um rendimento elevado durante tantas horas consumindo muito poucos hidratos de carbono.
A literatura científica demonstra que atletas adaptados a dietas cetogénicas conseguem aumentar significativamente a utilização da gordura durante o exercício.
Em algumas investigações, observaram-se taxas de oxidação de gordura superiores a 1,5 gramas por minuto, bastante acima das verificadas em atletas que seguem uma alimentação tradicional rica em hidratos de carbono.
Contudo, os estudos continuam a mostrar que, quando o objetivo é atingir intensidades muito elevadas ou competir ao mais alto nível, os hidratos de carbono continuam a desempenhar um papel importante.
Por isso, muitos especialistas defendem que a estratégia ideal depende da modalidade, da duração da prova e do perfil individual do atleta.
Muito mais do que alimentação
Apesar de a dieta receber grande atenção mediática, Alessandro Medeiros costuma destacar que o verdadeiro segredo está na consistência.
O treino regular, o descanso adequado, a gestão do stress, a exposição à natureza, a disciplina diária e o conhecimento profundo do próprio corpo fazem parte da sua filosofia de vida.
Ao longo dos anos desenvolveu uma enorme capacidade para reconhecer os sinais do organismo, ajustar o ritmo durante as provas e manter uma intensidade sustentável durante muitas horas.
Esta experiência prática é difícil de reproduzir apenas através da alimentação.
Será uma estratégia para todos?
Provavelmente não.
Cada organismo responde de forma diferente às alterações alimentares.
Enquanto algumas pessoas relatam melhorias na saciedade, controlo da glicemia e estabilidade energética, outras apresentam dificuldades na adaptação, redução do rendimento em exercícios intensos ou alterações gastrointestinais.
Além disso, pessoas com determinadas doenças, grávidas, adolescentes ou indivíduos com necessidades nutricionais específicas devem procurar aconselhamento profissional antes de realizar mudanças alimentares tão profundas.
Os casos de sucesso divulgados nas redes sociais representam frequentemente indivíduos altamente motivados, disciplinados e acompanhados durante vários anos.
O que podemos aprender?
Independentemente de alguém optar ou não por uma dieta carnívora, existem várias lições importantes na história de Alessandro Medeiros.
A primeira é que o corpo humano possui uma extraordinária capacidade de adaptação.
A segunda é que o treino consistente durante muitos anos continua a ser muito mais determinante para o desempenho do que qualquer estratégia nutricional isolada.
A terceira é que não existe uma alimentação universalmente superior. O padrão alimentar ideal depende dos objetivos, da saúde, da modalidade praticada e das preferências individuais.
Por fim, o seu percurso recorda-nos que a ciência evolui precisamente porque atletas com características invulgares desafiam aquilo que parecia impossível. Estes casos geram novas perguntas, estimulam novas investigações e ajudam a compreender melhor os limites e as capacidades do organismo humano.
Conclusão
Alessandro Medeiros tornou-se uma referência internacional entre os praticantes de endurance que seguem uma alimentação carnívora ou muito pobre em hidratos de carbono. Os seus resultados demonstram que, com adaptação adequada, é possível completar desafios físicos extraordinários recorrendo principalmente à gordura como fonte de energia.
Contudo, estes feitos não significam que esta abordagem seja a melhor escolha para todos os atletas. A evidência científica continua a mostrar que diferentes estratégias nutricionais podem ser eficazes, dependendo do contexto.
Mais importante do que seguir uma tendência alimentar é construir hábitos sustentáveis, treinar de forma inteligente, recuperar adequadamente e procurar aconselhamento profissional sempre que se pretendam implementar mudanças significativas na alimentação ou na preparação física.
Referências
Entrevista – Conheça o triatleta carnívoro Alessandro Medeiros
https://www.estilodevidacarnivoro.com/2021/10/interview-conheca-o-triatleta-carnivoro.html
Podcast Rebelião Saudável – Alessandro Medeiros e Letícia Moreira: Ultraman Carnívoro em Jejum
https://podcasts.apple.com/pt/podcast/alessandro-medeiros-e-leticia-moreira-ultraman-carn%C3%ADvoro/id1493004128?i=1000684375313
Podcast Vivendo em Cetose – Ultraman Hawaii em Jejum
https://music.amazon.com/es-us/podcasts/686b390f-d938-4db1-aee8-3d7d8ac5377f/episodes/79afaced-11c3-4b42-88d0-a14237b36066/podcast-vivendo-em-cetose-experimentos-e-jejuns-ultraman-hawaii-em-jejum-alessandro-medeiros-amedeirosendurance
Canal Rural – Campeão mundial de Ultraman se alimenta apenas de carne há seis anos
https://matogrosso.canalrural.com.br/entretenimento/estudio-rural/campeao-mundial-de-ultraman-se-alimenta-apenas-de-carne-ha-seis-anos/
VPJ Alimentos – Brasileiro campeão do Ultraman e nutricionista explicam dieta carnívora
https://vpjalimentos.com.br/brasileiro-campeao-do-ultraman-e-nutricionista-explicam-dieta-carnivora/
MF Cast – A Jornada do Primeiro Ultra-Atleta 100% Carnívoro do Mundo
https://music.amazon.it/podcasts/2dd7c7ce-3ed0-421d-9c27-6f77484cecac/episodes/f96f468f-55b5-4d55-8892-c321b91ffa3e/mf-cast-a-jornada-do-primeiro-ultra-atleta-100-carn%C3%ADvoro-do-mundo-alessandro-medeiros—mf-cast-79
Evidência científica
Metabolic characteristics of keto-adapted ultra-endurance runners
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/26892521/
Low Carbohydrate, High Fat Diet Impairs Exercise Economy and Negates the Performance Benefit from Intensified Training in Elite Race Walkers
https://physoc.onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1113/JP273230
The Art and Science of Low Carbohydrate Performance
https://www.artandscienceoflowcarb.com/books/the-art-and-science-of-low-carbohydrate-performance/