Durante muitos anos acreditou-se que comer antes de dormir era um hábito prejudicial. No entanto, a investigação científica mais recente mostra que esta ideia nem sempre é verdadeira. Quando a refeição noturna é composta por uma quantidade adequada de proteína de elevada qualidade, pode mesmo contribuir para uma melhor recuperação muscular e favorecer o desenvolvimento ou a manutenção da massa muscular.
Uma revisão sistemática com meta-análise reforçou esta conclusão ao demonstrar que consumir 25 a 40 gramas de proteína cerca de 30 a 60 minutos antes de deitar aumenta a síntese proteica durante o sono, sobretudo quando esta estratégia é combinada com treino de força regular.
O que acontece aos músculos durante a noite?
Enquanto dormimos, o organismo continua extremamente ativo. É durante este período que ocorrem inúmeros processos de reparação dos tecidos, produção hormonal e recuperação das adaptações provocadas pelo treino.
Depois de uma sessão de treino de força, as fibras musculares sofrem pequenas lesões. Para reparar esses tecidos e fortalecer o músculo, o organismo necessita de aminoácidos provenientes das proteínas da alimentação.
Se passarmos muitas horas sem ingerir proteína, como acontece durante a noite, a disponibilidade de aminoácidos diminui progressivamente. Ao fornecer proteína antes de dormir, disponibilizamos ao organismo matéria-prima para continuar a reparar e construir tecido muscular durante várias horas.
O que demonstrou a revisão sistemática?
Os investigadores analisaram diversos ensaios clínicos realizados em adultos jovens, atletas e pessoas mais velhas.
A conclusão foi consistente: ingerir entre 25 e 40 gramas de proteína de elevada qualidade antes de dormir aumenta a síntese proteica muscular durante a noite.
Quando esta estratégia é integrada num programa de treino de força, pode contribuir para:
- melhorar a recuperação muscular;
- aumentar os ganhos de massa muscular;
- favorecer o desenvolvimento da força;
- reduzir a degradação das proteínas musculares durante o período de jejum noturno.
É importante salientar que o benefício não resulta apenas da proteína antes de dormir. O fator mais importante continua a ser atingir uma ingestão diária adequada de proteína.
Quanto devo consumir?
A maioria dos estudos utilizou doses entre 25 e 40 gramas de proteína.
Esta quantidade fornece aminoácidos suficientes, incluindo leucina, um dos principais estímulos para a síntese proteica muscular.
Pessoas com maior massa muscular ou que realizam treino intenso poderão beneficiar de quantidades próximas do limite superior deste intervalo.
Qual é a melhor proteína?
O ideal é escolher proteínas completas, ricas em aminoácidos essenciais.
Algumas boas opções incluem:
- iogurte grego rico em proteína;
- queijo fresco batido;
- queijo quark;
- leite rico em proteína;
- caseína;
- whey protein, quando não é possível atingir a ingestão necessária através da alimentação.
A caseína merece especial destaque porque é digerida mais lentamente, fornecendo aminoácidos ao organismo durante várias horas.
Contudo, a evidência mostra que o mais importante é a quantidade total de proteína ingerida e não apenas a velocidade de digestão.
E quem tem mais de 50 anos?
Com o envelhecimento ocorre um fenómeno conhecido como resistência anabólica. Isto significa que o músculo responde menos eficientemente aos estímulos do exercício e da alimentação.
Por essa razão, adultos acima dos 50 anos podem beneficiar particularmente da ingestão de proteína antes de dormir, sobretudo quando praticam treino de força.
Esta estratégia pode ajudar a:
- preservar massa muscular;
- reduzir a sarcopenia;
- melhorar a força;
- aumentar a capacidade funcional;
- promover maior independência durante o envelhecimento.
Ajuda a ganhar massa muscular?
Pode ajudar, mas não faz milagres.
Ganhar massa muscular depende da combinação de vários fatores:
- treino de força progressivo;
- ingestão adequada de proteína ao longo do dia;
- energia suficiente através da alimentação;
- recuperação;
- sono de qualidade.
A proteína antes de dormir é apenas mais uma ferramenta dentro desta estratégia.
E engorda?
Esta é uma dúvida frequente.
A evidência científica não demonstra que consumir proteína antes de dormir provoque aumento de gordura corporal quando a ingestão calórica diária está ajustada às necessidades individuais.
Na realidade, alimentos ricos em proteína promovem maior saciedade e apresentam um efeito térmico superior ao dos hidratos de carbono e das gorduras.
O aumento de peso ocorre quando existe um consumo energético superior ao gasto ao longo do tempo, independentemente da hora em que os alimentos são consumidos.
Quem pode beneficiar?
Esta estratégia pode ser especialmente útil para:
- praticantes de treino de força;
- atletas;
- adultos acima dos 50 anos;
- pessoas em reabilitação após períodos de imobilização;
- indivíduos que pretendem preservar massa muscular durante o envelhecimento.
Em pessoas sedentárias, os benefícios parecem ser muito menores.
Existe alguma contraindicação?
Na maioria das pessoas saudáveis, consumir proteína antes de dormir é seguro.
Contudo, indivíduos com doença renal crónica ou outras patologias que exijam restrição proteica devem discutir a ingestão diária de proteína com o médico ou nutricionista antes de introduzir alterações significativas na alimentação.
Conclusão
A ciência atual mostra que consumir entre 25 e 40 gramas de proteína de elevada qualidade antes de dormir pode aumentar a síntese proteica durante a noite e favorecer a recuperação muscular.
Os benefícios são mais evidentes quando esta estratégia é integrada num programa regular de treino de força e acompanhada por uma ingestão adequada de proteína ao longo do dia.
Para adultos mais velhos, atletas e pessoas que procuram preservar ou aumentar a massa muscular, esta pode ser uma estratégia simples, prática e sustentada pela evidência científica.
Posso ajudar?
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Referências científicas
- Trommelen J, van Loon LJC. Pre-Sleep Protein Ingestion to Improve the Skeletal Muscle Adaptive Response to Exercise Training.
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/27986939/ - International Society of Sports Nutrition. Position Stand: Protein and Exercise.
https://jissn.biomedcentral.com/articles/10.1186/s12970-017-0177-8 - Morton RW, et al. A systematic review, meta-analysis and meta-regression of protein supplementation on resistance training-induced gains in muscle mass and strength.
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/28698222/ - Phillips SM. Protein requirements and supplementation in strength sports.
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/22150425/
Disclaimer: Este artigo tem caráter exclusivamente informativo e não substitui a avaliação por um médico ou nutricionista. Pessoas com doença renal, hepática ou outras condições clínicas devem adaptar a ingestão de proteína às recomendações dos seus profissionais de saúde.