Novas recomendações para o colesterol: o que mudou em 2026 e porque o LDL continua a ser tão importante

Novas recomendações para o colesterol: o que mudou em 2026 e porque o LDL continua a ser tão importante August 16, 2026Leave a comment

Durante anos, falar de colesterol significava sobretudo olhar para o LDL, conhecido como “colesterol mau”, e decidir se o seu valor estava ou não elevado. As novas recomendações norte-americanas de 2026 mudam parcialmente esta abordagem: o LDL continua a ser um dos principais alvos da prevenção cardiovascular, mas a avaliação deve ser mais individualizada e considerar o risco cardiovascular global.

A nova Guideline on the Management of Dyslipidemia, publicada em março de 2026 pela American College of Cardiology (ACC), American Heart Association (AHA) e outras organizações médicas, substitui as recomendações de 2018. Uma das principais mensagens é simples: quanto maior for o risco cardiovascular, mais importante é reduzir o LDL e mantê-lo baixo durante mais tempo. 

O colesterol não é apenas o LDL

As novas recomendações deixam claro que a chamada dislipidemia é mais abrangente do que simplesmente ter LDL elevado.

Além do LDL, os médicos devem considerar outros componentes do perfil lipídico e lipoproteínas que podem contribuir para a formação de placas de ateroma, incluindo os triglicéridos, o colesterol não-HDL, a apolipoproteína B (ApoB) e a lipoproteína(a), ou Lp(a).

Isto é importante porque duas pessoas com o mesmo LDL podem apresentar riscos cardiovasculares diferentes.

Por isso, em vez de perguntar apenas “qual é o meu colesterol?”, a pergunta mais útil passa a ser: “qual é o meu risco cardiovascular global?”

O LDL volta a ter objetivos específicos

Uma das mudanças mais importantes das recomendações de 2026 é o regresso dos valores-alvo de LDL-C para orientar o tratamento.

De forma simplificada, as recomendações apontam para:

  • LDL-C inferior a 100 mg/dL em pessoas com risco borderline ou intermédio;
  • LDL-C inferior a 70 mg/dL em pessoas de elevado risco;
  • LDL-C inferior a 55 mg/dL em pessoas com doença cardiovascular estabelecida consideradas de risco muito elevado.

Além do valor absoluto, continua a ser importante a percentagem de redução do LDL obtida com a intervenção. 

Isto não significa, contudo, que todas as pessoas devam tentar atingir 55 ou 70 mg/dL. O objetivo depende do risco individual e da existência ou não de doença cardiovascular.

Uma nova forma de calcular o risco cardiovascular

Outra alteração importante é a utilização das equações PREVENT-ASCVD, que substituem as antigas Pooled Cohort Equations para determinados adultos.

Estas equações permitem estimar o risco cardiovascular a 10 anos e, em determinadas idades, também a 30 anos. São utilizadas principalmente em adultos dos 30 aos 79 anos sem doença cardiovascular conhecida e com LDL-C entre 70 e 189 mg/dL. 

A ideia é evitar decisões baseadas exclusivamente num número isolado.

Idade, pressão arterial, colesterol, hábitos de saúde e outros fatores são integrados numa avaliação mais completa.

Nas novas recomendações, uma estimativa de risco cardiovascular a 10 anos entre 3% e menos de 5% pode justificar a consideração de tratamento hipolipemiante após discussão entre médico e paciente. Quando o risco é 5% ou superior, a recomendação para considerar tratamento torna-se mais forte. 

A lipoproteína(a) ganha importância

Uma das novidades que merece mais atenção é a recomendação de medir a lipoproteína(a), ou Lp(a), pelo menos uma vez na vida.

A Lp(a) é uma lipoproteína influenciada em grande parte pela genética e pode aumentar o risco de doença cardiovascular independentemente do LDL.

Segundo a nova guideline, valores iguais ou superiores a 125 nmol/L (50 mg/dL) são considerados um fator que aumenta o risco cardiovascular. Valores ainda mais elevados estão associados a um risco superior. 

Como a Lp(a) é relativamente estável ao longo da vida, uma medição pode fornecer informação importante que não aparece num perfil lipídico convencional.

E a ApoB?

A apolipoproteína B (ApoB) também recebe maior destaque.

A ApoB pode ajudar a identificar a quantidade de partículas aterogénicas circulantes no sangue. Em algumas pessoas, o LDL pode não refletir completamente o número de partículas potencialmente prejudiciais.

A nova guideline considera a medição da ApoB particularmente útil em determinadas situações, como pessoas com triglicéridos elevados, diabetes ou quando o LDL já está bastante reduzido mas permanece alguma dúvida sobre o risco residual. 

Não significa que toda a gente precise de fazer ApoB regularmente. Trata-se de uma ferramenta adicional para situações em que o perfil lipídico tradicional não conta toda a história.

O colesterol deve ser tratado mais cedo?

Esta é provavelmente uma das mensagens mais importantes das novas recomendações.

Os especialistas defendem que a exposição prolongada a níveis elevados de lipoproteínas aterogénicas pode aumentar o risco cardiovascular ao longo da vida.

Por isso, a estratégia passa a dar maior importância à prevenção precoce, em vez de esperar até que uma pessoa desenvolva doença cardiovascular.

A guideline recomenda começar por otimizar hábitos de vida, mas admite uma utilização mais precoce de medicamentos quando os valores permanecem inadequados ou quando o risco cardiovascular justifica essa intervenção. 

Isto é particularmente relevante porque o risco cardiovascular não depende apenas do valor do colesterol hoje, mas também da quantidade de exposição ao longo das décadas.

Alimentação continua a ser fundamental

Apesar do maior destaque dado aos medicamentos, as novas recomendações não diminuem a importância do estilo de vida.

Uma alimentação de qualidade, atividade física regular, manutenção de um peso saudável, ausência de tabaco e controlo da pressão arterial continuam a ser componentes fundamentais da prevenção cardiovascular.

No contexto alimentar, uma abordagem semelhante ao padrão mediterrânico — rica em vegetais, fruta, leguminosas, frutos secos, cereais integrais, peixe e gorduras insaturadas — pode ajudar a melhorar o perfil cardiovascular.

Também é importante reduzir o consumo frequente de alimentos ricos em gorduras saturadas, alimentos ultraprocessados e excesso de açúcares adicionados.

Mas existe uma ideia importante: alimentação saudável não significa necessariamente que todos conseguirão normalizar o LDL sem medicação.

A genética tem uma influência considerável no metabolismo das lipoproteínas. Em algumas pessoas, mesmo uma alimentação excelente e exercício regular não são suficientes para atingir o objetivo de LDL adequado ao seu nível de risco.

As estatinas continuam a ser importantes

As estatinas continuam a ocupar uma posição central no tratamento da hipercolesterolemia.

No entanto, as novas recomendações também incluem outras opções terapêuticas, como ezetimiba, ácido bempedoico, inibidores da PCSK9 e inclisiran, que podem ser utilizadas em determinadas situações, nomeadamente quando a redução obtida com uma estatina não é suficiente ou quando existe intolerância. 

A escolha do tratamento deve depender do risco cardiovascular, dos valores de LDL, da presença de doença cardiovascular e de outros fatores individuais.

O cálcio coronário pode ajudar a decidir

Outra ferramenta que ganha importância é o score de cálcio coronário (CAC).

Este exame permite identificar calcificação nas artérias coronárias e pode ajudar a reclassificar o risco de determinadas pessoas quando existe dúvida sobre a necessidade ou intensidade do tratamento.

As novas recomendações consideram a utilização do CAC em homens a partir dos 40 anos e mulheres a partir dos 45 anos, em contextos selecionados. 

É importante compreender que o CAC não é um exame para decidir sozinho se alguém deve ou não tomar uma estatina. Deve ser interpretado juntamente com os restantes fatores de risco.

E quem já tem doença cardiovascular?

Para quem já teve um enfarte, AVC ou outra manifestação de doença cardiovascular aterosclerótica, os objetivos são mais exigentes.

Nas pessoas consideradas de risco muito elevado, a guideline recomenda LDL-C inferior a 55 mg/dL e colesterol não-HDL inferior a 85 mg/dL. 

Nestes casos, reduzir agressivamente o LDL pode ser uma das estratégias mais importantes para diminuir o risco de novos acontecimentos cardiovasculares.

O que estas recomendações significam na prática?

A principal mudança não é simplesmente “baixar o colesterol”.

É passar de uma abordagem baseada num único número para uma avaliação mais completa do risco cardiovascular.

Duas pessoas podem ter exatamente o mesmo LDL e necessitar de estratégias diferentes. Uma pode ter baixo risco global e outra pode apresentar diabetes, doença renal, histórico familiar importante, Lp(a) elevada ou evidência de aterosclerose.

Por isso, um LDL de 100 mg/dL não tem necessariamente o mesmo significado para todas as pessoas.

O objetivo deve ser determinar qual é o nível de risco individual e, a partir daí, estabelecer um alvo adequado.

Em resumo

As novas recomendações de 2026 reforçam cinco ideias fundamentais:

1. O LDL continua a ser um dos principais fatores modificáveis de risco cardiovascular.

2. Quanto maior o risco, mais baixo deve ser o objetivo de LDL.

3. A avaliação deve considerar outros marcadores, especialmente Lp(a) e, em situações selecionadas, ApoB.

4. O risco cardiovascular deve ser calculado de forma mais individualizada, utilizando as novas equações PREVENT-ASCVD.

5. Alimentação, exercício e outros hábitos continuam a ser a base da prevenção, mas algumas pessoas podem beneficiar de medicação mais cedo.

A mensagem mais importante talvez seja esta: não devemos esperar por um enfarte ou AVC para começar a preocupar-nos com o colesterol.

A prevenção cardiovascular começa muito antes.

Se tem colesterol elevado, histórico familiar de doença cardiovascular, diabetes, hipertensão ou outros fatores de risco, vale a pena discutir com o seu médico não apenas o valor do colesterol total, mas também o LDL, colesterol não-HDL, triglicéridos, pressão arterial e risco cardiovascular global. Em determinadas situações, pode fazer sentido avaliar também Lp(a), ApoB ou cálcio coronário.

Nota: este artigo tem caráter exclusivamente informativo e não substitui avaliação médica, diagnóstico ou prescrição individualizada. A decisão de iniciar, alterar ou suspender medicamentos para o colesterol deve ser tomada com um profissional de saúde.

Referências

  1. American Heart Association — 2026 Guideline on the Management of Dyslipidemia
    https://professional.heart.org/en/science-news/2026-guideline-on-the-management-of-dyslipidemia 
  2. American Heart Association — Top Things to Know: 2026 Guideline on the Management of Dyslipidemia
    https://professional.heart.org/en/science-news/2026-guideline-on-the-management-of-dyslipidemia/top-things-to-know 
  3. American Heart Association — ACC/AHA Issue Updated Guideline for Managing Lipids, Cholesterol
    https://newsroom.heart.org/news/accaha-issue-updated-guideline-for-managing-lipids-cholesterol 
  4. American Heart Association — PREVENT-ASCVD Risk Calculator
    https://professional.heart.org/en/guidelines-and-statements/prevent-calculator 
  5. American Heart Association — What Your Cholesterol Levels Mean
    https://www.heart.org/en/health-topics/cholesterol/about-cholesterol/what-your-cholesterol-levels-mean 
  6. American Heart Association — Prevention and Treatment of High Cholesterol
    https://www.heart.org/en/health-topics/cholesterol/prevention-and-treatment-of-high-cholesterol-hyperlipidemia