Durante muito tempo, aprendemos que o lactato era quase um “lixo metabólico”: uma substância produzida pelos músculos durante o exercício intenso e associada à fadiga.
Hoje sabemos que esta visão está errada.
O lactato é uma molécula energética e de sinalização extremamente importante. E uma das descobertas mais interessantes da fisiologia do exercício é que o lactato produzido pelos músculos pode chegar ao cérebro, onde pode ser utilizado como combustível e participar em processos relacionados com a adaptação cerebral.
O músculo pode ajudar a alimentar o cérebro
Quando fazemos exercício, especialmente quando a intensidade aumenta, os músculos aumentam a produção de lactato.
Este lactato passa para o sangue e pode ser transportado para outros órgãos.
O cérebro é um deles.
Durante exercício intenso, quando a concentração de lactato no sangue aumenta, o cérebro aumenta a sua captação de lactato. Estudos em humanos demonstraram que este lactato pode ser oxidado e utilizado para produzir energia, complementando a utilização de glicose. (PubMed)
Isto significa que a relação entre músculo e cérebro é ainda mais interessante do que imaginávamos.
O músculo não está apenas a trabalhar para movimentar o corpo. Está também a libertar moléculas que podem alterar o metabolismo cerebral.
O lactato atravessa a barreira hematoencefálica
Para chegar ao cérebro, o lactato precisa de atravessar a barreira hematoencefálica.
Existem transportadores especializados, chamados MCTs — monocarboxylate transporters, que permitem o transporte do lactato para dentro e para fora das células.
Depois de entrar no tecido cerebral, o lactato pode ser convertido em piruvato e utilizado nas mitocôndrias para produzir ATP.
O ATP é a principal “moeda energética” das células.
E os neurónios têm uma enorme necessidade de energia.
Mas o lactato não serve apenas para produzir energia
Esta é talvez a parte mais fascinante.
O lactato parece funcionar também como uma molécula de sinalização.
Ou seja, não se limita a fornecer combustível: pode enviar sinais às células cerebrais que influenciam processos relacionados com plasticidade neuronal, adaptação ao exercício e memória.
Revisões recentes descrevem precisamente esta dupla função do lactato no cérebro: combustível energético + sinal metabólico. (PubMed)
É por isso que alguns investigadores passaram a considerar o lactato uma espécie de mensageiro entre o músculo e o cérebro.
O exercício pode transformar o ambiente químico do cérebro
Quando treinamos, não estamos simplesmente a aumentar a força muscular ou a capacidade cardiovascular.
O exercício provoca alterações sistémicas.
Aumenta o fluxo sanguíneo, modifica hormonas, altera a disponibilidade de substratos energéticos e provoca a libertação de várias moléculas pelos músculos.
O lactato é uma delas.
Podemos imaginar o processo desta forma:
Exercício → músculo ativo → aumento do lactato → circulação sanguínea → cérebro → utilização energética + sinalização celular
Esta comunicação entre órgãos é uma das áreas mais interessantes da investigação atual sobre exercício e envelhecimento cerebral.
E existe ainda outra fonte de lactato
O lactato cerebral não depende exclusivamente do músculo.
As próprias células do cérebro, particularmente os astrócitos, podem produzir lactato a partir da glicose e do glicogénio armazenado no cérebro.
Existe um mecanismo conhecido como astrocyte-neuron lactate shuttle, através do qual os astrócitos podem fornecer lactato aos neurónios para responder às suas necessidades energéticas.
Estudos experimentais indicam que este sistema pode ser importante durante exercício prolongado e para determinadas funções relacionadas com a memória. (PubMed)
Portanto, existe uma verdadeira rede de distribuição energética dentro do cérebro.
Uma descoberta de 2026 torna tudo ainda mais interessante
Investigação publicada em 2026 reforçou a ideia de que o lactato não deve ser encarado apenas como um produto final do metabolismo muscular.
Outro trabalho de 2026 investigou mecanismos através dos quais o lactato pode modificar a atividade neuronal e verificou que o lactato pode influenciar os recetores NMDA, importantes para a comunicação entre neurónios, aprendizagem e plasticidade sináptica.
Os resultados sugerem uma ligação molecular entre o metabolismo do lactato e mecanismos envolvidos na plasticidade cerebral. (PubMed)
É importante, contudo, fazer uma distinção: este tipo de estudo ajuda a explicar mecanismos biológicos, mas não significa que esteja demonstrado que aumentar deliberadamente o lactato melhora a memória ou previne doenças neurológicas em humanos.
Então quanto mais lactato, melhor?
Não.
Esta é uma conclusão que seria demasiado simplista.
O lactato é necessário e pode ser benéfico, mas mais não significa necessariamente melhor.
A resposta do cérebro ao lactato depende da concentração, duração do exercício, intensidade e contexto metabólico.
Investigação recente mostra precisamente que o lactato pode ter efeitos diferentes dependendo da concentração e das condições fisiológicas. (PubMed)
Por isso, não devemos procurar exercícios extremos apenas para produzir grandes quantidades de lactato.
O objetivo deve continuar a ser uma dose adequada de exercício, combinando treino de força, atividade cardiovascular e movimento regular.
O velho “ácido láctico” merece ser esquecido
Também é importante corrigir uma expressão muito utilizada.
Durante o exercício, falamos normalmente de lactato, e não de “ácido láctico” acumulado nos músculos.
O lactato não é simplesmente aquilo que fica armazenado nos músculos e provoca a dor do dia seguinte.
É uma molécula que está constantemente a ser produzida, transportada, utilizada e reciclada.
Pode servir de combustível para o próprio músculo, para o coração e para o cérebro.
E pode funcionar como sinalizador metabólico.
O exercício é uma conversa entre o músculo e o cérebro
Talvez esta seja a melhor forma de compreender esta descoberta.
Quando treinamos, o cérebro envia sinais para os músculos.
Mas a comunicação também acontece no sentido contrário.
Os músculos enviam moléculas para o cérebro.
O lactato é uma dessas moléculas.
Assim, parte dos benefícios cerebrais associados ao exercício pode resultar não apenas do aumento do fluxo sanguíneo cerebral ou da estimulação neuronal, mas também das inúmeras mensagens químicas que o músculo envia ao cérebro.
E esta é uma das razões pelas quais o exercício é tão fascinante:
treinar o corpo também modifica o ambiente metabólico do cérebro.
O lactato, que durante décadas foi visto como um simples “resíduo”, pode ser simultaneamente combustível, mensageiro e participante da adaptação cerebral.
A ciência ainda está a descobrir até onde chega esta comunicação entre músculo e cérebro — mas já sabemos que é muito mais sofisticada do que anteriormente imaginávamos.
Referências
Lactate fuels the human brain during exercise — PubMed
The Dual Role of Lactate in the Exercising Brain — PubMed
Lactate-induced metabolic signaling and brain function — PubMed
Lactate potentiates NMDA receptor currents — The Journal of Physiology / PubMed
Lactate as a mediator of exercise-induced neuroplasticity — PubMed