O músculo não serve apenas para produzir movimento. Quando treinamos força, os músculos libertam moléculas capazes de comunicar com outros órgãos — incluindo o cérebro.
É uma das áreas mais fascinantes da investigação atual sobre exercício: a chamada comunicação músculo–cérebro.
E uma molécula tem despertado particular interesse: a irisina.
O músculo consegue “falar” com o cérebro?
Durante a contração muscular, o músculo produz e liberta várias substâncias que podem atuar à distância.
Estas moléculas são frequentemente chamadas mioquinas.
A irisina é uma delas.
A investigação experimental sugere que a irisina pode participar na comunicação entre o músculo e o sistema nervoso, estando relacionada com processos como metabolismo, plasticidade neuronal e resposta do cérebro ao exercício.
Isto ajuda-nos a perceber uma ideia que considero fundamental:
quando treinamos os músculos, não estamos a trabalhar apenas os músculos.
Estamos a provocar uma resposta em todo o organismo.
Uma sessão de força pode provocar uma resposta imediata
Uma investigação recente analisou precisamente esta questão: o que acontece à irisina depois de uma sessão de treino de resistência?
Os resultados são particularmente interessantes.
Após uma sessão aguda de treino de força, verificou-se uma elevação mais evidente da irisina.
Ou seja, o organismo parece responder ao estímulo muscular quase imediatamente.
Mas apareceu outro resultado curioso.
Depois de 12 semanas de treino regular, a resposta aguda de irisina ao exercício foi menor.
À primeira vista, isto pode parecer negativo.
Mas não necessariamente.
O corpo adapta-se ao exercício
Quando começamos a treinar, o organismo responde de forma mais exuberante a determinados estímulos.
Com a repetição, torna-se mais eficiente.
É um princípio fundamental da fisiologia do exercício: o organismo adapta-se ao estímulo que recebe regularmente.
Por isso, uma resposta menor de determinada molécula depois de 12 semanas não significa obrigatoriamente que o treino deixou de produzir benefícios.
Pode significar que o organismo se tornou mais adaptado ao estímulo.
Além disso, a irisina é apenas uma das muitas moléculas envolvidas na resposta ao exercício.
O cérebro recebe sinais provenientes dos músculos através de diferentes vias metabólicas, hormonais, vasculares e neurais.
Porque é que isto interessa ao cérebro?
O cérebro não é um órgão isolado.
Depende profundamente do funcionamento do resto do organismo.
A atividade física pode influenciar:
- fluxo sanguíneo cerebral;
- metabolismo energético;
- inflamação;
- fatores neurotróficos;
- plasticidade cerebral;
- sensibilidade à insulina;
- saúde vascular;
- qualidade do sono;
- humor e função cognitiva.
O exercício também está associado ao aumento de fatores como o BDNF (Brain-Derived Neurotrophic Factor), uma proteína importante para a sobrevivência e adaptação dos neurónios.
A investigação sobre irisina acrescenta outra peça a este enorme puzzle.
A irisina pode ser uma ponte entre músculo e cérebro
Uma das hipóteses mais interessantes é que a irisina participe numa espécie de sistema de comunicação entre o músculo e o cérebro.
Em estudos experimentais, a sinalização relacionada com irisina foi associada a processos que podem favorecer a plasticidade neuronal e a memória.
É importante, contudo, não transformar estes resultados numa conclusão exagerada.
Ainda não podemos afirmar que uma subida de irisina depois de um treino significa automaticamente proteção contra Alzheimer, Parkinson ou outras doenças neurológicas.
A investigação humana ainda está a tentar perceber exatamente quanto deste mecanismo é responsável pelos efeitos cognitivos do exercício.
Mas a direção da investigação é extremamente interessante.
Cada sessão pode ser um pequeno estímulo para o cérebro
É aqui que considero que esta investigação ganha particular interesse.
Muitas vezes pensamos nos benefícios do exercício como algo que aparece apenas depois de meses ou anos.
Mas o exercício tem dois tipos de efeitos.
Existem respostas agudas, que acontecem durante ou imediatamente depois de uma sessão.
E existem adaptações crónicas, que surgem depois de semanas, meses ou anos de treino.
Uma sessão de força pode alterar temporariamente várias moléculas, hormonas, neurotransmissores e fatores metabólicos.
A repetição dessas sessões pode, por sua vez, produzir adaptações mais duradouras.
É como se cada treino fosse uma pequena mensagem.
Treino após treino, o organismo vai acumulando respostas e adaptações.
O músculo como órgão endócrino
Esta investigação reforça uma ideia que considero cada vez mais importante:
o músculo é um órgão metabolicamente muito mais interessante do que normalmente pensamos.
Não é apenas uma estrutura que permite levantar pesos, correr ou caminhar.
O músculo produz moléculas sinalizadoras que podem influenciar diferentes tecidos.
Quando fazemos uma contração muscular repetidamente, estamos a criar uma verdadeira comunicação entre o músculo e o resto do organismo.
E esta comunicação pode ter importância particular durante o envelhecimento.
Por isso, envelhecer não deveria significar deixar de treinar força
À medida que envelhecemos, perdemos progressivamente massa e força muscular.
Se reduzirmos drasticamente a atividade física, também reduzimos um dos estímulos biológicos que mantêm esta comunicação entre músculo e organismo.
É por isso que o treino de força pode ser muito mais do que uma estratégia para preservar músculos.
Pode ser uma estratégia para preservar função.
E talvez, indiretamente, também para preservar a saúde cerebral.
Não precisamos de treinar horas
Outra mensagem importante é que não precisamos necessariamente de passar horas no ginásio.
Uma sessão de treino de força bem estruturada pode proporcionar um estímulo significativo.
Podemos trabalhar os principais grupos musculares com relativamente poucos exercícios, ajustando carga, volume, intensidade e frequência à capacidade de cada pessoa.
O mais importante é a consistência.
Uma sessão isolada é um estímulo. Centenas de sessões ao longo de anos podem transformar a fisiologia do organismo.
A minha opinião
Sempre defendi que devemos deixar de olhar para o treino de força apenas como uma ferramenta estética.
O músculo é uma parte essencial da nossa saúde.
Hoje começamos a compreender melhor que existe uma verdadeira conversa entre músculo e cérebro.
Cada contração muscular provoca alterações químicas e metabólicas que ultrapassam o próprio músculo.
A irisina é apenas uma das moléculas que estamos a estudar para compreender esta comunicação.
Ainda temos muito para descobrir, mas a mensagem prática já é suficientemente forte:
quando treinamos força, não estamos apenas a construir músculo. Estamos a enviar sinais para o organismo — e alguns deles podem chegar ao cérebro.
Talvez seja mais uma razão para encarar cada treino como um investimento na saúde cerebral das próximas décadas.
Como posso ajudar?
Posso ajudá-lo a desenvolver um programa de treino de força adaptado à sua idade, condição física e objetivos, procurando melhorar não apenas a massa muscular, mas também força, mobilidade, equilíbrio, autonomia e qualidade de vida.
Referências
PubMed – Irisin and exercise: muscle-brain communication
PubMed – Irisin/FNDC5 and brain function
Nature – Exercise, muscle and brain communication
Nota: Os mecanismos relacionados com irisina e os seus efeitos no cérebro continuam em investigação. Resultados moleculares ou experimentais não significam, por si só, que o treino previna uma determinada doença neurológica.