A alimentação pode melhorar ou piorar o nosso sono?

A alimentação pode melhorar ou piorar o nosso sono? August 20, 2026Leave a comment

Alimentação e sono estão mais ligados do que podemos imaginar. O que colocamos no prato durante o dia — e também a hora a que comemos — pode influenciar a forma como dormimos nessa mesma noite.

Um estudo publicado a 19 de agosto de 2026 na Nature Health analisou esta relação de forma particularmente interessante: em vez de olhar apenas para os hábitos alimentares habituais das pessoas, os investigadores procuraram perceber se as variações na alimentação de um determinado dia estavam relacionadas com alterações no sono dessa mesma noite. (Nature)

Foram analisadas 4.793 noites, combinando registos alimentares em tempo real com dados objetivos de sono obtidos através de dispositivos vestíveis.

E os resultados são bastante interessantes.

Mais fibra, mais sono reparador

Um dos principais resultados foi a associação entre uma maior densidade de fibra na alimentação diária e uma composição do sono aparentemente mais favorável.

Nos dias em que a alimentação apresentava maior quantidade de fibra, os participantes tiveram, em média:

  • +0,59 pontos percentuais de sono profundo;
  • +0,76 pontos percentuais de sono REM;
  • −1,35 pontos percentuais de sono ligeiro;
  • e uma frequência cardíaca média durante a noite 1,14 batimentos por minuto mais baixa. (Nature)

São diferenças relativamente pequenas, mas importantes porque foram observadas através de medidas objetivas da arquitetura do sono.

A mensagem não é simplesmente “coma fibra para dormir melhor”. É mais interessante do que isso.

Uma alimentação rica em fibra tende a significar maior presença de legumes, fruta, leguminosas, cereais integrais, frutos secos e sementes — alimentos que também fornecem vitaminas, minerais e uma grande variedade de compostos bioativos.

A diversidade de plantas também parece contar

O estudo encontrou ainda uma associação entre uma maior diversidade de alimentos de origem vegetal e uma frequência cardíaca nocturna mais baixa.

Ou seja, não parece ser apenas a quantidade de vegetais que importa.

A variedade também pode ser relevante.

Comer regularmente diferentes tipos de legumes, fruta, leguminosas, frutos secos, sementes e cereais integrais aumenta a diversidade de fibras e fitoquímicos consumidos.

Esta ideia é particularmente interessante porque o intestino, o metabolismo, o sistema nervoso e o sono estão profundamente interligados.

E comer mais à noite?

Aqui surge uma conclusão que merece alguma cautela.

O estudo verificou que uma maior proporção da energia diária consumida nas seis horas anteriores ao momento de deitar estava associada a aproximadamente 7,7 minutos adicionais de sono total.

À primeira vista, poderia parecer que comer mais à noite melhora o sono.

Mas existe um detalhe importante: essa maior ingestão energética perto da hora de dormir também esteve associada a uma frequência cardíaca nocturna 0,73 batimentos por minuto mais elevada. (Nature)

Portanto, não devemos transformar este resultado numa recomendação para fazer refeições grandes antes de dormir.

Dormir mais tempo não significa necessariamente ter um sono mais reparador.

O sono é muito mais do que o número de horas passadas na cama.

O horário das refeições pode ser tão importante como os alimentos

Esta é provavelmente uma das mensagens mais interessantes desta investigação.

A alimentação não influencia apenas o organismo através das calorias, proteínas, gorduras, hidratos de carbono, vitaminas ou minerais.

O relógio também conta.

O nosso organismo funciona segundo ritmos circadianos. O sistema digestivo, o metabolismo, a temperatura corporal, as hormonas e o próprio ciclo sono-vigília estão sincronizados com o período de 24 horas.

Por isso, comer de forma muito irregular ou concentrar uma grande quantidade de alimentos no final do dia pode ter efeitos diferentes de consumir os mesmos alimentos distribuídos de outra forma.

Um estudo publicado este ano no Clinical Nutrition, envolvendo 3.463 participantes, encontrou igualmente associações entre maior irregularidade das refeições, maior frequência alimentar e uma janela alimentar mais prolongada com pior qualidade do sono. Um intervalo maior entre a última refeição e a hora de deitar esteve associado a melhor qualidade do sono. (Clinical Nutrition Journal)

É importante, contudo, distinguir associação de causa e efeito.

Então devemos jantar cedo?

Não existe uma hora universal que funcione para todas as pessoas.

Mas, para alguém que tem dificuldade em dormir, pode fazer sentido experimentar algumas alterações simples:

1. Aumentar a fibra durante o dia

Legumes, fruta, leguminosas, aveia, cereais integrais, sementes e frutos secos são boas opções.

2. Aumentar a diversidade vegetal

Em vez de comer sempre os mesmos dois ou três vegetais, procurar variar as cores e os tipos de alimentos vegetais ao longo da semana.

3. Evitar refeições muito pesadas imediatamente antes de deitar

Uma refeição grande pode aumentar o trabalho digestivo e, em algumas pessoas, provocar refluxo, desconforto ou sensação de calor.

4. Manter alguma regularidade

O organismo parece beneficiar de horários alimentares relativamente previsíveis.

5. Não olhar apenas para as calorias

A qualidade dos alimentos, a quantidade de fibra, a diversidade vegetal e o horário das refeições podem ter importância para além do simples balanço energético.

E os hidratos de carbono? E a proteína?

É interessante que o estudo de 2026 não encontrou associações robustas entre as variações de macronutrientes e micronutrientes, depois das correções estatísticas utilizadas pelos investigadores. (Nature)

Isto é importante porque mostra que devemos ter cuidado com mensagens demasiado simplistas como:

“Coma este alimento antes de dormir e vai dormir melhor.”

O sono não parece depender de um único nutriente milagroso.

É provavelmente o padrão alimentar global, combinado com o horário das refeições, atividade física, exposição à luz, stress, cafeína, álcool e rotina de sono, que determina grande parte do resultado.

A minha opinião

A ideia que retiro deste estudo é simples:

Não devemos pensar apenas no que comemos. Devemos começar a pensar também em quando comemos.

Uma alimentação baseada em alimentos pouco processados, rica em plantas, fibra e diversidade alimentar parece ser uma estratégia interessante não apenas para a saúde metabólica e cardiovascular, mas também potencialmente para o sono.

E há aqui uma mudança de paradigma interessante.

Durante muito tempo perguntámos:

“Quantas calorias devo comer?”

Depois começámos a perguntar:

“Que alimentos devo comer?”

Agora temos uma terceira pergunta cada vez mais relevante:

“A que horas devo comer?”

Talvez a alimentação saudável do futuro seja definida não apenas pela composição do prato, mas também pela sua qualidade, diversidade, quantidade e sincronização com o nosso relógio biológico.

E isto pode ser particularmente importante para quem treina, porque dormir bem é fundamental para recuperação muscular, desempenho, controlo do apetite, regulação metabólica e adaptação ao exercício.

Uma boa noite de sono pode começar muitas horas antes de nos deitarmos — à mesa.

Referências

Shkolnik M, Sapir G, Shilo S, et al. Impact of daily diet on sleep quality. Nature Health, 19 agosto 2026. DOI: 10.1038/s44360-026-00182-2. (Nature)

Artigo original — Nature Health

Nota: os resultados apresentados são principalmente observacionais e não significam que alterar isoladamente a alimentação irá necessariamente melhorar o sono de todas as pessoas. A alimentação deve ser analisada no contexto global da saúde e do estilo de vida.