A depressão não afeta apenas o humor. Pode alterar a motivação, o sono, a energia, a capacidade de concentração e até a vontade de realizar atividades que anteriormente faziam parte da rotina.
Por isso, o tratamento da depressão tem vindo a ser cada vez mais encarado de forma multidimensional. Psicoterapia, atividade física, sono, alimentação, relações sociais e, quando necessário, medicação podem fazer parte de uma estratégia integrada.
Um novo ensaio clínico publicado a 4 de agosto de 2026 acrescenta uma peça interessante a esta discussão: o que acontece quando exercício físico e terapia cognitivo-comportamental são combinados numa intervenção realizada online? (PubMed)
Um estudo com 80 adultos com depressão
O ensaio SONRIE foi um estudo randomizado que envolveu 80 adultos com depressão ligeira a moderada.
Os participantes foram distribuídos aleatoriamente entre um grupo de intervenção e um grupo de controlo. Durante 12 semanas, o grupo de intervenção participou numa combinação de exercício físico e terapia cognitivo-comportamental realizada através da internet.
Os investigadores quiseram avaliar não apenas os sintomas relacionados com a depressão, mas também dois aspetos particularmente interessantes:
- a aptidão física;
- alterações no sistema endocanabinoide.
Este último sistema é constituído por moléculas e recetores envolvidos em vários processos fisiológicos, incluindo regulação do humor, stress, sono, apetite e resposta ao exercício.
Entre os marcadores analisados estavam a anandamida (AEA) e o 2-araquidonoilglicerol (2-AG). (PubMed)
O exercício melhorou a aptidão cardiorrespiratória
Um dos resultados mais claros apareceu na condição física.
Após 12 semanas, o grupo que realizou a intervenção combinada apresentou uma melhoria significativa na aptidão cardiorrespiratória, avaliada através do teste de caminhada de seis minutos.
A diferença entre os grupos foi de aproximadamente 81,6 metros, uma alteração que ultrapassou o valor considerado clinicamente relevante pelos investigadores. (PubMed)
Este resultado é importante porque mostra que uma intervenção realizada online não precisa de ser exclusivamente psicológica.
É possível utilizar ferramentas digitais para orientar simultaneamente componentes psicológicos e comportamentais, enquanto o exercício produz adaptações físicas mensuráveis.
Mas o sistema endocanabinoide não mudou como esperado
Aqui surge uma das partes mais interessantes do estudo.
Uma das hipóteses era que a combinação de exercício e terapia pudesse provocar alterações específicas nos marcadores do sistema endocanabinoide.
No entanto, não foram encontradas diferenças significativas entre os grupos nos biomarcadores analisados, incluindo a anandamida e o 2-AG. (PubMed)
Isto é particularmente relevante porque demonstra como a investigação científica pode contrariar uma hipótese biologicamente plausível.
O exercício pode estar associado a alterações no sistema endocanabinoide, mas isso não significa que qualquer programa de exercício produza necessariamente alterações mensuráveis nesses marcadores sanguíneos.
E mais importante: não devemos assumir que uma intervenção funciona porque conseguimos explicar biologicamente como deveria funcionar.
É necessário demonstrar o efeito.
Então, exercício e terapia funcionam melhor juntos?
A resposta, neste estudo específico, precisa de algum cuidado.
O ensaio demonstrou claramente uma melhoria da aptidão cardiorrespiratória, mas não encontrou evidência de um efeito específico da intervenção sobre os biomarcadores endocanabinoides. (PubMed)
O próprio estudo apoia a utilização de intervenções que combinam exercício e componentes psicológicos como parte de estratégias abrangentes para a depressão.
Mas este trabalho, isoladamente, não permite afirmar que a combinação seja universalmente superior à terapia cognitivo-comportamental ou ao exercício utilizados separadamente.
Esta distinção é fundamental.
E existe outra linha de investigação muito interessante
Outro ensaio randomizado publicado este ano explorou uma ideia ainda mais específica: fazer exercício imediatamente antes da terapia cognitivo-comportamental.
Nesse estudo, 40 adultos com depressão major foram distribuídos entre uma condição em que realizavam 30 minutos de exercício moderado antes da terapia e outra em que realizavam um período de atividade calma.
Os resultados sugeriram que o exercício antes da sessão poderia favorecer mecanismos relacionados com ativação comportamental e relação terapêutica. Numa análise exploratória, a taxa de remissão também foi superior no grupo que fez exercício antes da terapia: 69% contra 33%. (DOI)
Contudo, este estudo foi pequeno e os próprios investigadores classificam estes resultados como preliminares.
Ou seja, temos uma hipótese muito interessante, mas ainda não uma conclusão definitiva.
Porque pode esta combinação fazer sentido?
A terapia cognitivo-comportamental trabalha, entre outros aspetos, padrões de pensamento e comportamento.
O exercício, por outro lado, pode ajudar a combater um dos problemas frequentes da depressão: a redução da atividade e da participação em comportamentos potencialmente recompensadores.
Existe aqui uma possível complementaridade.
A pessoa pode começar a recuperar capacidade física, rotina e exposição a atividades, enquanto trabalha simultaneamente pensamentos, emoções e comportamentos através da terapia.
O exercício não precisa, portanto, de ser encarado como uma alternativa à psicoterapia.
Pode ser uma peça adicional da mesma estratégia terapêutica.
O que podemos retirar destes estudos?
A principal mensagem não é que o exercício substitui a terapia.
Também não é que fazer exercício seja suficiente para tratar qualquer depressão.
A mensagem mais interessante é outra:
o tratamento da depressão pode beneficiar de uma abordagem que integre diferentes mecanismos ao mesmo tempo.
O exercício trabalha o corpo, a capacidade física e o comportamento.
A terapia cognitivo-comportamental trabalha pensamentos, emoções e padrões comportamentais.
E as intervenções digitais podem tornar estas estratégias mais acessíveis a algumas pessoas.
Ainda precisamos de estudos maiores e mais longos para perceber quais são as melhores combinações, que tipo de exercício funciona melhor, qual a intensidade adequada e para quem estas estratégias são particularmente eficazes.
Mas a direção da investigação é interessante.
Exercício para o corpo. Terapia para a mente. Uma estratégia integrada para a pessoa.
E talvez seja precisamente esta uma das grandes mudanças na forma como pensamos o tratamento da depressão: em vez de procurar uma única solução, combinar intervenções que atuam através de mecanismos diferentes.
Nota: O exercício pode ser um complemento importante no tratamento da depressão, mas não substitui avaliação e acompanhamento por profissionais de saúde mental. Pessoas com depressão devem procurar orientação adequada, especialmente perante sintomas moderados a graves ou agravamento do quadro.
Referências
Ruiz-Muñoz M, Jiménez-Pavón D, Garrido-Palomino I, et al. Effects of an internet-based combined exercise and cognitive-behavioral therapy intervention on endocannabinoid system biomarkers and physical fitness in adults with mild-to-moderate depression: a SONRIE randomized controlled trial. European Archives of Psychiatry and Clinical Neuroscience, 2026. (PubMed)
Meyer JD, Kelly SJE, Gidley JM, et al. Exercise priming to enhance therapeutic bond and behavioral activation in CBT for MDD: a randomized controlled target-engagement trial with remission signal. Journal of Affective Disorders, 2026. (PubMed)
PubMed — exercício antes da terapia cognitivo-comportamental