Quando pensamos nos benefícios do exercício para a saúde mental, normalmente pensamos em semanas ou meses de treino.
Mas será que precisamos de esperar tanto tempo?
Ou uma única sessão de exercício pode provocar alterações psicológicas imediatamente após o treino?
Um ensaio clínico randomizado publicado recentemente explorou precisamente esta questão em pessoas com perturbações psicóticas, comparando os efeitos imediatos de uma sessão de exercício aeróbio com os de uma sessão de treino de resistência.
Os resultados são interessantes porque mostram que o exercício pode não atuar apenas como uma estratégia de longo prazo. Parte da resposta psicológica pode surgir logo depois de terminarmos uma sessão.
Exercício aeróbio ou treino de força?
O estudo comparou duas formas de exercício que fazem parte das recomendações habituais de atividade física:
- exercício aeróbio, como caminhada, corrida ou bicicleta;
- treino de resistência, utilizando exercícios destinados a estimular a força muscular.
Os participantes realizaram uma sessão de exercício e os investigadores avaliaram diferentes indicadores psicológicos antes e depois da sessão.
O objetivo não era simplesmente saber se as pessoas ficariam “mais felizes”.
A investigação procurou perceber alterações no estado emocional, ansiedade, afetos e outros indicadores psicológicos associados ao exercício.
O que acontece depois de uma única sessão?
A principal ideia deste tipo de investigação é particularmente interessante: o exercício não precisa de ser repetido durante meses para produzir alguma resposta psicológica.
Uma sessão pode funcionar como um estímulo agudo.
Depois do exercício, podem ocorrer alterações na ativação fisiológica, na circulação, na temperatura corporal, na atividade cerebral e em vários sistemas relacionados com stress e recompensa.
Algumas destas alterações podem contribuir para uma sensação imediata de bem-estar ou para uma redução de determinados sintomas psicológicos.
Isto ajuda a explicar por que razão muitas pessoas relatam sentir-se mentalmente diferentes depois de uma caminhada rápida, de uma sessão de bicicleta ou de um treino de força.
Aeróbio e força provocam exatamente a mesma resposta?
Não necessariamente.
Uma das questões mais interessantes deste ensaio é precisamente a comparação entre exercício aeróbio e treino de resistência.
Os dois tipos de exercício provocam respostas fisiológicas diferentes.
O exercício aeróbio tende a aumentar de forma mais prolongada a frequência cardíaca e a ventilação, enquanto o treino de força produz estímulos mais intermitentes e elevados sobre o sistema neuromuscular.
Apesar destas diferenças, ambos podem influenciar o estado psicológico.
Isto é importante porque reforça uma ideia que muitas vezes é esquecida:
não existe apenas uma forma de exercício capaz de beneficiar a saúde mental.
Uma sessão pode ser suficiente?
Aqui é importante distinguir duas coisas.
Uma coisa é uma resposta aguda.
Outra é um efeito terapêutico duradouro.
Se uma pessoa se sente melhor imediatamente depois de fazer exercício, isso não significa que uma única sessão seja suficiente para tratar uma perturbação psicológica.
O efeito agudo pode durar apenas algumas horas.
Para produzir adaptações mais consistentes, provavelmente é necessária a repetição regular do estímulo.
É semelhante ao que acontece com o treino físico.
Uma sessão pode aumentar temporariamente a capacidade funcional, mas é a repetição das sessões que produz adaptações duradouras.
Na saúde mental, pode acontecer algo semelhante.
Porque é particularmente importante estudar pessoas com perturbações psicóticas?
As perturbações psicóticas podem estar associadas a alterações importantes do humor, motivação, funcionamento social e qualidade de vida.
Além disso, esta população apresenta frequentemente níveis reduzidos de atividade física e maior risco de problemas de saúde física.
Por isso, encontrar estratégias de exercício que sejam simples, acessíveis e psicologicamente toleráveis pode ter grande importância.
O exercício pode contribuir simultaneamente para a saúde física e para determinados aspetos do funcionamento psicológico.
E existe outra vantagem: ao contrário de algumas intervenções, o exercício pode ser ajustado à condição física, preferências e capacidades de cada pessoa.
O exercício pode ser uma ferramenta para “mudar o estado mental”?
Talvez esta seja uma das ideias mais interessantes que podemos retirar desta área de investigação.
Estamos habituados a pensar no exercício como algo que fazemos para obter resultados futuros:
mais força, menos gordura, melhor condição cardiovascular, mais massa muscular.
Mas o exercício também pode ser encarado como uma ferramenta capaz de modificar o estado do organismo no próprio dia.
Uma caminhada rápida pode alterar o nível de ativação.
Um treino de força pode proporcionar uma sensação de realização.
Uma sessão de bicicleta pode ajudar a reduzir tensão.
E, para algumas pessoas, simplesmente sair de casa e iniciar uma atividade física pode quebrar um período de inatividade ou isolamento.
São efeitos diferentes dos benefícios estruturais que aparecem depois de meses de treino.
E se não tivermos muito tempo?
Esta investigação também ajuda a combater uma ideia comum: a de que só vale a pena fazer exercício quando temos uma hora disponível.
Nem sempre é assim.
Uma sessão mais curta pode representar um estímulo útil.
Obviamente, a duração, intensidade e tipo de exercício devem ser adaptados à pessoa, sobretudo quando existem doenças ou perturbações psicológicas diagnosticadas.
Mas, em determinadas situações, 10, 20 ou 30 minutos de movimento podem ser mais interessantes do que esperar pelo “momento perfeito” para fazer uma sessão completa.
O exercício não precisa de ser perfeito.
Precisa de acontecer.
Aeróbio ou força: qual escolher?
A resposta mais prática pode ser surpreendentemente simples:
o melhor exercício é aquele que a pessoa consegue realizar regularmente e com segurança.
Se alguém prefere caminhar, correr ou andar de bicicleta, o exercício aeróbio pode ser uma excelente opção.
Se prefere máquinas, pesos livres ou exercícios com o peso corporal, o treino de força também pode ser uma estratégia válida.
E não existe necessidade de escolher exclusivamente um.
Uma combinação de treino aeróbio e força permite trabalhar diferentes componentes da condição física e pode tornar o programa mais variado.
A grande mensagem
A investigação sobre exercício e saúde mental está a mudar a forma como pensamos os seus efeitos.
Não precisamos de olhar apenas para aquilo que acontece depois de 12 semanas ou seis meses.
Também podemos perguntar:
“O que acontece ao cérebro e ao estado emocional nos minutos e horas depois de uma sessão?”
Essa resposta aguda pode ser uma pequena peça de um processo muito maior.
Uma sessão provavelmente não resolve uma perturbação psicológica.
Mas pode representar um primeiro estímulo para mudar o estado físico e emocional naquele momento.
E quando esse estímulo é repetido regularmente, pode contribuir para mudanças muito mais duradouras.
Uma sessão pode não mudar uma vida.
Mas pode mudar a forma como nos sentimos nas próximas horas — e isso pode ser suficiente para dar o próximo passo.
Importante: O exercício físico pode ser uma ferramenta complementar na promoção da saúde mental, mas não substitui diagnóstico, psicoterapia, medicação ou acompanhamento médico quando estes são necessários. Pessoas com perturbações psicóticas devem realizar exercício com orientação adequada e tendo em conta o seu estado clínico.
Referências
- Korman N, Chapman J, Romain AJ, et al. (2026). Immediate Psychological Responses to Aerobic and Resistance Exercise in People With Psychotic Disorders: A Randomized Controlled Trial in Psychiatric Rehabilitation. Schizophrenia Bulletin, 52(2).
PubMed: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41863360/
Artigo completo: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC13005117/ - Korman N, Stanton R, Trott M, et al. (2025). The feasibility of resistance training versus aerobic exercise in a rehabilitation setting for people living with psychotic disorders: A randomised controlled trial. Australian & New Zealand Journal of Psychiatry.
Artigo: https://journals.sagepub.com/doi/10.1177/00048674251361681 - Bredin SSD, et al. (2022). Effects of Aerobic, Resistance, and Combined Exercise Training on Health-Related Physical Fitness and Symptoms of Schizophrenia: A Systematic Review and Meta-Analysis.
Artigo completo: https://www.frontiersin.org/journals/cardiovascular-medicine/articles/10.3389/fcvm.2021.753117/full