Vitamina B12 e cancro: será que ter níveis altos é um problema?

Vitamina B12 e cancro: será que ter níveis altos é um problema? August 23, 2026Leave a comment

A vitamina B12 é essencial para o organismo. Mas novos dados estão a tornar mais complexa a relação entre os níveis desta vitamina e o cancro. Ter pouca B12 pode ser prejudicial, mas níveis elevados no sangue também aparecem associados a alguns tipos de cancro. O que significa realmente esta relação?

Durante anos, a vitamina B12 foi encarada quase exclusivamente como uma vitamina que devemos garantir em quantidade suficiente.

É essencial para a formação do ADN, para a produção de glóbulos vermelhos e para o funcionamento adequado do sistema nervoso. A deficiência pode provocar anemia, alterações neurológicas e outros problemas.

Por isso, quando uma análise revela B12 baixa, a solução parece relativamente simples: corrigir a deficiência.

Mas a ciência está a mostrar que a história pode ser bastante mais complexa.

Quando a vitamina B12 aparece associada ao cancro

Uma série de estudos encontrou algo aparentemente contraditório: tanto níveis baixos como níveis elevados de vitamina B12 podem aparecer associados a diferentes situações relacionadas com o cancro.

Níveis elevados foram observados em pessoas com vários tipos de tumores, incluindo cancro do pulmão, mama, esófago e cólon. (ScienceAlert)

Isto levanta uma questão importante:

Será que a B12 elevada aumenta o risco de cancro ou será que o próprio cancro aumenta os níveis de B12 no sangue?

Esta diferença é fundamental.

Uma análise elevada não significa necessariamente que a vitamina esteja a causar doença

A quantidade de B12 medida numa análise sanguínea não corresponde simplesmente à quantidade que uma pessoa ingeriu.

A vitamina B12 é armazenada principalmente no fígado e circula no organismo ligada a determinadas proteínas.

Alguns tumores podem alterar precisamente estes mecanismos.

Podem, por exemplo, modificar a forma como a vitamina é armazenada, transportada ou libertada para o sangue.

Consequentemente, uma concentração elevada de B12 pode ser uma consequência de alterações provocadas pela doença e não a sua causa.

É aquilo que os investigadores chamam, em determinadas situações, de causalidade inversa.

Ou seja:

não é necessariamente a vitamina que provoca o problema; pode ser o problema que está a alterar os níveis da vitamina.

O que aconteceu com o cancro do cólon?

Um estudo recente analisou dados de 37.106 pessoas com cancro colorretal, provenientes de uma base de dados internacional que reuniu informação de 108 sistemas de saúde.

Os investigadores observaram que as pessoas com níveis de B12 superiores a 1.000 pg/mL apresentavam uma sobrevivência mediana de aproximadamente cinco anos, enquanto aquelas com níveis considerados normais apresentavam uma sobrevivência próxima dos 11 anos.

Depois de considerados vários fatores, os níveis elevados de B12 continuavam associados a um prognóstico menos favorável.

Mas atenção: isto não demonstra que a B12 tenha causado a progressão do cancro.

Na realidade, os próprios resultados podem ser compatíveis com a hipótese de que tumores mais agressivos alteram o metabolismo da B12 ou utilizam mais intensamente mecanismos relacionados com esta vitamina. (ScienceAlert)

E se a B12 estiver demasiado baixa?

Aqui a história fica ainda mais interessante.

A B12 participa na síntese e reparação do ADN. Uma deficiência prolongada pode interferir com processos celulares importantes.

Por isso, também existem razões biológicas para suspeitar que uma deficiência de B12 possa não ser desejável.

Contudo, os estudos epidemiológicos não apresentam uma resposta simples.

Uma investigação publicada em 2024, envolvendo milhares de pessoas no Vietname, encontrou uma associação em forma de U: tanto ingestões muito baixas como muito elevadas de B12 estavam associadas a maior risco de cancro quando comparadas com níveis intermédios.

Mas este estudo foi observacional e baseou-se em questionários alimentares. Portanto, não permite concluir que consumir determinada quantidade de B12 provoque ou previna cancro.

Então devemos evitar suplementos de B12?

Não.

Esta seria uma conclusão errada.

Uma pessoa com deficiência de vitamina B12 deve corrigir essa deficiência, particularmente quando existem fatores de risco para défice ou sintomas compatíveis.

O problema está em transformar uma vitamina essencial numa espécie de suplemento “anti-envelhecimento” ou “anti-cancro” sem existir uma indicação concreta.

Atualmente, as principais organizações de investigação em cancro não recomendam utilizar suplementos vitamínicos como estratégia geral de prevenção do cancro. O National Cancer Institute, por exemplo, refere que não existe evidência suficiente de que suplementos de vitaminas ou minerais previnam o cancro. (Instituto Nacional do Câncer)

E isto é muito diferente de dizer que as vitaminas são prejudiciais.

Deficiência e excesso são problemas diferentes.

A alimentação continua a ser a principal fonte

A vitamina B12 encontra-se naturalmente sobretudo em alimentos de origem animal, incluindo peixe, carne, ovos e lacticínios.

Pessoas que seguem dietas vegetarianas ou veganas estritas podem precisar de suplementação, assim como algumas pessoas com problemas de absorção ou determinadas condições clínicas.

Nestes casos, suplementar B12 não deve ser encarado como algo perigoso simplesmente porque alguns estudos encontraram níveis elevados associados ao cancro.

A questão é outra:

qual é o estado nutricional da pessoa e porque motivo os seus níveis estão baixos ou elevados?

Essa é uma pergunta muito mais importante do que simplesmente perguntar se “B12 faz mal”.

Uma vitamina essencial pode ter uma relação complexa com o cancro

A investigação sobre vitaminas e cancro está a afastar-se cada vez mais da ideia de que “mais é melhor”.

Uma revisão científica recente sobre vitaminas e cancro destaca precisamente esta complexidade: algumas vitaminas podem apresentar efeitos potencialmente protetores em determinados contextos, enquanto doses elevadas ou determinadas circunstâncias podem produzir efeitos diferentes. (PubMed)

Também sabemos que alguns suplementos em doses elevadas podem ter efeitos inesperados. O World Cancer Research Fund, por exemplo, alerta para o risco associado a doses elevadas de suplementos de determinados nutrientes, incluindo beta-caroteno em algumas populações. (World Cancer Research Fund)

Por isso, não devemos transformar uma análise laboratorial isolada numa conclusão sobre causa e efeito.

O mais importante: contexto

Se uma pessoa apresenta B12 elevada numa análise, isso não significa automaticamente que esteja a consumir demasiada B12 nem que a vitamina esteja a provocar cancro.

É necessário olhar para:

  • alimentação;
  • suplementação;
  • função hepática;
  • função renal;
  • outras análises;
  • medicamentos;
  • presença ou ausência de doença;
  • evolução dos valores ao longo do tempo.

Da mesma forma, uma B12 baixa não deve ser ignorada.

O objetivo não é procurar níveis “o mais altos possível”, mas manter um estado nutricional adequado às necessidades individuais.

Afinal, a vitamina B12 provoca cancro?

Não existe evidência suficiente para afirmar isso.

O que existe é uma relação complexa e ainda incompletamente compreendida entre os níveis de B12 e algumas doenças oncológicas.

Níveis elevados podem funcionar, em determinados contextos, como um marcador de alterações que já estão a acontecer no organismo, em vez de serem a causa dessas alterações.

E esta distinção é fundamental.

A mensagem mais importante talvez seja esta:

Nem sempre aquilo que encontramos numa análise é a causa do problema.

Às vezes, é precisamente um sinal de que alguma coisa está a acontecer.

No caso da vitamina B12, a investigação ainda está a tentar perceber exatamente onde termina a nutrição e onde começa a biologia da doença.

Por isso, corrigir uma deficiência de B12 continua a ser importante. Mas tomar doses elevadas sem necessidade também não é uma estratégia comprovada para prevenir o cancro.

Referências

National Cancer Institute — Cancer Prevention Overview
https://www.cancer.gov/about-cancer/causes-prevention/patient-prevention-overview-pdq

PubMed — Vitamins and Cancer Risk: A Comprehensive Review of Epidemiologic and Clinical Evidence
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/42137389/

World Cancer Research Fund — Do not use supplements for cancer prevention
https://www.wcrf.org/research-policy/evidence-for-our-recommendations/supplements/

Nota: Este artigo tem caráter informativo e não substitui avaliação médica ou aconselhamento nutricional individualizado.