Viver até aos 100 anos continua a ser algo excecional. Mas há locais do mundo onde a longevidade extrema parece ser muito mais frequente do que seria esperado.
Um desses exemplos é Rugao, na China, uma cidade que há décadas desperta o interesse dos investigadores devido à elevada concentração de pessoas muito idosas.
Segundo dados divulgados em 2026, Rugao tinha 672 residentes com mais de 100 anos, numa população estimada em cerca de 1,3 milhões de habitantes. Isto representa uma concentração de centenários várias vezes superior à média mundial.
O segredo não parece estar numa única coisa
A longevidade de Rugao não pode ser atribuída simplesmente a um alimento, suplemento ou característica genética.
Os investigadores têm estudado vários fatores, incluindo alimentação, atividade física, bem-estar psicológico, relações sociais, condições ambientais e acesso aos cuidados de saúde.
Um estudo realizado especificamente em Rugao encontrou uma associação entre maior satisfação com a vida, emoções positivas e menor presença de emoções negativas e uma maior probabilidade de longevidade excecional. (PubMed Central (PMC))
Isto não significa que estar feliz faça uma pessoa viver automaticamente até aos 100 anos. Significa que o bem-estar psicológico pode fazer parte de um conjunto de fatores associados a um envelhecimento mais saudável.
Vegetais e leguminosas aparecem novamente em destaque
Outro aspeto interessante está relacionado com a alimentação.
Dados provenientes da investigação sobre os idosos de Rugao indicam que 94,2% dos centenários consumiam vegetais diariamente. O consumo de produtos à base de feijão também era frequente.
Este resultado é particularmente interessante porque coincide com aquilo que aparece repetidamente na investigação sobre alimentação e envelhecimento saudável: uma dieta baseada em alimentos pouco processados, rica em vegetais e com presença regular de leguminosas pode contribuir para uma melhor saúde metabólica e cardiovascular.
Mas é importante não transformar uma associação numa receita de longevidade.
Comer vegetais diariamente não garante chegar aos 100 anos. A genética, o ambiente, as condições socioeconómicas, os cuidados médicos e muitos outros fatores também desempenham um papel.
Movimento ao longo da vida
Os relatos dos habitantes mais idosos de Rugao também apresentam um padrão curioso: muitos continuam a caminhar, realizar pequenas tarefas domésticas, fazer compras e manter-se ativos.
Esta ideia é coerente com evidência científica mais recente. Um estudo publicado em 2026, envolvendo 4.536 centenários chineses, encontrou uma associação entre estilos de vida mais saudáveis e maior sobrevivência depois dos 100 anos. Cada ponto adicional numa escala de comportamentos saudáveis esteve associado a uma sobrevivência 6,9% mais longa. (ScienceDirect)
Não significa que uma pessoa possa simplesmente somar alguns hábitos e calcular quantos anos irá viver. O estudo mostra uma associação populacional, não uma garantia individual.
As relações sociais também podem importar
A longevidade não parece ser apenas uma questão de alimentação e exercício.
Investigação realizada com população chinesa encontrou uma relação entre isolamento social e menor probabilidade de chegar aos 100 anos. (SpringerLink)
Manter contacto com outras pessoas, participar na comunidade, ter atividades significativas e preservar alguma autonomia pode ser importante não apenas para a saúde mental, mas também para manter atividade física e cognitiva.
Outro estudo nacional, envolvendo mais de 18 mil centenários chineses, mostrou que apenas uma pequena proporção cumpria todos os critérios utilizados pelos investigadores para definir um envelhecimento bem-sucedido. Os resultados reforçam uma ideia importante: não existe um único perfil de centenário saudável. (American Geriatrics Society)
Não existe uma “fonte da juventude”
Rugao é fascinante precisamente porque não parece existir uma explicação simples.
Os seus centenários não seguem necessariamente uma dieta milagrosa, não utilizam um suplemento secreto e não parecem ter descoberto uma técnica capaz de impedir o envelhecimento.
O que aparece é muito mais simples: atividade física regular, alimentação de boa qualidade, contacto social, bem-estar psicológico e cuidados de saúde, combinados ao longo de décadas.
A genética também conta. Algumas pessoas possuem características biológicas que podem favorecer uma maior longevidade. No entanto, os estudos realizados em diferentes populações sugerem que o estilo de vida e o ambiente continuam a ter um papel relevante.
O que podemos retirar desta investigação?
Talvez a principal mensagem de Rugao não seja “como viver até aos 100 anos”, mas sim como aumentar as probabilidades de chegar a idades avançadas com mais saúde e autonomia.
Não podemos controlar todos os fatores que determinam a longevidade. Mas podemos controlar muitos dos comportamentos associados a um envelhecimento saudável.
Mexer o corpo diariamente, manter força muscular, comer regularmente vegetais e leguminosas, evitar o excesso de alimentos ultraprocessados, dormir adequadamente, manter relações sociais e cuidar da saúde ao longo dos anos são estratégias muito menos espetaculares do que uma “fonte da juventude”.
Mas talvez sejam precisamente essas pequenas escolhas repetidas durante décadas que fazem a maior diferença.
Posso ajudar
Se quer envelhecer com mais saúde, força e autonomia, posso ajudar a criar um programa de exercício adaptado à sua idade, condição física e objetivos, incluindo treino de força, mobilidade e estratégias para manter a capacidade funcional ao longo dos anos.
Referências e leitura científica
- Journal of the American Geriatrics Society — “Are centenarians successful agers? Evidence from China” Consultar estudo científico
- BMC Geriatrics — “Social isolation and likelihood of becoming centenarians” Consultar estudo sobre isolamento social e longevidade
- American Aging Association — “Association between subjective well-being and exceptional longevity in a longevity town in China” Consultar estudo sobre bem-estar e longevidade em Rugao
- Maturitas — “Healthy lifestyles and survival beyond age 100” Consultar estudo de 2026 sobre estilos de vida e sobrevivência após os 100 anos
- Scientific Reports — “Spatio-temporal distribution of human lifespan in China” Consultar investigação sobre longevidade na China