A gordura abdominal pode estar ligada às complicações da diabetes?

A gordura abdominal pode estar ligada às complicações da diabetes? September 4, 2026Leave a comment

Um estudo publicado em agosto de 2026 encontrou diferenças na composição corporal, alimentação e controlo metabólico entre pessoas com diabetes tipo 2 com e sem complicações. A maior quantidade de gordura corporal e visceral e uma alimentação com maior consumo de hidratos de carbono, colesterol alimentar e gordura saturada foram observadas no grupo com complicações.

A diabetes tipo 2 não afeta apenas os níveis de açúcar no sangue. Quando permanece mal controlada durante períodos prolongados, pode contribuir para alterações nos vasos sanguíneos e nos nervos e aumentar o risco de complicações que afetam diferentes órgãos.

Mas será que a quantidade e distribuição da gordura corporal também podem estar relacionadas com essas complicações?

Um novo estudo publicado em 27 de agosto de 2026, na revista Acta Diabetologica, analisou precisamente esta questão.

Os investigadores compararam pessoas com diabetes tipo 2 que apresentavam complicações da doença com outras pessoas com diabetes tipo 2 sem complicações. Foram avaliados parâmetros relacionados com a composição corporal, alimentação e controlo metabólico.

O que é a gordura visceral?

Nem toda a gordura corporal tem o mesmo significado metabólico.

A gordura subcutânea encontra-se principalmente por baixo da pele. Já a gordura visceral está localizada no interior do abdómen, envolvendo órgãos internos.

A gordura visceral é metabolicamente ativa e está associada a alterações que podem favorecer a resistência à insulina, inflamação e outras perturbações metabólicas.

Por isso, duas pessoas com o mesmo peso ou índice de massa corporal (IMC) podem apresentar riscos metabólicos diferentes.

Uma pessoa pode ter uma maior proporção de gordura abdominal e visceral, enquanto outra pode apresentar mais massa muscular e uma distribuição de gordura diferente.

É uma das razões pelas quais avaliar apenas o peso corporal pode não contar toda a história.

O que analisou o novo estudo?

O estudo incluiu 87 pessoas com diabetes tipo 2.

Destas, 42 apresentavam complicações relacionadas com a diabetes, enquanto 45 não apresentavam complicações.

Os investigadores recolheram informações sobre a alimentação através de um questionário alimentar de 24 horas e analisaram resultados de análises clínicas relacionadas com o controlo metabólico.

Também avaliaram peso, altura, IMC, perímetros da cintura e da anca e vários componentes da composição corporal.

A composição corporal foi avaliada através de um aparelho portátil de bioimpedância elétrica, permitindo estimar parâmetros como percentagem de gordura corporal, gordura visceral, água corporal, massa muscular e metabolismo basal.

Mais gordura corporal no grupo com complicações

Uma das diferenças observadas foi precisamente na composição corporal.

As pessoas com complicações da diabetes apresentavam valores superiores de:

  • índice de massa corporal;
  • percentagem de gordura corporal;
  • gordura visceral;
  • perímetro da cintura;
  • perímetro da anca.

Embora estas diferenças não tenham atingido significância estatística para todos os parâmetros, a tendência observada é relevante e está de acordo com a importância que a distribuição da gordura corporal tem no metabolismo.

A gordura visceral merece particular atenção.

A acumulação de gordura na região abdominal pode estar associada a maior resistência à insulina e a um ambiente metabólico menos favorável.

Isto significa que, numa pessoa com diabetes tipo 2, não devemos olhar apenas para o número apresentado pela balança.

A composição corporal e o perímetro da cintura também podem fornecer informação útil.

E a alimentação?

O estudo encontrou igualmente diferenças nos hábitos alimentares.

As pessoas com complicações apresentavam um consumo mais elevado de:

  • hidratos de carbono;
  • colesterol alimentar;
  • gordura saturada.

Contudo, é importante interpretar estes resultados corretamente.

As diferenças alimentares observadas não foram estatisticamente significativas em todos os casos. Além disso, o estudo avaliou a alimentação através de um registo de 24 horas, que representa apenas uma fotografia do consumo alimentar e pode estar sujeito a erros de memória ou de relato.

Por isso, não podemos concluir que determinado alimento ou nutriente tenha causado as complicações da diabetes.

O que o estudo mostra é uma associação entre determinadas características alimentares e a presença de complicações.

HbA1c mais elevada nas pessoas com complicações

Uma das diferenças mais importantes surgiu no controlo da glicemia.

As pessoas com complicações apresentavam valores mais elevados de hemoglobina glicada (HbA1c).

A HbA1c permite estimar o nível médio de glicose no sangue ao longo dos últimos meses e é um dos principais indicadores utilizados no acompanhamento da diabetes.

No estudo, a HbA1c foi significativamente mais elevada no grupo que apresentava complicações.

Este resultado é particularmente relevante porque reforça a importância do controlo metabólico na gestão da diabetes tipo 2.

Albumina mais baixa

Outro resultado encontrado pelos investigadores foi uma concentração mais baixa de albumina no grupo com complicações.

A albumina é uma proteína produzida principalmente pelo fígado e pode ser utilizada como um dos indicadores do estado nutricional e de determinadas condições clínicas.

No entanto, a albumina pode ser influenciada por vários fatores e não deve ser interpretada isoladamente como uma medida da qualidade da alimentação.

O estudo encontrou uma associação entre menor albumina e presença de complicações, mas são necessárias avaliações clínicas mais completas para compreender a razão dessa diferença.

A gordura abdominal causa as complicações?

Esta é provavelmente a questão mais importante.

Não podemos afirmar isso com base neste estudo.

O trabalho é essencialmente comparativo e avaliou diferenças entre pessoas com diabetes tipo 2 com e sem complicações.

Por isso, permite identificar associações, mas não demonstrar uma relação direta de causa e efeito.

É possível que maior adiposidade visceral contribua para um ambiente metabólico desfavorável. Mas também é possível que outros fatores expliquem parte das diferenças observadas.

Por exemplo, duração da diabetes, idade, medicamentos, nível de atividade física, genética, estado nutricional e outras doenças podem influenciar simultaneamente a composição corporal e o risco de complicações.

Esta distinção é fundamental para interpretar corretamente os resultados.

Porque devemos preocupar-nos com a cintura?

Apesar das limitações, o estudo reforça uma ideia importante: o peso corporal não é o único indicador relevante para a saúde metabólica.

A gordura abdominal pode ser particularmente importante porque representa uma parte da gordura corporal associada a alterações metabólicas.

Por isso, acompanhar o perímetro da cintura pode complementar o peso e o IMC.

Uma pessoa pode não apresentar uma grande alteração de peso e, ainda assim, acumular gordura na região abdominal.

Da mesma forma, alguém que inicia exercício pode apresentar pouca alteração na balança enquanto reduz gordura corporal e aumenta ou preserva massa muscular.

É por isso que uma avaliação da composição corporal pode ser mais informativa do que observar apenas o peso.

O exercício pode ajudar?

A atividade física é uma das estratégias fundamentais na gestão da diabetes tipo 2.

O exercício regular pode contribuir para melhorar a sensibilidade à insulina, aumentar o gasto energético, preservar ou aumentar massa muscular e ajudar a controlar o peso e a gordura corporal.

O treino de força é particularmente interessante porque ajuda a preservar a massa muscular.

Já o exercício aeróbio, como caminhada rápida, corrida, bicicleta ou natação, aumenta o gasto energético e melhora a capacidade cardiovascular.

A combinação dos dois pode ser uma estratégia particularmente útil.

Naturalmente, o tipo e intensidade do exercício devem ser adaptados à condição física, idade e eventuais complicações da pessoa com diabetes.

E a alimentação?

Uma alimentação adequada é igualmente importante.

Em vez de procurar uma dieta “milagrosa”, a prioridade deve ser melhorar globalmente a qualidade da alimentação.

Entre as estratégias que podem ser consideradas estão:

Aumentar o consumo de vegetais: fornecem fibra e uma grande variedade de micronutrientes e compostos bioativos.

Privilegiar alimentos pouco processados: legumes, fruta, leguminosas, frutos secos, peixe, ovos e outras fontes alimentares adequadas às necessidades individuais.

Controlar o consumo de açúcares adicionados: especialmente bebidas açucaradas e produtos com elevada densidade energética.

Reduzir o excesso de gordura saturada: substituindo-a, quando apropriado, por fontes de gordura insaturada.

Garantir proteína adequada: particularmente importante para preservar a massa muscular, sobretudo com o envelhecimento.

No caso de pessoas com doença renal ou outras condições clínicas, a alimentação deve ser individualizada.

Não é apenas uma questão de perder peso

É importante não transformar estes resultados numa mensagem simplista de “perder peso para evitar complicações”.

A composição corporal é mais complexa.

Uma redução de peso que implique uma perda significativa de massa muscular pode não ser desejável.

O objetivo deve ser, quando indicado, reduzir o excesso de gordura preservando ou melhorando a massa muscular.

É aqui que o exercício de força assume um papel importante.

Uma pessoa pode melhorar a sua composição corporal sem grandes alterações no peso.

Por isso, medidas como perímetro da cintura, percentagem de gordura corporal, massa muscular, força e capacidade funcional podem complementar o peso e o IMC.

O que podemos retirar deste estudo?

O estudo publicado em agosto de 2026 acrescenta mais uma peça à compreensão da diabetes tipo 2.

As pessoas com complicações apresentaram, em média, maior IMC, maior percentagem de gordura corporal, maior gordura visceral e maiores perímetros da cintura e da anca. Também apresentaram maior consumo de hidratos de carbono, colesterol alimentar e gordura saturada, além de valores superiores de HbA1c e inferiores de albumina.

Mas não devemos transformar uma associação numa relação de causa e efeito.

O estudo não demonstra que a gordura abdominal provoque diretamente as complicações da diabetes.

Demonstra, isso sim, que composição corporal, alimentação e controlo metabólico estão relacionados com o estado clínico das pessoas com diabetes tipo 2.

Conclusão

A gordura abdominal pode ser um marcador importante da saúde metabólica.

O novo estudo publicado em 27 de agosto de 2026 na Acta Diabetologica encontrou uma maior tendência para gordura corporal e visceral e perímetros corporais superiores nas pessoas com diabetes tipo 2 que apresentavam complicações. Estas pessoas também apresentavam HbA1c mais elevada e albumina mais baixa.

Os resultados reforçam a importância de olhar para além do peso.

Controlar a glicemia, reduzir o excesso de gordura corporal quando necessário, preservar a massa muscular, praticar exercício regularmente e manter uma alimentação equilibrada são componentes importantes da gestão da diabetes tipo 2.

No entanto, são necessários estudos maiores e longitudinais para determinar de que forma a gordura visceral, a alimentação e outros fatores contribuem para o desenvolvimento e progressão das complicações da diabetes.

Posso ajudar

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Links das fontes

Estudo original — Acta Diabetologica, publicado online em 27 de agosto de 2026:
Effects of diabetes complications on body composition, dietary intake, and metabolic parameters

Resumo do estudo no PubMed:
PubMed — Effects of diabetes complications on body composition, dietary intake, and metabolic parameters

Página de informação científica sobre o estudo:
JoVE Visualize — Effects of diabetes complications on body composition, dietary intake, and metabolic parameters