Como reduzir a exposição aos químicos dos plásticos? Estudo de 2026 mostra resultados em apenas 7 dias

Como reduzir a exposição aos químicos dos plásticos? Estudo de 2026 mostra resultados em apenas 7 dias September 9, 2026Leave a comment

Podemos reduzir rapidamente a exposição aos químicos dos plásticos?

Os plásticos fazem parte da nossa vida diária. Estão presentes nas embalagens dos alimentos, garrafas, recipientes, utensílios de cozinha, produtos de higiene e inúmeros outros objetos.

O problema não está apenas no plástico enquanto material. Alguns produtos químicos utilizados na sua produção podem entrar em contacto com os alimentos e bebidas e, posteriormente, ser absorvidos pelo organismo.

Um novo estudo publicado na revista científica Nature Medicine, em 21 de abril de 2026, investigou se pequenas alterações no estilo de vida poderiam reduzir a exposição humana a estes compostos.

Os resultados são particularmente interessantes: uma intervenção de apenas sete dias, destinada a reduzir o contacto entre alimentos e plástico, conseguiu diminuir significativamente os níveis urinários de alguns ftalatos e bisfenóis. (Nature)

O trabalho faz parte do PERTH Trial — Plastic Exposure Reduction Transforms Health Trial e combina uma coorte observacional com um ensaio clínico randomizado.

O que são os químicos associados aos plásticos?

Quando falamos dos possíveis riscos dos plásticos, muitas vezes pensamos imediatamente nos microplásticos.

No entanto, o estudo da Nature Medicine concentra-se sobretudo nos chamados plastic-associated chemicals (PACs), ou químicos associados aos plásticos.

Entre eles encontram-se os ftalatos e os bisfenóis.

Os ftalatos são utilizados, entre outras funções, para tornar determinados plásticos mais flexíveis. Podem estar presentes em materiais utilizados no processamento, armazenamento e embalagem dos alimentos.

Os bisfenóis, incluindo o conhecido BPA — bisfenol A, são utilizados na produção de determinados materiais e revestimentos. Podem existir, por exemplo, em alguns recipientes e revestimentos internos de latas.

Alguns destes compostos apresentam propriedades de disrupção endócrina, o que significa que podem interferir com sistemas hormonais do organismo. Estudos epidemiológicos também têm associado determinados químicos associados aos plásticos a alterações metabólicas e cardiovasculares. (Nature)

Isto não significa, contudo, que qualquer contacto com plástico provoque doença. A questão científica mais importante é perceber qual é o nível de exposição, durante quanto tempo e quais os efeitos reais dessa exposição no organismo.

Como foi realizado o estudo?

O PERTH Trial teve duas componentes.

Na primeira participaram 211 adultos saudáveis australianos, com uma idade média de aproximadamente 43 anos.

Os investigadores recolheram informação sobre alimentação, produtos de higiene pessoal, exposição a plásticos e vários indicadores biológicos.

Foram também analisadas amostras de urina e de lavagem nasal para identificar diferentes químicos associados aos plásticos. (Nature)

Posteriormente, 60 participantes foram selecionados para um ensaio clínico randomizado de sete dias.

Os participantes foram distribuídos por cinco grupos, com diferentes estratégias destinadas a reduzir a exposição aos plásticos.

As intervenções incluíram:

  • alimentos com contacto mínimo ou inexistente com plástico;
  • utensílios de cozinha com menor exposição a plástico;
  • produtos de higiene pessoal com menor exposição;
  • combinação das diferentes estratégias;
  • grupo de controlo sem intervenção.

Um aspeto importante é que a intervenção alimentar foi concebida para manter aproximadamente constante o consumo energético.

Ou seja, os investigadores procuraram estudar principalmente o efeito da redução da exposição aos plásticos, e não simplesmente o efeito de comer menos calorias ou mudar radicalmente a alimentação. (Nature)

O que descobriram?

Os resultados foram rápidos.

No grupo que recebeu alimentos produzidos, processados, embalados e fornecidos com mínimo contacto com plástico, os níveis urinários de:

Mono-n-butil ftalato (MnBP) diminuíram cerca de 31,5%.

Monobenzil ftalato (MBzP) diminuiu aproximadamente 46,7%.

Os níveis de bisfenóis totais diminuíram cerca de 58,5%.

Quando os participantes receberam alimentos com baixo contacto com plástico juntamente com utensílios de cozinha de menor exposição, os resultados foram ainda mais expressivos.

O MnBP diminuiu 37,5%, o MBzP 53,5% e o BPA 59,7%, comparativamente ao grupo de controlo. (Nature)

No grupo que combinou alimentos, utensílios de cozinha e produtos de higiene pessoal com menor exposição a plástico, a redução do MnBP chegou a 44,1%.

Estes resultados sugerem que determinadas exposições quotidianas podem ser modificadas relativamente depressa.

Os alimentos parecem ter um papel importante

Uma das conclusões mais interessantes do estudo é que a alimentação pode representar uma importante fonte modificável de exposição.

Na coorte de 211 participantes, os investigadores verificaram que alimentos altamente processados, embalados e alguns alimentos enlatados estavam associados a maior exposição a determinados químicos associados aos plásticos. (Nature)

Por exemplo, cada alimento enlatado adicional consumido esteve associado a um aumento de aproximadamente 14,3% do BPA urinário nos modelos utilizados pelos investigadores.

Também foi criado um índice para estimar o número de contactos com plástico associados à alimentação.

O objetivo não era dizer que determinado alimento é “mau”, mas avaliar como é produzido, processado, embalado, armazenado e preparado.

Esta distinção é fundamental.

O problema pode estar na embalagem e não no alimento

Imagine dois alimentos nutricionalmente semelhantes.

Um pode ser comprado fresco, transportado sem embalagem plástica e preparado em casa.

Outro pode ter passado por várias etapas de processamento e ter estado em contacto com diferentes materiais plásticos durante produção, armazenamento e transporte.

Nutricionalmente, podem parecer semelhantes.

Mas a exposição a determinados químicos associados aos plásticos pode ser diferente.

É precisamente este tipo de exposição que o PERTH Trial procurou avaliar.

Por isso, quando falamos em reduzir os efeitos potencialmente negativos dos plásticos, não significa necessariamente eliminar todos os produtos plásticos da nossa vida.

Pode ser mais realista reduzir os contactos desnecessários entre plástico, alimentos, calor e armazenamento prolongado.

E aquecer comida em recipientes de plástico?

Este é um dos comportamentos que merece atenção.

O estudo não demonstra que aquecer comida num recipiente específico provoque doença, mas mostra que os alimentos podem constituir uma via importante de exposição a químicos associados aos plásticos.

Uma estratégia prudente é evitar aquecer alimentos diretamente em recipientes de plástico sempre que existam alternativas simples.

Para aquecer ou armazenar comida, podem ser utilizadas opções como:

  • recipientes de vidro;
  • recipientes de cerâmica adequados;
  • recipientes de aço inoxidável, quando apropriado;
  • loiça convencional para aquecimento.

Esta mudança não precisa de ser radical.

Pode simplesmente começar por substituir os recipientes de plástico utilizados habitualmente para comida quente.

E a água engarrafada?

A água engarrafada também merece uma reflexão.

As garrafas de plástico são apenas uma das possíveis fontes de exposição e este estudo específico não permite concluir que beber água engarrafada provoque doença.

Mas, quando existe acesso a água potável de qualidade, utilizar uma garrafa reutilizável de vidro ou aço inoxidável pode reduzir o contacto diário com determinados materiais plásticos.

Mais uma vez, a ideia não é procurar uma exposição “zero”.

É reduzir exposições evitáveis.

E os produtos de higiene pessoal?

A exposição não acontece apenas através da alimentação.

O estudo também avaliou produtos de higiene e cuidados pessoais, como produtos dentários, cosméticos, produtos para a pele, cabelo e proteção solar.

Os investigadores verificaram que a utilização de determinados produtos de higiene pessoal estava associada à presença de alguns metabolitos de ftalatos na urina. (Nature)

No ensaio clínico, substituir produtos de higiene pessoal por alternativas com menor exposição conseguiu reduzir o mono-n-butil ftalato, embora o efeito tenha sido mais limitado do que quando se reduziu a exposição através da alimentação.

Isto sugere que a exposição aos químicos associados aos plásticos é multifatorial.

Não existe necessariamente uma única fonte responsável.

Reduzir plástico pode melhorar a saúde?

Aqui é necessário ter cuidado.

O estudo demonstrou que uma intervenção de sete dias conseguiu reduzir a presença de determinados químicos associados aos plásticos na urina.

Não demonstrou que os participantes ficaram mais saudáveis, perderam peso, reduziram o colesterol ou diminuíram o risco de doença cardiovascular durante esses sete dias.

Aliás, o peso corporal e os biomarcadores clínicos permaneceram globalmente estáveis durante a intervenção. (Nature)

Portanto, não devemos transformar os resultados numa afirmação como:

“Eliminar o plástico durante uma semana reduz o risco de cancro.”

Essa conclusão não é suportada pelo estudo.

O que podemos dizer é muito mais interessante e cientificamente rigoroso:

reduzir determinados contactos com plástico pode diminuir rapidamente a exposição do organismo a alguns químicos associados aos plásticos.

E o colesterol?

Esta questão é particularmente interessante porque os investigadores também analisaram biomarcadores cardiometabólicos.

Na coorte observacional foram encontradas associações entre determinados metabolitos de ftalatos e biomarcadores relacionados com a saúde cardiovascular e metabólica. (Nature)

No entanto, estas associações não provam causalidade.

Ou seja, não podemos concluir que reduzir plástico vai necessariamente baixar o LDL, aumentar o HDL ou reduzir a inflamação.

São necessárias investigações mais longas para perceber se a redução crónica da exposição a estes compostos produz benefícios clínicos mensuráveis.

O que podemos fazer no dia a dia?

Não é necessário viver sem plástico.

Uma abordagem prática passa por identificar os contactos mais fáceis de modificar.

1. Prefira vidro para armazenar alimentos

Sobretudo para alimentos quentes ou quando vão permanecer armazenados durante vários dias.

2. Evite aquecer comida diretamente em plástico

Quando possível, transfira a refeição para um recipiente de vidro ou cerâmica.

3. Reduza alimentos altamente processados

Além de serem frequentemente embalados, estes alimentos podem apresentar menor qualidade nutricional.

Optar por alimentos frescos ou minimamente processados tem vantagens que vão muito além da exposição aos plásticos.

4. Dê preferência a alimentos frescos

Frutas, legumes, leguminosas, ovos, peixe e outros alimentos pouco processados podem ajudar a reduzir algumas fontes de contacto com embalagens.

5. Reduza o uso desnecessário de recipientes descartáveis

Sobretudo quando existe uma alternativa reutilizável.

6. Evite armazenar alimentos durante muito tempo em plástico

Particularmente quando são alimentos quentes, gordurosos ou ácidos.

7. Não procure a perfeição

O objetivo não é eliminar completamente todos os plásticos.

É reduzir exposições desnecessárias e facilmente evitáveis.

O que torna este estudo importante?

Existem muitos estudos sobre plásticos, ftalatos, bisfenóis e saúde humana.

Contudo, uma grande parte da investigação disponível é observacional.

O PERTH Trial acrescenta algo importante: um ensaio clínico randomizado, ainda que pequeno e de curta duração, demonstrando que modificar determinados comportamentos pode alterar rapidamente os níveis urinários de alguns químicos.

Além disso, os participantes mantiveram aproximadamente a ingestão energética durante a intervenção, permitindo separar melhor a redução da exposição aos plásticos de uma simples redução do consumo alimentar. (Nature)

Limitações do estudo

Apesar dos resultados interessantes, existem limitações.

O ensaio clínico teve apenas 60 participantes e durou sete dias.

Os investigadores mediram principalmente alterações nos níveis urinários de químicos e não doenças clínicas.

Além disso, os resultados referem-se a determinados compostos e não significam que todos os químicos presentes nos plásticos diminuam da mesma forma.

É também necessário estudar se reduções repetidas e prolongadas destes compostos conduzem efetivamente a benefícios para a saúde.

Por isso, este estudo deve ser encarado como uma evidência inicial e relevante, e não como prova definitiva de que eliminar plástico previne doenças.

Conclusão

O estudo PERTH Trial, publicado na Nature Medicine em 21 de abril de 2026, mostra que pequenas alterações no contacto diário com plásticos podem produzir mudanças mensuráveis no organismo em apenas uma semana.

Reduzir o contacto dos alimentos com plástico, utilizar utensílios de cozinha com menor exposição e escolher alguns produtos de higiene pessoal alternativos esteve associado a reduções importantes de determinados ftalatos e bisfenóis na urina. (Nature)

A mensagem mais importante não é “elimine todo o plástico”.

É mais simples:

reduza os contactos desnecessários entre plástico e alimentos, especialmente quando envolve calor, armazenamento prolongado ou alimentos processados e embalados.

E essa pode ser uma mudança relativamente simples, barata e sustentável para reduzir uma parte da exposição diária a determinados químicos associados aos plásticos.

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Nota importante

Este artigo tem caráter informativo e não substitui aconselhamento médico. Os resultados do estudo não demonstram que eliminar plásticos previna doenças nem permitem estabelecer relações causais para todos os químicos associados aos plásticos.

Links e fontes

Estudo original — Nature Medicine: Low-plastic diet and urinary levels of plastic-associated phthalates and bisphenols: the randomized controlled PERTH Trial, publicado em 21 de abril de 2026. (Nature)

Artigo original na Nature Medicine

PERTH Trial: ensaio clínico que avaliou se a redução do contacto com plástico através da alimentação, utensílios de cozinha e produtos de higiene pessoal consegue diminuir a exposição a químicos associados aos plásticos. (Nature)

Página do estudo na Nature Medicine