Beber chá de gengibre à noite faz bem aos rins? A resposta curta é: pode fazer parte de uma alimentação saudável e não existem boas evidências de que uma chávena de chá de gengibre prejudique os rins em pessoas saudáveis. Mais interessante ainda, alguns estudos sugerem que os compostos bioativos do gengibre podem exercer efeitos antioxidantes e anti-inflamatórios potencialmente relevantes para a saúde renal.
No entanto, é importante separar aquilo que a ciência realmente demonstrou daquilo que frequentemente aparece nas redes sociais. O chá de gengibre não é um “detox renal”, não limpa os rins e não substitui hidratação, alimentação adequada ou tratamento médico.
O gengibre, ou Zingiber officinale, contém compostos como os gingeróis e shogaóis, que têm sido estudados pelos seus efeitos sobre inflamação, stress oxidativo, metabolismo e sistema cardiovascular.
O que acontece aos rins quando bebemos chá de gengibre?
Os rins filtram continuamente o sangue, regulam o equilíbrio de água e eletrólitos e participam no controlo da pressão arterial.
Quando falamos de uma bebida como o chá de gengibre, uma das primeiras vantagens é simples: contribui para a ingestão de líquidos.
Se o chá for preparado apenas com gengibre e água, sem açúcar, terá praticamente nenhum aporte energético. Para muitas pessoas, pode ser uma alternativa agradável à noite a bebidas açucaradas.
Mas isto não significa que o gengibre tenha um efeito diurético extraordinário ou que aumente necessariamente a capacidade de filtração renal.
A questão científica mais interessante é outra: os compostos do gengibre poderão ajudar a reduzir processos de inflamação e stress oxidativo envolvidos em algumas doenças metabólicas e renais?
Gengibre e proteção renal: o que dizem os estudos?
Uma revisão sistemática publicada em 2022 analisou especificamente os efeitos potencialmente renoprotetores do gengibre na doença renal diabética.
Os autores encontraram resultados promissores relacionados com glicemia, perfil lipídico, marcadores inflamatórios, stress oxidativo e alterações patológicas renais. Contudo, a maioria das evidências analisadas era proveniente de estudos experimentais em animais, pelo que não podemos simplesmente transformar esses resultados numa recomendação clínica para seres humanos. (PubMed Central (PMC))
Esta distinção é fundamental.
Uma coisa é demonstrar que um determinado composto reduz inflamação ou lesão renal num modelo animal. Outra, bastante diferente, é demonstrar que beber uma chávena de chá de gengibre todas as noites melhora a função renal de uma pessoa.
Até ao momento, essa segunda afirmação não está demonstrada.
Um estudo interessante em pessoas com doença renal
Existe, contudo, investigação clínica em seres humanos.
Um ensaio clínico aleatorizado, duplamente cego e controlado por placebo, publicado em 17 de fevereiro de 2023, estudou 44 pessoas com diabetes e doença renal terminal submetidas a hemodiálise.
Durante oito semanas, o grupo experimental recebeu 2000 mg de gengibre por dia.
Os investigadores observaram reduções da glicemia, resistência à insulina e ureia. A creatinina diminuiu dentro do grupo que recebeu gengibre, mas a diferença entre gengibre e placebo não foi estatisticamente significativa. (PubMed)
Ou seja, o estudo é interessante, mas não permite concluir que o gengibre melhora a filtração renal.
Além disso, 2000 mg de gengibre em suplemento não é equivalente a uma chávena de chá de gengibre.
Esta diferença entre alimento, infusão e suplemento deve ser sempre considerada.
E o estudo mais recente?
O estudo mais recente que encontrei diretamente relevante para esta discussão foi publicado em 2026 e analisou a relação entre suplementação de gengibre e pressão arterial.
Trata-se de uma revisão sistemática e meta-análise baseada em ensaios clínicos aleatorizados, com pesquisa da literatura até 1 de maio de 2026.
Foram incluídos 12 ensaios clínicos. A análise encontrou uma redução média da pressão arterial sistólica de aproximadamente 5 mmHg e da pressão diastólica de aproximadamente 2 mmHg com suplementação de gengibre.
No entanto, os próprios autores classificaram a certeza da evidência como baixa, devido principalmente à inconsistência entre estudos, duração relativamente curta dos ensaios e heterogeneidade das intervenções. (PubMed Central (PMC))
Porque é que isto interessa aos rins?
Porque a pressão arterial elevada é um dos principais fatores que podem contribuir para a deterioração da função renal ao longo do tempo.
Portanto, se o gengibre tiver realmente um pequeno efeito favorável sobre a pressão arterial, poderá existir uma relação indireta potencialmente interessante com a saúde renal.
Mas é muito diferente dizer:
“O gengibre protege os rins.”
de dizer:
“O gengibre pode ter efeitos cardiovasculares e metabólicos que, em determinadas circunstâncias, podem ser favoráveis à saúde renal.”
A segunda afirmação é muito mais próxima da evidência disponível.
Por que razão beber à noite pode ser uma boa opção?
Não existe evidência de que o rim beneficie especificamente mais do gengibre à noite.
O horário, por si só, provavelmente não é o fator determinante.
Ainda assim, tomar uma infusão sem açúcar depois do jantar pode ser uma estratégia interessante porque pode substituir:
- refrigerantes;
- bebidas alcoólicas;
- sobremesas líquidas;
- bebidas muito açucaradas;
- snacks noturnos acompanhados de bebidas calóricas.
Além disso, algumas pessoas gostam do gengibre pela sensação de conforto digestivo. O gengibre tem sido estudado sobretudo pelos seus efeitos gastrointestinais e na motilidade digestiva. (Hopkins Medicine)
Portanto, o benefício do chá à noite pode estar tanto no que contém como naquilo que substitui.
Chá de gengibre e hidratação dos rins
Uma das ideias mais importantes para a saúde renal é também uma das mais simples: manter uma hidratação adequada.
O chá de gengibre pode contribuir para a ingestão diária de líquidos.
Mas não devemos cair no erro de pensar que quanto mais água ou chá bebermos, melhor.
A quantidade de líquidos necessária depende de vários fatores, incluindo tamanho corporal, atividade física, temperatura ambiente, alimentação, transpiração e função renal.
Em pessoas com doença renal, insuficiência cardíaca ou outras situações clínicas específicas, a quantidade adequada de líquidos deve ser individualizada.
Por isso, chá de gengibre não deve ser utilizado como estratégia para “lavar” os rins.
Existem riscos?
Em quantidades alimentares, o gengibre é geralmente bem tolerado.
O NCCIH refere que o gengibre foi utilizado com segurança em muitos estudos, embora possa provocar efeitos secundários como desconforto abdominal, azia, diarreia ou irritação da boca e garganta. (NCCIH)
Isto é particularmente relevante à noite.
Se uma pessoa tem tendência para refluxo ou azia, uma infusão concentrada de gengibre antes de se deitar pode não ser a melhor escolha.
Outro ponto importante são os suplementos concentrados de gengibre.
Uma chávena de chá e vários gramas de extrato de gengibre não devem ser tratados como se fossem a mesma coisa.
O gengibre também pode interagir com alguns medicamentos. Por isso, pessoas que utilizam anticoagulantes, antiagregantes plaquetários, medicamentos para diabetes ou determinados medicamentos cardiovasculares devem discutir o consumo regular de doses elevadas ou suplementos com um profissional de saúde. (NCCIH)
Como preparar um chá simples de gengibre?
Não é necessário preparar uma infusão extremamente concentrada.
Uma opção simples é cortar algumas pequenas fatias de gengibre fresco e colocá-las em água quente durante alguns minutos.
Pode ser consumido sem açúcar.
Para quem pretende utilizá-lo como bebida habitual, esta abordagem é bastante diferente de tomar cápsulas contendo doses elevadas de extrato.
E existe outra vantagem: quanto mais simples for a preparação, mais fácil é controlar o que estamos realmente a consumir.
Chá de gengibre: bom para os rins?
A melhor conclusão científica atualmente seria esta:
O chá de gengibre pode fazer parte de uma alimentação saudável e contribuir para a hidratação, mas ainda não existe evidência suficiente para afirmar que beber chá de gengibre à noite melhora diretamente a função renal.
Existem resultados promissores sobre os efeitos antioxidantes e anti-inflamatórios do gengibre e alguns estudos clínicos sugerem possíveis benefícios metabólicos, cardiovasculares e sobre a pressão arterial.
A investigação mais recente publicada em 2026 reforça a possibilidade de um pequeno efeito favorável sobre a pressão arterial, mas os autores salientam que a qualidade global da evidência ainda é baixa. (PubMed Central (PMC))
Por isso, podemos olhar para o chá de gengibre como uma boa bebida alimentar, e não como um tratamento renal.
Para proteger os rins a longo prazo, continuam a ser muito mais importantes fatores como controlar a pressão arterial, manter uma alimentação equilibrada, praticar atividade física, evitar o tabaco, controlar fatores metabólicos e utilizar corretamente os medicamentos prescritos.
O gengibre pode fazer parte desse estilo de vida. Não precisa de fazer milagres para ser uma boa escolha.
Posso ajudar
Posso ajudar a integrar exercício, alimentação e hábitos de recuperação numa estratégia individualizada, promovendo saúde cardiovascular, função física e envelhecimento ativo através de métodos baseados na evidência.
Referências científicas
NCCIH – Ginger: Usefulness and Safety
https://www.nccih.nih.gov/health/ginger (NCCIH)
Ginger Supplementation and Blood Pressure in Adults: A GRADE-Based Systematic Review and Dose-Response Meta-Analysis of Randomized Controlled Trials – 2026
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/42566667/ (PubMed)
Rostamkhani H et al. – The effect of Zingiber officinale on prooxidant-antioxidant balance and glycemic control in diabetic patients with ESRD undergoing hemodialysis – 2023
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/36800950/ (PubMed)
Rostamkhani H et al. – Texto completo do estudo de 2023
https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC9936709/ (PubMed Central (PMC))
Veisi P et al. – Renoprotective effects of ginger on diabetic kidney disease: systematic review – 2022
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/36369018/ (PubMed)
Veisi P et al. – Texto completo da revisão sistemática
https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC9650808/ (PubMed Central (PMC))