Um novo estudo sugere que a quantidade de gordura acumulada à volta dos órgãos pode ser mais importante para a testosterona masculina do que o peso corporal ou o índice de massa corporal.
Quando se fala em testosterona baixa e excesso de peso, é frequente olhar para o IMC — índice de massa corporal.
Um homem com IMC elevado é muitas vezes considerado como tendo maior probabilidade de apresentar alterações metabólicas e hormonais.
Mas o IMC tem uma limitação importante: não diz onde está a gordura.
Dois homens podem pesar exatamente o mesmo e ter o mesmo IMC, mas apresentar quantidades muito diferentes de gordura visceral.
Um pode ter mais massa muscular e pouca gordura abdominal. Outro pode ter relativamente pouca massa muscular e uma quantidade elevada de gordura acumulada no interior do abdómen.
Um estudo publicado em 13 de julho de 2026 no Journal of the Endocrine Society sugere que esta diferença pode ser particularmente importante quando avaliamos a testosterona masculina. (OUP Academic)
O que é gordura visceral?
A gordura corporal não é toda igual.
Uma parte encontra-se logo abaixo da pele e é conhecida como gordura subcutânea.
Outra parte está localizada profundamente no abdómen, à volta dos órgãos internos.
É a chamada gordura visceral.
Esta gordura tem características metabólicas diferentes da gordura subcutânea e está associada a alterações na sensibilidade à insulina, metabolismo da glicose, inflamação e risco cardiometabólico.
O novo estudo coloca outra questão:
poderá a gordura visceral estar também particularmente relacionada com a redução da testosterona nos homens?
Os resultados sugerem que sim.
Como foi realizado o estudo?
Os investigadores analisaram dados de 4948 homens norte-americanos entre os 20 e os 59 anos, provenientes do National Health and Nutrition Examination Survey (NHANES).
Destes, 4492 tinham medições válidas de gordura visceral através de DXA, uma técnica utilizada para avaliar a composição corporal.
Todos os participantes tinham uma medição de testosterona total realizada de manhã.
Os investigadores compararam três formas diferentes de avaliar a adiposidade:
- índice de massa corporal;
- perímetro da cintura;
- quantidade de gordura visceral.
Esta comparação permitiu perceber se homens com o mesmo IMC ou perímetro abdominal podiam apresentar níveis hormonais diferentes dependendo da quantidade de gordura visceral.
O resultado mais interessante
A gordura visceral apresentou uma associação inversa muito forte com a testosterona.
Ou seja:
quanto maior a quantidade de gordura visceral, menor tendia a ser a concentração de testosterona.
Mas o resultado mais interessante apareceu quando os investigadores compararam homens com IMC semelhante.
Dentro de cada categoria de IMC, os homens com maior quantidade de gordura visceral apresentavam níveis de testosterona substancialmente inferiores aos homens com menor gordura visceral.
A diferença situou-se aproximadamente entre 33% e 36%, dependendo da categoria de IMC.
Isto significa que dois homens classificados de forma semelhante através do IMC podem apresentar perfis hormonais bastante diferentes.
O IMC pode esconder diferenças importantes
Imagine dois homens com IMC de 27.
À partida, ambos seriam classificados como tendo excesso de peso.
Mas um pode ter bastante massa muscular e relativamente pouca gordura visceral.
O outro pode ter menos massa muscular e uma maior acumulação de gordura abdominal profunda.
O IMC colocaria os dois na mesma categoria.
A fisiologia, porém, pode ser bastante diferente.
É precisamente este tipo de situação que os investigadores procuraram identificar.
O estudo mostrou que a gordura visceral permitia distinguir diferenças relevantes na testosterona que não eram completamente captadas pelo IMC. (OUP Academic)
E a cintura abdominal?
O perímetro da cintura é geralmente considerado mais informativo do que o IMC para avaliar gordura abdominal.
Faz sentido: uma cintura maior pode refletir maior quantidade de gordura acumulada no abdómen.
Mesmo assim, a cintura não consegue dizer exatamente quanta gordura visceral existe.
No estudo, quando os homens foram divididos de acordo com o perímetro da cintura, aqueles com maior gordura visceral continuaram a apresentar níveis significativamente mais baixos de testosterona.
Nos homens com cintura inferior a 102 cm, a diferença associada à elevada gordura visceral foi de aproximadamente 31%.
Nos homens com cintura igual ou superior a 102 cm, a diferença foi de aproximadamente 20%.
Portanto, mesmo dentro de categorias semelhantes de perímetro abdominal, a distribuição interna da gordura continuava a estar relacionada com diferenças hormonais. (OUP Academic)
Um homem magro também pode ter muita gordura visceral?
Sim.
E este é talvez um dos pontos mais importantes para quem utiliza apenas o peso corporal para avaliar saúde.
O estudo encontrou homens classificados como normais pelo IMC, mas que apresentavam níveis elevados de gordura visceral.
Estes homens tinham níveis de testosterona comparáveis aos observados em homens classificados como obesos pelo IMC, mas que apresentavam menor quantidade de gordura visceral.
Isto demonstra que:
“peso normal” não significa necessariamente “baixa gordura visceral”.
Uma pessoa pode ter um peso considerado normal e, simultaneamente, apresentar uma composição corporal menos favorável.
Este fenómeno é por vezes descrito como obesidade metabolicamente desfavorável com peso normal ou adiposidade visceral com IMC normal.
E o contrário também pode acontecer
O problema funciona nos dois sentidos.
Um IMC elevado não significa obrigatoriamente uma grande quantidade de gordura visceral.
Um homem que pratique treino de força regularmente pode apresentar um IMC elevado devido à sua massa muscular.
Neste caso, utilizar apenas o IMC pode levar a uma classificação inadequada do estado de adiposidade.
É por isso que, especialmente em pessoas fisicamente ativas, peso e IMC devem ser interpretados no contexto da composição corporal.
O estudo reforça precisamente esta ideia.
Porque é que a gordura visceral pode afetar a testosterona?
Os investigadores não demonstraram uma relação causal, mas existe uma explicação biológica plausível.
A gordura visceral está metabolicamente ativa.
Está associada a alterações na sensibilidade à insulina, inflamação e metabolismo energético.
Também existe uma relação importante entre gordura visceral, fígado e SHBG — globulina de ligação às hormonas sexuais.
A SHBG transporta testosterona e outras hormonas no sangue e influencia a quantidade de testosterona total e livre disponível.
No estudo, os homens com maior gordura visceral também apresentavam concentrações mais baixas de SHBG. (OUP Academic)
Isto pode ajudar a explicar parte da relação observada entre adiposidade visceral e testosterona.
Mas não significa que já esteja demonstrado que a gordura visceral seja a única causa da testosterona baixa.
A relação também pode funcionar no sentido inverso
Existe outra possibilidade importante.
Não podemos simplesmente assumir que:
mais gordura visceral → menos testosterona.
Pode existir uma relação bidirecional.
A testosterona baixa pode contribuir para alterações na composição corporal, redução da massa muscular e aumento da gordura.
Ao mesmo tempo, o aumento da gordura visceral pode estar associado à redução da testosterona.
É possível, portanto, que exista um ciclo entre alterações hormonais, composição corporal e metabolismo.
O desenho deste estudo não permite determinar qual destes processos aparece primeiro.
O exercício pode ajudar a reduzir gordura visceral?
Esta é uma questão especialmente relevante.
A gordura visceral pode ser influenciada pela combinação de alimentação, atividade física, sono, stress, genética, idade e equilíbrio energético.
O exercício regular é uma das estratégias importantes para melhorar a composição corporal e a saúde metabólica.
Treino de força ajuda a preservar ou aumentar massa muscular.
Exercício aeróbio aumenta o gasto energético e melhora a capacidade cardiovascular e metabólica.
E a combinação de ambos pode ser particularmente interessante para pessoas que querem envelhecer mantendo força e composição corporal favorável.
No entanto, seria incorreto afirmar que qualquer programa específico de exercício irá necessariamente aumentar a testosterona.
O objetivo principal deve ser melhorar a saúde e composição corporal, e não perseguir alterações hormonais isoladas.
Perder peso aumenta sempre a testosterona?
Também não necessariamente.
Se um homem perder peso principalmente através da perda de massa muscular, o resultado pode ser muito diferente de uma redução de gordura mantendo a massa muscular.
Por isso, quando o objetivo é melhorar a composição corporal, não devemos olhar apenas para o número apresentado pela balança.
É preferível acompanhar vários indicadores:
- peso;
- perímetro da cintura;
- composição corporal;
- força;
- massa muscular;
- capacidade cardiorrespiratória;
- níveis de atividade física;
- parâmetros metabólicos.
A perda de gordura visceral pode ser mais relevante do ponto de vista metabólico do que simplesmente perder quilogramas.
E a idade?
A testosterona tende a diminuir com a idade, embora a velocidade dessa alteração varie bastante entre indivíduos.
O estudo analisou homens entre os 20 e os 59 anos e procurou reduzir a influência das alterações relacionadas com o envelhecimento extremo.
Por isso, os resultados não devem ser interpretados como uma explicação completa para a testosterona baixa em homens mais velhos.
Existem muitas outras causas possíveis.
Medicamentos, doenças crónicas, perturbações do sono, alterações da hipófise ou dos testículos, défices energéticos e outros fatores podem influenciar a testosterona.
Uma análise hormonal deve, portanto, ser interpretada clinicamente e não apenas através do peso ou da gordura abdominal.
Testosterona baixa significa sempre necessidade de tratamento?
Não.
Uma concentração laboratorial baixa de testosterona não deve ser automaticamente interpretada como indicação para tratamento hormonal.
A avaliação da deficiência de testosterona depende também dos sintomas, da repetição das análises quando apropriado e da investigação da possível causa.
Além disso, a testosterona varia ao longo do dia.
No estudo, as medições foram realizadas de manhã, o que reduz parte da variabilidade relacionada com o ritmo circadiano. (OUP Academic)
Por isso, uma única análise isolada pode não contar toda a história.
O estudo prova que reduzir gordura visceral aumenta a testosterona?
Não.
Esta é uma limitação fundamental.
O estudo é transversal.
Os investigadores observaram a relação entre gordura visceral e testosterona num determinado momento, mas não acompanharam os homens ao longo do tempo para verificar se uma redução da gordura visceral provocaria posteriormente um aumento da testosterona.
Também não foi possível confirmar através deste trabalho se a testosterona baixa contribuiu para o aumento da gordura visceral.
Seriam necessários estudos longitudinais e, sobretudo, estudos de intervenção para responder a essa questão. (PubMed Central (PMC))
Então devemos deixar de usar o IMC?
Não necessariamente.
O IMC continua a ser uma ferramenta simples, barata e útil para avaliar populações e identificar possíveis situações de excesso de peso.
O problema surge quando o utilizamos isoladamente.
Para avaliar uma pessoa individualmente, especialmente alguém que pratica exercício, pode ser mais interessante combinar IMC com perímetro da cintura, composição corporal, histórico de peso, força e outros indicadores de saúde.
O novo estudo reforça precisamente esta abordagem.
A mensagem para homens a partir dos 40
Para homens de meia-idade, talvez seja mais útil pensar em composição corporal do que simplesmente em peso.
Ter menos gordura visceral e preservar massa muscular são objetivos potencialmente mais relevantes para a saúde metabólica do que atingir um determinado número na balança.
Isso pode significar:
mais treino de força;
mais atividade física diária;
menos sedentarismo;
alimentação de boa qualidade;
sono adequado;
e manutenção de uma composição corporal saudável ao longo dos anos.
Não porque estas estratégias sejam uma “cura” para testosterona baixa, mas porque contribuem para uma melhor saúde metabólica e física.
O que podemos retirar deste estudo?
O estudo publicado em 13 de julho de 2026 apresenta uma mensagem importante: a quantidade de gordura visceral pode estar mais intimamente relacionada com a testosterona masculina do que aquilo que o IMC consegue mostrar.
Em quase 5000 homens norte-americanos, aqueles com maior gordura visceral apresentavam níveis significativamente mais baixos de testosterona, mesmo quando pertenciam à mesma categoria de IMC ou de perímetro da cintura.
Homens com peso normal também podiam apresentar elevada gordura visceral e um perfil hormonal menos favorável.
Isto não significa que todos os homens com gordura abdominal tenham testosterona baixa, nem que reduzir gordura visceral garanta um aumento da testosterona.
Significa que peso, IMC e cintura não contam toda a história.
Para quem quer envelhecer com mais força, capacidade física e saúde metabólica, a composição corporal merece uma atenção especial.
E talvez a pergunta mais útil não seja apenas:
“Quanto peso tenho?”
Mas sim:
“Que quantidade de massa muscular tenho, onde está a minha gordura e como está a minha saúde metabólica?”
Referências
Oxford Academic — estudo original:
https://academic.oup.com/jes/article/10/8/bvag160/8733184
PubMed Central — texto completo:
https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC13386011/
PubMed — referência científica:
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/42482952/