Data do estudo mais recente: 8 de setembro de 2026
Quando pensamos em doença cardiovascular, é habitual concentrarmo-nos na pressão arterial, colesterol, glicemia, peso corporal e capacidade cardiorrespiratória. Mas existe outro fator que pode ter uma importância crescente à medida que envelhecemos: a massa e a função dos músculos.
A perda progressiva de massa e capacidade muscular, conhecida como sarcopenia, está associada ao envelhecimento e pode comprometer a força, a mobilidade e a autonomia. O problema torna-se particularmente interessante quando falamos de pessoas com doença cardiovascular, porque estas duas condições podem coexistir e influenciar-se mutuamente.
Uma nova declaração científica da European Association of Preventive Cardiology (EAPC), da European Society of Cardiology (ESC), publicada no European Journal of Preventive Cardiology em 8 de setembro de 2026, analisou precisamente a relação entre sarcopenia, doença cardiovascular, exercício e nutrição.
O documento revê a evidência disponível sobre a utilização do exercício e da alimentação na prevenção e tratamento da sarcopenia em pessoas com doença cardiovascular e discute também alguns dos desafios que ainda existem nesta área.
O que é a sarcopenia?
A sarcopenia é uma condição caracterizada pela perda relacionada com a idade da massa muscular e, sobretudo, da função muscular. Não se trata simplesmente de ter músculos mais pequenos.
Uma pessoa pode perder massa muscular sem apresentar inicialmente uma grande limitação nas atividades diárias. No entanto, quando a perda de força e desempenho físico se torna significativa, podem surgir dificuldades para caminhar, subir escadas, levantar-se de uma cadeira, transportar objetos ou realizar outras tarefas do quotidiano.
Por isso, quando falamos de sarcopenia, não devemos pensar apenas na quantidade de músculo existente. A força e a capacidade funcional são componentes fundamentais.
Porque é importante na doença cardiovascular?
A relação entre músculo e coração é particularmente interessante.
As pessoas com doença cardiovascular podem apresentar menor capacidade para realizar atividade física, devido à própria doença, sintomas, limitações funcionais ou receio de esforço. A redução da atividade pode, por sua vez, contribuir para a perda de capacidade muscular.
Forma-se potencialmente um ciclo em que menor capacidade física conduz a menos exercício, que pode contribuir para maior perda de força e capacidade funcional.
Ao mesmo tempo, a presença de menor massa e função muscular pode tornar mais difícil manter uma vida fisicamente ativa.
É por isso que a preservação do músculo não deve ser encarada apenas como uma questão estética ou relacionada com o desempenho desportivo. Manter músculo e força pode ser uma componente importante da capacidade de permanecer ativo durante o envelhecimento.
O treino de força assume um papel central
Uma das principais mensagens da declaração científica é a importância do treino de resistência muscular, habitualmente chamado treino de força.
O treino de força proporciona um estímulo específico para o músculo. Quando realizado de forma adequada e progressiva, pode ajudar a preservar ou melhorar a força muscular e a capacidade funcional.
Para alguém que envelhece, isto pode ter consequências muito concretas.
Ter força suficiente para levantar-se de uma cadeira, subir escadas, carregar compras ou recuperar o equilíbrio depois de um desequilíbrio pode ser mais importante para a autonomia do que simplesmente apresentar um determinado valor de massa muscular.
Por isso, uma estratégia de exercício orientada para o envelhecimento saudável não deveria depender exclusivamente de caminhada ou exercício cardiovascular.
O treino de força merece um lugar próprio.
Mas o exercício cardiovascular continua a ser importante
Dar importância ao treino de força não significa substituir o exercício cardiovascular.
A declaração científica recomenda uma abordagem que combine treino de resistência muscular com exercício de endurance e outras modalidades de exercício, de acordo com as necessidades da pessoa.
O exercício cardiovascular continua a ser fundamental para a capacidade cardiorrespiratória e faz parte das estratégias utilizadas na prevenção e tratamento de doenças cardiovasculares.
O problema surge quando pensamos que devemos escolher entre músculo e coração.
Na realidade, podemos trabalhar os dois.
Uma pessoa pode realizar exercício aeróbio, como caminhada rápida, corrida, bicicleta ou natação, e complementar essa atividade com exercícios de força.
Esta combinação pode ser especialmente relevante à medida que envelhecemos.
O papel da proteína
O músculo não depende apenas do exercício.
A alimentação fornece os nutrientes necessários para manter e reparar os tecidos musculares. Entre estes, a proteína assume particular importância.
A declaração científica destaca a necessidade de uma ingestão nutricional adequada e de evitar a desnutrição, incluindo uma ingestão suficiente de proteína na prevenção e gestão da sarcopenia.
Isso não significa que simplesmente aumentar a quantidade de proteína na alimentação resolva a sarcopenia.
O estímulo mecânico provocado pelo treino de força e a disponibilidade de nutrientes funcionam em conjunto. O exercício cria um estímulo para adaptação muscular, enquanto a alimentação fornece energia e aminoácidos necessários para os processos de manutenção e remodelação.
É por isso que uma estratégia exclusivamente nutricional pode ser insuficiente quando o objetivo é preservar a função muscular.
Mais proteína não significa necessariamente melhor
É importante evitar uma interpretação simplista.
A mensagem da declaração não é que todas as pessoas devam consumir quantidades muito elevadas de proteína.
As necessidades nutricionais dependem de vários fatores, incluindo idade, peso corporal, atividade física, estado nutricional, função renal, doenças existentes e objetivos individuais.
Em pessoas com doença cardiovascular, a alimentação deve ser integrada no contexto global da saúde e, quando existe doença renal ou outras condições clínicas, a ingestão proteica deve ser individualizada.
O conceito mais importante é adequação nutricional, e não simplesmente maximização da proteína.
Treino de força + exercício cardiovascular + nutrição
A combinação das três componentes pode ser particularmente interessante:
- Treino de força: estímulo específico para preservar ou desenvolver força e função muscular.
- Exercício cardiovascular: desenvolvimento e manutenção da capacidade cardiorrespiratória.
- Alimentação adequada: fornecimento de energia, proteína e outros nutrientes necessários para a manutenção do organismo.
Esta abordagem permite olhar para a saúde de uma forma mais integrada.
O objetivo não é apenas melhorar um marcador laboratorial ou aumentar a massa muscular. É preservar a capacidade de realizar atividades durante o maior número possível de anos.
Sarcopenia não significa simplesmente envelhecer
A perda de alguma massa muscular com o envelhecimento é comum. Mas isso não significa que uma redução importante de força e função seja inevitável.
O envelhecimento envolve alterações fisiológicas, mas o nível de atividade física e o estado nutricional podem influenciar a capacidade de preservar a função muscular.
É precisamente aqui que a prevenção pode assumir importância.
Não precisamos necessariamente de esperar até aos 70 ou 80 anos para começar a pensar no músculo. O investimento na força muscular pode começar décadas antes.
Para quem tem 40 ou 50 anos, por exemplo, o treino de força pode ser encarado não apenas como uma forma de melhorar a condição física atual, mas também como uma forma de construir uma reserva funcional para as décadas seguintes.
E se já existir doença cardiovascular?
Esta é uma das questões mais importantes do artigo.
Uma pessoa com doença cardiovascular não deve simplesmente copiar o programa de treino de alguém saudável.
A intensidade, volume, frequência e tipo de exercício devem ser adaptados à condição clínica, capacidade funcional e tratamento.
Em determinadas situações, poderá ser necessária avaliação médica e uma progressão cuidadosamente controlada.
Isso não significa que o exercício de força esteja contraindicado de forma geral. Significa que o programa deve ser individualizado.
A própria declaração científica chama a atenção para a interação entre alguns medicamentos utilizados nas doenças cardiovasculares e a sarcopenia, bem como para possíveis interações com intervenções de exercício e nutrição.
Uma limitação importante da investigação atual
Apesar da mensagem favorável ao exercício e à nutrição, os autores são claros sobre uma limitação importante.
Ainda existe falta de evidência de elevada qualidade especificamente em populações com doença cardiovascular e sarcopenia confirmada.
Em muitos estudos sobre doença cardiovascular, o estado de sarcopenia dos participantes não foi avaliado de forma adequada no início.
Isso dificulta perceber exatamente quais intervenções funcionam melhor em pessoas que apresentam simultaneamente doença cardiovascular e sarcopenia.
Por essa razão, os autores defendem mais investigação especificamente desenhada para estas populações.
O futuro pode passar por programas mais individualizados
Um dos caminhos mais interessantes será perceber que tipo de exercício e que estratégia nutricional funcionam melhor para diferentes perfis.
Uma pessoa com insuficiência cardíaca, outra com doença coronária e outra com hipertensão podem apresentar necessidades muito diferentes.
Da mesma forma, a sarcopenia pode manifestar-se de maneiras diferentes. Para algumas pessoas, o principal problema pode ser a força; para outras, a capacidade de caminhar, equilíbrio ou resistência ao esforço.
Por isso, em vez de procurar um programa universal, será provavelmente mais útil avaliar força, capacidade cardiovascular, composição corporal, função e estado nutricional e adaptar o exercício a essas características.
O músculo como parte da saúde cardiovascular
Durante muitos anos, músculo e coração foram frequentemente tratados como áreas separadas.
Hoje, uma visão mais integrada mostra que a capacidade de movimento depende de vários sistemas que funcionam em conjunto.
O coração fornece o suporte circulatório necessário para o esforço. Os pulmões participam das trocas gasosas. Os músculos produzem movimento. O sistema nervoso coordena a ação. A alimentação fornece energia e nutrientes.
Preservar apenas uma destas componentes pode não ser suficiente para manter a autonomia.
É neste contexto que a combinação de exercício de força, exercício cardiovascular e nutrição adequada ganha particular relevância.
Conclusão
A declaração científica publicada em 8 de setembro de 2026 reforça a importância de olhar para a sarcopenia como uma questão relevante também no contexto das doenças cardiovasculares.
A evidência atualmente disponível apoia uma abordagem baseada em exercício estruturado, com especial atenção ao treino de força, complementado por exercício de resistência e outras modalidades, juntamente com uma alimentação adequada e uma ingestão suficiente de proteína.
No entanto, os próprios autores reconhecem que ainda não existem estudos de elevada qualidade suficientes especificamente realizados em pessoas com doença cardiovascular e sarcopenia confirmada.
Por isso, a mensagem mais equilibrada não é que exista uma fórmula única para combater a sarcopenia. É que preservar músculo, força e capacidade funcional deve fazer parte da estratégia de envelhecimento saudável, e que o exercício e a nutrição são ferramentas fundamentais para esse objetivo.
O músculo não é apenas aquilo que vemos no espelho. É aquilo que nos permite levantar, caminhar, subir, carregar, equilibrar e continuar independentes.
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Links e referências
PubMed — Influence of exercise and nutrition on sarcopenia in cardiovascular disease
— Declaração científica da European Association of Preventive Cardiology da European Society of Cardiology, publicada em 8 de setembro de 2026.
European Journal of Preventive Cardiology — artigo científico original
— Veronique Cornelissen, Henner Hanssen, Christopher Hurst e colaboradores. Eur J Prev Cardiol. 2026;33(12):2105–2126.