Um novo estudo publicado na revista Cell apresenta uma estratégia experimental que utiliza células da própria medula óssea para tentar regenerar o osso e reduzir fraturas por fragilidade em pessoas com osteoporose avançada.
A osteoporose é frequentemente descrita como uma doença de perda de densidade óssea. Mas esta definição é incompleta.
O problema não está apenas na quantidade de mineral existente no osso. A osteoporose também envolve alterações na microarquitetura, redução do osso trabecular e cortical e desequilíbrio entre a destruição e a formação de tecido ósseo.
Por isso, uma das grandes questões da investigação atual é saber se será possível passar de uma estratégia essencialmente baseada em travar a perda óssea para uma abordagem capaz de estimular a própria regeneração do osso.
É precisamente essa possibilidade que um estudo publicado na Cell em 11 de setembro de 2026 veio explorar.
Uma abordagem completamente diferente
Os investigadores estudaram as chamadas células estromais mesenquimais, ou MSCs.
Estas células podem ser encontradas na medula óssea e têm capacidade para participar em processos relacionados com a formação e reparação de tecido ósseo.
Em teoria, poderiam ser utilizadas para ajudar a regenerar o esqueleto de pessoas com osteoporose.
Existe, no entanto, um problema.
Quando as MSCs são retiradas da medula óssea, cultivadas em laboratório e posteriormente administradas por via intravenosa, uma grande parte das células não consegue localizar de forma eficiente o tecido ósseo.
Os investigadores chamam a este fenómeno osteotropismo: a capacidade de uma célula se dirigir preferencialmente para o tecido ósseo.
A equipa tentou resolver precisamente este problema.
A ideia da “morada” das células
Imagine que temos um grupo de células potencialmente capazes de ajudar a reparar o osso, mas que, depois de serem administradas no organismo, não sabem exatamente para onde devem ir.
Foi essa espécie de sistema de navegação que os investigadores tentaram melhorar.
As MSCs foram retiradas da medula óssea das próprias participantes e posteriormente modificadas na sua superfície através de uma técnica denominada edição do glicocálice.
O glicocálice é uma camada de moléculas que envolve a superfície das células e participa na forma como estas interagem com o ambiente.
Os investigadores introduziram uma estrutura chamada sialyl Lewis X (sLeX), que permite às células interagir com moléculas presentes no endotélio dos vasos sanguíneos.
O objetivo era aumentar a capacidade das MSCs para alcançar a medula óssea.
Em termos simples, a estratégia tenta transformar as células do próprio doente numa espécie de “terapia viva” com maior capacidade de encontrar o tecido que precisa de ser reparado.
O primeiro ensaio em seres humanos
O estudo foi realizado como um ensaio clínico de fase I, registado no ClinicalTrials.gov com o número NCT02566655.
Participaram 10 mulheres com osteoporose avançada.
As células foram obtidas da medula óssea das próprias participantes, modificadas em laboratório e depois administradas novamente através de uma única infusão intravenosa.
O objetivo principal desta primeira fase era avaliar a segurança e viabilidade da abordagem.
Não se tratava, portanto, de um grande ensaio destinado a demonstrar definitivamente que o tratamento funciona.
Esta distinção é fundamental.
O que aconteceu depois da infusão?
Os resultados de segurança foram considerados favoráveis.
Durante o acompanhamento não ocorreram eventos adversos graves atribuídos ao tratamento.
O protocolo inicial previa dois anos de avaliação clínica, exames radiológicos, avaliação da densidade mineral óssea, marcadores de remodelação óssea e análise do tecido ósseo.
Depois desses dois anos, o acompanhamento de segurança e das fraturas continuou durante mais de três anos para cada participante.
Ou seja, os investigadores conseguiram acompanhar estas mulheres durante um período superior a cinco anos em determinados parâmetros.
Este seguimento prolongado é particularmente importante quando estamos a falar de uma terapia celular.
Uma redução surpreendente das fraturas
Um dos resultados mais interessantes foi a evolução das fraturas por fragilidade.
As participantes apresentavam osteoporose avançada e um risco elevado de novas fraturas.
Segundo os investigadores, a incidência de fraturas por fragilidade diminuiu de forma marcada e sustentada depois da administração das células modificadas.
Na comparação apresentada no estudo, a incidência passou de aproximadamente 8 fraturas por ano nos dois anos anteriores ao tratamento para cerca de 0,5 fraturas por ano nos dois anos posteriores.
Isto corresponde a uma redução aproximada de 94% na incidência observada.
É um resultado impressionante.
Mas é precisamente aqui que devemos ter cuidado.
Uma redução observada numa amostra de apenas 10 pessoas, sem grupo de controlo randomizado, não permite afirmar que o tratamento seja responsável por toda essa diferença.
O resultado é suficientemente interessante para justificar estudos maiores, mas não é ainda uma prova definitiva de eficácia.
Houve sinais de formação de osso?
Sim.
Além das fraturas, os investigadores analisaram vários marcadores relacionados com o metabolismo ósseo.
Foram observados aumentos em marcadores osteoanabólicos, compatíveis com maior atividade de formação óssea.
Também foram observadas alterações na área de tecido ósseo e na densidade mineral óssea volumétrica.
Os exames e análises histomorfométricas sugeriram particularmente uma resposta no osso trabecular.
O osso trabecular é a estrutura interna, semelhante a uma rede, que ajuda o esqueleto a suportar cargas e distribuir forças.
Na osteoporose, esta arquitetura pode tornar-se progressivamente mais frágil.
Por isso, aumentar apenas a densidade mineral não é necessariamente suficiente. A recuperação da estrutura interna do osso pode ser igualmente importante.
O resultado mais interessante pode não ser a densidade óssea
Quando falamos de osteoporose, normalmente pensamos imediatamente na densidade mineral óssea medida através de uma DXA.
Mas a resistência de um osso depende de vários fatores.
Inclui a quantidade de tecido ósseo, a sua distribuição, a microarquitetura, a qualidade do material ósseo e a forma como estas características respondem às forças mecânicas.
Por isso, o facto de este estudo ter observado alterações simultaneamente nos marcadores de formação óssea, tecido ósseo, densidade volumétrica e fraturas torna a investigação particularmente interessante.
Contudo, estes resultados continuam a precisar de confirmação independente.
As células de pessoas mais velhas ainda podem funcionar?
Existe outra questão importante levantada pelo estudo.
Uma preocupação na medicina regenerativa é que as células obtidas de pessoas mais velhas ou de tecidos afetados por doença possam apresentar menor capacidade regenerativa.
Neste trabalho, as próprias células das mulheres com osteoporose foram utilizadas.
Os resultados sugerem que, apesar da idade e da doença óssea, estas células mantiveram capacidade biológica suficiente para produzir efeitos potencialmente benéficos quando a sua capacidade de localização óssea foi melhorada.
Esta conclusão é relevante porque significa que uma futura medicina regenerativa poderá, em determinadas situações, utilizar células autólogas, ou seja, células provenientes do próprio paciente.
É uma terapia genética?
É importante distinguir os conceitos.
A técnica utilizada modifica o glicocálice da superfície das células através de um processo de exofucosilação, criando temporariamente características que favorecem o seu direcionamento para a medula óssea.
Não significa necessariamente que o genoma das células tenha sido permanentemente alterado.
Esta característica é relevante para a discussão sobre segurança, embora sejam necessários estudos muito maiores para avaliar completamente os riscos de qualquer terapia celular.
Podemos abandonar os medicamentos para a osteoporose?
Não.
Este estudo não permite essa conclusão.
As participantes tinham osteoporose avançada e continuavam a receber tratamento farmacológico habitual no contexto do estudo, com possibilidade de alterações terapêuticas posteriores de acordo com a avaliação clínica.
Além disso, o ensaio foi pequeno, aberto e não randomizado.
Não existiu um grupo de controlo que permitisse comparar diretamente a evolução das participantes com pessoas semelhantes que não receberam a terapia celular.
Por isso, ainda não sabemos quanto do benefício observado pode ser atribuído diretamente às células modificadas, ao tratamento convencional, às alterações clínicas individuais ou a outros fatores.
O que falta descobrir?
A próxima etapa deverá envolver ensaios clínicos maiores e controlados.
Será necessário confirmar a segurança em populações mais numerosas e perceber se a redução das fraturas se mantém quando o tratamento é comparado com uma intervenção de controlo.
Também será necessário determinar quais os pacientes que mais podem beneficiar, qual a dose ideal, se uma única administração é suficiente e durante quanto tempo as alterações ósseas persistem.
Outro ponto fundamental será perceber se os resultados podem ser reproduzidos por outros grupos de investigação.
E onde entra o exercício?
É importante não confundir este tipo de investigação com as estratégias que já podemos utilizar atualmente.
O osso é um tecido vivo e responde às cargas mecânicas.
O treino de força, exercícios com impacto adequadamente selecionados e a manutenção de massa muscular são componentes importantes da saúde músculo-esquelética ao longo do envelhecimento.
Naturalmente, pessoas com osteoporose avançada ou histórico de fraturas precisam de uma avaliação individualizada para determinar que tipos de exercício são seguros.
O novo estudo não demonstra que exercício e terapia celular tenham efeitos equivalentes. São abordagens completamente diferentes.
Mas reforça uma ideia interessante: o osso pode ser um alvo de intervenção ativa e não apenas uma estrutura cuja perda devemos tentar impedir.
Conclusão
O estudo publicado na Cell em 11 de setembro de 2026 apresenta uma abordagem experimental inovadora para a osteoporose avançada.
Os investigadores utilizaram células da própria medula óssea de 10 mulheres, modificaram temporariamente a superfície dessas células para aumentar a sua capacidade de localização óssea e administraram-nas através de uma única infusão intravenosa.
Durante o acompanhamento, não foram observados eventos adversos graves relacionados com o tratamento e foram encontrados sinais de aumento da atividade de formação óssea, maior área de tecido ósseo, aumento da densidade mineral óssea volumétrica e uma redução marcada das fraturas por fragilidade.
Os resultados são muito promissores, mas ainda preliminares.
O tamanho reduzido da amostra e a ausência de um grupo de controlo impedem que se conclua que esta terapia já demonstrou eficácia contra a osteoporose.
A verdadeira importância deste trabalho está em abrir uma possibilidade diferente: utilizar as próprias células do paciente como uma terapia regenerativa e melhorar a sua capacidade de encontrar e atuar sobre o tecido ósseo.
Se estudos maiores confirmarem estes resultados, poderemos estar perante uma mudança interessante na forma como pensamos o tratamento de algumas formas de osteoporose: não apenas reduzir a perda óssea, mas tentar regenerar parte do tecido perdido.
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Referências
- Moraleda JM et al. Glycocalyx-edited mesenchymal stem/stromal cell therapy in advanced osteoporosis. Cell. Publicado online em 11 de setembro de 2026.
- PubMed – Glycocalyx-edited mesenchymal stem/stromal cell therapy in advanced osteoporosis.
- DOI – 10.1016/j.cell.2026.08.017.
- ClinicalTrials.gov – NCT02566655: Phase I clinical trial of fucosylated autologous bone marrow mesenchymal cells in osteoporosis.
Nota: Este artigo tem caráter informativo e não substitui avaliação médica. Os resultados desta terapia celular são preliminares e ainda não significam que este tratamento esteja aprovado ou disponível como terapêutica habitual para a osteoporose.