Como a surdez pode reorganizar o cérebro e melhorar a visão periférica

Como a surdez pode reorganizar o cérebro e melhorar a visão periférica September 18, 2026Leave a comment

O cérebro humano não é uma estrutura rígida. Ao longo da vida, a experiência, a aprendizagem e até a ausência de determinados estímulos sensoriais podem modificar a forma como diferentes regiões cerebrais utilizam os seus recursos.

Um novo estudo publicado na revista Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS) mostra um exemplo particularmente interessante desta capacidade de adaptação. Investigadores descobriram que adultos com surdez profunda desde os primeiros anos de vida apresentam uma redistribuição dos recursos neuronais utilizados para processar a visão.

O resultado é especialmente interessante porque esta reorganização não foi encontrada apenas em regiões cerebrais responsáveis por processos visuais mais complexos. Foi observada em estruturas muito precoces do sistema visual, incluindo o córtex visual primário (V1) e o núcleo geniculado lateral (LGN), uma estrutura do tálamo que transmite informação visual da retina para o córtex.

Segundo os investigadores, a ausência de informação auditiva ao longo do desenvolvimento parece estar associada a uma maior utilização da visão periférica. O cérebro passa, assim, a atribuir relativamente mais recursos à deteção de acontecimentos que ocorrem fora do centro do campo visual.

O estudo mais recente sobre plasticidade cerebral e surdez

O trabalho, intitulado Retinotopic remapping of the visual system in deaf adults, foi publicado online na PNAS em 4 de setembro de 2026.

A investigação foi realizada por Alexandra T. Levine, Kate Yuen, André Gouws, Alex R. Wade, Antony B. Morland, Charlotte Codina, David Buckley e Heidi A. Baseler, entre outros investigadores.

O objetivo era perceber se a maior capacidade de algumas pessoas surdas para detetar estímulos visuais na periferia do campo de visão poderia estar relacionada com alterações na organização das primeiras estruturas do sistema visual.

Para isso, os investigadores utilizaram ressonância magnética funcional (fMRI) para mapear a representação do campo visual no cérebro.

32 pessoas foram avaliadas através de ressonância magnética

O estudo incluiu 16 adultos com surdez profunda desde os primeiros anos de vida e 16 adultos ouvintes da mesma faixa etária.

Os investigadores analisaram a forma como diferentes regiões do campo visual eram representadas no cérebro dos participantes.

Foi utilizado um campo visual amplo, chegando aos 72 graus, permitindo estudar não apenas a visão central e a periferia próxima, mas também a chamada periferia visual distante.

Esta questão é importante porque estudos anteriores já tinham demonstrado que algumas pessoas com surdez precoce apresentam maior sensibilidade para detetar determinados estímulos que aparecem na periferia do campo visual.

A nova investigação procurou descobrir onde, exatamente, essa diferença poderia estar representada no cérebro.

O cérebro parece dar mais espaço à visão periférica

O principal resultado foi bastante claro.

Os participantes com surdez precoce apresentaram uma maior representação da periferia visual distante tanto no córtex visual primário como no núcleo geniculado lateral.

Ou seja, determinadas regiões do cérebro dedicadas ao processamento visual pareciam apresentar uma distribuição diferente dos seus recursos.

Mas existe uma nuance importante.

O cérebro das pessoas surdas não tinha simplesmente aumentado de tamanho. Os investigadores não encontraram diferenças significativas no tamanho total das estruturas analisadas.

Em vez disso, parece existir uma redistribuição interna.

Uma maior proporção dos recursos neuronais é relativamente dedicada ao processamento de informação proveniente da periferia visual, enquanto a representação da região central do campo visual é relativamente menor.

Não é simplesmente uma expansão do cérebro

Esta distinção ajuda a compreender melhor o conceito de neuroplasticidade.

Quando dizemos que o cérebro se adapta, isso não significa necessariamente que cria novas áreas cerebrais ou que aumenta globalmente de tamanho.

Muitas vezes, a adaptação acontece através da alteração da forma como os recursos existentes são distribuídos.

Neste caso, os investigadores encontraram precisamente esse padrão.

O tamanho global do V1 e do LGN não diferiu significativamente entre os grupos. O que mudou foi a proporção relativa dedicada a diferentes zonas do campo visual.

É semelhante a reorganizar uma casa sem aumentar a área total: podemos alterar a dimensão relativa dos diferentes espaços sem aumentar o tamanho do edifício.

Porque é que a visão periférica pode tornar-se tão importante?

Para uma pessoa ouvinte, o som desempenha um papel importante na orientação da atenção.

Um ruído súbito, uma voz ou um movimento sonoro pode chamar a nossa atenção para algo que acontece fora do nosso campo visual central.

Imagine alguém a caminhar na rua. Uma pessoa que está fora da sua linha direta de visão pode produzir um som que imediatamente faz com que vire a cabeça.

Quando a audição não está disponível desde os primeiros anos de vida, esse mecanismo deixa de fornecer a mesma informação.

A visão pode assumir uma função ainda mais importante como sistema de alerta periférico.

Em vez de depender do som para perceber que algo está a acontecer ao lado ou atrás, uma pessoa surda pode depender mais da informação visual periférica.

Ao longo de muitos anos, essa necessidade pode influenciar a forma como o cérebro distribui os seus recursos.

A plasticidade cerebral começa muito cedo no sistema visual

Uma das descobertas mais interessantes do trabalho é a localização desta adaptação.

Anteriormente, muitos estudos sobre plasticidade cerebral associada à surdez tinham encontrado alterações em regiões cerebrais responsáveis por processos visuais mais complexos.

Este estudo mostra que a reorganização pode ocorrer muito mais cedo na cadeia de processamento visual.

O LGN recebe informação proveniente da retina e funciona como uma importante estação de transmissão entre o olho e o córtex visual.

O V1, por sua vez, é a principal região cortical responsável pelo primeiro processamento visual.

Encontrar diferenças nestas estruturas sugere que a experiência sensorial prolongada pode influenciar a organização do sistema visual numa fase muito precoce do processamento da informação.

O que é a representação retinotópica?

Para compreender este estudo é útil conhecer o conceito de retinotopia.

O nosso cérebro mantém uma espécie de mapa organizado do campo visual.

Regiões diferentes da retina projetam informação para regiões diferentes do sistema visual. Existe, portanto, uma correspondência espacial entre aquilo que vemos e a forma como essa informação é representada no cérebro.

O estudo procurou perceber se esse mapa visual apresentava diferenças entre pessoas com surdez precoce e pessoas ouvintes.

E encontrou uma diferença particularmente interessante: a representação relativa da periferia visual distante era maior nos participantes surdos.

O cérebro pode adaptar-se às exigências do ambiente

Esta investigação é um excelente exemplo de plasticidade dependente da experiência.

O cérebro não funciona apenas de acordo com um programa completamente fixo determinado no nascimento.

A experiência repetida pode modificar a forma como determinados circuitos são utilizados.

Se uma determinada capacidade sensorial é utilizada intensamente durante muitos anos, os circuitos envolvidos nessa capacidade podem tornar-se particularmente importantes.

Da mesma forma, quando uma fonte de informação desaparece, outras modalidades sensoriais podem assumir uma importância maior.

É importante, contudo, não interpretar esta plasticidade como uma simples substituição de um sentido por outro. O cérebro não transforma literalmente a audição em visão.

O que parece acontecer é uma reorganização da forma como os circuitos existentes processam a informação disponível.

E o que isto nos ensina sobre envelhecimento e cérebro?

Embora o estudo tenha analisado adultos com surdez precoce e não seja um estudo sobre envelhecimento, os resultados são interessantes para compreender um princípio mais amplo: o cérebro permanece adaptável.

A atividade física, a aprendizagem, a prática de novas competências e a exposição a diferentes desafios sensoriais e cognitivos são algumas das experiências que podem influenciar o funcionamento cerebral.

Este estudo não demonstra que exercícios específicos para a visão irão produzir a mesma reorganização encontrada nas pessoas surdas. Também não demonstra que podemos voluntariamente alterar a organização do cérebro através de um determinado treino.

O que demonstra é que uma experiência sensorial prolongada pode estar associada a alterações mensuráveis na organização de estruturas cerebrais fundamentais.

Não significa que as pessoas surdas tenham uma visão globalmente melhor

É importante evitar uma interpretação simplista.

Os investigadores referem que adultos surdos desde cedo apresentam vantagens em determinadas tarefas visuais, particularmente na deteção de estímulos na periferia distante.

Isso não significa que tenham uma visão superior em todos os aspetos.

A investigação encontrou uma especialização relativa para determinados tipos de processamento visual, e não uma melhoria generalizada de todas as capacidades visuais.

Aliás, o estudo encontrou uma redistribuição entre visão central e periférica, e não simplesmente uma expansão de todas as representações visuais.

Porque este estudo é importante?

A investigação ajuda a responder a uma questão fundamental da neurociência: até que ponto a experiência pode modificar a organização do cérebro humano?

A resposta parece ser que a influência pode chegar a níveis bastante precoces do processamento sensorial.

No caso estudado, a ausência prolongada de informação auditiva está associada a uma utilização relativamente maior dos recursos visuais periféricos.

O mais surpreendente é que essa reorganização pode ser observada no próprio mapa visual do cérebro.

O que podemos concluir?

O estudo publicado na PNAS em 4 de setembro de 2026 mostra que adultos com surdez profunda desde cedo apresentam uma reorganização da representação visual no cérebro.

Utilizando ressonância magnética funcional, os investigadores observaram uma representação relativamente maior da visão periférica distante no córtex visual primário (V1) e no núcleo geniculado lateral (LGN).

Esta alteração não resultou de um aumento global destas estruturas. Pelo contrário, os resultados sugerem uma redistribuição dos recursos neuronais, com relativamente mais espaço dedicado à periferia visual e menos à região central.

O trabalho constitui mais uma demonstração da extraordinária capacidade de adaptação do cérebro humano. Quando uma fonte importante de informação sensorial desaparece desde cedo, a experiência ao longo da vida pode moldar a forma como os restantes sentidos são processados.

Mais do que mostrar que um sentido pode simplesmente “substituir” outro, este estudo revela algo mais interessante: o cérebro pode reorganizar a distribuição dos seus recursos de acordo com aquilo que o indivíduo necessita de utilizar repetidamente.

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Referências