O exercício físico está associado a vários benefícios para a saúde cerebral, mas ainda existem muitas dúvidas sobre quanto tempo é necessário treinar para produzir alterações mensuráveis na memória, no humor e nos mecanismos relacionados com o envelhecimento do cérebro.
Um novo ensaio clínico aleatorizado, publicado na revista npj Aging, estudou precisamente esta questão em adultos de meia-idade. O estudo NeuroFit avaliou os efeitos de um programa de exercício com três meses de duração sobre a cognição, o humor, a atividade física e alguns mecanismos biológicos relacionados com a neurogénese do hipocampo.
Os resultados são particularmente interessantes porque mostram que diferentes respostas ao exercício podem surgir em momentos diferentes. Após 12 semanas, houve uma melhoria significativa dos sintomas depressivos e um aumento da atividade física, mas não foi encontrada uma melhoria significativa no principal teste de memória utilizado.
Ao mesmo tempo, experiências laboratoriais realizadas com o sangue dos participantes sugeriram que o exercício pode modificar o ambiente circulante de uma forma capaz de influenciar o comportamento de células progenitoras relacionadas com o hipocampo.
Como foi realizado o estudo?
O estudo incluiu 52 adultos saudáveis de meia-idade no Reino Unido, com idades entre os 45 e os 65 anos. Os participantes apresentavam níveis relativamente baixos de atividade física no início do estudo.
Os investigadores distribuíram aleatoriamente os participantes por dois grupos: um grupo de exercício, constituído por 27 pessoas, e um grupo de controlo, com 25 pessoas.
O grupo de exercício realizou um programa estruturado durante 12 semanas, enquanto o grupo de controlo manteve as suas atividades habituais.
O programa incluía três sessões semanais de 30 minutos, combinando diferentes formas de exercício. Uma sessão era predominantemente aeróbia e de intensidade elevada, outra envolvia treino de resistência e a terceira combinava exercício aeróbio com exercícios de resistência estática.
As sessões foram realizadas online, em direto e com orientação de instrutores. A adesão foi elevada: os participantes realizaram, em média, 86% das sessões prescritas.
O exercício melhorou a memória?
Esta era uma das principais questões do estudo.
Os investigadores avaliaram a chamada separação de padrões, uma capacidade relacionada com o hipocampo que permite distinguir acontecimentos, objetos ou memórias semelhantes entre si.
Esta função é particularmente interessante no contexto do envelhecimento porque depende, em parte, da capacidade do cérebro para processar informação nova sem confundi-la com experiências anteriores.
Apesar das expectativas, o programa de exercício de três meses não produziu uma melhoria estatisticamente significativa na separação de padrões quando comparado com o grupo de controlo.
Também não foram observadas melhorias significativas na memória de reconhecimento ou no desempenho cognitivo global medido através do Montreal Cognitive Assessment.
Este resultado merece atenção porque demonstra que a relação entre exercício e cérebro é mais complexa do que simplesmente afirmar que “fazer exercício melhora a memória”.
O exercício pode produzir alterações importantes no organismo sem que estas sejam imediatamente traduzidas numa melhoria mensurável num determinado teste cognitivo.
O humor melhorou depois de 12 semanas
Uma das alterações mais claras ocorreu no estado de humor.
Os participantes do grupo de exercício apresentaram uma redução significativa dos sintomas depressivos, avaliada através do questionário PHQ-9.
A diferença entre os grupos ao longo do tempo apresentou um valor de β = -1,18, com um valor de p ajustado de 0,011.
É importante interpretar este resultado correctamente. Os participantes eram saudáveis e não apresentavam depressão clínica no início do estudo. Portanto, os resultados não demonstram que este programa de exercício seja um tratamento para a depressão.
O que demonstram é que mesmo pessoas sem depressão estabelecida podem apresentar uma melhoria do humor depois de um período relativamente curto de exercício estruturado.
Este efeito pode ser particularmente relevante durante a meia-idade, uma fase em que alterações profissionais, familiares, sociais, do sono e dos níveis de atividade física podem influenciar significativamente o bem-estar psicológico.
O exercício também alterou o comportamento das células relacionadas com o hipocampo
Uma das partes mais inovadoras do estudo foi a análise de mecanismos relacionados com a neurogénese do hipocampo.
A neurogénese refere-se à formação de novos neurónios. No hipocampo, este processo tem sido associado a mecanismos relacionados com aprendizagem, memória e adaptação cerebral.
Actualmente não existe uma técnica não invasiva que permita medir directamente a neurogénese do hipocampo em pessoas vivas. Por isso, os investigadores utilizaram uma abordagem laboratorial.
Foram recolhidas amostras de sangue dos participantes e o soro foi colocado em contacto, em laboratório, com uma linha de células progenitoras relacionadas com o hipocampo.
Os investigadores observaram uma alteração significativa na percentagem de células que expressavam Ki67, um marcador associado à proliferação celular.
Curiosamente, a percentagem de células Ki67 positivas diminuiu após a intervenção no grupo de exercício.
À primeira vista, esta conclusão pode parecer contraditória com a ideia de que o exercício estimula a neurogénese. No entanto, os investigadores explicam que uma menor proliferação não significa necessariamente uma pior capacidade neurogénica.
A proliferação das células progenitoras é um processo altamente regulado. Uma resposta saudável pode depender não apenas da produção de novas células, mas também da manutenção, maturação e integração adequada dessas células.
Mais proliferação celular não significa necessariamente um cérebro mais saudável
Este é um dos pontos mais interessantes do estudo.
O exercício pode inicialmente estimular determinadas respostas celulares e, com a repetição do treino, promover uma adaptação mais equilibrada.
Os investigadores sugerem que a redução observada no marcador Ki67 poderá representar uma forma de regulação do ciclo celular e não uma deterioração da capacidade neurogénica.
Esta interpretação é reforçada pelo facto de não terem sido observadas alterações significativas em outros marcadores associados à integridade das células progenitoras, na apoptose, no número total de células ou na diferenciação celular.
No entanto, esta hipótese deve ser tratada com cautela. As experiências foram realizadas in vitro e não directamente no cérebro dos participantes.
O sangue pode transmitir parte dos efeitos do exercício ao cérebro?
Uma das hipóteses actualmente estudadas na ciência do exercício é que os músculos e outros tecidos libertam moléculas durante a atividade física que podem comunicar com diferentes órgãos.
Estas moléculas são frequentemente designadas exerquinas e podem participar na comunicação entre o músculo, o sistema cardiovascular, o metabolismo e o cérebro.
O estudo NeuroFit fornece resultados compatíveis com a possibilidade de o exercício modificar o ambiente circulante e, consequentemente, influenciar processos celulares relacionados com o hipocampo.
Contudo, é fundamental não transformar este resultado numa conclusão que o estudo não permite fazer.
Os investigadores não demonstraram que os participantes tenham produzido mais neurónios no hipocampo. Demonstraram que o soro recolhido depois da intervenção exerceu efeitos diferentes sobre células progenitoras quando analisado em laboratório.
É uma diferença importante entre uma evidência mecanística e uma demonstração directa de neurogénese no cérebro humano.
Talvez o cérebro precise de mais tempo para responder
Uma possível explicação para a ausência de melhoria da memória é simplesmente a duração da intervenção.
O estudo teve apenas 12 semanas de duração. Embora três meses sejam suficientes para produzir alterações importantes na condição física e no estado de humor, algumas adaptações cerebrais poderão necessitar de períodos mais longos.
Os próprios investigadores referem que estudos anteriores encontraram alterações no volume do hipocampo e no desempenho da memória depois de períodos de exercício de aproximadamente seis a doze meses.
Assim, a ausência de melhoria cognitiva neste estudo não significa que o exercício não tenha benefícios para a memória.
Significa apenas que 12 semanas de exercício não foram suficientes para produzir uma alteração detectável no principal teste cognitivo utilizado nesta população.
O exercício pode produzir efeitos em diferentes velocidades
Uma das interpretações mais interessantes propostas pelos autores é a possibilidade de existirem diferentes fases de adaptação ao exercício.
Os efeitos psicológicos podem surgir relativamente cedo. Depois podem ocorrer alterações metabólicas e sistémicas. Finalmente, adaptações estruturais e funcionais do cérebro poderão necessitar de uma exposição mais prolongada.
Esta hipótese ajuda a compreender porque razão o estudo encontrou uma melhoria do humor e alterações celulares, mas não uma melhoria significativa da memória.
Não significa que um resultado seja mais importante do que outro. Significa que diferentes sistemas podem responder ao exercício em diferentes escalas de tempo.
Treinar depois dos 40 pode ser particularmente relevante
A meia-idade, geralmente considerada entre os 40 e os 65 anos, é uma fase importante para a prevenção do declínio funcional e cognitivo.
É também uma fase em que muitas pessoas diminuem progressivamente a sua atividade física.
O estudo mostra que um programa relativamente simples, realizado três vezes por semana durante apenas 30 minutos, conseguiu aumentar significativamente os níveis de atividade física e melhorar alguns indicadores psicológicos.
O programa também combinou diferentes capacidades físicas, incluindo resistência aeróbia e treino de força.
Esta combinação pode ser particularmente interessante para quem procura envelhecer com autonomia, porque o envelhecimento saudável não depende exclusivamente da massa muscular ou da capacidade cardiovascular.
Força, resistência, mobilidade, equilíbrio, capacidade funcional e saúde psicológica fazem parte de um conjunto mais amplo de características importantes para manter independência ao longo das décadas.
O que este estudo nos diz sobre exercício e longevidade?
Uma das principais mensagens do NeuroFit é que os benefícios do exercício não devem ser avaliados exclusivamente através do peso corporal ou da massa muscular.
O exercício influencia simultaneamente vários sistemas do organismo e os resultados podem aparecer em momentos diferentes.
Neste estudo, o exercício aumentou a atividade física e reduziu os sintomas depressivos. Não melhorou significativamente a memória nem a função cognitiva global. Também não produziu alterações significativas na maioria dos marcadores clínicos e sanguíneos avaliados.
Apesar disso, foram observadas alterações interessantes no comportamento das células progenitoras em laboratório.
Este conjunto de resultados reforça uma ideia importante: o exercício é uma intervenção complexa, com efeitos multidimensionais e dependentes da dose, duração, intensidade, modalidade e características individuais.
Quais são as limitações do estudo?
Os resultados devem ser interpretados considerando algumas limitações importantes.
- A amostra foi pequena, com apenas 52 participantes.
- A maioria dos participantes era do sexo feminino.
- Os participantes eram adultos saudáveis e relativamente pouco ativos.
- A intervenção durou apenas 12 semanas.
- A neurogénese não foi medida directamente no cérebro humano.
- As experiências celulares foram realizadas in vitro.
- O estudo não permite determinar qual dos componentes do programa foi responsável por cada efeito observado.
- Não foram observadas melhorias significativas na principal medida de cognição.
Por isso, os resultados não devem ser utilizados para afirmar que qualquer programa de exercício de 12 semanas irá melhorar a memória ou aumentar directamente a neurogénese cerebral.
Conclusão
O estudo NeuroFit acrescenta dados interessantes à investigação sobre exercício físico, envelhecimento cerebral, memória e saúde mental depois dos 40 anos.
Um programa de exercício estruturado, realizado durante 12 semanas, aumentou a atividade física e reduziu os sintomas depressivos em adultos saudáveis de meia-idade.
Por outro lado, não houve melhoria estatisticamente significativa na separação de padrões, na memória de reconhecimento ou na avaliação cognitiva global.
As experiências laboratoriais acrescentaram uma dimensão particularmente interessante: o sangue dos participantes que realizaram exercício apresentou alterações capazes de modificar o comportamento de células progenitoras relacionadas com o hipocampo.
Estes resultados não demonstram directamente que o exercício tenha produzido novos neurónios no cérebro, mas sugerem que o exercício pode alterar o ambiente biológico que influencia processos relacionados com a saúde cerebral.
Para quem está a entrar nos 40, 50 ou 60 anos, a mensagem prática é simples: não é necessário esperar por alterações na memória para começar a treinar. A atividade física pode contribuir simultaneamente para a condição física, saúde cardiovascular, força, autonomia e bem-estar psicológico, enquanto possíveis adaptações cerebrais podem exigir mais tempo para se tornarem mensuráveis.
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