Um estudo publicado em 17 de setembro de 2026 encontrou uma adaptação interessante do tecido adiposo branco após oito semanas de treino combinado, juntando exercício aeróbio e treino de força. Os investigadores observaram alterações associadas ao chamado “browning” do tecido adiposo, incluindo maior expressão da proteína UCP1, alterações na vascularização e aumento de características semelhantes às encontradas no tecido adiposo castanho e bege.
Embora os resultados sejam interessantes para compreender os mecanismos através dos quais o exercício influencia o metabolismo, existe uma limitação fundamental: o trabalho foi realizado em ratos machos, e não em seres humanos. Por isso, não é possível afirmar que o mesmo efeito aconteça da mesma forma nas pessoas.
O que é o tecido adiposo branco?
Quando pensamos em gordura corporal, normalmente estamos a pensar no tecido adiposo branco. Este tecido funciona como uma importante reserva energética, armazenando energia sob a forma de triglicéridos.
No entanto, o tecido adiposo não é metabolicamente inerte. É um tecido biologicamente ativo, capaz de produzir moléculas sinalizadoras e de responder a alterações na alimentação, atividade física, temperatura e estado metabólico.
Uma das áreas de investigação mais interessantes é a capacidade de algumas células do tecido adiposo branco adquirirem características semelhantes às do tecido adiposo castanho. Este processo é frequentemente designado por browning, ou “escurecimento” do tecido adiposo.
As células adiposas bege podem apresentar maior quantidade de mitocôndrias e expressar proteínas relacionadas com a produção de calor. Entre estas proteínas encontra-se a UCP1, uma das principais marcas utilizadas pelos investigadores para identificar um fenótipo termogénico.
O que descobriu o novo estudo?
O estudo publicado no Journal of Physiology and Biochemistry avaliou 60 ratos Swiss machos. Trinta permaneceram sedentários e os restantes 30 realizaram um programa de treino combinado durante oito semanas.
O programa combinou exercício aeróbio e treino de resistência, realizados em dias alternados e cinco dias por semana. Ao longo do protocolo, a intensidade do exercício foi ajustada através de testes de desempenho.
O objetivo principal não era simplesmente verificar se os animais ficavam mais fortes ou corriam mais. Os investigadores queriam perceber se o treino provocava alterações estruturais e moleculares no tecido adiposo branco.
Foram analisados dois depósitos de gordura: o tecido adiposo inguinal e o tecido adiposo retroperitoneal. Os investigadores avaliaram, entre outros parâmetros, o tamanho dos adipócitos, a expressão de UCP1, marcadores relacionados com a vascularização e genes associados aos fenótipos castanho e bege.
Mais UCP1 após o treino
Um dos resultados mais relevantes foi o aumento da expressão de UCP1 no grupo submetido ao treino combinado.
A UCP1 está associada à capacidade termogénica do tecido adiposo castanho e de adipócitos bege. A sua presença é frequentemente utilizada como indicador de uma transformação para um fenótipo mais termogénico.
No estudo, os investigadores encontraram também maior presença de adipócitos multiloculares, uma característica associada ao tecido adiposo castanho e bege.
Estes resultados sugerem que o exercício combinado pode provocar uma verdadeira remodelação do tecido adiposo, pelo menos nas condições experimentais utilizadas.
O papel da vascularização
Outro resultado interessante foi o aumento de marcadores relacionados com a formação de vasos sanguíneos, nomeadamente VEGF e CD31.
A vascularização é particularmente relevante para tecidos metabolicamente ativos. Um tecido com maior atividade metabólica necessita de uma boa capacidade de fornecimento de oxigénio e nutrientes e de remoção de produtos metabólicos.
Os investigadores observaram, portanto, alterações simultâneas em diferentes características do tecido adiposo: maior expressão de UCP1, presença de adipócitos multiloculares, alterações na expressão de genes associados aos fenótipos bege e castanho e aumento de marcadores relacionados com a vascularização.
É esta combinação de alterações que levou os autores a concluir que o treino promoveu uma remodelação do tecido adiposo branco compatível com um processo de browning.
Porque combinar cardio e treino de força?
O exercício aeróbio e o treino de força provocam adaptações diferentes no organismo.
O exercício aeróbio é particularmente importante para a capacidade cardiorrespiratória, eficiência cardiovascular e utilização de energia. O treino de força, por sua vez, estimula adaptações musculares relacionadas com força, massa muscular e capacidade funcional.
Combinar os dois permite trabalhar diferentes componentes da condição física dentro do mesmo programa de treino.
Neste estudo, os investigadores não realizaram simplesmente cardio e musculação na mesma sessão. O protocolo foi organizado em dias alternados. Em algumas semanas, os animais realizavam treino aeróbio à segunda, quarta e sexta-feira e treino de resistência à terça e quinta-feira. Nas semanas seguintes, a ordem era invertida.
Esta organização procurou reduzir a sobreposição temporal entre os dois estímulos.
Treino combinado significa mais perda de gordura?
Não necessariamente.
Esta é uma distinção importante quando interpretamos os resultados. O estudo demonstrou alterações no tecido adiposo compatíveis com browning, mas isso não significa que o treino combinado provoque automaticamente uma maior perda de gordura corporal em seres humanos.
O metabolismo humano é muito mais complexo do que a expressão de um único marcador molecular. A quantidade de gordura corporal depende do balanço energético, alimentação, atividade física, massa muscular, sono, idade, genética, ambiente hormonal e muitos outros fatores.
Além disso, um aumento de UCP1 não deve ser interpretado isoladamente como sinónimo de uma redução clinicamente relevante da gordura corporal.
O estudo não foi realizado em pessoas
Esta é provavelmente a principal limitação que deve acompanhar qualquer interpretação deste trabalho.
Os animais eram ratos Swiss machos jovens e metabolicamente saudáveis. Foram submetidos a um protocolo de exercício muito controlado, com cinco sessões semanais durante oito semanas.
Os seres humanos apresentam diferenças importantes relativamente aos ratos, tanto na fisiologia como na quantidade e distribuição do tecido adiposo, níveis de atividade física, alimentação e resposta ao exercício.
Por isso, os resultados são especialmente importantes para compreender mecanismos biológicos, mas ainda não permitem afirmar que um determinado programa de treino produzirá exatamente o mesmo browning no tecido adiposo humano.
O que podemos retirar deste estudo para o treino?
Apesar das limitações, existe uma mensagem prática interessante: não é necessário escolher entre exercício aeróbio e treino de força.
Os dois tipos de exercício podem coexistir num programa bem estruturado.
Para uma pessoa que procura melhorar a saúde metabólica, composição corporal e capacidade física, uma estratégia equilibrada pode incluir treino de força e exercício aeróbio, adaptados à idade, experiência, condição física e objetivos individuais.
O treino de força permite trabalhar a massa muscular, força e capacidade funcional, enquanto o exercício aeróbio acrescenta um estímulo importante para o sistema cardiovascular e para a resistência.
Não é, contudo, necessário transformar o treino numa rotina excessivamente complexa. A consistência ao longo dos meses e anos provavelmente é mais importante do que procurar constantemente métodos extremos ou protocolos muito específicos.
O que é o “browning” e porque interessa?
O conceito de browning tornou-se particularmente interessante na investigação metabólica porque representa uma possível alteração da função do tecido adiposo.
Em vez de funcionar predominantemente como armazenamento de energia, determinadas células podem adquirir características mais semelhantes às células termogénicas.
A UCP1 é importante neste processo porque permite dissipar parte da energia sob a forma de calor através da atividade mitocondrial.
O exercício parece ser um dos estímulos capazes de influenciar este sistema, embora os mecanismos sejam complexos e provavelmente envolvam comunicação entre músculo, tecido adiposo, sistema nervoso e circulação.
Este estudo acrescenta informação ao demonstrar que, em ratos, um programa que combina exercício aeróbio e resistência pode produzir alterações em diferentes depósitos de tecido adiposo.
Não é preciso treinar apenas para perder peso
Uma das conclusões mais interessantes deste trabalho é que os benefícios do exercício podem ser muito mais profundos do que aquilo que vemos na balança.
O organismo adapta-se ao exercício através de alterações musculares, cardiovasculares, metabólicas e celulares.
Mesmo quando o peso corporal muda pouco, podem ocorrer alterações importantes na capacidade física, força, sensibilidade metabólica e funcionamento dos tecidos.
É por isso que avaliar exclusivamente o peso corporal pode dar uma visão demasiado limitada dos efeitos do exercício.
Como aplicar esta informação na prática?
Para a população geral, este estudo não justifica a criação de um protocolo específico para provocar browning. A evidência ainda não permite determinar qual a quantidade ideal de cardio, qual o tipo de musculação ou qual a combinação necessária para reproduzir estes efeitos em seres humanos.
O que podemos retirar com maior segurança é a importância de integrar diferentes estímulos de exercício.
Um programa pode incluir sessões de força para os principais grupos musculares e sessões de exercício aeróbio, como caminhada rápida, corrida, bicicleta ou outras atividades adequadas à pessoa.
A frequência, intensidade e duração devem ser ajustadas individualmente, sobretudo em pessoas com mais de 40 anos, excesso de peso, dores, doenças cardiovasculares ou outras condições clínicas.
Treino para além da estética
O interesse deste estudo vai além da procura por uma menor percentagem de gordura corporal.
Ao mostrar alterações no tecido adiposo, o trabalho reforça a ideia de que o exercício é um estímulo biológico capaz de modificar diferentes tecidos do organismo.
O músculo não é o único tecido que responde ao treino. O tecido adiposo também pode adaptar-se ao estímulo físico.
Contudo, é importante evitar interpretações exageradas. Este estudo foi realizado em animais e não demonstrou que o treino combinado provoque maior perda de gordura, menor risco de doença ou maior longevidade em seres humanos.
São necessários estudos clínicos em pessoas para determinar se estas alterações moleculares e celulares também acontecem de forma semelhante no tecido adiposo humano e se têm consequências relevantes para a saúde metabólica.
Conclusão
Um estudo publicado em 17 de setembro de 2026 mostrou que oito semanas de treino combinado, envolvendo exercício aeróbio e treino de resistência, provocaram alterações no tecido adiposo branco de ratos.
Entre as alterações encontradas estavam maior expressão de UCP1, aumento de marcadores relacionados com a vascularização, presença de adipócitos multiloculares e aumento de genes associados aos fenótipos castanho e bege.
Os resultados sugerem que a combinação de diferentes formas de exercício pode promover uma remodelação metabólica do tecido adiposo.
Mas existe uma ressalva fundamental: trata-se de investigação realizada em ratos. Ainda não podemos afirmar que o mesmo efeito aconteça da mesma forma em seres humanos.
Para quem treina, a mensagem mais sólida continua a ser mais simples: combinar treino de força e exercício aeróbio pode proporcionar estímulos complementares e trabalhar diferentes componentes da saúde e da condição física.
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Referências
- Picoli, C. C., Gilio, G. R., Henriques, F. et al. A combination of aerobic and resistance training induces white adipose tissue browning. Journal of Physiology and Biochemistry, 2026.
- Data do estudo mais recente: publicado em 17 de setembro de 2026.
- Artigo científico completo: Springer Nature, Journal of Physiology and Biochemistry.
- DOI: 10.1007/s13105-026-01234-7.
https://link.springer.com/article/10.1007/s13105-026-01234-7?utm_source=chatgpt.com