A doença coronária continua a representar uma das principais causas de doença cardiovascular. Apesar dos avanços no diagnóstico, na medicação e nas intervenções coronárias, muitas pessoas continuam a viver durante anos depois de um enfarte do miocárdio ou de uma intervenção de revascularização.
Neste contexto, a reabilitação cardíaca baseada no exercício assume um papel importante. Uma nova atualização da revisão Cochrane avaliou a eficácia desta abordagem em adultos com doença coronária, comparando programas estruturados de exercício com ausência de exercício estruturado.
A revisão incluiu 107 ensaios clínicos randomizados e 26.886 participantes. A investigação avaliou mortalidade, enfarte do miocárdio, hospitalizações, procedimentos de revascularização, qualidade de vida e custo-efetividade.
O que é a reabilitação cardíaca?
A reabilitação cardíaca é um programa estruturado destinado a pessoas com doença cardiovascular. O exercício constitui uma das suas componentes fundamentais, podendo ser combinado com educação, estratégias psicossociais e acompanhamento de fatores de risco.
O objetivo não é simplesmente fazer uma pessoa “treinar mais”. A reabilitação procura melhorar a capacidade funcional, facilitar o regresso às atividades quotidianas, reduzir fatores de risco e apoiar a gestão da doença cardiovascular a longo prazo.
Os programas podem envolver exercício aeróbio, treino de força ou uma combinação de diferentes formas de exercício, com intensidade e volume adaptados à condição clínica.
Uma revisão com mais de 26 mil participantes
A nova revisão representa uma atualização importante da evidência existente. Os investigadores pesquisaram várias bases de dados científicas, incluindo CENTRAL, MEDLINE, Embase, Web of Science e CINAHL, além de registos de ensaios clínicos.
Foram incluídos ensaios clínicos randomizados com pelo menos seis meses de acompanhamento.
Dos 107 estudos incluídos, 22 eram novos relativamente à versão anterior da revisão, acrescentando 3.456 participantes.
A maioria dos participantes tinha antecedentes de enfarte do miocárdio ou tinha sido submetida a algum tipo de revascularização coronária. A idade média dos participantes variou entre 47 e 81 anos.
Menor risco de novo enfarte
Um dos resultados mais relevantes foi observado relativamente ao enfarte do miocárdio.
Nos primeiros seis a 12 meses de acompanhamento, a reabilitação cardíaca baseada no exercício esteve associada a uma redução significativa do risco de enfarte do miocárdio.
A razão de risco foi de 0,72, com intervalo de confiança de 95% entre 0,54 e 0,95. Isto corresponde a uma redução relativa aproximada de 28% no risco de enfarte nos estudos analisados.
A certeza da evidência para este resultado foi considerada elevada.
Este é um resultado particularmente importante porque demonstra que os benefícios da reabilitação cardíaca não se limitam à melhoria da condição física ou da capacidade de exercício.
Menos hospitalizações
A revisão também encontrou uma redução significativa nas hospitalizações por todas as causas.
A razão de risco foi de 0,65, com intervalo de confiança de 95% entre 0,51 e 0,82.
Em termos relativos, isto corresponde a aproximadamente 35% menos risco de hospitalização por qualquer causa durante o período de seis a 12 meses analisado.
Os autores estimaram um número necessário para tratar de aproximadamente 17 pessoas. Isto significa que, dentro dos pressupostos estatísticos da análise, seria necessário proporcionar reabilitação cardíaca a cerca de 17 pessoas para evitar uma hospitalização adicional nesse período.
É importante recordar que este número é uma estimativa populacional e não significa que uma pessoa individual tenha exatamente essa probabilidade de benefício.
E a mortalidade?
Os resultados relativos à mortalidade foram mais modestos, mas também relevantes.
Durante os primeiros seis a 12 meses, a reabilitação baseada no exercício provavelmente reduz ligeiramente a mortalidade por todas as causas.
A razão de risco foi de 0,86, com intervalo de confiança de 95% entre 0,74 e 1,00.
Para a mortalidade cardiovascular, a estimativa foi de 0,87, com intervalo de confiança de 0,68 a 1,11. Neste caso, a incerteza estatística foi maior e os resultados não demonstraram uma diferença clara no curto prazo.
Nos períodos de acompanhamento superiores a 12 meses, contudo, os autores referem uma associação entre a reabilitação cardíaca e menor mortalidade cardiovascular.
O exercício não substitui a medicina cardiovascular
Estes resultados não significam que o exercício possa substituir medicamentos, angioplastia, cirurgia ou outras intervenções indicadas para uma determinada pessoa.
A reabilitação cardíaca deve ser entendida como parte de uma estratégia integrada de tratamento.
Após um enfarte ou uma intervenção coronária, a combinação entre tratamento médico adequado, controlo dos fatores de risco, alimentação, cessação tabágica quando aplicável e exercício estruturado pode ser muito mais relevante do que qualquer componente isolada.
Qualidade de vida também melhorou
Um dos benefícios mais consistentes encontrados pela revisão foi a melhoria da qualidade de vida relacionada com a saúde.
Os estudos identificaram melhorias em vários domínios do questionário SF-36, incluindo funcionamento físico, vitalidade, saúde geral, funcionamento social e componentes físicos e mentais.
Também foram observadas melhorias nos resultados do EQ-5D.
Este aspeto é importante porque o sucesso de um programa de reabilitação cardíaca não deve ser medido apenas através da mortalidade ou de novos eventos cardiovasculares.
Conseguir caminhar mais, subir escadas com menos esforço, regressar ao trabalho, participar em atividades familiares ou recuperar confiança para realizar exercício pode representar uma mudança muito significativa na vida quotidiana.
O papel da capacidade física
A doença coronária pode conduzir a uma redução da atividade física. Depois de um evento cardiovascular, é frequente existir receio de fazer esforço.
Esse receio pode criar um ciclo de menor atividade, perda de condição física e maior dificuldade em realizar tarefas quotidianas.
A reabilitação cardíaca procura quebrar esse ciclo através de uma progressão controlada.
O exercício permite desenvolver novamente a capacidade cardiovascular e muscular, enquanto a monitorização ajuda a ajustar a intensidade à resposta individual.
O treino não tem de ser exclusivamente cardiovascular
Embora o exercício aeróbio tenha tradicionalmente um papel central na reabilitação cardíaca, o treino de força também é relevante.
A força muscular influencia a capacidade para caminhar, levantar objetos, subir escadas e realizar muitas outras atividades quotidianas.
Um programa moderno de exercício pode combinar diferentes estímulos, desde que sejam adequados à condição clínica da pessoa.
A progressão deve ser individualizada e respeitar sintomas, capacidade funcional, medicação, historial cardiovascular e orientação da equipa de saúde.
Reabilitação em casa e através de meios digitais
Uma evolução interessante identificada nesta atualização é o aparecimento de diferentes modelos de prestação da reabilitação cardíaca.
Os estudos mais recentes incluem programas realizados em casa e intervenções apoiadas digitalmente.
Esta evolução pode ser importante porque a distância, os horários, o transporte ou a dificuldade em frequentar regularmente um centro podem constituir barreiras à participação.
Uma reabilitação eficaz não depende necessariamente de todas as sessões ocorrerem num ginásio ou hospital. O essencial é garantir que o programa é estruturado, adequado e acompanhado de forma segura.
O problema da adesão
Uma das questões mais importantes na prática clínica é a manutenção do comportamento ao longo do tempo.
Começar um programa de exercício pode ser relativamente fácil. Mantê-lo durante meses e anos é mais difícil.
Por isso, a reabilitação cardíaca deve procurar desenvolver autonomia. O objetivo final não é tornar a pessoa dependente de sessões supervisionadas para sempre, mas ajudá-la a compreender o exercício e integrá-lo na sua vida.
A existência de diferentes modelos, incluindo opções domiciliárias e digitais, pode contribuir para aumentar a acessibilidade.
Uma intervenção também considerada custo-efetiva
A revisão incluiu oito estudos de avaliação económica. Estes estudos apontaram de forma consistente para a custo-efetividade da reabilitação cardíaca baseada no exercício, considerando os anos de vida ajustados pela qualidade.
Este resultado acrescenta outra dimensão importante à discussão. Uma intervenção pode ser clinicamente útil e, simultaneamente, representar uma utilização eficiente dos recursos de saúde.
Limitações da evidência
Apesar da dimensão da revisão, existem algumas limitações.
Cerca de um quarto dos ensaios foi realizado em períodos anteriores à utilização generalizada das atuais estratégias de tratamento médico otimizado da doença coronária.
Além disso, a qualidade do relato dos estudos foi variável e alguns apresentaram risco elevado de viés em determinados domínios.
A participação feminina também continua a ser uma limitação importante. Embora 78% dos ensaios tenham incluído mulheres, estas representaram apenas 17% dos participantes no conjunto dos estudos.
Isto significa que é necessário continuar a aumentar a representação das mulheres na investigação sobre reabilitação cardíaca.
O que podemos retirar desta revisão?
A nova revisão Cochrane reforça o papel do exercício na recuperação e gestão da doença coronária.
Em comparação com ausência de exercício estruturado, a reabilitação cardíaca baseada no exercício está associada a menos enfartes, menos hospitalizações, provável redução ligeira da mortalidade e melhoria da qualidade de vida.
Os resultados também mostram que a reabilitação cardíaca está a evoluir. Programas domiciliários e soluções apoiadas digitalmente podem ajudar a ultrapassar algumas das barreiras tradicionais de acesso.
Para quem teve um enfarte, foi submetido a angioplastia ou cirurgia de revascularização, o exercício não deve ser encarado como um esforço isolado. Faz parte de um processo de recuperação que deve ser progressivo, individualizado e integrado no acompanhamento médico.
Conclusão
A evidência acumulada ao longo de mais de uma centena de ensaios clínicos mostra que a reabilitação cardíaca baseada no exercício pode produzir benefícios clinicamente relevantes em pessoas com doença coronária.
Os benefícios incluem menor risco de enfarte do miocárdio, menos hospitalizações e melhorias importantes na qualidade de vida. Os resultados sobre mortalidade são mais modestos no curto prazo, mas apontam para possíveis benefícios cardiovasculares durante acompanhamentos mais prolongados.
O exercício deve, contudo, ser prescrito de acordo com a condição cardiovascular individual. Depois de um evento cardíaco, aumentar simplesmente a intensidade não é o objetivo. A prioridade é construir capacidade de forma progressiva, segura e sustentável.
Posso ajudar
Posso ajudar a estruturar exercício progressivo após avaliação médica, combinando força, capacidade cardiovascular, mobilidade e recuperação, respeitando condição clínica, experiência e objetivos individuais.
Referências
- Dibben G, de Vries FBG, Faulkner J, Oldridge N, Rees K, Stens NA, Thijssen D, Thompson DR, Zwisler AD. Exercise-based cardiac rehabilitation for coronary heart disease. Cochrane Database of Systematic Reviews. 2026;9:CD001800.
- PubMed — PMID 42754260
- DOI: 10.1002/14651858.CD001800.pub5
- Texto integral — PMC