Depois de um diagnóstico de doença cardiovascular, é frequente surgir uma preocupação compreensível: “Será seguro fazer exercício?” Para algumas pessoas, esta preocupação pode tornar-se suficientemente intensa para levar à redução ou mesmo à evitação da atividade física.
Este fenómeno é conhecido como cinesiofobia, um medo excessivo ou persistente relacionado com o movimento e a atividade física. Em pessoas com doença cardiovascular, pode assumir particular importância porque a própria sensação de aumento da frequência cardíaca, respiração acelerada ou esforço muscular pode ser interpretada como um sinal de perigo.
Uma nova revisão sistemática e meta-análise publicada em setembro de 2026 analisou precisamente esta questão: o exercício pode reduzir o medo do movimento e do esforço em pessoas com doença cardiovascular? Os investigadores incluíram 10 estudos, envolvendo 1.505 pessoas.
O que é a cinesiofobia?
A cinesiofobia não significa simplesmente falta de vontade para fazer exercício. Trata-se de um medo associado ao movimento, muitas vezes relacionado com a expectativa de que determinada atividade possa provocar dor, sintomas, agravamento da doença ou outro acontecimento adverso.
No contexto cardiovascular, este medo pode desenvolver-se depois de acontecimentos como enfarte do miocárdio, diagnóstico de doença coronária, insuficiência cardíaca, procedimentos cardiovasculares ou episódios que tenham provocado sintomas durante o esforço.
Existe aqui um paradoxo importante. A pessoa pode evitar o exercício precisamente por recear que ele seja perigoso, mas a redução prolongada da atividade física pode contribuir para perda de capacidade funcional, força muscular, autonomia e aptidão cardiorrespiratória.
Por isso, a questão não é simplesmente incentivar alguém a “fazer mais exercício”. É necessário criar condições para que o movimento seja percebido como uma atividade progressiva, controlada e adequada à condição clínica.
O que analisou o novo estudo?
Os investigadores realizaram uma revisão sistemática da literatura e uma meta-análise para avaliar a eficácia e a segurança das intervenções de exercício destinadas a reduzir a cinesiofobia em pessoas com doença cardiovascular.
Foram pesquisadas oito bases de dados desde o início dos seus registos até 27 de novembro de 2025. No total, 10 estudos, correspondendo a 1.505 participantes, foram incluídos na análise quantitativa.
A análise utilizou modelos de efeitos aleatórios e foram realizadas análises de subgrupos e de sensibilidade para tentar perceber as possíveis fontes de heterogeneidade entre os estudos.
O exercício reduziu o medo de fazer exercício?
De acordo com a meta-análise, as intervenções de exercício estiveram associadas a uma redução dos níveis de cinesiofobia.
O efeito combinado foi de SMD -0,91, com intervalo de confiança de 95% entre -1,33 e -0,49.
À primeira vista, trata-se de uma diferença relevante. No entanto, existe uma questão fundamental: a heterogeneidade entre os estudos foi muito elevada, com I² de 93%.
Isso significa que os resultados individuais dos estudos diferiram consideravelmente entre si.
Assim, o resultado global é promissor, mas não permite concluir que exista uma determinada modalidade de exercício, intensidade ou duração que seja universalmente eficaz para todas as pessoas com doença cardiovascular.
Porque é importante reduzir o medo do exercício?
O medo excessivo do esforço pode transformar-se num obstáculo à reabilitação cardiovascular.
Uma pessoa que associa o aumento da frequência cardíaca ao perigo pode interromper uma caminhada quando começa a respirar mais depressa. Outra pode evitar subir escadas ou realizar exercícios de força porque interpreta o esforço muscular como potencialmente prejudicial.
Este comportamento pode criar um ciclo:
- medo do esforço;
- redução da atividade física;
- perda de capacidade física;
- maior dificuldade perante esforços quotidianos;
- maior perceção de esforço;
- aumento da preocupação com os sintomas;
- nova redução da atividade.
A reabilitação cardiovascular procura precisamente interromper este ciclo através de uma exposição progressiva e controlada ao exercício.
Exercício não significa simplesmente “treinar mais”
Uma das mensagens mais importantes deste estudo é que não devemos interpretar os resultados como uma recomendação para aumentar indiscriminadamente a intensidade do exercício.
Os próprios autores salientam que as diferenças observadas entre parâmetros de exercício não permitem estabelecer recomendações definitivas. As análises de subgrupos foram exploratórias e baseadas em amostras relativamente pequenas.
Na prática, a prescrição deve considerar a doença cardiovascular específica, sintomas, medicação, capacidade funcional, experiência anterior de exercício e resposta individual ao esforço.
Em muitos casos, começar com intensidades moderadas e aumentar progressivamente a duração, frequência ou intensidade pode ser mais adequado do que procurar rapidamente exercícios muito exigentes.
A importância da reabilitação cardiovascular
A reabilitação cardiovascular é particularmente relevante neste contexto porque combina exercício estruturado com educação e acompanhamento clínico.
O objetivo não é apenas melhorar a condição física. É também ajudar a pessoa a compreender as respostas normais ao exercício e distinguir essas respostas de sinais que justificam avaliação médica.
Durante uma sessão, por exemplo, é normal existir aumento da frequência cardíaca, ventilação e temperatura corporal. A pessoa que interpreta automaticamente estas alterações como perigosas pode desenvolver ainda mais receio do esforço.
Uma abordagem progressiva permite criar experiências positivas de movimento e aumentar gradualmente a confiança na capacidade física.
Mas o estudo também apresenta limitações importantes
Os resultados devem ser interpretados com alguma prudência.
Apesar da redução estatisticamente significativa da cinesiofobia, os estudos incluídos foram classificados como apresentando risco moderado de viés. Além disso, a heterogeneidade foi muito elevada.
A informação sobre segurança foi particularmente limitada. Apenas dois dos 10 estudos apresentavam dados suficientes para permitir uma análise mais robusta da segurança das intervenções.
Por isso, a evidência disponível ainda é insuficiente para estabelecer conclusões sólidas e generalizáveis sobre a segurança do exercício especificamente para reduzir a cinesiofobia nesta população.
Também não é possível utilizar estes resultados para afirmar que uma determinada intensidade, modalidade ou frequência de exercício seja a melhor para todas as pessoas com doença cardiovascular.
O papel da educação e do acompanhamento
O estudo destaca uma ideia particularmente interessante: em pessoas com níveis elevados de medo do exercício, a intervenção pode beneficiar de uma abordagem que vá além do treino físico.
Educação em saúde, acompanhamento adequado e, quando necessário, apoio psicológico podem ser importantes para corrigir interpretações incorretas sobre o risco associado ao movimento.
A monitorização dos sinais vitais durante o exercício e a avaliação sistemática da cinesiofobia podem ajudar a identificar pessoas que necessitam de maior acompanhamento.
Esta abordagem é particularmente relevante porque o medo do exercício pode ter componentes físicos e psicológicos. Melhorar apenas a capacidade muscular ou cardiovascular pode não ser suficiente se a pessoa continuar a acreditar que o esforço representa uma ameaça.
O que podemos retirar deste estudo?
A principal mensagem é simples: o medo do exercício não deve ser ignorado em pessoas com doença cardiovascular.
A atividade física pode estar associada a uma redução da cinesiofobia, mas a evidência atual ainda apresenta limitações importantes. O efeito observado é promissor, mas não justifica uma prescrição universal de exercício baseada apenas nesta meta-análise.
Para quem apresenta doença cardiovascular, o exercício deve ser encarado como uma intervenção que necessita de individualização. A intensidade, duração, frequência, tipo de exercício e progressão devem ser ajustados à situação clínica e à resposta da pessoa.
Mais do que simplesmente dizer “faça exercício”, é importante criar um processo em que a pessoa consiga recuperar gradualmente a confiança no movimento.
Exercício e doença cardiovascular depois dos 40
Com o envelhecimento, preservar capacidade cardiovascular, força muscular, equilíbrio e autonomia torna-se cada vez mais importante. Para pessoas com doença cardiovascular, estes objetivos podem assumir ainda maior relevância.
O desafio está em encontrar o equilíbrio entre segurança e estímulo suficiente para produzir adaptações.
Um programa bem estruturado pode começar com tarefas relativamente simples e evoluir progressivamente. Caminhar, pedalar, realizar exercícios de força ou combinar diferentes formas de atividade podem fazer parte da estratégia, dependendo da condição clínica.
A progressão deve ser baseada na resposta individual e não numa comparação com pessoas saudáveis ou com atletas.
Conclusão
A nova revisão sistemática e meta-análise sugere que intervenções de exercício podem reduzir a cinesiofobia em pessoas com doença cardiovascular. Foram analisados 10 estudos com 1.505 participantes e observou-se uma redução significativa dos níveis de medo associado ao movimento.
Contudo, a elevada heterogeneidade, o risco moderado de viés e a informação limitada sobre segurança impedem conclusões definitivas sobre qual a melhor forma de exercício ou sobre a segurança específica das diferentes estratégias.
A mensagem prática é, por isso, mais abrangente: quando existe doença cardiovascular e medo do exercício, a solução pode não ser evitar o movimento, mas sim construir progressivamente confiança, capacidade física e conhecimento sobre a resposta normal ao esforço, sempre respeitando as indicações clínicas individuais.
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Referências
- Zheng X, Zou H, Fan YJ, Dong P, Yuan W, Chen Y. Safety and effectiveness of exercise interventions for kinesiophobia in patients with cardiovascular disease: a systematic review and meta-analysis. Disability and Rehabilitation. 2026. PubMed