Alimentos ultraprocessados, ingestão energética e aumento de peso: o que mostram os ensaios clínicos?

Alimentos ultraprocessados, ingestão energética e aumento de peso: o que mostram os ensaios clínicos? September 24, 2026Leave a comment

Os alimentos ultraprocessados têm sido associados em numerosos estudos observacionais a maior risco de obesidade e várias doenças crónicas. Mas uma questão é particularmente importante: quando pessoas são colocadas aleatoriamente perante dietas com diferentes níveis de processamento, os alimentos ultraprocessados fazem realmente comer mais e ganhar mais peso?

Uma nova revisão sistemática e meta-análise publicada na Critical Reviews in Food Science and Nutrition procurou responder a esta questão através da análise exclusiva de ensaios clínicos randomizados.

Os resultados sugerem que as dietas com alimentos ultraprocessados tendem a aumentar a ingestão energética e estiveram associadas a maior aumento de peso e maior velocidade de ingestão. No entanto, a interpretação exige cautela, porque as dietas comparadas não foram necessariamente equivalentes em composição nutricional e a certeza global da evidência foi considerada baixa.

O que são alimentos ultraprocessados?

O conceito de alimentos ultraprocessados é geralmente associado à classificação NOVA, que distingue os alimentos segundo o seu grau e finalidade de processamento.

Os alimentos ultraprocessados são formulações industriais que podem incluir vários ingredientes, aditivos e componentes modificados. Exemplos podem incluir determinados snacks, bebidas açucaradas, produtos de pastelaria industrial, refeições prontas, cereais de pequeno-almoço muito processados e outros produtos formulados para serem práticos e altamente palatáveis.

Contudo, ultraprocessado não é sinónimo de “mau alimento” em todas as circunstâncias, tal como alimento não processado não significa automaticamente alimento nutricionalmente adequado.

O processamento é apenas uma das características que podem influenciar o valor nutricional de uma dieta.

Porque são importantes os ensaios clínicos?

Grande parte da investigação sobre alimentos ultraprocessados é observacional. Nestes estudos, os investigadores acompanham grupos de pessoas e verificam se determinados padrões alimentares estão associados a diferentes resultados de saúde.

Este tipo de investigação é importante, mas não consegue eliminar completamente a possibilidade de fatores associados ao estilo de vida explicarem parte das diferenças observadas.

Os ensaios clínicos randomizados permitem uma comparação diferente. Os participantes são distribuídos por diferentes intervenções e os investigadores conseguem controlar melhor determinadas variáveis.

Por isso, uma revisão que reúna apenas ensaios clínicos randomizados pode ajudar a perceber se existe evidência experimental de que o grau de processamento alimentar influencia diretamente a ingestão energética e o peso.

O que analisou o novo estudo?

Os investigadores realizaram uma revisão sistemática e meta-análise pré-registada de ensaios clínicos randomizados realizados em seres humanos.

Foram identificados 10 estudos elegíveis que compararam dietas constituídas por alimentos ultraprocessados com dietas compostas por alimentos menos processados.

Os principais resultados analisados foram a ingestão energética e o peso corporal.

Os investigadores realizaram ainda análises secundárias relacionadas com sensação de apetite, velocidade de ingestão, palatabilidade e características nutricionais das dietas.

As pessoas comeram mais com alimentos ultraprocessados?

De forma geral, os grupos que receberam dietas com alimentos ultraprocessados apresentaram maior ingestão energética.

Os tamanhos de efeito variaram entre diferentes modelos estatísticos, com valores padronizados aproximadamente entre 0,18 e 0,44. No entanto, nem todas as análises atingiram significância estatística.

Este detalhe é importante porque impede uma conclusão demasiado simplista.

Os dados apontam para uma tendência consistente no sentido de maior ingestão energética, mas a magnitude exata do efeito depende da análise utilizada e das características dos estudos incluídos.

Maior aumento de peso

Um dos resultados mais relevantes foi observado no peso corporal.

Os grupos que consumiram dietas com alimentos ultraprocessados apresentaram maior aumento de peso, com um tamanho de efeito padronizado de 0,65.

Este resultado fornece evidência experimental de que determinados padrões alimentares ricos em alimentos ultraprocessados podem facilitar um consumo energético superior e, consequentemente, favorecer o aumento de peso.

Contudo, é importante não transformar este resultado numa afirmação de que todos os alimentos ultraprocessados provocam aumento de peso ou de que o processamento, isoladamente, explica todo o fenómeno.

A velocidade de ingestão pode ser importante

Outro resultado particularmente interessante foi a velocidade de ingestão.

Os participantes que consumiram dietas com alimentos ultraprocessados apresentaram uma velocidade de ingestão significativamente superior, com um tamanho de efeito de aproximadamente 0,96.

Este resultado pode ajudar a compreender parte da relação entre processamento e ingestão energética.

Quando uma refeição é consumida rapidamente, existe menos tempo para que os sinais de saciedade acompanhem a quantidade de energia ingerida. Alimentos de textura macia, fáceis de mastigar e consumir rapidamente podem facilitar uma ingestão elevada em determinado período.

No entanto, a velocidade de ingestão não é determinada exclusivamente pelo grau de processamento. Textura, quantidade de fibra, teor de água, densidade energética e comportamento alimentar também podem influenciar a velocidade com que uma pessoa come.

E a fome ou o apetite?

Curiosamente, a meta-análise não encontrou diferenças significativas consistentes nas sensações de apetite.

Este resultado é interessante porque seria intuitivo pensar que comer mais com uma determinada dieta teria necessariamente de ser explicado por maior fome.

Os resultados sugerem que a relação pode ser mais complexa.

Uma pessoa pode ingerir mais energia sem necessariamente relatar níveis superiores de fome. Características como velocidade de ingestão, densidade energética, textura, facilidade de consumo e tamanho das porções podem contribuir para esse comportamento.

Os alimentos ultraprocessados são mais saborosos?

Outra análise avaliou a palatabilidade.

Não foram observadas diferenças significativas consistentes entre as dietas relativamente à palatabilidade.

Este resultado é particularmente interessante porque uma das explicações frequentemente apresentadas para o consumo excessivo de alimentos ultraprocessados é a sua elevada capacidade de recompensa.

A evidência experimental reunida nesta análise não permite, contudo, afirmar que maior palatabilidade seja o mecanismo principal responsável pelo aumento da ingestão energética observado.

A densidade energética pode ser uma peça fundamental

Talvez a parte mais importante do estudo seja a análise da densidade energética.

Os investigadores observaram que o efeito sobre a ingestão energética variava de acordo com a densidade energética das dietas comparadas.

Quando as dietas ultraprocessadas apresentavam maior densidade energética do que as dietas menos processadas, o efeito sobre a ingestão energética foi mais evidente.

Quando a densidade energética era semelhante, a diferença praticamente desaparecia.

Este resultado levanta uma questão importante: será que parte do efeito atribuído ao processamento é, na realidade, explicado pela quantidade de energia existente em determinado volume ou peso de alimento?

Os dados disponíveis não permitem responder definitivamente a esta questão, mas sugerem que a densidade energética deve ser considerada cuidadosamente.

Processamento ou composição nutricional?

Esta é uma das principais limitações dos estudos atualmente disponíveis.

Para comparar alimentos ultraprocessados com alimentos menos processados, é necessário construir duas dietas. Mas essas dietas podem diferir em várias características ao mesmo tempo.

Podem apresentar diferenças na quantidade de fibra, proteína, gordura, hidratos de carbono, densidade energética, textura, volume, teor de água e velocidade de consumo.

Assim, quando uma dieta produz maior ingestão energética, torna-se difícil determinar se o efeito foi causado pelo processamento em si ou por uma combinação destas características.

Os autores salientam precisamente esta questão e referem que as dietas dos ensaios incluídos não foram necessariamente correspondentes em termos de perfil nutricional.

O que significa isto para quem quer controlar o peso?

Na prática, os resultados sugerem que a composição dos alimentos pode influenciar a quantidade de energia que conseguimos ingerir antes de nos sentirmos satisfeitos.

Uma alimentação baseada predominantemente em alimentos com elevada densidade energética e fáceis de consumir rapidamente pode facilitar um consumo energético superior.

Por outro lado, alimentos ricos em água e fibra, com maior necessidade de mastigação e menor densidade energética, podem tornar mais fácil controlar a quantidade total de energia ingerida.

Este princípio pode ser mais útil do que simplesmente dividir todos os alimentos entre “bons” e “maus”.

Nem todo o alimento ultraprocessado tem o mesmo efeito

É importante evitar generalizações.

O termo ultraprocessado inclui uma variedade muito grande de produtos com características nutricionais completamente diferentes.

Uma bebida açucarada, uma refeição pronta, um pão industrial, um snack salgado e um produto enriquecido nutricionalmente podem ser classificados dentro de categorias semelhantes de processamento, mas não apresentam necessariamente o mesmo conteúdo energético, teor de fibra, proteína ou capacidade de saciedade.

Por isso, a classificação pode ser útil para investigação populacional, mas pode ser insuficiente para avaliar isoladamente a qualidade nutricional de cada produto.

O que este estudo não demonstra?

O estudo não demonstra que o grau de processamento seja, por si só, responsável por todos os efeitos observados.

Também não demonstra que eliminar completamente alimentos ultraprocessados seja necessário para controlar o peso.

Além disso, os autores classificaram a certeza da evidência como baixa. O número de ensaios disponíveis continua relativamente reduzido e existem diferenças importantes entre os protocolos utilizados.

Por isso, os resultados devem ser interpretados como evidência experimental relevante, mas ainda não definitiva.

Como utilizar esta informação no dia a dia?

Uma abordagem prática pode passar menos por uma proibição absoluta e mais por observar densidade energética, fibra, proteína, textura, velocidade de ingestão e qualidade global da dieta.

Substituir regularmente determinados snacks, sobremesas ou refeições altamente processadas por alimentos menos processados pode ser uma estratégia útil para algumas pessoas.

Também pode ser útil comer mais devagar, prestar atenção às refeições e escolher alimentos que proporcionem maior volume e saciedade por unidade de energia.

Estas estratégias não dependem de classificar cada alimento como permitido ou proibido.

Conclusão

Esta revisão sistemática e meta-análise de ensaios clínicos randomizados acrescenta informação importante ao debate sobre alimentos ultraprocessados e controlo do peso.

Nos estudos analisados, as dietas com alimentos ultraprocessados tenderam a produzir maior ingestão energética e estiveram associadas a maior aumento de peso. A velocidade de ingestão também foi significativamente superior.

Por outro lado, não foram encontradas diferenças significativas consistentes na sensação de apetite ou palatabilidade. As análises sugerem ainda que a densidade energética pode desempenhar um papel importante na explicação dos resultados.

A mensagem mais equilibrada é que o grau de processamento pode ser relevante, mas não deve ser analisado isoladamente. A densidade energética, composição nutricional, textura, fibra, proteína, velocidade de consumo e contexto global da alimentação também importam.

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Referências

  • Robinson E, Jones A, Evans R, Finlay A, Brealey J, Gough T, Cummings J, Fisher E, Jutla M, Ibilola EM, Norton V. A systematic review and meta-analysis of randomized controlled trials examining the effect of ultra-processed food on energy intake and weight gain. Critical Reviews in Food Science and Nutrition. 2026; publicação online em 16 de setembro de 2026. DOI: 10.1080/10408398.2026.2731838. PubMed