Exercício físico e cancro: poderá o treino contribuir para uma maior sobrevivência?

Exercício físico e cancro: poderá o treino contribuir para uma maior sobrevivência? October 1, 2026Leave a comment

Durante muitos anos, o exercício físico no contexto oncológico foi sobretudo associado à melhoria da qualidade de vida, da capacidade funcional, da fadiga e do bem-estar. Atualmente, a investigação começa a explorar uma questão ainda mais importante: poderá o exercício físico estruturado também estar relacionado com uma maior sobrevivência e menor risco de mortalidade em pessoas com cancro?

Uma revisão sistemática e meta-análise publicada em 2026 no British Journal of Sports Medicine analisou esta questão através dos resultados de ensaios clínicos randomizados. Foram incluídos 21 estudos realizados em adultos com diagnóstico de cancro, procurando perceber se programas estruturados de exercício poderiam estar associados a diferentes resultados relacionados com sobrevivência e evolução da doença.

Os resultados são relevantes: os investigadores encontraram associações favoráveis entre exercício estruturado e sobrevivência global, sobrevivência livre de doença, mortalidade por todas as causas e mortalidade específica por cancro. No entanto, é fundamental interpretar estes resultados dentro do contexto dos estudos analisados e não transformar a investigação numa promessa de tratamento.

O que analisou este novo estudo?

Os investigadores realizaram uma revisão sistemática e meta-análise de ensaios clínicos randomizados. A pesquisa incluiu bases de dados como PubMed, Embase, Cochrane CENTRAL, Web of Science, Scopus e ClinicalTrials.gov, considerando estudos disponíveis até 20 de dezembro de 2025.

Foram selecionados estudos que incluíam adultos com cancro confirmado e que avaliavam intervenções estruturadas de exercício com resultados relacionados com sobrevivência ou características patológicas da doença.

No total, 21 ensaios clínicos randomizados foram incluídos na análise. A utilização de ensaios randomizados é particularmente importante porque permite uma avaliação mais robusta dos efeitos de uma intervenção do que estudos exclusivamente observacionais.

Exercício e sobrevivência global

Um dos resultados mais relevantes foi a associação entre exercício estruturado e sobrevivência global.

Na análise de 11 ensaios, envolvendo 3828 participantes, o exercício esteve associado a um hazard ratio de 0,77, com intervalo de confiança de 95% entre 0,65 e 0,92.

De forma simplificada, um hazard ratio inferior a 1 significa que, no conjunto dos estudos analisados, o grupo submetido à intervenção de exercício apresentou menor taxa de ocorrência do evento analisado durante o período de acompanhamento.

É importante, contudo, não interpretar este número como significando que o exercício reduz diretamente a mortalidade exatamente em 23% para qualquer pessoa com cancro. O hazard ratio é uma medida estatística relativa e o resultado depende das populações, tipos de cancro, intervenções e períodos de acompanhamento incluídos nos estudos.

Menor mortalidade por todas as causas

Os investigadores também observaram uma associação favorável relativamente à mortalidade por todas as causas.

Foram analisados 13 ensaios, envolvendo 5492 participantes. O risco relativo foi de 0,82, com intervalo de confiança de 95% entre 0,70 e 0,97.

Este resultado sugere que, nos estudos incluídos, os participantes submetidos às intervenções estruturadas de exercício apresentaram menor mortalidade por todas as causas do que os participantes dos grupos de comparação.

Esta é uma diferença importante relativamente à ideia tradicional de que o exercício durante ou depois do tratamento do cancro serve apenas para ajudar a pessoa a sentir-se melhor.

A investigação começa a apontar para uma possível relação também com resultados clínicos mais importantes, embora sejam necessários mais estudos para compreender exatamente quais os mecanismos responsáveis por estas associações.

Exercício e mortalidade específica por cancro

Outro resultado analisado foi a mortalidade especificamente atribuída ao cancro.

Seis ensaios, envolvendo 2048 participantes, foram incluídos nesta análise. O risco relativo observado foi de 0,74, com intervalo de confiança de 95% entre 0,57 e 0,96.

Mais uma vez, este resultado deve ser interpretado como uma associação observada no conjunto dos ensaios analisados e não como prova de que o exercício substitui tratamentos oncológicos convencionais.

O exercício deve ser entendido como uma intervenção que pode integrar os cuidados de saúde da pessoa com cancro, em conjunto com o tratamento médico adequado e de acordo com as características individuais de cada caso.

Sobrevivência livre de doença

A meta-análise encontrou também resultados favoráveis para a sobrevivência livre de doença.

Foram incluídos sete ensaios, envolvendo 5077 participantes. O hazard ratio foi de 0,83, com intervalo de confiança de 95% entre 0,72 e 0,95.

A sobrevivência livre de doença é particularmente interessante no contexto oncológico porque não representa simplesmente estar vivo. Refere-se ao período durante o qual não é detetada recorrência ou progressão de determinadas formas da doença, de acordo com os critérios utilizados em cada estudo.

Assim, os resultados levantam a possibilidade de o exercício ter efeitos que ultrapassam a melhoria da capacidade física e do bem-estar.

Nem todos os resultados foram positivos

Uma leitura rigorosa do estudo exige também atenção aos resultados que não apresentaram diferenças significativas.

A meta-análise não encontrou associação significativa entre as intervenções de exercício e a sobrevivência livre de progressão. Também não encontrou efeito significativo relativamente à resposta patológica completa.

Este ponto é importante porque impede uma interpretação exagerada dos resultados. O exercício apresentou resultados favoráveis em alguns indicadores de sobrevivência, mas não em todos os resultados analisados.

A investigação científica raramente permite reduzir uma questão complexa a uma única conclusão. Diferentes tipos de cancro, tratamentos, fases da doença, modalidades de exercício e níveis de adesão podem produzir respostas diferentes.

Que tipo de exercício pareceu mais relevante?

As análises exploratórias realizadas pelos investigadores sugeriram benefícios mais pronunciados entre participantes com maior adesão ao programa de exercício, aqueles que realizaram exercício aeróbio e pessoas com doença em fases mais precoces.

Estes resultados são interessantes, mas devem ser encarados como análises exploratórias. Não significam que o exercício aeróbio seja necessariamente superior ao treino de força em todos os tipos de cancro ou para todas as pessoas.

Na realidade, diferentes modalidades de exercício podem ter funções complementares.

O treino de força pode ajudar a preservar ou aumentar a capacidade muscular. O exercício aeróbio pode contribuir para a capacidade cardiorrespiratória. Exercícios de mobilidade, equilíbrio e coordenação podem ser importantes para manter autonomia e segurança.

Uma intervenção de exercício em oncologia deve, por isso, ser individualizada e integrada no contexto clínico da pessoa.

Porque é que o exercício poderá influenciar a evolução do cancro?

O estudo não estabelece um mecanismo único que explique os resultados encontrados. No entanto, existem várias hipóteses biológicas que ajudam a compreender porque é que o exercício está a ser investigado como parte dos cuidados oncológicos.

A atividade física regular pode melhorar a capacidade cardiorrespiratória, a força muscular, a composição corporal, a sensibilidade à insulina e a saúde metabólica. Também pode influenciar processos relacionados com inflamação, função imunitária e metabolismo.

Além disso, manter níveis adequados de atividade física pode ajudar a reduzir a perda de capacidade funcional associada ao sedentarismo, à doença e a alguns tratamentos.

Contudo, estes mecanismos potenciais não devem ser confundidos com uma demonstração de causalidade para cada tipo de cancro. A biologia do cancro é extremamente complexa e varia entre doenças, pessoas e tratamentos.

Exercício durante o tratamento do cancro

Uma das ideias mais importantes desta investigação é que o exercício não deve necessariamente ser visto como algo que começa apenas depois de terminar o tratamento.

Dependendo do diagnóstico, do tratamento, dos sintomas e da condição física, algumas pessoas podem beneficiar de exercício adaptado durante diferentes fases do percurso oncológico.

Mas isto não significa que todas as pessoas com cancro devam realizar o mesmo tipo de treino.

Cirurgia recente, quimioterapia, radioterapia, imunoterapia, alterações hematológicas, metástases ósseas, neuropatia, fadiga intensa, alterações cardiovasculares ou outras complicações podem modificar significativamente a forma como o exercício deve ser prescrito.

Por isso, a integração do exercício nos cuidados oncológicos deve ser feita com avaliação individual e articulação com a equipa de saúde.

O exercício não substitui o tratamento médico

Este é provavelmente o ponto mais importante para interpretar corretamente os resultados.

O estudo não demonstra que uma pessoa possa tratar um cancro apenas através de exercício físico. Os participantes dos ensaios estavam inseridos em contextos de cuidados oncológicos e as intervenções de exercício foram estudadas como complemento.

Cirurgia, quimioterapia, radioterapia, terapias hormonais, terapias-alvo, imunoterapia e outras intervenções continuam a desempenhar papéis fundamentais de acordo com o tipo e estádio do cancro.

O exercício deve ser encarado como uma possível componente adicional dos cuidados, e não como substituto da terapêutica indicada pelo oncologista.

A importância da adesão ao exercício

Um dos dados mais interessantes da investigação é a indicação de que os resultados poderão ser mais pronunciados entre pessoas com maior adesão.

Esta observação tem uma implicação prática importante: um programa teoricamente excelente tem pouco valor se a pessoa não conseguir realizá-lo de forma consistente.

Na oncologia, isto pode ser particularmente relevante porque os níveis de energia, os sintomas e a capacidade física podem variar muito ao longo do tratamento.

Um programa de exercício deve, por isso, permitir progressão, mas também adaptação. Em determinados períodos poderá ser possível realizar uma sessão completa. Noutros, poderá ser necessário reduzir a duração, a intensidade ou o volume.

Manter alguma atividade física quando possível pode ser mais realista do que tentar manter sempre a mesma carga de treino.

O que significa esta investigação para a prática?

Esta nova meta-análise reforça a importância de considerar o exercício físico como uma componente potencialmente relevante dos cuidados oncológicos.

Os resultados observados em 21 ensaios clínicos randomizados mostram associações favoráveis com sobrevivência global, sobrevivência livre de doença e mortalidade, com evidência classificada pelos autores como de certeza moderada para estes principais resultados.

Ao mesmo tempo, existem resultados sem diferenças significativas e continuam a existir perguntas importantes sobre a dose ideal de exercício, a modalidade mais adequada, a frequência, a intensidade e a melhor altura para iniciar ou ajustar o treino.

O futuro da investigação deverá ajudar a perceber melhor estas diferenças e a definir programas cada vez mais individualizados.

Conclusão

O exercício físico é cada vez mais estudado como parte dos cuidados integrados da pessoa com cancro. A nova revisão sistemática e meta-análise publicada no British Journal of Sports Medicine encontrou associações favoráveis entre exercício estruturado e vários indicadores de sobrevivência.

Os resultados incluíram melhor sobrevivência global, maior sobrevivência livre de doença e menor mortalidade por todas as causas e por cancro. No entanto, não foram observados benefícios significativos em todos os resultados, incluindo sobrevivência livre de progressão e resposta patológica completa.

A mensagem mais equilibrada é, portanto, que o exercício poderá ter um papel mais amplo na oncologia do que apenas melhorar a qualidade de vida e a capacidade física. A evidência atual é promissora, mas a prescrição deve continuar a ser individualizada e integrada com os cuidados médicos.

Para quem trabalha com exercício físico, esta investigação reforça a importância de olhar para o treino não apenas como uma ferramenta para melhorar desempenho, força ou composição corporal, mas também como uma intervenção que pode contribuir para a saúde global ao longo de diferentes fases da vida.

Posso ajudar

Posso ajudar a adaptar o exercício às capacidades individuais, objetivos e limitações, trabalhando força, mobilidade e condição física em articulação com as orientações da equipa de saúde.

Referências

  1. Tzang CC, Luo CA, Kuo VFH, et al. Structured exercise interventions and survival outcomes in patients with cancer: systematic review and meta-analysis of randomised controlled trials. British Journal of Sports Medicine. 2026.
    PubMed
  2. DOI:
    10.1136/bjsports-2026-111664