Proteína e perda de gordura: o que mostra um novo estudo com bombeiros

Proteína e perda de gordura: o que mostra um novo estudo com bombeiros October 2, 2026Leave a comment

Aumentar a ingestão de proteína pode ajudar a melhorar a composição corporal? Um novo estudo publicado na revista Medicine & Science in Sports & Exercise analisou esta questão através de uma intervenção de 14 semanas com substitutos de refeição ricos em proteína em bombeiros com excesso de peso ou obesidade.

Os resultados são interessantes porque mostram melhorias na percentagem de gordura corporal, na ingestão de proteína e fibra e em alguns indicadores de composição corporal. Ao mesmo tempo, vários marcadores importantes, como pressão arterial, colesterol, massa magra e desempenho no teste de subir escadas, não apresentaram alterações significativas.

O estudo não demonstra que os batidos de proteína sejam necessários para perder gordura. Mostra, antes, que uma estratégia nutricional relativamente simples, quando consegue aumentar a ingestão de proteína e fibra e é bem aceite pelos participantes, pode contribuir para melhorar alguns indicadores de saúde e composição corporal.

Como foi realizado o estudo?

Os investigadores realizaram um ensaio clínico randomizado por clusters, envolvendo 26 quartéis de bombeiros e 51 profissionais com excesso de peso ou obesidade.

Os participantes tinham uma idade média de aproximadamente 37 anos e um índice de massa corporal médio de 33,1 kg/m².

Os quartéis foram distribuídos entre um grupo que recebeu a intervenção nutricional e um grupo de controlo em lista de espera.

A intervenção consistiu num substituto de refeição rico em proteína. Durante a primeira semana, os participantes consumiram um batido por dia. Entre a segunda e a décima quarta semana, passaram a consumir dois batidos por dia, mantendo liberdade relativamente à restante alimentação.

O principal objetivo era perceber se esta estratégia poderia alterar a percentagem de gordura corporal, medida através de absorciometria de raios X de dupla energia, conhecida como DXA.

Foram também avaliados peso corporal, IMC, distribuição da gordura, ingestão de macronutrientes, pressão arterial, frequência cardíaca, lípidos sanguíneos e desempenho físico.

Houve redução da percentagem de gordura corporal

Um dos resultados mais relevantes foi uma redução estatisticamente significativa da percentagem de gordura corporal no grupo que realizou a intervenção.

A diferença estimada entre grupos foi de aproximadamente 1 ponto percentual de gordura corporal.

Embora possa parecer uma alteração modesta, a composição corporal não deve ser avaliada exclusivamente através do peso. Uma pessoa pode perder gordura sem apresentar uma redução proporcional na balança, especialmente quando existem alterações simultâneas na massa muscular ou na retenção de líquidos.

Neste estudo, porém, a intervenção não produziu uma alteração significativa da massa magra.

Por isso, os resultados devem ser interpretados como uma melhoria da composição corporal, mas não como evidência de que a estratégia tenha provocado um aumento de massa muscular.

Mais proteína e mais fibra

Uma das alterações nutricionais mais claras foi o aumento da ingestão de proteína e fibra.

O rácio entre hidratos de carbono e proteína também diminuiu significativamente.

Este resultado é importante porque a qualidade de uma estratégia de perda de gordura não depende apenas da quantidade de calorias ingeridas.

A proteína desempenha funções relevantes na manutenção dos tecidos, na recuperação após o exercício e na preservação da massa muscular durante períodos de redução do peso corporal.

A fibra, por sua vez, está associada a maior saciedade e desempenha um papel importante na alimentação global e na saúde metabólica.

No entanto, é importante não concluir que mais proteína significa automaticamente mais perda de gordura. A resposta depende da alimentação global, ingestão energética, atividade física, sono, adesão e características individuais.

O peso e o IMC também melhoraram

A intervenção produziu alterações significativas no peso corporal e no índice de massa corporal, além de reduções na gordura do tronco.

Também foram observadas alterações favoráveis em algumas medidas relacionadas com a distribuição da gordura corporal, incluindo os rácios de gordura androide/ginoide e tronco/membros.

A localização da gordura corporal é relevante porque a acumulação de gordura na região abdominal está associada a um perfil cardiometabólico menos favorável.

Apesar disso, é importante recordar que este foi um estudo relativamente pequeno e de duração limitada. Não podemos extrapolar automaticamente os resultados para toda a população com excesso de peso ou para pessoas de diferentes idades, níveis de atividade física ou condições clínicas.

Não houve redução significativa das calorias totais

Um detalhe particularmente interessante é que a intervenção não produziu uma diferença significativa na ingestão calórica total.

Isto levanta uma questão importante: como pode melhorar a composição corporal sem uma redução significativa das calorias relatadas?

Uma possibilidade é que alterações na distribuição dos macronutrientes e na qualidade alimentar tenham contribuído para mudanças na composição corporal. No entanto, os mecanismos exatos não podem ser determinados apenas através deste estudo.

Além disso, os registos alimentares estão sujeitos a limitações. As pessoas podem subestimar ou sobrestimar aquilo que comem, sobretudo quando a alimentação ocorre fora de um ambiente laboratorial.

Por isso, não devemos interpretar estes resultados como prova de que as calorias deixam de ser importantes para a perda de gordura.

E a massa muscular?

Esta é uma questão especialmente importante para quem pratica treino de força.

Apesar do aumento da ingestão de proteína, não foi observada uma alteração significativa da massa magra atribuível à intervenção.

Este resultado lembra-nos que a proteína é apenas uma das peças do puzzle.

Para aumentar ou preservar massa muscular, especialmente durante uma fase de perda de gordura, é necessário considerar também o estímulo mecânico proporcionado pelo treino de força, a ingestão energética, a recuperação, o sono e a quantidade total de proteína consumida.

Um batido rico em proteína não substitui o treino de força.

O que aconteceu à pressão arterial e ao colesterol?

Apesar das melhorias na composição corporal, não foram encontradas diferenças significativas na pressão arterial, frequência cardíaca de repouso ou lípidos sanguíneos.

Este resultado é particularmente importante porque evita uma interpretação exagerada do estudo.

Uma intervenção pode melhorar determinados indicadores sem necessariamente melhorar todos os marcadores de saúde cardiometabólica.

A ausência de diferenças estatisticamente significativas nestes parâmetros também mostra por que razão é importante olhar para vários resultados em vez de considerar apenas o peso corporal.

Melhorou a recuperação cardíaca depois do exercício

Outro resultado interessante foi a melhoria da recuperação da frequência cardíaca após o teste de subir escadas.

A recuperação da frequência cardíaca é frequentemente utilizada como indicador da rapidez com que a frequência cardíaca diminui depois de terminado o esforço.

Uma recuperação mais rápida pode refletir uma resposta cardiovascular mais favorável, embora este parâmetro isoladamente não permita diagnosticar nem excluir doença cardiovascular.

Curiosamente, o tempo necessário para completar o teste de subir escadas não apresentou uma alteração estatisticamente significativa.

Ou seja, os participantes não ficaram necessariamente mais rápidos na tarefa, mas apresentaram uma alteração favorável na recuperação da frequência cardíaca depois do esforço.

Os participantes aderiram bem à estratégia

Um dos aspetos mais interessantes para a aplicação prática foi a elevada adesão aos batidos.

A adesão média foi de aproximadamente 91%.

Além disso, os bombeiros consideraram a intervenção conveniente e indicaram que estariam dispostos a continuar a utilizá-la a longo prazo.

Este ponto é extremamente relevante na nutrição.

Uma estratégia nutricional pode ser teoricamente excelente, mas se for demasiado complicada para a vida real terá pouca utilidade.

Neste caso, a utilização de um substituto de refeição parece ter facilitado a implementação dentro de uma profissão com horários potencialmente exigentes e rotinas alimentares pouco previsíveis.

O que este estudo não demonstra

É importante colocar algumas limitações em perspetiva.

O estudo envolveu apenas 51 bombeiros e teve uma duração de 14 semanas. Os participantes eram adultos relativamente jovens e apresentavam obesidade ou excesso de peso, pelo que os resultados não podem ser diretamente generalizados para pessoas magras, idosos ou populações com características muito diferentes.

Além disso, a intervenção foi baseada num produto específico e não permite concluir que todos os batidos de proteína produzam os mesmos resultados.

Também não podemos afirmar que a proteína, isoladamente, foi responsável por todas as alterações observadas.

O estudo avaliou uma intervenção alimentar completa, e não simplesmente o efeito isolado de aumentar a proteína.

Proteína, treino e composição corporal: uma visão mais realista

Para quem pretende perder gordura e preservar massa muscular, este estudo reforça uma ideia importante: a ingestão adequada de proteína pode fazer parte de uma estratégia alimentar estruturada, mas não deve ser encarada como uma solução isolada.

Na prática, uma abordagem eficaz tende a combinar alimentação adequada, treino de força, atividade física regular, sono suficiente e uma estratégia que a pessoa consiga manter.

Para algumas pessoas, um batido pode ser uma ferramenta prática. Para outras, será perfeitamente possível atingir uma ingestão adequada de proteína através de alimentos como peixe, ovos, carne, lacticínios, leguminosas e outras fontes proteicas.

A escolha deve depender das necessidades individuais, preferências, tolerância, contexto e objetivos.

Conclusão

Este novo ensaio clínico sugere que uma intervenção de 14 semanas baseada em substitutos de refeição ricos em proteína pode melhorar a ingestão de proteína e fibra, reduzir a percentagem de gordura corporal e produzir alterações favoráveis em alguns indicadores de composição corporal em bombeiros com excesso de peso ou obesidade.

Também foi observada uma melhoria na recuperação da frequência cardíaca após o esforço.

Por outro lado, não foram encontradas alterações significativas na massa magra, pressão arterial, frequência cardíaca de repouso, lípidos sanguíneos ou tempo no teste de subir escadas.

A principal mensagem não é que os batidos sejam obrigatórios para perder gordura. É que uma estratégia nutricional simples, rica em proteína e fibra e suficientemente prática para ser mantida, pode facilitar mudanças favoráveis na composição corporal.

Para quem pretende melhorar a saúde e a condição física dos 40 aos 80 anos, a alimentação deve ser integrada com treino de força e exercício regular, sempre adaptados às características e objetivos de cada pessoa.

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Referências

  1. Schmitz AN, Tweedell AJ, Kleinberg CR, Gerstner GR, Buoncristiani NA, Ryan ED. High-Protein Meal Replacement Intervention in Overweight and Obese Career Firefighters: A Cluster Randomized Controlled Trial. Medicine & Science in Sports & Exercise. 2026. PubMed
  2. Schmitz AN, Tweedell AJ, Kleinberg CR, Gerstner GR, Buoncristiani NA, Ryan ED. High-Protein Meal Replacement Intervention in Overweight and Obese Career Firefighters: A Cluster Randomized Controlled Trial. DOI: 10.1249/MSS.0000000000004151. DOI