Um novo estudo publicado na revista Cellular and Molecular Gastroenterology and Hepatology identificou uma possível relação entre os oxalatos presentes na alimentação e a inflamação intestinal associada às doenças inflamatórias do intestino. Os resultados sugerem que alterações na forma como o organismo transporta e elimina os oxalatos podem contribuir para a inflamação em pessoas suscetíveis.
A investigação analisou pessoas com doença de Crohn, colite ulcerosa e indivíduos sem doença inflamatória intestinal, complementando os dados obtidos em humanos com experiências realizadas em modelos animais e em células. Os investigadores observaram alterações consistentes nos transportadores responsáveis pelo processamento intestinal dos oxalatos.
Os resultados não significam que os alimentos ricos em oxalatos devam ser eliminados da alimentação de todas as pessoas. Pelo contrário, o estudo levanta uma questão mais específica: algumas pessoas com doença inflamatória intestinal poderão apresentar uma maior sensibilidade aos oxalatos devido a alterações na capacidade do intestino para os transportar e processar.
O que são os oxalatos?
Os oxalatos são compostos naturais encontrados em numerosos alimentos de origem vegetal. Estão presentes, por exemplo, em alguns vegetais de folha verde, frutos secos, sementes, tubérculos e outros alimentos de origem vegetal.
Em condições normais, uma parte dos oxalatos ingeridos é absorvida pelo intestino e posteriormente eliminada, enquanto outra parte permanece no tubo digestivo. A quantidade efetivamente absorvida depende de vários fatores, incluindo a composição da alimentação, a presença de determinados minerais e a capacidade individual de transportar estes compostos através da parede intestinal.
Os oxalatos são particularmente conhecidos pela sua relação com a formação de alguns tipos de cálculos renais. No entanto, a nova investigação sugere que estes compostos também podem ter importância no próprio intestino, sobretudo quando existem alterações na barreira intestinal ou nos mecanismos responsáveis pelo seu transporte.
O que acontece nas doenças inflamatórias do intestino?
A doença inflamatória intestinal engloba principalmente a doença de Crohn e a colite ulcerosa. São doenças crónicas caracterizadas por inflamação do tubo digestivo, embora apresentem características diferentes.
Na doença de Crohn, a inflamação pode atingir diferentes segmentos do aparelho digestivo e pode estar associada a complicações como estenoses, fístulas e alterações da absorção. Na colite ulcerosa, a inflamação afeta principalmente o cólon e o reto.
A origem destas doenças é complexa. Envolve fatores genéticos, imunológicos, ambientais e alterações da interação entre o organismo e o microbioma intestinal.
A alimentação também pode influenciar os sintomas e determinados mecanismos associados à doença, mas não existe uma dieta única que funcione da mesma forma para todas as pessoas com doença inflamatória intestinal.
Transportadores de oxalato estão alterados
Um dos principais resultados do estudo foi a identificação de alterações nos transportadores intestinais de oxalato.
Os investigadores observaram que os transportadores SLC26A2 e SLC26A3 apresentavam expressão reduzida em diferentes formas de doença inflamatória intestinal. Esta alteração foi encontrada tanto em tecidos do cólon como do íleo e também apareceu nos modelos experimentais de inflamação intestinal.
Estes transportadores participam no movimento de determinadas moléculas através das células intestinais. Quando a sua expressão é alterada, a forma como o intestino lida com os oxalatos pode também mudar.
Esta descoberta é importante porque sugere que uma maior quantidade de oxalato no intestino pode não depender exclusivamente da quantidade ingerida através da alimentação. A própria doença pode alterar a capacidade do intestino para processar e transportar estes compostos.
Pessoas com doença de Crohn apresentaram mais oxalato nas fezes
Os investigadores analisaram também amostras de fezes de pessoas com doença inflamatória intestinal e de indivíduos sem a doença.
Nos participantes com doença de Crohn, foi encontrada uma maior quantidade de oxalato nas fezes, apesar de a ingestão alimentar de oxalato variar. Este resultado sugere que as diferenças observadas não podem ser explicadas apenas pela quantidade de alimentos ricos em oxalatos consumida.
Uma possível explicação é que as alterações intestinais associadas à doença possam modificar a forma como o organismo lida com estes compostos.
Esta distinção é importante porque significa que simplesmente dizer que uma pessoa “come demasiado oxalato” poderá ser uma explicação demasiado simplista. A capacidade individual de transportar, absorver e eliminar oxalatos também pode desempenhar um papel.
O oxalato pode estimular a inflamação?
Para perceber melhor esta relação, os investigadores realizaram experiências em modelos de inflamação intestinal e em sistemas celulares.
Os resultados sugeriram que uma maior exposição ao oxalato pode aumentar determinadas respostas inflamatórias no intestino. Nos modelos animais, uma alimentação suplementada com oxalato esteve associada a alterações da inflamação intestinal, sobretudo em animais suscetíveis à doença.
Este resultado apoia a hipótese de que o oxalato poderá não ser apenas um marcador de alterações intestinais, mas também participar ativamente em alguns mecanismos inflamatórios.
No entanto, é importante distinguir os resultados experimentais daquilo que acontece necessariamente em seres humanos. Os modelos animais são úteis para investigar mecanismos biológicos, mas não permitem concluir automaticamente que a mesma resposta ocorrerá com a mesma intensidade nas pessoas.
Um possível marcador na doença de Crohn
Outro resultado interessante envolveu o transportador SLC26A6.
Os investigadores encontraram uma associação entre alterações na expressão deste transportador e o comportamento estenosante da doença de Crohn. As estenoses correspondem ao estreitamento de segmentos do intestino, uma complicação que pode dificultar a passagem do conteúdo intestinal.
Esta associação levanta a possibilidade de determinados transportadores de oxalato poderem vir a ser estudados como marcadores biológicos da doença.
No entanto, ainda é cedo para afirmar que a análise destes transportadores possa ser utilizada para prever a evolução da doença ou orientar diretamente o tratamento. Serão necessários estudos adicionais, sobretudo acompanhando os doentes ao longo do tempo.
Devemos evitar alimentos ricos em oxalatos?
Esta é provavelmente uma das questões mais importantes para quem lê este estudo. A resposta, com os dados atualmente disponíveis, é que não existe fundamento para recomendar a eliminação generalizada dos alimentos ricos em oxalatos a todas as pessoas com doença inflamatória intestinal.
Muitos alimentos que contêm oxalatos fazem parte de uma alimentação nutricionalmente rica e fornecem fibras, vitaminas, minerais e outros compostos importantes para a saúde.
Uma restrição alimentar excessiva pode também levar a uma redução da variedade da alimentação e dificultar a obtenção de determinados nutrientes.
O estudo sugere antes que poderá existir um grupo de pessoas particularmente sensível aos oxalatos. Identificar quem pertence a esse grupo e perceber qual a quantidade que poderá ser relevante são questões que ainda precisam de ser investigadas.
O papel do intestino e do microbioma
A relação entre oxalatos e inflamação intestinal pode também envolver o microbioma.
Existem bactérias intestinais capazes de degradar oxalato, incluindo Oxalobacter formigenes. Alterações na composição do microbioma podem, teoricamente, modificar a quantidade de oxalato disponível no intestino.
Esta possibilidade é particularmente interessante porque abre uma linha de investigação diferente da simples restrição alimentar. Em vez de tentar retirar determinados alimentos da dieta, futuras estratégias poderão procurar compreender como melhorar a capacidade do intestino e do microbioma para lidar com estes compostos.
No entanto, esta área ainda está em investigação e não existem bases suficientes para recomendar intervenções específicas destinadas a alterar o microbioma com o objetivo de controlar os oxalatos na doença inflamatória intestinal.
O que este estudo significa para a alimentação?
A principal mensagem não é que os oxalatos sejam “maus” ou que os alimentos vegetais sejam prejudiciais. O estudo mostra algo mais complexo: determinados compostos presentes naturalmente nos alimentos podem interagir com características individuais do intestino.
Na doença inflamatória intestinal, a alimentação deve ser adaptada às necessidades de cada pessoa, considerando a atividade da doença, sintomas, tolerância individual, estado nutricional e objetivos clínicos.
Uma alimentação adequada não deve ser construída apenas a partir da lista de alimentos potencialmente inflamatórios. É igualmente importante garantir energia suficiente, proteína, fibra quando tolerada, vitaminas, minerais e variedade alimentar.
O que podemos retirar deste estudo?
Esta investigação acrescenta uma nova peça ao complexo puzzle da doença inflamatória intestinal. Os resultados sugerem que alterações nos transportadores de oxalato podem estar associadas à doença de Crohn e à colite ulcerosa e que uma maior exposição intestinal ao oxalato poderá agravar respostas inflamatórias em indivíduos suscetíveis.
Apesar destes resultados, ainda não é possível estabelecer uma recomendação alimentar geral baseada no consumo de oxalatos. São necessários estudos maiores e de acompanhamento prolongado para determinar se a quantidade de oxalato na alimentação influencia diretamente a evolução da doença e quais as pessoas que poderão ser mais sensíveis.
O estudo reforça, sobretudo, a importância de uma abordagem individualizada à alimentação na doença inflamatória intestinal. Em vez de retirar indiscriminadamente grupos de alimentos, o futuro poderá passar por compreender melhor a interação entre dieta, intestino, microbioma e características biológicas individuais.
Posso ajudar?
Posso ajudar a adaptar o treino às necessidades de cada pessoa, ajustando exercícios, intensidade, volume e progressão para melhorar a condição física de forma segura e adequada aos seus objetivos.