Café, chá e saúde dos ossos: o que diz um estudo com 10 anos de acompanhamento?

Café, chá e saúde dos ossos: o que diz um estudo com 10 anos de acompanhamento? October 3, 2026Leave a comment

O café faz mal aos ossos? O chá pode ajudar a manter a densidade óssea? Estas são perguntas interessantes, sobretudo à medida que envelhecemos e começamos a dar mais importância à prevenção da perda de massa óssea.

Um estudo publicado em 2025 na revista Nutrients analisou precisamente esta questão, acompanhando mulheres mais velhas durante cerca de uma década. Os resultados são interessantes, mas merecem ser interpretados com algum cuidado.

A investigação encontrou uma associação entre o consumo de chá e uma densidade mineral óssea ligeiramente superior na região da anca. Para o café, não foi encontrada uma associação global significativa com a densidade mineral óssea. No entanto, as análises sugeriram que consumos muito elevados, superiores a cinco chávenas por dia, poderiam estar associados a valores inferiores de densidade óssea.

É importante começar por aqui: este estudo não demonstra que beber chá aumenta os ossos nem que beber café provoca osteoporose. Mostra associações observadas numa população específica e durante um determinado período de tempo.

O que foi estudado?

Os investigadores utilizaram dados do Study of Osteoporotic Fractures, um grande estudo prospetivo que acompanhou 9704 mulheres com 65 ou mais anos.

O consumo de café e chá foi avaliado através de questionários em diferentes momentos. Ao mesmo tempo, a densidade mineral óssea foi medida através de absorciometria de raios X de dupla energia, habitualmente conhecida como DXA.

Foram avaliadas duas regiões particularmente importantes:

  • o colo do fémur;
  • a anca total.

Uma das características interessantes deste trabalho é precisamente o facto de não comparar apenas o consumo de café ou chá num determinado momento com uma única medição da densidade óssea. Foram utilizadas várias avaliações ao longo do tempo.

Depois, os investigadores utilizaram modelos estatísticos que tiveram em consideração diferentes fatores, incluindo idade, índice de massa corporal, atividade física, tabagismo, doenças, consumo de cálcio, proteína, álcool e alguns medicamentos.

O que aconteceu com o chá?

O resultado que mais chamou a atenção foi a associação entre o consumo de chá e a densidade mineral óssea da anca.

Na avaliação principal, as mulheres que consumiam chá apresentavam uma densidade mineral óssea da anca total ligeiramente superior às que não consumiam.

A diferença estimada foi de aproximadamente 0,003 g/cm², com valores ajustados de 0,718 contra 0,715 g/cm². A associação foi estatisticamente significativa.

Quando olhamos para estes números, porém, é importante não exagerar a sua importância clínica.

A diferença é pequena. Estatisticamente significativa não significa automaticamente que seja uma diferença grande, que produza uma alteração perceptível na saúde ou que seja suficiente para reduzir o risco de fratura.

Além disso, a associação foi observada sobretudo na densidade mineral óssea da anca total. Não houve uma associação global significativa entre o consumo de chá e a densidade mineral óssea do colo do fémur na análise principal.

E o café?

A situação do café é ainda mais interessante porque o resultado geral foi bastante menos dramático do que muitas manchetes poderiam sugerir.

O consumo de café não apresentou uma associação global significativa com a densidade mineral óssea do colo do fémur ou da anca total durante o acompanhamento principal.

Ou seja, este estudo não permite dizer simplesmente que “o café faz mal aos ossos”.

Nas análises que procuraram relações não lineares, os investigadores observaram, contudo, uma tendência que merece atenção: consumos muito elevados, particularmente superiores a cinco chávenas de café por dia, pareciam estar associados a valores mais baixos de densidade mineral óssea.

Mas há uma diferença importante entre dizer que uma análise sugere uma associação e afirmar que o café provoca perda de massa óssea.

O desenho observacional do estudo não permite estabelecer essa relação de causa e efeito.

Então quantas chávenas de café podemos beber?

É precisamente aqui que devemos evitar transformar um estudo observacional numa regra rígida.

Os resultados sugerem que aproximadamente duas a três chávenas por dia não apresentaram uma relação evidente com menor densidade mineral óssea. Por outro lado, o consumo superior a cinco chávenas surgiu como uma possível zona de maior preocupação nas análises não lineares.

Isso não significa que exista uma fronteira biológica exacta entre cinco e seis chávenas. O organismo não muda de comportamento precisamente quando chegamos à sexta chávena.

Além disso, uma chávena de café pode conter quantidades muito diferentes de cafeína, dependendo do tipo de café, método de preparação e tamanho da bebida.

Por isso, considero mais interessante olhar para estes resultados como uma informação sobre consumos muito elevados, e não como uma proibição do café.

O papel da cafeína

A cafeína é uma das razões pelas quais café e chá são frequentemente estudados em relação à saúde óssea.

Existe uma hipótese de que uma ingestão elevada de cafeína possa interferir com alguns aspetos do metabolismo do cálcio. No entanto, a relação entre cafeína, alimentação, cálcio, vitamina D, atividade física, idade e saúde óssea é bastante mais complexa do que simplesmente “cafeína igual a ossos mais fracos”.

Uma pessoa que bebe muito café pode ter simultaneamente outros comportamentos que influenciam a saúde óssea. É precisamente por isso que os estudos observacionais precisam de ajustes estatísticos e, mesmo assim, não conseguem eliminar completamente todos os fatores de confusão.

O álcool também apareceu nas análises

Outro resultado interessante foi a interação entre consumo de café e consumo de álcool.

A associação entre café e densidade mineral óssea do colo do fémur variou de acordo com o consumo acumulado de álcool ao longo da vida. Isto mostra como os efeitos observados na alimentação raramente podem ser analisados isoladamente.

Não bebemos café num laboratório onde todas as outras variáveis permanecem iguais.

Temos uma alimentação, atividade física, composição corporal, hábitos de sono, consumo de álcool, tabaco, medicamentos e muitos outros fatores que podem contribuir para a saúde dos ossos.

E a atividade física?

Para mim, esta é uma das partes mais importantes quando pensamos na aplicação prática destes resultados.

Mesmo que o chá tenha uma pequena associação positiva com a densidade mineral óssea, seria um erro colocar o foco principal da prevenção da perda óssea numa bebida.

O osso responde a estímulos mecânicos. Caminhar, correr quando apropriado, saltar em pessoas para quem esse tipo de estímulo é adequado e, sobretudo, realizar treino de força são estratégias muito mais relevantes quando pensamos na manutenção da capacidade física à medida que envelhecemos.

O treino de força tem ainda uma vantagem adicional: não estamos apenas a trabalhar o osso. Estamos a trabalhar músculo, força, equilíbrio, capacidade funcional e autonomia.

É esta combinação que considero particularmente importante depois dos 40, 50, 60 ou 70 anos.

O chá substitui o treino?

Não.

E esta é provavelmente a mensagem que mais gostaria de retirar deste estudo.

Se uma pessoa gosta de chá, pode perfeitamente integrá-lo numa alimentação saudável. Os resultados desta investigação são compatíveis com uma possível relação favorável entre consumo de chá e densidade mineral óssea da anca.

Mas não devemos transformar essa associação numa estratégia isolada para prevenir osteoporose.

Uma pessoa que bebe chá todos os dias, mas é sedentária, tem pouca força muscular, ingere pouca proteína, tem uma alimentação inadequada ou não recebe estímulo mecânico suficiente, não resolve esses problemas simplesmente acrescentando chá à alimentação.

O que podemos retirar deste estudo?

Eu resumiria os resultados em quatro ideias.

  1. O chá esteve associado a uma densidade mineral óssea ligeiramente superior na anca das mulheres estudadas.
  2. O café não apresentou uma associação global significativa com a densidade mineral óssea na análise principal.
  3. Mais de cinco chávenas de café por dia surgiu como uma possível associação com menor densidade óssea, mas este resultado não prova causalidade.
  4. Uma bebida não deve ser analisada isoladamente: atividade física, força muscular, alimentação, cálcio, proteína, vitamina D, composição corporal e outros fatores também fazem parte da equação.

Uma conclusão mais equilibrada

Este estudo acrescenta informação interessante à discussão sobre café, chá e saúde óssea. A investigação acompanhou uma população numerosa de mulheres mais velhas durante vários anos e utilizou medições repetidas de consumo e densidade mineral óssea.

O chá apresentou uma associação pequena, mas estatisticamente significativa, com maior densidade mineral óssea da anca total. O café, por sua vez, não mostrou uma associação global significativa, embora consumos muito elevados tenham levantado a possibilidade de uma relação menos favorável.

Para mim, a mensagem prática não é “troque o café pelo chá para proteger os ossos”. É mais simples do que isso.

Podemos beber café e chá dentro de um estilo de vida equilibrado, mas a saúde óssea não deve depender de uma bebida.

Se queremos envelhecer com ossos fortes e, sobretudo, com capacidade para continuar a mexer-nos, devemos olhar para o conjunto: treino de força, atividade física, alimentação adequada, proteína suficiente, micronutrientes, peso corporal, equilíbrio e prevenção de quedas.

O chá pode fazer parte desse conjunto. O café também. Mas nenhum dos dois substitui aquilo que o corpo realmente precisa de estímulo para manter: músculo, força, movimento e capacidade funcional.

Posso ajudar

Posso ajudar a construir um treino adaptado à idade, força, dores e objetivos, procurando melhorar capacidade física, equilíbrio, autonomia e confiança no movimento.

Referências

  • Liu RY, Liu E. Longitudinal Association of Coffee and Tea Consumption with Bone Mineral Density in Older Women: A 10-Year Repeated-Measures Analysis in the Study of Osteoporotic Fractures. Nutrients. 2025;17(23):3660. Artigo original.
  • Longitudinal Association of Coffee and Tea Consumption with Bone Mineral Density in Older Women. PubMed. PubMed.
  • Study of Osteoporotic Fractures (SOF). SOF Online.