Será que aquilo que acontece com o metabolismo pode influenciar também o funcionamento do cérebro? Esta é uma das perguntas que tem despertado maior interesse na investigação sobre envelhecimento, diabetes e doença de Alzheimer.
Nos últimos anos surgiu uma expressão que aparece cada vez mais na literatura científica e nos meios de comunicação: “diabetes tipo 3”. O termo é utilizado para descrever a hipótese de que alterações relacionadas com a insulina e com o metabolismo da glicose no cérebro possam participar nos mecanismos envolvidos na doença de Alzheimer.
Uma revisão sistemática publicada em 2025 na revista Diabetology & Metabolic Syndrome analisou precisamente esta relação. Os investigadores procuraram reunir a evidência disponível sobre a ligação entre resistência à insulina, alterações metabólicas e doença de Alzheimer.
Foram incluídos 213 estudos, abrangendo investigação molecular, estudos em humanos e modelos animais. A revisão procurou compreender não apenas a associação entre diabetes e alterações cognitivas, mas também os possíveis mecanismos biológicos envolvidos.
O que significa “diabetes tipo 3”?
Antes de mais, é importante esclarecer uma questão.
“Diabetes tipo 3” não é atualmente uma classificação clínica equivalente à diabetes tipo 1 ou à diabetes tipo 2.
É um termo utilizado por alguns investigadores para descrever a hipótese de existir uma forma de resistência à insulina ou de disfunção da sinalização da insulina no cérebro associada à doença de Alzheimer.
A ideia nasceu da observação de que existem algumas semelhanças entre alterações metabólicas da diabetes tipo 2 e determinados processos encontrados no cérebro de pessoas com doença de Alzheimer.
Isso não significa que a doença de Alzheimer seja simplesmente “diabetes no cérebro”. A realidade é muito mais complexa.
Porque é que a insulina interessa ao cérebro?
Quando pensamos em insulina, normalmente pensamos imediatamente na regulação da glicose no sangue.
Mas a insulina também participa em processos importantes no sistema nervoso central.
A sinalização da insulina está envolvida na regulação do metabolismo energético, sobrevivência celular, plasticidade sináptica e funcionamento neuronal.
Quando estes mecanismos ficam comprometidos, podem ocorrer alterações na forma como os neurónios utilizam energia e comunicam entre si.
A revisão analisada descreve precisamente esta possibilidade: alterações na sinalização da insulina cerebral podem contribuir para alterações metabólicas e moleculares associadas à neurodegeneração.
Resistência à insulina e cérebro
Na resistência à insulina, as células deixam de responder adequadamente ao sinal da insulina.
No metabolismo periférico, isto pode contribuir para alterações da glicemia e para o desenvolvimento da diabetes tipo 2.
No cérebro, a hipótese estudada é que uma perturbação semelhante na sinalização da insulina possa interferir com mecanismos importantes para a função neuronal.
Um dos caminhos analisados na revisão envolve a via PI3K/Akt.
Esta via participa na sobrevivência celular e em diferentes processos relacionados com o metabolismo e a função neuronal. Quando a sinalização fica alterada, podem surgir consequências em várias vias celulares.
Uma dessas consequências está relacionada com a enzima GSK-3β, que pode participar na hiperfosforilação da proteína tau.
O que é a proteína tau?
A proteína tau está normalmente presente nos neurónios e ajuda a manter a estrutura dos microtúbulos, estruturas fundamentais para o funcionamento das células nervosas.
Na doença de Alzheimer, a tau pode sofrer alterações anormais, incluindo hiperfosforilação, contribuindo para a formação de emaranhados neurofibrilares.
A revisão descreve uma possível ligação entre alterações na sinalização da insulina e estes processos.
Mais uma vez, é importante separar mecanismo biológico de prova clínica. Encontrar uma via molecular plausível não significa automaticamente que corrigir essa via consiga prevenir ou tratar a doença de Alzheimer.
E a beta-amiloide?
A beta-amiloide é outra das proteínas mais conhecidas na investigação da doença de Alzheimer.
A acumulação e agregação de formas anormais de beta-amiloide está associada à fisiopatologia da doença.
A revisão descreve possíveis relações entre resistência à insulina, alterações no metabolismo cerebral e mecanismos relacionados com a produção, eliminação e acumulação de beta-amiloide.
Esta é uma das razões pelas quais a hipótese da “diabetes tipo 3” tem despertado interesse científico.
Se alterações metabólicas podem interferir com a capacidade do cérebro para utilizar energia e manter determinados processos celulares, é possível que diferentes mecanismos associados à neurodegeneração estejam interligados.
Inflamação e stress oxidativo
Mas a história não termina na insulina.
A revisão também destaca o papel potencial da neuroinflamação e do stress oxidativo.
O cérebro necessita de uma enorme quantidade de energia e possui uma atividade metabólica muito elevada. Alterações no metabolismo energético podem aumentar a vulnerabilidade das células nervosas.
Ao mesmo tempo, processos inflamatórios crónicos e aumento do stress oxidativo podem contribuir para alterações celulares.
Estes mecanismos podem interagir entre si.
Resistência à insulina, disfunção mitocondrial, stress oxidativo, inflamação, alterações na beta-amiloide e tau não devem necessariamente ser vistos como fenómenos independentes. Podem fazer parte de uma rede biológica complexa.
O papel das mitocôndrias
Outro ponto importante é a função mitocondrial.
As mitocôndrias são estruturas responsáveis por grande parte da produção de energia das células. Nos neurónios, que apresentam necessidades energéticas elevadas, a função mitocondrial é particularmente importante.
A revisão descreve alterações relacionadas com mecanismos de biogénese mitocondrial e regulação energética que podem estar envolvidos na neurodegeneração.
Quando pensamos em envelhecimento saudável, isto ajuda-nos a perceber porque é que atividade física e saúde metabólica são temas tão relevantes.
Diabetes tipo 2 aumenta o risco de demência?
A revisão apresenta evidência epidemiológica que relaciona diabetes tipo 2 com maior risco de défice cognitivo e demência.
É uma associação importante, mas também aqui devemos evitar simplificações.
Ter diabetes tipo 2 não significa que uma pessoa irá desenvolver doença de Alzheimer. Da mesma forma, uma pessoa sem diabetes pode desenvolver Alzheimer.
A doença de Alzheimer é multifatorial. Idade, genética, saúde cardiovascular, atividade física, sono, educação, fatores ambientais, doenças metabólicas e muitos outros elementos podem participar no risco individual.
A diabetes pode ser entendida como um dos fatores metabólicos potencialmente relevantes, e não como uma explicação única para a doença.
O que isto tem a ver com exercício?
É aqui que considero que este tema se torna especialmente interessante para quem trabalha com exercício físico.
Quando treinamos uma pessoa, não estamos apenas a tentar aumentar o tamanho de um músculo ou melhorar uma determinada capacidade física.
O exercício influencia o metabolismo.
A atividade física regular pode melhorar a sensibilidade à insulina, aumentar a capacidade funcional, favorecer o controlo da glicemia e contribuir para a saúde cardiovascular.
O treino também permite preservar massa muscular e capacidade física à medida que envelhecemos.
Por isso, mesmo que a hipótese da “diabetes tipo 3” continue a ser estudada, existe uma mensagem mais simples e prática: cuidar da saúde metabólica é também uma forma de cuidar da saúde cerebral ao longo do envelhecimento.
Treino de força e saúde metabólica
O treino de força merece particular atenção.
O músculo esquelético é um dos principais tecidos responsáveis pela utilização da glicose. A contração muscular aumenta a captação de glicose e o treino regular pode melhorar a capacidade do organismo para lidar com nutrientes.
Além disso, preservar massa muscular é particularmente importante com o avançar da idade.
Não precisamos de transformar cada sessão num treino extremo.
Para muitas pessoas acima dos 40 ou 50 anos, um programa consistente de treino de força, caminhada, exercício cardiovascular e trabalho de equilíbrio pode ser muito mais sustentável do que procurar soluções rápidas ou protocolos excessivamente complexos.
E a alimentação?
A alimentação também faz parte da saúde metabólica.
Uma alimentação equilibrada, adequada às necessidades individuais, pode ajudar no controlo do peso corporal e de fatores metabólicos associados à resistência à insulina.
Mas também aqui devemos evitar a ideia de que existe uma dieta específica capaz de impedir a doença de Alzheimer.
A investigação sobre nutrição, metabolismo e demência é complexa e continua em desenvolvimento.
É provavelmente mais útil pensar em padrões alimentares sustentáveis do que procurar um único alimento, suplemento ou ingrediente com propriedades quase milagrosas.
Uma palavra importante sobre a prevenção
Quando aparecem expressões como “diabetes tipo 3”, existe o risco de uma ideia científica interessante ser transformada numa explicação demasiado simples.
A revisão apresenta mecanismos plausíveis e uma relação importante entre resistência à insulina e alterações associadas à doença de Alzheimer. No entanto, os próprios autores salientam a necessidade de investigação futura e de ensaios clínicos de maior dimensão para confirmar se intervenções dirigidas a estas vias conseguem realmente produzir benefícios neuroprotetores.
Ou seja, compreender um mecanismo não é o mesmo que provar um tratamento.
O que retiro deste estudo?
Para mim, a principal mensagem é que cérebro e metabolismo não devem ser vistos como sistemas completamente separados.
A saúde metabólica pode estar relacionada com processos que também acontecem no cérebro, e a resistência à insulina é uma das áreas que merece mais investigação.
O conceito de “diabetes tipo 3” é interessante como hipótese científica, mas não deve ser apresentado como se fosse simplesmente um novo tipo oficial de diabetes.
O que já sabemos é suficientemente importante: envelhecer mantendo atividade física, força muscular, capacidade cardiovascular e uma boa saúde metabólica faz sentido por muitas razões.
Não precisamos de prometer que o exercício vai prevenir Alzheimer.
Podemos dizer algo muito mais sólido: manter o corpo metabolicamente ativo e fisicamente capaz é uma estratégia importante para envelhecer com maior autonomia e saúde.
Posso ajudar
Posso ajudar a estruturar um treino adaptado à idade, condição física e objetivos, trabalhando força, resistência e capacidade funcional de forma progressiva e sustentável.
Referências
- Atabi F, Moassesfar M, Nakhaie T, Bagherian M, Hosseinpour N, Hashemi M. A systematic review on type 3 diabetes: bridging the gap between metabolic dysfunction and Alzheimer’s disease. Diabetology & Metabolic Syndrome. 2025;17:356.
- Artigo original – Springer Nature
- DOI do artigo