Quando pensamos em avaliar o metabolismo, pensamos normalmente em análises ao sangue. Glicose, colesterol, triglicéridos, enzimas hepáticas e outros marcadores ajudam-nos a perceber como o organismo responde à alimentação e ao estilo de vida.
Mas será que a saliva também pode fornecer informação útil sobre estas respostas?
Um estudo publicado em 2026 na revista Nutrition investigou precisamente esta possibilidade. Os investigadores compararam as respostas metabólicas de adultos saudáveis a dietas com diferentes proporções de proteína, gordura e hidratos de carbono, analisando marcadores no sangue e na saliva.
Os resultados sugerem que determinadas alterações relacionadas com o metabolismo podem ser detetadas nos dois fluidos. No entanto, a saliva não reproduziu todas as alterações observadas no sangue, pelo que ainda não pode ser considerada um substituto das análises convencionais.
Como foi realizado o estudo?
A investigação incluiu 12 adultos saudáveis que participaram num estudo controlado, com desenho cruzado. Isto significa que os mesmos participantes experimentaram diferentes intervenções alimentares, permitindo comparar as respostas individuais entre dietas.
Cada intervenção durou sete dias e privilegiou um macronutriente diferente:
- Uma dieta rica em proteína.
- Uma dieta rica em gordura.
- Uma dieta rica em hidratos de carbono.
Entre as intervenções, os participantes seguiram períodos de transição alimentar baseados num padrão de estilo mediterrânico. Os investigadores recolheram amostras de sangue em jejum e amostras de saliva estimulada antes e depois das intervenções. A saliva foi também avaliada num momento intermédio, ao quarto dia.
Foram analisados diferentes parâmetros bioquímicos e características físico-químicas da saliva, incluindo o pH e a capacidade tampão, que corresponde à capacidade de neutralizar ácidos.
O objetivo era perceber se diferentes padrões alimentares provocavam respostas metabólicas identificáveis na saliva e se essas respostas acompanhavam as alterações observadas no sangue.
O que aconteceu com a dieta rica em proteína?
Uma das respostas mais claras surgiu com a dieta rica em proteína. Os investigadores observaram um aumento da ureia no sangue e do amónio salivar, acompanhado por uma diminuição do ácido úrico sanguíneo.
Estas alterações são compatíveis com modificações no metabolismo dos compostos azotados, que estão relacionados com a digestão e utilização das proteínas.
Quando ingerimos proteína, o organismo utiliza os aminoácidos para construir e reparar tecidos, produzir enzimas e realizar outras funções essenciais. O azoto que não é utilizado nesses processos tem de ser metabolizado e eliminado, sobretudo através da formação de ureia, que é posteriormente excretada pelos rins.
O estudo encontrou também uma associação entre as alterações da ureia no sangue e as alterações do amónio na saliva. Este resultado é interessante porque sugere que um marcador salivar poderá, em determinadas circunstâncias, refletir parcialmente uma resposta metabólica relacionada com a ingestão de proteína.
Contudo, é importante não extrapolar. Uma associação observada num grupo de apenas 12 pessoas não demonstra que a medição do amónio salivar consiga quantificar com precisão a ingestão proteica ou avaliar a função renal. Para isso seriam necessários estudos maiores e validação específica.
E quando a alimentação é rica em hidratos de carbono?
Na intervenção rica em hidratos de carbono, os investigadores observaram uma diminuição do pH salivar e da capacidade tampão da saliva.
O pH indica o grau de acidez ou alcalinidade de uma solução. A capacidade tampão representa a possibilidade de resistir a alterações do pH quando são adicionados ácidos.
Estas características são relevantes para a saúde oral. A saliva ajuda a neutralizar ácidos produzidos na boca e contribui para a proteção dos dentes. Quando o ambiente oral se torna mais ácido, pode aumentar a preocupação com a desmineralização dentária, sobretudo se a exposição for frequente e acompanhada por outros fatores de risco.
No entanto, uma alteração do pH salivar durante uma intervenção alimentar curta não significa, por si só, que os participantes tenham desenvolvido doença dentária. O estudo avaliou parâmetros bioquímicos, não a evolução clínica de cáries ou de outras doenças orais.
Os investigadores procuraram ainda relacionar estas alterações salivares com mudanças na resistência à insulina. As associações analisadas não atingiram significância estatística. Portanto, não podemos concluir que a medição do pH ou da capacidade tampão da saliva permita avaliar a resistência à insulina.
O que aconteceu com a dieta rica em gordura?
Na dieta rica em gordura, foram observadas diminuições de duas enzimas medidas no sangue: a GOT, também conhecida como AST, e a LDH, ou lactato desidrogenase.
Estas enzimas participam em processos metabólicos e podem ser medidas em análises clínicas, mas não são marcadores exclusivos de uma única doença ou função orgânica. A sua interpretação depende dos valores encontrados, do contexto clínico e de outros resultados.
Nesta intervenção, não foram identificadas alterações significativas nos parâmetros salivares avaliados. Isto mostra que as respostas à alimentação não são necessariamente iguais em todos os tecidos ou fluidos biológicos.
Também seria incorreto interpretar a descida destas enzimas como prova de que uma dieta rica em gordura é mais saudável ou protege o fígado. O estudo foi curto, envolveu poucos participantes e não foi concebido para avaliar resultados clínicos de longo prazo.
A saliva pode substituir as análises ao sangue?
Esta é provavelmente a questão mais importante para quem lê os resultados.
A saliva é uma amostra relativamente fácil de recolher, não exige uma punção venosa e pode ser útil em determinadas áreas da investigação clínica. Por estas razões, tem despertado interesse no estudo de biomarcadores associados à alimentação, ao stress, à saúde oral e a diferentes processos fisiológicos.
Mas ser fácil de recolher não significa que seja automaticamente uma alternativa equivalente ao sangue.
Os resultados deste estudo mostram respostas paralelas para alguns parâmetros, mas não uma correspondência consistente entre todos os marcadores sanguíneos e salivares. Além disso, a composição da saliva pode ser influenciada pelo fluxo salivar, pela hidratação, pela hora da recolha, pela estimulação utilizada e pelas condições da boca.
Antes de utilizar um marcador salivar para tomar decisões clínicas, é necessário demonstrar que a medição é fiável, reproduzível e suficientemente precisa para a finalidade pretendida. Também é necessário estabelecer intervalos de referência e perceber se o resultado acrescenta informação útil para além dos métodos já existentes.
Por enquanto, este trabalho deve ser entendido como uma investigação exploratória, não como uma recomendação para substituir análises sanguíneas por testes à saliva.
O que nos ensina sobre a alimentação?
O estudo reforça uma ideia importante: os macronutrientes não são apenas fontes de energia. A proteína, a gordura e os hidratos de carbono desencadeiam processos fisiológicos diferentes, que podem ser identificados através de determinados marcadores.
Isso não significa que exista uma proporção ideal de macronutrientes para todas as pessoas. As necessidades variam consoante a idade, a composição corporal, o nível de atividade física, os objetivos, o estado de saúde e a qualidade dos alimentos escolhidos.
Uma alimentação rica em proteína, por exemplo, pode ter características muito diferentes consoante a proteína venha de peixe, ovos, leguminosas, lacticínios ou carnes processadas. Da mesma forma, uma dieta rica em gordura pode incluir azeite, frutos secos e peixe ou, pelo contrário, depender sobretudo de alimentos ricos em gordura saturada e ultraprocessados.
Por isso, não devemos avaliar a qualidade de uma alimentação apenas pela percentagem de proteína, gordura ou hidratos de carbono. A origem dos alimentos, a quantidade total, a fibra, os micronutrientes e o padrão alimentar global continuam a ser fundamentais.
Limitações que importa conhecer
Apesar do interesse dos resultados, existem limitações importantes. A amostra foi muito pequena, com apenas 12 adultos saudáveis, e cada intervenção durou somente sete dias. Não sabemos se as alterações observadas se mantêm a longo prazo, nem se seriam semelhantes em pessoas com diabetes, doença renal, obesidade ou outras condições clínicas.
Além disso, o estudo não demonstrou que a saliva possa diagnosticar resistência à insulina, avaliar com precisão o consumo de macronutrientes ou substituir exames laboratoriais. As associações observadas devem ser confirmadas em investigações com mais participantes e protocolos de validação específicos.
Conclusão
Um estudo cruzado controlado com 12 adultos saudáveis mostrou que dietas com diferentes proporções de proteína, gordura e hidratos de carbono provocam respostas metabólicas distintas, algumas detetáveis tanto no sangue como na saliva.
A resposta à dieta rica em proteína foi particularmente interessante, com alterações na ureia sanguínea e no amónio salivar. Já a dieta rica em hidratos de carbono alterou o pH e a capacidade tampão da saliva, enquanto a dieta rica em gordura foi associada a alterações de algumas enzimas sanguíneas, sem mudanças significativas nos parâmetros salivares avaliados.
Na minha perspetiva, o interesse deste trabalho está sobretudo na possibilidade futura de desenvolver ferramentas de monitorização menos invasivas. Mas ainda estamos numa fase inicial. Para já, a saliva deve ser vista como uma possível fonte complementar de informação, e não como substituta das análises ao sangue ou da avaliação clínica.
Posso ajudar
Posso ajudar a integrar princípios de alimentação saudável e exercício num plano realista, adaptado aos objetivos e à condição física, sem substituir o acompanhamento médico ou nutricional quando necessário.
Referências
- Echeverría C, Gambetta-Tessini K, Wehinger S, et al. Short-term macronutrient-specific diets induce distinct metabolic changes detectable in blood and saliva. Nutrition. 2026;153:113412. https://doi.org/10.1016/j.nut.2026.113412
- Resumo bibliográfico do estudo: PubMed — PMID 42800402.