A diabetes tipo 2 é cada vez mais frequente em pessoas jovens, numa fase da vida em que as consequências da doença podem prolongar-se durante várias décadas. Quanto mais cedo surge, maior é o período durante o qual podem desenvolver-se complicações cardiovasculares, renais e metabólicas.
Um ensaio clínico publicado em 2026 na revista The Lancet Regional Health – Americas avaliou uma abordagem intensiva que combinou uma dieta de muito baixo valor energético com exercício físico supervisionado. O objetivo foi perceber se esta estratégia poderia promover a remissão da diabetes tipo 2 em adultos com diagnóstico precoce e obesidade.
Os resultados foram relevantes: ao fim de 24 semanas, 54% dos participantes que realizaram a intervenção estavam em remissão da diabetes, comparativamente com 4% dos participantes que mantiveram os cuidados habituais.
Apesar de promissores, estes resultados devem ser interpretados com cuidado. O estudo teve uma amostra relativamente pequena, uma duração de apenas seis meses e utilizou uma intervenção intensiva que exige acompanhamento clínico. Além disso, não permite determinar se a combinação de dieta e exercício é superior à dieta isolada para alcançar a remissão.
Como foi realizado o estudo?
O ensaio RESET for Remission foi realizado em três centros de investigação no Reino Unido e no Canadá. Participaram 96 adultos entre os 18 e os 45 anos, com diabetes tipo 2 diagnosticada há relativamente pouco tempo e obesidade.
Os participantes foram distribuídos aleatoriamente por dois grupos. Um grupo continuou a receber os cuidados habituais, enquanto o outro participou num programa de 24 semanas que combinava uma dieta de baixas calorias, exercício físico e acompanhamento por profissionais de saúde.
A idade média dos participantes era de aproximadamente 38 anos, o índice de massa corporal médio rondava os 35 kg/m² e a duração média da diabetes era de pouco mais de dois anos.
Esta característica é importante: os resultados dizem respeito a adultos jovens com obesidade e diabetes tipo 2 relativamente recente. Não devem ser automaticamente aplicados a pessoas mais velhas, a indivíduos com diabetes de longa duração ou a pessoas que utilizam insulina, uma vez que estes grupos não estavam representados na população estudada da mesma forma.
Em que consistia a dieta de baixas calorias?
Durante as primeiras 12 semanas, os participantes do grupo de intervenção seguiram uma dieta de aproximadamente 800 a 900 quilocalorias por dia.
Nas primeiras duas semanas, a alimentação baseou-se integralmente em produtos de substituição de refeições. Nas dez semanas seguintes, o programa passou a permitir uma refeição convencional por dia, mantendo o limite energético estabelecido.
Esta refeição incluía uma fonte de proteína, uma porção de fruta e duas porções de hortícolas sem amido. Os produtos de substituição das restantes refeições ajudavam a controlar a ingestão energética e a manter uma composição nutricional definida.
A intervenção não terminou com a fase de restrição energética. Entre as semanas 13 e 24, os participantes passaram gradualmente para uma alimentação destinada à manutenção do peso, com acompanhamento de nutricionistas e profissionais de exercício.
Esta segunda fase é fundamental. Perder peso pode melhorar significativamente o controlo da glicemia, mas manter os resultados exige estratégias alimentares sustentáveis e alterações de comportamento que possam continuar depois do programa inicial.
Que tipo de exercício foi utilizado?
Uma das características mais interessantes deste estudo foi a inclusão de exercício estruturado e supervisionado durante a fase de maior restrição energética.
Entre as semanas 3 e 12, os participantes realizaram duas sessões semanais supervisionadas, com uma duração progressiva até cerca de uma hora por sessão. O tempo foi dividido entre exercício aeróbio e treino de força.
O exercício aeróbio incluía sobretudo caminhada, com períodos de intensidade contínua e, quando tolerado, treino intervalado de intensidade elevada. O treino de força utilizava máquinas e/ou pesos livres, trabalhando os principais grupos musculares dos membros superiores e inferiores.
Os exercícios de resistência progrediam gradualmente, de uma para três séries, procurando realizar aproximadamente 10 a 15 repetições por série. Existia ainda uma sessão semanal independente de exercício aeróbio.
Durante os dias de treino, era recomendada uma quantidade adicional de energia através de um produto de substituição de refeição. Esta medida procurava acomodar as exigências do exercício dentro de um programa alimentar muito restritivo.
Na fase de manutenção, os participantes foram orientados para continuarem a treinar em casa, no ginásio ou nos espaços de exercício disponibilizados pelo estudo, procurando manter tanto o exercício aeróbio como o treino de força.
Os resultados: remissão da diabetes em 54% dos participantes
O principal objetivo foi avaliar a remissão da diabetes tipo 2 às 24 semanas. Para este estudo, a remissão significava apresentar uma hemoglobina glicada inferior a 6,5%, sem utilização de medicação para reduzir a glicemia durante pelo menos os três meses anteriores.
Ao fim de 12 semanas, 58% dos participantes do grupo de intervenção estavam em remissão, comparativamente com 4% no grupo de cuidados habituais.
Às 24 semanas, os resultados mantinham-se expressivos:
- 54% dos participantes do grupo de dieta e exercício estavam em remissão.
- 4% dos participantes do grupo de cuidados habituais estavam em remissão.
- A diferença absoluta entre os grupos foi de 50 pontos percentuais.
Na prática, mais de metade dos participantes submetidos ao programa combinado cumpriu os critérios definidos para remissão ao fim de seis meses.
Também se observaram melhorias no controlo glicémico e na resistência à insulina. A hemoglobina glicada diminuiu aproximadamente 0,7 pontos percentuais a mais no grupo de intervenção do que no grupo de controlo.
É importante esclarecer que remissão não significa necessariamente cura definitiva. A glicemia pode voltar a aumentar se houver recuperação de peso, deterioração da função das células produtoras de insulina ou progressão da doença. Por isso, a vigilância clínica continua a ser necessária, mesmo quando os valores melhoram significativamente.
Perda de gordura sem uma redução importante da massa magra
Um dos aspetos mais relevantes para quem trabalha com exercício físico foi a evolução da composição corporal.
Ao fim de 24 semanas, o grupo de intervenção apresentou uma redução média de aproximadamente 8,4 kg no peso corporal e de 6,7 kg na massa gorda relativamente aos valores iniciais.
A massa isenta de gordura diminuiu, em média, cerca de 0,9 kg. Este resultado sugere que a maior parte do peso perdido correspondeu a massa gorda, embora tenha existido alguma redução de massa isenta de gordura.
A massa isenta de gordura inclui músculo, mas também água, órgãos e outros tecidos. Por isso, não se deve interpretar toda a sua variação como perda ou preservação direta de massa muscular.
Os resultados são, ainda assim, encorajadores. Durante uma dieta tão restritiva, preservar o máximo possível de massa muscular é importante para manter a força, a capacidade funcional e a qualidade de vida.
O treino de força pode contribuir para esse objetivo, fornecendo um estímulo mecânico aos músculos durante a perda de peso. No entanto, este ensaio não incluiu um grupo que realizasse a mesma dieta sem exercício supervisionado. Não é possível atribuir exclusivamente ao treino a preservação da massa isenta de gordura observada.
Melhorias na condição física e na força
Os benefícios não se limitaram ao peso e à glicemia. Os investigadores observaram também melhorias na condição cardiorrespiratória relativa ao peso corporal e na força de preensão manual.
A capacidade cardiorrespiratória relativa aumentou cerca de 3,2 ml/kg/min a mais no grupo de intervenção do que no grupo de controlo. Esta melhoria é relevante porque uma pessoa pode beneficiar de uma melhor capacidade para realizar esforços quotidianos, caminhar, subir escadas ou participar em atividades físicas.
O estudo encontrou ainda um aumento da força de preensão manual no grupo submetido à intervenção. Embora esta medida não represente toda a força muscular do corpo, é frequentemente utilizada como indicador da função muscular global e pode ajudar a acompanhar alterações relacionadas com a saúde física.
Estas melhorias reforçam a importância de não avaliar um programa de perda de peso apenas pelo número apresentado na balança. A composição corporal, a força e a capacidade cardiorrespiratória também devem fazer parte da avaliação.
O que aconteceu à pressão arterial?
O programa combinado esteve associado a uma diminuição da pressão arterial sistólica e diastólica.
Às 24 semanas, a pressão arterial sistólica diminuiu aproximadamente 6 mmHg no grupo de intervenção, enquanto a pressão arterial diastólica diminuiu cerca de 5 mmHg relativamente aos valores iniciais.
Estas alterações são potencialmente importantes numa população com obesidade e diabetes tipo 2, porque ambas as condições estão associadas a um risco cardiovascular elevado.
Contudo, durante o programa, a medicação para a glicemia e a pressão arterial foi ajustada de acordo com o protocolo e as necessidades clínicas. A medicação anti-hipertensora podia ser reintroduzida quando necessário.
Por esse motivo, estes resultados não devem ser interpretados como uma recomendação para suspender medicamentos por iniciativa própria. Uma restrição energética tão intensa pode alterar rapidamente a glicemia e a pressão arterial, exigindo monitorização e ajustes clínicos.
Existiram efeitos adversos?
Embora não tenham sido registados acontecimentos adversos graves, os efeitos secundários foram frequentes no grupo de intervenção.
Entre os 50 participantes que realizaram o programa, 43 reportaram pelo menos um efeito adverso, comparativamente com seis dos 46 participantes do grupo de cuidados habituais.
Os problemas mais comuns estavam relacionados com a fase inicial da dieta: obstipação, dores de cabeça, tonturas e fadiga. Estes sintomas tendiam a resolver-se ao longo do tempo.
Esta informação é essencial para interpretar corretamente os resultados. Uma dieta de 800 a 900 quilocalorias por dia não corresponde a uma estratégia convencional de emagrecimento e não deve ser iniciada sem supervisão clínica adequada.
É necessário avaliar o estado de saúde, a medicação, o risco de desidratação, as necessidades nutricionais e a tolerância ao exercício. Pessoas com determinadas doenças ou que tomam medicamentos específicos podem precisar de uma abordagem diferente.
Quais são as limitações deste estudo?
O ensaio apresenta resultados promissores, mas existem limitações importantes.
Em primeiro lugar, participaram apenas 96 pessoas. Embora a distribuição aleatória e a elevada proporção de participantes avaliados no final sejam pontos positivos, uma amostra desta dimensão não permite retirar conclusões definitivas sobre todos os perfis de pessoas com diabetes tipo 2.
Em segundo lugar, o acompanhamento terminou às 24 semanas. Ainda não sabemos quantos participantes mantiveram a remissão ao fim de um, três ou cinco anos.
Em terceiro lugar, o estudo comparou o programa combinado com os cuidados habituais, não com uma dieta de baixas calorias isolada. Assim, não é possível determinar se o exercício supervisionado aumentou diretamente a probabilidade de remissão, embora tenha contribuído para melhorar a condição física e outros indicadores.
Por fim, a intervenção foi intensiva e exigiu o envolvimento de médicos, nutricionistas e profissionais de exercício. A sua implementação noutras populações dependerá da disponibilidade de acompanhamento, dos recursos dos serviços de saúde e da capacidade de adesão dos participantes.
O que significa este estudo para o treino e a saúde?
Na minha experiência, a principal lição é que a perda de peso não deve ser analisada isoladamente. Quando existe obesidade e diabetes tipo 2, interessa melhorar o controlo metabólico sem desvalorizar a força, a capacidade funcional e a condição cardiorrespiratória.
O treino de força pode ajudar a preservar a função muscular durante um processo de emagrecimento, enquanto o exercício aeróbio contribui para melhorar a capacidade de realizar esforços prolongados. A combinação deve ser adaptada à condição física, às limitações e à experiência de cada pessoa.
Não é necessário recorrer a uma dieta extremamente restritiva para começar a beneficiar do exercício. Para muitas pessoas, uma alimentação equilibrada, uma redução energética moderada quando indicada e um programa progressivo de atividade física são opções mais sustentáveis.
Em pessoas com diabetes, a prescrição do treino deve ainda considerar a medicação, o controlo da glicemia e eventuais complicações. A intensidade e o volume devem progredir de acordo com a tolerância individual e a resposta clínica.
Conclusão
O ensaio RESET for Remission mostrou que a combinação de uma dieta de baixas calorias com exercício aeróbio e treino de força supervisionados pode alcançar taxas elevadas de remissão da diabetes tipo 2 em adultos jovens com obesidade e doença diagnosticada recentemente.
Ao fim de 24 semanas, 54% dos participantes do grupo de intervenção estavam em remissão, comparativamente com 4% no grupo de cuidados habituais. O programa também esteve associado a perda de massa gorda, melhorias na condição cardiorrespiratória e aumento da força de preensão manual.
Estes resultados não significam que todas as pessoas com diabetes devam seguir uma dieta de 800 a 900 quilocalorias por dia. A intervenção exige acompanhamento médico e nutricional, e ainda é necessário perceber até que ponto a remissão se mantém a longo prazo.
A mensagem mais útil é que a gestão da diabetes tipo 2 deve ir além do controlo da glicemia. A combinação de estratégias alimentares adequadas, exercício físico e acompanhamento clínico pode contribuir para melhorar vários aspetos da saúde, desde que a intervenção seja individualizada e segura.
Posso ajudar
Ajudo adultos a melhorar a força, a condição física e a capacidade funcional através de programas de treino individualizados, adaptados à saúde, aos objetivos e às limitações de cada pessoa.
Referências
- Dasgupta K, Boule NG, Henson J, et al. Low energy diet plus supervised exercise vs. usual care alone in people with early-onset type 2 diabetes (RESET for Remission): a randomised, open-label, blinded-endpoint efficacy trial. The Lancet Regional Health – Americas. 2026.
Consultar artigo científico - Riddle MC, Cefalu WT, Evans PH, et al. Consensus report: definition and interpretation of remission in type 2 diabetes.
Consultar publicação científica - National Institute for Health and Care Excellence (NICE). Type 2 diabetes in adults: management.
Consultar recomendações clínicas