Durante muitos anos, o cancro foi considerado uma doença associada principalmente ao envelhecimento. No entanto, nas últimas duas décadas, investigadores de vários países têm observado uma tendência preocupante: cada vez mais adultos com menos de 50 anos estão a ser diagnosticados com alguns tipos de cancro.
Embora o risco continue a ser muito superior nas pessoas mais velhas, o aumento dos chamados cancros de início precoce (early-onset cancers) tem despertado enorme interesse científico. A questão é simples, mas a resposta ainda não existe: porque está isto a acontecer?
Um fenómeno observado em vários países
Estudos realizados na América do Norte, Europa, Ásia e Austrália mostram que alguns tipos de cancro estão a aumentar nas gerações mais jovens.
Os maiores aumentos têm sido observados em:
- cancro colorretal;
- cancro do apêndice;
- cancro do pâncreas;
- cancro das vias biliares;
- alguns cancros do estômago;
- determinados cancros ginecológicos.
Segundo uma revisão publicada em 2023, a incidência global de cancro em pessoas com menos de 50 anos aumentou cerca de 80% entre 1990 e 2019, embora este valor varie bastante conforme o tipo de tumor e o país estudado. (ScienceAlert)
O caso particular do cancro do apêndice
Um dos exemplos mais intrigantes é o cancro do apêndice.
É uma doença extremamente rara, com cerca de 3.000 novos casos anuais nos Estados Unidos. No entanto, estudos recentes mostram que as gerações X e Millennials apresentam um risco três a quatro vezes superior ao das gerações anteriores.
Hoje, cerca de um em cada três doentes com este tipo de cancro tem menos de 50 anos.
Os sintomas podem ser vagos:
- dor abdominal;
- distensão abdominal;
- dor pélvica;
- alterações digestivas.
Por serem sintomas comuns a muitas outras doenças, o diagnóstico pode atrasar-se. (ScienceAlert)
Porque está isto a acontecer?
A resposta honesta é simples:
Ainda não sabemos.
Os investigadores acreditam que não existe uma única causa, mas sim uma combinação de fatores que atuam ao longo da vida.
Entre as hipóteses atualmente estudadas encontram-se:
- alimentação rica em alimentos ultraprocessados;
- obesidade;
- sedentarismo;
- alterações do microbioma intestinal;
- uso frequente de antibióticos;
- privação de sono;
- exposição à poluição atmosférica;
- microplásticos;
- químicos persistentes (“forever chemicals”);
- alterações ambientais desde a infância.
Até ao momento, nenhuma destas hipóteses foi definitivamente comprovada como responsável pelo aumento observado. (Nature)
O papel do microbioma intestinal
Uma das áreas mais promissoras da investigação é o microbioma intestinal.
Algumas bactérias produzem toxinas capazes de provocar alterações no ADN das células intestinais. Um exemplo é a toxina colibactina, produzida por determinadas estirpes de Escherichia coli.
Investigadores sugerem que a exposição precoce a estas bactérias poderá deixar “marcas” genéticas que só décadas mais tarde favorecem o desenvolvimento de alguns cancros, particularmente o colorretal.
Esta hipótese ainda necessita de confirmação, mas representa uma das linhas de investigação mais interessantes dos últimos anos. (ScienceAlert)
Será apenas porque fazemos mais exames?
Provavelmente não.
Embora o diagnóstico precoce e o aumento dos exames expliquem parte do crescimento dos casos, muitos dos tumores em aumento surgem precisamente em idades que não são abrangidas pelos programas de rastreio.
Além disso, vários estudos mostram que alguns destes cancros já aparecem em fases avançadas, sugerindo que não se trata apenas de uma melhor capacidade de deteção. (Nature)
Podemos prevenir?
Não existe uma forma garantida de prevenir todos os tipos de cancro.
No entanto, as recomendações com melhor evidência científica continuam a ser:
- manter um peso saudável;
- praticar exercício físico regularmente;
- consumir fruta, vegetais, leguminosas e cereais integrais;
- limitar alimentos ultraprocessados;
- evitar o tabaco;
- moderar o consumo de álcool;
- dormir adequadamente;
- participar nos rastreios recomendados para a idade e fatores de risco.
Estas medidas reduzem o risco de diversas doenças crónicas e continuam a ser a melhor estratégia conhecida.
A mensagem principal
O aumento de alguns cancros em adultos jovens é uma realidade documentada pela investigação científica. Contudo, é importante evitar conclusões precipitadas.
Até agora, não existe uma causa única identificada, nem provas suficientes para responsabilizar isoladamente alimentos, microplásticos, antibióticos ou qualquer outro fator.
A ciência aponta antes para uma interação complexa entre genética, ambiente, estilo de vida, microbioma e exposições ocorridas ao longo da vida.
Nos próximos anos, esta será provavelmente uma das áreas mais importantes da investigação em oncologia.
- Holowatyj AN, Arnold MA, Brock GN, et al. Birth cohort effects in appendiceal adenocarcinoma incidence in the United States. Annals of Internal Medicine. 2025.
- Koh B, Xu S, et al. Contemporary Patterns of Early-Onset Cancer in the United States. JAMA Network Open. 2023;6(8):e2325191.
- Nature. Why are so many young people getting cancer? What the data say (2024).
https://www.nature.com/articles/d41586-024-00720-6 - Nature. Why are so many young people getting cancer? What researchers do and don’t know (2026).
https://www.nature.com/articles/d41586-026-01780-6