O músculo fala com o cérebro: como o exercício envia sinais que podem transformar o cérebro

O músculo fala com o cérebro: como o exercício envia sinais que podem transformar o cérebro August 19, 2026Leave a comment

Quando fazemos exercício, pensamos normalmente no que acontece nos músculos: aumentam a frequência cardíaca, o consumo de oxigénio e a produção de energia.

Mas existe uma segunda história a acontecer em simultâneo.

Os músculos estão a comunicar com o cérebro.

Durante e depois do exercício, o músculo ativo liberta para a circulação várias moléculas capazes de chegar a outros órgãos. Algumas funcionam como sinais metabólicos e podem influenciar o funcionamento cerebral.

É uma das razões pelas quais o exercício não deve ser encarado apenas como uma forma de fortalecer músculos ou melhorar a condição cardiovascular.

Treinar o corpo é também uma forma de estimular o cérebro através de sinais químicos produzidos pelo próprio organismo.

O músculo funciona como um órgão endócrino

O músculo esquelético não é apenas uma estrutura responsável pelo movimento.

Quando é contraído, comporta-se também como um verdadeiro órgão secretor.

Durante a atividade física, as fibras musculares libertam moléculas chamadas miocinas, além de outros metabolitos e mediadores.

Estas substâncias entram na circulação e podem atuar à distância.

Algumas têm efeitos sobre o metabolismo, outras sobre o sistema imunitário e outras podem influenciar o cérebro.

Esta comunicação músculo-cérebro faz parte de uma rede muito mais ampla de comunicação entre os diferentes órgãos.

O lactato é um dos mensageiros mais interessantes

Entre estas moléculas, o lactato merece particular atenção.

Durante exercício intenso ou prolongado, a concentração de lactato no sangue aumenta significativamente.

O lactato pode ser transportado para o cérebro, atravessar a barreira hematoencefálica através de transportadores específicos e ser utilizado pelas células cerebrais como substrato energético.

Isto é particularmente interessante porque o cérebro necessita de enormes quantidades de energia.

Os neurónios estão constantemente a manter gradientes elétricos, a comunicar através das sinapses e a processar informação.

Tudo isto consome ATP.

O lactato pode ser convertido novamente em piruvato e entrar no metabolismo oxidativo, contribuindo para a produção desse ATP.

Portanto, uma molécula produzida pelo músculo durante o exercício pode acabar por ser utilizada como combustível pelo cérebro.

Mas o lactato parece fazer muito mais do que fornecer energia

Aqui está provavelmente a parte mais fascinante.

O lactato também pode funcionar como molécula sinalizadora.

Isto significa que o seu papel não termina quando é convertido em energia.

O lactato pode influenciar vias celulares relacionadas com expressão genética, plasticidade neuronal e adaptação do cérebro ao exercício.

Algumas destas respostas estão relacionadas com mecanismos que ajudam o cérebro a adaptar-se a estímulos novos.

Por isso, o lactato é atualmente estudado não apenas como combustível, mas também como um possível mediador da comunicação entre músculo e cérebro.

Lactato e plasticidade cerebral

A palavra plasticidade é fundamental.

O cérebro não é uma estrutura fixa.

As ligações entre neurónios podem modificar-se em resposta à aprendizagem, experiência e atividade física.

O exercício parece favorecer vários mecanismos associados à plasticidade cerebral.

Entre eles estão alterações na disponibilidade de fatores neurotróficos, angiogénese, metabolismo energético e comunicação entre neurónios.

O lactato pode participar nesta resposta.

Investigação experimental sugere que o lactato pode estimular vias moleculares relacionadas com o BDNF — brain-derived neurotrophic factor, uma proteína particularmente importante para sobrevivência neuronal, plasticidade e aprendizagem.

Isto não significa que “mais lactato = mais BDNF” de forma linear.

O organismo é muito mais complexo.

Significa que o lactato pode fazer parte da cadeia de sinais através da qual o exercício influencia o cérebro.

O BDNF: outro elo entre exercício e cérebro

O BDNF é frequentemente chamado de “fator de crescimento do cérebro”.

É uma simplificação, mas ajuda a compreender a sua importância.

O BDNF participa na sobrevivência e manutenção dos neurónios e na capacidade das sinapses se modificarem.

O exercício físico, especialmente determinadas formas de exercício aeróbio, pode aumentar transitoriamente a disponibilidade de BDNF.

O interessante é que o lactato está entre os candidatos a mediadores desta resposta.

Assim, podemos imaginar uma sequência:

Contração muscular → produção de lactato → circulação → cérebro → sinalização celular → alterações na plasticidade neuronal

Mas esta sequência não é uma explicação completa.

Existem várias outras moléculas envolvidas.

A irisina é outro exemplo

Outra molécula muito estudada é a irisina.

Durante o exercício, o músculo pode aumentar a produção de FNDC5, uma proteína precursora da irisina.

A irisina está associada a efeitos metabólicos e tem sido investigada pela sua possível participação nos efeitos do exercício sobre o cérebro.

Estudos experimentais sugerem que esta via pode influenciar mecanismos relacionados com BDNF e plasticidade neuronal.

Mais uma vez, é importante separar o que está demonstrado em modelos animais do que já foi confirmado em humanos.

A ciência está a avançar rapidamente, mas ainda não podemos afirmar que uma determinada molécula muscular seja, isoladamente, responsável pelos benefícios cognitivos do exercício.

O músculo também influencia a inflamação

A comunicação não é exclusivamente energética.

O exercício modifica a atividade do sistema imunitário.

Dependendo da intensidade, duração e recuperação, o exercício pode alterar a produção e circulação de diferentes citocinas e outros mediadores inflamatórios.

O exercício regular e adequado está associado a um ambiente metabólico e inflamatório diferente daquele observado com sedentarismo crónico.

Isto é particularmente relevante para o cérebro porque a inflamação sistémica pode influenciar a função cerebral.

Portanto, uma parte dos efeitos do exercício no cérebro pode resultar da combinação de:

energia + circulação + fatores neurotróficos + miocinas + metabolismo + sistema imunitário.

Não existe uma única molécula responsável por tudo.

O músculo também produz lactato em exercício moderado

É importante não associar lactato exclusivamente ao exercício extremo.

O lactato é produzido continuamente pelo organismo.

Mesmo em repouso existe produção de lactato e utilização de lactato.

Durante o exercício, a produção aumenta e o organismo adapta-se aumentando também a sua utilização e transporte.

Com treino, especialmente treino de resistência, o organismo torna-se mais eficiente a utilizar lactato como combustível.

O lactato produzido por um músculo pode ser utilizado pelo próprio músculo, por outros músculos, pelo coração ou pelo cérebro.

Existe, portanto, uma verdadeira rede de reciclagem energética.

O cérebro também produz e utiliza lactato

Existe ainda uma surpresa adicional.

Não é necessário que todo o lactato cerebral venha dos músculos.

As células gliais, particularmente os astrócitos, podem produzir lactato dentro do próprio cérebro.

Os astrócitos armazenam glicogénio e podem mobilizá-lo em determinadas situações, produzindo lactato que pode ser disponibilizado aos neurónios.

Este mecanismo é conhecido como astrocyte-neuron lactate shuttle.

Assim, o cérebro possui os seus próprios mecanismos para gerir e distribuir lactato.

O exercício simplesmente altera profundamente a disponibilidade e utilização desta molécula.

O que acontece durante um treino de força?

Quando fazemos treino de força, especialmente séries relativamente intensas, ocorre um aumento significativo do metabolismo glicolítico e da produção de lactato.

Isto não significa que o treino de força seja “bom para o cérebro” apenas porque produz lactato.

O benefício resulta provavelmente de uma combinação muito mais ampla de estímulos:

  • contrações musculares;
  • alterações cardiovasculares;
  • aumento do fluxo sanguíneo;
  • produção de miocinas;
  • alterações metabólicas;
  • estímulos neurológicos;
  • melhoria da sensibilidade à insulina;
  • adaptação vascular;
  • e possíveis alterações de fatores neurotróficos.

É precisamente por isso que treino de força e exercício cardiovascular não devem ser vistos como concorrentes.

Produzem estímulos diferentes e complementares.

E o exercício cardiovascular?

O exercício aeróbio é particularmente interessante neste contexto porque pode manter durante bastante tempo um aumento da circulação, do metabolismo energético e da produção de diferentes moléculas sinalizadoras.

Durante exercício prolongado, a utilização cerebral de lactato pode aumentar significativamente.

Um estudo publicado em 2026 mostrou que, após duas horas de ciclismo de intensidade variável, o lactato aumentou no líquido cefalorraquidiano e que o cérebro passou a captar lactato da circulação.

Os resultados reforçam a ideia de que o lactato produzido durante o exercício pode participar diretamente no metabolismo cerebral.

É uma descoberta fascinante porque mostra a comunicação entre músculo e cérebro de uma forma particularmente concreta.

Isto significa que devemos treinar até produzir muito lactato?

Não.

Esta seria uma interpretação errada.

O objetivo do exercício não deve ser maximizar o lactato.

O lactato é apenas uma peça de uma resposta fisiológica muito maior.

Além disso, mais exercício nem sempre significa mais benefício.

A intensidade precisa de ser adequada ao indivíduo, à idade, ao nível de treino e ao estado de recuperação.

O que parece mais importante para a saúde cerebral a longo prazo é manter uma atividade física regular e consistente, combinando diferentes formas de exercício.

O verdadeiro conceito: músculo e cérebro são parceiros

Talvez a descoberta mais interessante seja conceptual.

Durante décadas, estudámos o cérebro e o músculo quase como sistemas separados.

Hoje percebemos que existe uma comunicação permanente entre ambos.

O cérebro controla o movimento.

Mas o músculo também envia informação de volta ao cérebro.

Através do lactato, miocinas, fatores metabólicos e outras moléculas, o músculo pode modificar o ambiente químico no qual o cérebro funciona.

Por isso, quando fazemos exercício, não estamos simplesmente a “gastar energia”.

Estamos a criar um conjunto de sinais que informam o organismo de que estamos fisicamente ativos.

E o cérebro responde a esses sinais.

Talvez uma das melhores formas de descrever o exercício seja esta: é uma conversa química entre os músculos e o cérebro.

Quanto mais a ciência estuda esta conversa, mais percebemos que os benefícios do exercício ultrapassam muito a força muscular, a resistência ou a composição corporal.

Treinar o músculo é também uma forma de comunicar com o cérebro.

Referências

Lactate fuels the human brain during exercise — PubMed

Lactate accumulation in the cerebrospinal fluid after prolonged exercise — PubMed

Astrocytic glycogen-derived lactate fuels the brain during exhaustive exercise — PubMed

Lactate and brain function: from metabolism to signaling — PubMed

Exercise-induced neuroplasticity and the role of lactate — PubMed

Exercise, myokines and brain health — PubMed

Irisin and exercise-induced brain adaptations — PubMed