Quando fazemos exercício, pensamos normalmente no que acontece nos músculos: aumentam a frequência cardíaca, o consumo de oxigénio e a produção de energia.
Mas existe uma segunda história a acontecer em simultâneo.
Os músculos estão a comunicar com o cérebro.
Durante e depois do exercício, o músculo ativo liberta para a circulação várias moléculas capazes de chegar a outros órgãos. Algumas funcionam como sinais metabólicos e podem influenciar o funcionamento cerebral.
É uma das razões pelas quais o exercício não deve ser encarado apenas como uma forma de fortalecer músculos ou melhorar a condição cardiovascular.
Treinar o corpo é também uma forma de estimular o cérebro através de sinais químicos produzidos pelo próprio organismo.
O músculo funciona como um órgão endócrino
O músculo esquelético não é apenas uma estrutura responsável pelo movimento.
Quando é contraído, comporta-se também como um verdadeiro órgão secretor.
Durante a atividade física, as fibras musculares libertam moléculas chamadas miocinas, além de outros metabolitos e mediadores.
Estas substâncias entram na circulação e podem atuar à distância.
Algumas têm efeitos sobre o metabolismo, outras sobre o sistema imunitário e outras podem influenciar o cérebro.
Esta comunicação músculo-cérebro faz parte de uma rede muito mais ampla de comunicação entre os diferentes órgãos.
O lactato é um dos mensageiros mais interessantes
Entre estas moléculas, o lactato merece particular atenção.
Durante exercício intenso ou prolongado, a concentração de lactato no sangue aumenta significativamente.
O lactato pode ser transportado para o cérebro, atravessar a barreira hematoencefálica através de transportadores específicos e ser utilizado pelas células cerebrais como substrato energético.
Isto é particularmente interessante porque o cérebro necessita de enormes quantidades de energia.
Os neurónios estão constantemente a manter gradientes elétricos, a comunicar através das sinapses e a processar informação.
Tudo isto consome ATP.
O lactato pode ser convertido novamente em piruvato e entrar no metabolismo oxidativo, contribuindo para a produção desse ATP.
Portanto, uma molécula produzida pelo músculo durante o exercício pode acabar por ser utilizada como combustível pelo cérebro.
Mas o lactato parece fazer muito mais do que fornecer energia
Aqui está provavelmente a parte mais fascinante.
O lactato também pode funcionar como molécula sinalizadora.
Isto significa que o seu papel não termina quando é convertido em energia.
O lactato pode influenciar vias celulares relacionadas com expressão genética, plasticidade neuronal e adaptação do cérebro ao exercício.
Algumas destas respostas estão relacionadas com mecanismos que ajudam o cérebro a adaptar-se a estímulos novos.
Por isso, o lactato é atualmente estudado não apenas como combustível, mas também como um possível mediador da comunicação entre músculo e cérebro.
Lactato e plasticidade cerebral
A palavra plasticidade é fundamental.
O cérebro não é uma estrutura fixa.
As ligações entre neurónios podem modificar-se em resposta à aprendizagem, experiência e atividade física.
O exercício parece favorecer vários mecanismos associados à plasticidade cerebral.
Entre eles estão alterações na disponibilidade de fatores neurotróficos, angiogénese, metabolismo energético e comunicação entre neurónios.
O lactato pode participar nesta resposta.
Investigação experimental sugere que o lactato pode estimular vias moleculares relacionadas com o BDNF — brain-derived neurotrophic factor, uma proteína particularmente importante para sobrevivência neuronal, plasticidade e aprendizagem.
Isto não significa que “mais lactato = mais BDNF” de forma linear.
O organismo é muito mais complexo.
Significa que o lactato pode fazer parte da cadeia de sinais através da qual o exercício influencia o cérebro.
O BDNF: outro elo entre exercício e cérebro
O BDNF é frequentemente chamado de “fator de crescimento do cérebro”.
É uma simplificação, mas ajuda a compreender a sua importância.
O BDNF participa na sobrevivência e manutenção dos neurónios e na capacidade das sinapses se modificarem.
O exercício físico, especialmente determinadas formas de exercício aeróbio, pode aumentar transitoriamente a disponibilidade de BDNF.
O interessante é que o lactato está entre os candidatos a mediadores desta resposta.
Assim, podemos imaginar uma sequência:
Contração muscular → produção de lactato → circulação → cérebro → sinalização celular → alterações na plasticidade neuronal
Mas esta sequência não é uma explicação completa.
Existem várias outras moléculas envolvidas.
A irisina é outro exemplo
Outra molécula muito estudada é a irisina.
Durante o exercício, o músculo pode aumentar a produção de FNDC5, uma proteína precursora da irisina.
A irisina está associada a efeitos metabólicos e tem sido investigada pela sua possível participação nos efeitos do exercício sobre o cérebro.
Estudos experimentais sugerem que esta via pode influenciar mecanismos relacionados com BDNF e plasticidade neuronal.
Mais uma vez, é importante separar o que está demonstrado em modelos animais do que já foi confirmado em humanos.
A ciência está a avançar rapidamente, mas ainda não podemos afirmar que uma determinada molécula muscular seja, isoladamente, responsável pelos benefícios cognitivos do exercício.
O músculo também influencia a inflamação
A comunicação não é exclusivamente energética.
O exercício modifica a atividade do sistema imunitário.
Dependendo da intensidade, duração e recuperação, o exercício pode alterar a produção e circulação de diferentes citocinas e outros mediadores inflamatórios.
O exercício regular e adequado está associado a um ambiente metabólico e inflamatório diferente daquele observado com sedentarismo crónico.
Isto é particularmente relevante para o cérebro porque a inflamação sistémica pode influenciar a função cerebral.
Portanto, uma parte dos efeitos do exercício no cérebro pode resultar da combinação de:
energia + circulação + fatores neurotróficos + miocinas + metabolismo + sistema imunitário.
Não existe uma única molécula responsável por tudo.
O músculo também produz lactato em exercício moderado
É importante não associar lactato exclusivamente ao exercício extremo.
O lactato é produzido continuamente pelo organismo.
Mesmo em repouso existe produção de lactato e utilização de lactato.
Durante o exercício, a produção aumenta e o organismo adapta-se aumentando também a sua utilização e transporte.
Com treino, especialmente treino de resistência, o organismo torna-se mais eficiente a utilizar lactato como combustível.
O lactato produzido por um músculo pode ser utilizado pelo próprio músculo, por outros músculos, pelo coração ou pelo cérebro.
Existe, portanto, uma verdadeira rede de reciclagem energética.
O cérebro também produz e utiliza lactato
Existe ainda uma surpresa adicional.
Não é necessário que todo o lactato cerebral venha dos músculos.
As células gliais, particularmente os astrócitos, podem produzir lactato dentro do próprio cérebro.
Os astrócitos armazenam glicogénio e podem mobilizá-lo em determinadas situações, produzindo lactato que pode ser disponibilizado aos neurónios.
Este mecanismo é conhecido como astrocyte-neuron lactate shuttle.
Assim, o cérebro possui os seus próprios mecanismos para gerir e distribuir lactato.
O exercício simplesmente altera profundamente a disponibilidade e utilização desta molécula.
O que acontece durante um treino de força?
Quando fazemos treino de força, especialmente séries relativamente intensas, ocorre um aumento significativo do metabolismo glicolítico e da produção de lactato.
Isto não significa que o treino de força seja “bom para o cérebro” apenas porque produz lactato.
O benefício resulta provavelmente de uma combinação muito mais ampla de estímulos:
- contrações musculares;
- alterações cardiovasculares;
- aumento do fluxo sanguíneo;
- produção de miocinas;
- alterações metabólicas;
- estímulos neurológicos;
- melhoria da sensibilidade à insulina;
- adaptação vascular;
- e possíveis alterações de fatores neurotróficos.
É precisamente por isso que treino de força e exercício cardiovascular não devem ser vistos como concorrentes.
Produzem estímulos diferentes e complementares.
E o exercício cardiovascular?
O exercício aeróbio é particularmente interessante neste contexto porque pode manter durante bastante tempo um aumento da circulação, do metabolismo energético e da produção de diferentes moléculas sinalizadoras.
Durante exercício prolongado, a utilização cerebral de lactato pode aumentar significativamente.
Um estudo publicado em 2026 mostrou que, após duas horas de ciclismo de intensidade variável, o lactato aumentou no líquido cefalorraquidiano e que o cérebro passou a captar lactato da circulação.
Os resultados reforçam a ideia de que o lactato produzido durante o exercício pode participar diretamente no metabolismo cerebral.
É uma descoberta fascinante porque mostra a comunicação entre músculo e cérebro de uma forma particularmente concreta.
Isto significa que devemos treinar até produzir muito lactato?
Não.
Esta seria uma interpretação errada.
O objetivo do exercício não deve ser maximizar o lactato.
O lactato é apenas uma peça de uma resposta fisiológica muito maior.
Além disso, mais exercício nem sempre significa mais benefício.
A intensidade precisa de ser adequada ao indivíduo, à idade, ao nível de treino e ao estado de recuperação.
O que parece mais importante para a saúde cerebral a longo prazo é manter uma atividade física regular e consistente, combinando diferentes formas de exercício.
O verdadeiro conceito: músculo e cérebro são parceiros
Talvez a descoberta mais interessante seja conceptual.
Durante décadas, estudámos o cérebro e o músculo quase como sistemas separados.
Hoje percebemos que existe uma comunicação permanente entre ambos.
O cérebro controla o movimento.
Mas o músculo também envia informação de volta ao cérebro.
Através do lactato, miocinas, fatores metabólicos e outras moléculas, o músculo pode modificar o ambiente químico no qual o cérebro funciona.
Por isso, quando fazemos exercício, não estamos simplesmente a “gastar energia”.
Estamos a criar um conjunto de sinais que informam o organismo de que estamos fisicamente ativos.
E o cérebro responde a esses sinais.
Talvez uma das melhores formas de descrever o exercício seja esta: é uma conversa química entre os músculos e o cérebro.
Quanto mais a ciência estuda esta conversa, mais percebemos que os benefícios do exercício ultrapassam muito a força muscular, a resistência ou a composição corporal.
Treinar o músculo é também uma forma de comunicar com o cérebro.
Referências
Lactate fuels the human brain during exercise — PubMed
Lactate accumulation in the cerebrospinal fluid after prolonged exercise — PubMed
Astrocytic glycogen-derived lactate fuels the brain during exhaustive exercise — PubMed
Lactate and brain function: from metabolism to signaling — PubMed
Exercise-induced neuroplasticity and the role of lactate — PubMed