Jejuar durante muitas horas pode acelerar o envelhecimento? Novo estudo levanta dúvidas

Jejuar durante muitas horas pode acelerar o envelhecimento? Novo estudo levanta dúvidas August 28, 2026Leave a comment

Durante os últimos anos, o jejum intermitente tornou-se uma das estratégias alimentares mais populares para controlar o peso, melhorar alguns marcadores metabólicos e, possivelmente, promover um envelhecimento saudável.

Mas será que passar muitas horas sem comer é igualmente benéfico em todas as idades?

Um novo estudo realizado na Suécia levanta uma questão importante. Em quase 3.000 adultos com 60 ou mais anos, períodos mais longos entre refeições estiveram associados a uma acumulação mais rápida de doenças crónicas ao longo dos anos. A associação foi particularmente evidente entre as pessoas com 78 anos ou mais.

O resultado não significa que o jejum provoque doenças. Mas sugere que aquilo que pode funcionar numa pessoa jovem ou de meia-idade não deve necessariamente ser aplicado da mesma forma numa pessoa muito idosa.

O que descobriu o novo estudo?

Investigadores do Karolinska Institutet analisaram dados de 2.981 adultos com pelo menos 60 anos, participantes do Swedish National Study on Aging and Care in Kungsholmen (SNAC-K).

Os participantes foram acompanhados durante períodos que chegaram a 15 anos.

O objetivo foi perceber se existia uma relação entre o maior intervalo diário sem comer e a evolução da multimorbilidade — isto é, a acumulação de várias doenças crónicas numa mesma pessoa.

Os investigadores classificaram o período mais longo entre duas ocasiões habituais de alimentação durante um dia.

No grupo com intervalos mais curtos, o período máximo sem comer situava-se entre 6 e 11,5 horas.

No grupo com os intervalos mais longos, esse período era de 14 a 24 horas.

O resultado chamou a atenção: as pessoas que habitualmente passavam 14 a 24 horas sem comer apresentaram uma acumulação mais rápida de doenças crónicas ao longo do acompanhamento. (news.ki.se)

O efeito foi especialmente evidente depois dos 78 anos

Esta é provavelmente a parte mais interessante do estudo.

Quando os investigadores separaram os participantes por idade, a associação entre períodos prolongados sem comer e acumulação de doenças foi principalmente observada nos adultos com 78 anos ou mais.

Nos participantes com menos de 78 anos, a associação não foi evidente.

Isto levanta uma hipótese importante: a resposta ao jejum poderá mudar à medida que envelhecemos.

O organismo de uma pessoa de 40 ou 50 anos não apresenta necessariamente as mesmas necessidades nutricionais, reservas fisiológicas ou capacidade de adaptação de uma pessoa com 80 ou 90 anos.

Com o envelhecimento, tornam-se particularmente importantes fatores como a manutenção da massa muscular, ingestão adequada de proteína, energia suficiente, micronutrientes e prevenção da perda involuntária de peso.

Por isso, a pergunta não deverá ser simplesmente “o jejum é saudável?”, mas sim:

Para quem, durante quanto tempo e em que circunstâncias?

Que doenças estavam associadas aos períodos mais longos sem comer?

A associação não apareceu de forma igual em todas as categorias de doenças.

Os períodos mais longos sem comer estiveram associados a uma acumulação mais rápida do número total de doenças crónicas.

Quando os investigadores analisaram diferentes grupos de doenças, encontraram associações particularmente relacionadas com:

  • doenças cardiovasculares;
  • doenças neuropsiquiátricas;
  • número total de doenças crónicas.

Por outro lado, não foi observada uma associação significativa com doenças musculoesqueléticas.

Isto é importante porque demonstra que o resultado não pode ser simplificado para “jejum causa doenças”.

Estamos perante associações diferentes dependendo do tipo de doença analisada. (visualize.jove.com)

Mas atenção: este estudo não prova que o jejum provoque doenças

Esta é a principal limitação que devemos ter presente.

O trabalho é um estudo observacional de coorte.

Os investigadores observaram os hábitos alimentares dos participantes e acompanharam a evolução das doenças ao longo dos anos. Não atribuíram aleatoriamente às pessoas um determinado número de horas de jejum.

Consequentemente, não é possível afirmar que passar muitas horas sem comer tenha sido a causa da maior acumulação de doenças.

Pode existir aquilo que os investigadores chamam de causalidade inversa ou outros fatores associados.

Por exemplo, uma pessoa que já esteja a desenvolver problemas de saúde pode começar naturalmente a comer menos ou a fazer refeições menos frequentes.

Uma pessoa mais frágil pode perder o apetite.

Outra pode ter dificuldades físicas para preparar refeições.

Medicamentos, alterações cognitivas, isolamento social, depressão, alterações gastrointestinais, perda de peso ou dificuldades financeiras também podem influenciar os padrões alimentares.

Ou seja, pode existir uma relação entre longos períodos sem comer e pior saúde sem que o jejum seja necessariamente o responsável.

Os próprios investigadores salientam que o estudo não consegue determinar causa e efeito. (news.ki.se)

Isto significa que o jejum intermitente é perigoso?

Não.

Seria errado tirar essa conclusão a partir deste estudo.

O interesse desta investigação está sobretudo em mostrar que a evidência sobre jejum não deve ser generalizada automaticamente para todas as idades.

Grande parte da investigação sobre jejum intermitente e alimentação com restrição temporal foi realizada em adultos mais jovens ou de meia-idade. A evidência especificamente relacionada com pessoas muito idosas continua a ser mais limitada.

Uma revisão anterior sobre jejum intermitente em adultos de meia-idade e idosos concluiu que existiam sinais de benefícios, incluindo alguma perda de peso, mas também destacou que muitos estudos tinham amostras pequenas e duração relativamente curta. (ScienceDirect)

Portanto, o novo estudo acrescenta uma peça importante ao puzzle: na idade avançada, os benefícios e riscos podem não ser exatamente os mesmos observados noutras fases da vida.

Jejum, perda de peso e envelhecimento são questões diferentes

Uma das razões pelas quais o jejum ganhou tanta popularidade está relacionada com o controlo do peso.

Reduzir o período em que uma pessoa come pode, em determinadas circunstâncias, facilitar a redução da ingestão energética.

Mas envelhecer com saúde envolve muito mais do que controlar o peso.

Para uma pessoa idosa, preservar músculo e força pode ser tão ou mais importante do que perder alguns quilos.

Uma restrição alimentar demasiado agressiva pode dificultar a ingestão suficiente de:

proteína + energia + vitaminas + minerais.

E isto pode tornar-se especialmente relevante quando já existe perda de apetite ou tendência para perda de massa muscular.

Por isso, uma estratégia de jejum que seja perfeitamente tolerada por uma pessoa de 40 ou 50 anos pode não ser a melhor escolha para alguém com 80 anos, sobretudo se existir fragilidade, baixo peso ou perda de massa muscular.

O problema pode não estar apenas nas horas sem comer

Também é importante não transformar este estudo numa discussão simplista entre “comer muitas vezes” e “comer poucas vezes”.

O horário das refeições é apenas uma componente da alimentação.

A qualidade da dieta, quantidade total de proteína, ingestão energética, atividade física, sono, composição corporal, consumo de álcool, tabagismo e controlo dos fatores de risco cardiovascular têm provavelmente uma importância muito maior para a saúde global.

Além disso, uma pessoa pode fazer uma janela alimentar relativamente curta e, ainda assim, consumir uma alimentação nutricionalmente adequada.

Outra pessoa pode comer várias vezes por dia, mas ter uma alimentação de baixa qualidade.

Portanto, o número de refeições isoladamente não determina se uma alimentação é saudável.

O que este estudo muda na discussão sobre jejum?

Talvez a principal mensagem seja esta:

O jejum não deve ser tratado como uma estratégia universal.

A idade pode ser um dos fatores que determina se uma determinada duração de jejum é adequada.

O estudo encontrou uma associação entre intervalos máximos de 14–24 horas e maior velocidade de acumulação de doenças, sobretudo a partir dos 78 anos. Mas isso não significa que uma pessoa de 78 anos que faça jejum de 16 horas esteja necessariamente a prejudicar a sua saúde.

Não podemos retirar essa conclusão.

O que podemos dizer é que existe agora uma associação que merece ser investigada em ensaios clínicos e estudos de intervenção, particularmente entre os adultos mais idosos.

Então, quantas horas devemos ficar sem comer?

Não existe uma resposta universal.

Para algumas pessoas, uma janela alimentar de 10–12 horas pode ser perfeitamente adequada. Outras podem preferir 12–14 horas. Algumas pessoas fazem períodos mais prolongados.

Mas quanto mais avançada for a idade, maior deve ser a preocupação em garantir que a alimentação fornece quantidade suficiente de energia e nutrientes.

Em idosos frágeis, com baixo peso, perda muscular ou perda involuntária de peso, prolongar deliberadamente os períodos sem comer pode não ser uma prioridade adequada.

Nessas situações, preservar a ingestão nutricional e a massa muscular pode ser muito mais importante.

Afinal, o jejum acelera o envelhecimento?

Ainda não sabemos.

O estudo sueco não demonstrou que o jejum acelere biologicamente o envelhecimento.

Demonstrou que, numa grande coorte de adultos com 60 ou mais anos, períodos habituais mais longos entre refeições estiveram associados a uma acumulação mais rápida de doenças crónicas ao longo de até 15 anos.

A associação foi particularmente forte entre os participantes com 78 anos ou mais.

É uma descoberta interessante e suficientemente relevante para questionar uma ideia que muitas vezes aparece nas redes sociais: a de que uma determinada estratégia alimentar é automaticamente saudável para qualquer pessoa, independentemente da idade.

A realidade é provavelmente mais complexa.

Jejum, idade, massa muscular, qualidade alimentar e estado de saúde precisam de ser analisados em conjunto.

O novo estudo não prova que devemos abandonar o jejum.

Mas lembra-nos de algo fundamental: quando falamos de longevidade, mais restrição alimentar não significa necessariamente mais saúde.

Posso ajudar

Posso ajudar a adaptar o jejum, alimentação e treino à sua idade, objetivos, composição corporal e rotina, procurando preservar massa muscular e saúde a longo prazo.

Nota importante

Este artigo tem caráter informativo e não substitui avaliação médica ou nutricional individual. Pessoas idosas, frágeis, com perda de peso involuntária, doenças crónicas ou que tomem vários medicamentos devem discutir alterações importantes no padrão alimentar com um profissional de saúde.

Referências e links

Karolinska Institutet — “Longer meal intervals linked to faster disease accumulation in older adults”
A comunicação oficial do Karolinska Institutet explica o estudo, a população analisada, os resultados e a principal limitação: a investigação não demonstra causalidade. Karolinska Institutet — estudo sobre intervalos entre refeições e doenças crónicas

Journal of Internal Medicine — “Habitual fasting duration and accelerated multimorbidity in older adults”
Artigo científico original, publicado online em 20 de agosto de 2026, com os resultados da coorte sueca de 2.981 adultos e análise por grupos etários. Artigo científico no Journal of Internal Medicine

SNAC-K — Swedish National Study on Aging and Care in Kungsholmen
Estudo longitudinal sueco utilizado pelos investigadores para acompanhar adultos mais velhos e avaliar a evolução de doenças crónicas ao longo do tempo.

Experimental Gerontology — revisão sobre jejum intermitente em adultos de meia-idade e idosos
Revisão que ajuda a contextualizar a evidência anterior sobre jejum, perda de peso e saúde metabólica em adultos mais velhos. (ScienceDirect)