O exercício pode alterar mecanismos ligados à inflamação na diabetes?

O exercício pode alterar mecanismos ligados à inflamação na diabetes? September 11, 2026Leave a comment

A diabetes tipo 2 é frequentemente apresentada como um problema relacionado com o açúcar no sangue. Mas a doença é muito mais complexa.

Resistência à insulina, excesso de gordura visceral, alterações metabólicas, stress oxidativo e inflamação de baixo grau podem interagir durante anos, contribuindo para a progressão da doença e para o aparecimento de complicações.

É neste contexto que surge uma investigação particularmente interessante: será que o exercício aeróbio consegue alterar mecanismos moleculares relacionados com a inflamação na diabetes tipo 2?

Um estudo recente sugere que sim.

Os investigadores observaram que 12 semanas de treino aeróbio supervisionado aumentaram as concentrações circulantes de sRAGE, uma forma solúvel do recetor dos produtos finais de glicação avançada, conhecido pela sigla RAGE.

Data do estudo mais recente: publicação online em 17 de junho de 2026; edição de setembro de 2026 da revista Diabetes, Obesity and Metabolism.

O que é o sRAGE?

Para compreender a importância deste resultado é necessário perceber o que significa sRAGE.

RAGE significa Receptor for Advanced Glycation End-products, ou recetor para produtos finais de glicação avançada.

Os produtos finais de glicação avançada, conhecidos como AGEs, formam-se através de reações entre açúcares e proteínas ou lípidos. A acumulação destes produtos pode estar associada ao envelhecimento e a diversas alterações metabólicas.

O RAGE participa na sinalização celular relacionada com processos inflamatórios.

Já o sRAGE é uma forma solúvel que circula no sangue. Pode ligar-se a determinados ligandos e funcionar, em determinadas circunstâncias, como uma espécie de “recetor de captura”, potencialmente reduzindo a ativação de vias inflamatórias associadas ao RAGE.

Por isso, o sRAGE tem sido estudado como um possível marcador relacionado com a regulação inflamatória e metabólica.

Mas é importante não simplificar: um aumento do sRAGE não significa automaticamente que a inflamação desapareceu ou que a diabetes foi tratada.

É um marcador dentro de uma rede biológica muito mais complexa.

O que fizeram os investigadores?

O estudo incluiu 33 adultos sedentários com diabetes tipo 2.

Os participantes foram distribuídos aleatoriamente entre um grupo que realizou treino aeróbio e um grupo de controlo.

O grupo de exercício realizou:

  • 60 minutos de exercício aeróbio;
  • 5 dias por semana;
  • durante 12 semanas;
  • a aproximadamente 70% do VO₂peak.

Foram avaliadas várias características antes e depois da intervenção, incluindo condição cardiorrespiratória, composição corporal, metabolismo da glicose, sRAGE e diferentes proteínas relacionadas com mecanismos inflamatórios no músculo.

Não estamos, portanto, perante uma simples comparação entre pessoas que fazem exercício e pessoas sedentárias.

Trata-se de uma intervenção supervisionada, com um programa relativamente exigente.

O exercício aumentou o sRAGE

O principal resultado foi claro:

12 semanas de treino aeróbio aumentaram as concentrações circulantes de sRAGE.

O aumento foi de aproximadamente 25%, e a maioria dos participantes apresentou uma resposta positiva ao treino.

Ao mesmo tempo, o grupo de exercício apresentou melhorias na aptidão cardiorrespiratória e redução da percentagem e massa de gordura corporal.

Este resultado é interessante porque sugere que o exercício não atua apenas sobre aquilo que conseguimos observar facilmente — como peso, perímetro abdominal ou glicemia.

Pode também produzir alterações em vias moleculares relacionadas com o metabolismo e a inflamação.

E a glicemia?

Aqui é importante ter cuidado para não exagerar os resultados.

O exercício melhorou alguns indicadores metabólicos, incluindo uma redução das concentrações de frutosamina e uma melhoria do Matsuda Index, um indicador utilizado para estimar a sensibilidade à insulina.

No entanto, nem todas as medidas de controlo glicémico apresentaram diferenças estatisticamente significativas entre grupos.

Por exemplo, a glicemia em jejum diminuiu numericamente no grupo de exercício, mas essa alteração não atingiu significância estatística.

Isto é importante porque demonstra uma diferença entre:

“o exercício melhorou vários mecanismos metabólicos”

e

“o exercício curou a diabetes”.

A segunda afirmação não é suportada pelo estudo.

O que aconteceu à inflamação?

Os investigadores analisaram também outros componentes relacionados com a resposta inflamatória.

O sTLR4, outro recetor solúvel envolvido na sinalização inflamatória, não apresentou alterações significativas.

Já alguns indicadores relacionados com as proteínas reguladoras das chamadas sheddases — enzimas que podem modificar a disponibilidade de determinados recetores na superfície celular — sofreram alterações.

No entanto, os investigadores não observaram alterações na atividade da ADAM10 nem na expressão da proteína RAGE no músculo esquelético.

Isto mostra como a biologia do exercício é complexa.

O aumento do sRAGE ocorreu, mas o mecanismo exato responsável por esse aumento ainda não está completamente esclarecido.

O que significa “anti-inflamatório”?

É frequente ouvir dizer que o exercício é “anti-inflamatório”.

A expressão pode ser útil para explicar o conceito, mas deve ser utilizada com alguma cautela.

O exercício provoca, especialmente quando é intenso, uma resposta fisiológica aguda que pode incluir alterações temporárias em vários marcadores inflamatórios.

Com treino regular, porém, podem ocorrer adaptações que melhoram a capacidade do organismo para lidar com stress metabólico e inflamatório.

No novo estudo, o treino aeróbio aumentou o sRAGE e melhorou determinados indicadores metabólicos.

Isso é compatível com a hipótese de que o exercício regular pode favorecer mecanismos endógenos de regulação inflamatória em pessoas com diabetes tipo 2.

Mas ainda não sabemos se o aumento do sRAGE é diretamente responsável pelas melhorias metabólicas.

Os próprios autores salientam que a relação entre essas alterações é associativa e que os mecanismos específicos permanecem por esclarecer.

Exercício aeróbio: quanto é necessário?

O protocolo utilizado neste estudo foi bastante exigente:

300 minutos de exercício aeróbio por semana.

Foram cinco sessões de 60 minutos.

Isto é importante para interpretar corretamente os resultados.

Não podemos concluir que fazer 30 minutos de caminhada duas vezes por semana produzirá exatamente o mesmo aumento de sRAGE.

Também não podemos concluir que são necessários 300 minutos para obter benefícios metabólicos.

O estudo testou uma determinada dose de exercício, e não todas as doses possíveis.

Na prática, a quantidade ideal de exercício depende da condição física, idade, medicação, controlo glicémico, limitações musculoesqueléticas e objetivos de cada pessoa.

E o treino de força?

O estudo concentrou-se no exercício aeróbio, mas isso não significa que o treino de força seja menos importante para uma pessoa com diabetes tipo 2.

O músculo esquelético é um dos principais tecidos responsáveis pela utilização da glicose.

Durante a contração muscular, aumenta a utilização de glicose pelo músculo, independentemente de alguns mecanismos dependentes da insulina.

A longo prazo, aumentar ou preservar massa muscular pode ser particularmente interessante porque proporciona um maior tecido metabolicamente ativo.

Por isso, uma estratégia completa para uma pessoa com diabetes tipo 2 pode combinar:

exercício aeróbio + treino de força + redução do comportamento sedentário.

O objetivo não deverá ser escolher entre correr ou levantar pesos.

Pode ser muito mais interessante utilizar os dois.

E caminhar depois das refeições?

Para quem tem diabetes tipo 2, o exercício não precisa de acontecer exclusivamente numa sessão longa.

Caminhar depois das refeições é uma estratégia prática que pode aumentar a atividade muscular precisamente num período em que a glicemia está a subir.

Pode ser especialmente interessante para pessoas que passam muitas horas sentadas.

Uma pessoa que não consegue realizar 60 minutos contínuos pode começar com períodos mais curtos e aumentar progressivamente.

O princípio fundamental é reduzir o tempo sedentário e aumentar regularmente a atividade física.

O exercício pode modificar a diabetes ao nível molecular?

Esta é provavelmente a mensagem mais interessante do estudo.

Quando pensamos no exercício, normalmente pensamos em:

  • baixar a glicemia;
  • perder peso;
  • melhorar a resistência;
  • aumentar a capacidade cardiovascular;
  • ganhar força.

Mas o exercício também funciona como um estímulo biológico.

As contrações musculares alteram sinais celulares. O metabolismo energético modifica-se. A circulação sanguínea aumenta. O tecido adiposo adapta-se. O músculo modifica a expressão de determinadas proteínas.

O estudo do sRAGE acrescenta mais uma peça a este puzzle.

O exercício aeróbio parece ser capaz de modificar um marcador relacionado com mecanismos de regulação inflamatória em pessoas com diabetes tipo 2.

Ainda não sabemos se o sRAGE é simplesmente um marcador da adaptação ou se participa diretamente nos benefícios do exercício.

Essa distinção será importante para futuras investigações.

Este resultado é completamente novo?

Não.

Já em 2012, um ensaio clínico randomizado com 75 pessoas com diabetes tipo 2 tinha encontrado aumento do sRAGE após 12 semanas de exercício aeróbio, acompanhado por melhorias em vários fatores cardiometabólicos e redução da proteína C-reativa de alta sensibilidade.

O estudo de 2026 é particularmente interessante porque procura aprofundar o mecanismo.

Além de medir o sRAGE circulante, avaliou proteínas e vias relacionadas no músculo esquelético.

Assim, a investigação mais recente não apenas reforça uma observação anterior como tenta perceber como o exercício pode produzir essa alteração.

O que podemos retirar deste estudo?

A principal conclusão não é que o exercício “cura a inflamação”.

É mais interessante do que isso.

O exercício aeróbio regular pode provocar adaptações metabólicas e moleculares que não são visíveis simplesmente através da balança.

Em pessoas com diabetes tipo 2, 12 semanas de treino aeróbio supervisionado aumentaram o sRAGE, melhoraram a condição cardiorrespiratória, reduziram gordura corporal e melhoraram alguns indicadores do metabolismo da glicose.

Mas o estudo foi pequeno, com apenas 33 participantes, e utilizou uma intervenção intensiva.

Por isso, são necessários estudos maiores e mais longos para perceber se alterações no sRAGE se traduzem em menor risco de complicações da diabetes ou em melhores resultados clínicos.

O exercício pode alterar mecanismos ligados à inflamação?

Sim, os resultados sugerem que pode.

Mas talvez a mensagem mais importante seja outra:

quando treinamos, não estamos apenas a gastar calorias.

Estamos a enviar sinais ao músculo, ao tecido adiposo, ao sistema cardiovascular e a vários sistemas metabólicos.

E alguns desses sinais podem alterar a forma como o organismo responde à doença.

Para uma pessoa com diabetes tipo 2, isso significa que o exercício deve ser encarado não apenas como uma forma de “queimar açúcar”, mas como uma verdadeira intervenção metabólica, integrada no tratamento e acompanhada de acordo com a situação clínica individual.

Posso ajudar

Posso estruturar treino aeróbio e força adaptado à condição física, idade e objetivos, procurando melhorar capacidade funcional, massa muscular e controlo dos fatores de risco metabólico.

Nota

Este artigo tem finalidade educativa. Pessoas com diabetes, sobretudo quando utilizam insulina ou medicamentos que podem provocar hipoglicemia, devem ajustar exercício e monitorização glicémica com acompanhamento dos profissionais de saúde.

Referências e links

Perkins RK, Mazo CE, Shadiow J, et al. Aerobic Exercise Training Increases Circulating sRAGE in Adults With Type 2 Diabetes: Associations With Sheddase Regulation. Diabetes, Obesity and Metabolism. 2026;28(9):8157–8171.

https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/42310923/

https://doi.org/10.1111/dom.70995

Texto integral — PubMed Central:

https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC13448878/

Estudo anterior — Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism, 2012: Effects of Exercise on sRAGE Levels and Cardiometabolic Risk Factors in Patients With Type 2 Diabetes.

https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/22837190/

https://doi.org/10.1210/jc.2012-1951

Estudo de intervenção de 12 meses sobre exercício, stress oxidativo e produtos finais de glicação avançada na diabetes tipo 2:

https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/35764194/