Um novo estudo sueco associou períodos mais longos sem comer a uma acumulação mais rápida de doenças crónicas em adultos mais velhos. Mas existe uma pergunta fundamental: o problema é realmente o jejum ou aquilo que pode acontecer quando uma pessoa idosa passa muitas horas sem comer?
O jejum intermitente tornou-se uma das estratégias alimentares mais populares dos últimos anos. Para algumas pessoas, reduzir o período diário em que se come pode facilitar o controlo do peso e da ingestão energética.
Mas será que a mesma estratégia deve ser aplicada a uma pessoa de 80 anos?
Um novo estudo publicado no Journal of Internal Medicine encontrou uma associação entre períodos habituais mais longos sem comer e uma progressão mais rápida da multimorbilidade em adultos com 60 ou mais anos. A associação foi particularmente evidente entre os participantes com 78 anos ou mais. (Wiley Online Library)
A descoberta merece atenção.
Mas existe uma questão ainda mais interessante: será que os investigadores estavam realmente a observar o efeito do jejum ou, pelo menos em parte, o efeito de uma alimentação insuficiente, perda de massa muscular, fragilidade e menor atividade física?
O que o estudo encontrou?
Os investigadores analisaram 2.981 adultos com 60 ou mais anos, acompanhados durante até 15 anos.
Os participantes foram classificados de acordo com o intervalo máximo habitual entre ocasiões de alimentação.
Algumas pessoas apresentavam períodos relativamente curtos sem comer, enquanto outras tinham intervalos que podiam chegar às 14–24 horas.
Durante o acompanhamento, os investigadores observaram a evolução da multimorbilidade, ou seja, a acumulação de várias doenças crónicas na mesma pessoa.
O resultado foi surpreendente: os participantes com períodos mais longos entre refeições apresentaram uma acumulação mais rápida de doenças crónicas.
E o efeito pareceu particularmente evidente a partir dos 78 anos. (Wiley Online Library)
É um resultado interessante.
Mas existe uma diferença enorme entre dizer:
“Pessoas que jejuam mais desenvolvem mais doenças.”
e dizer:
“O jejum provoca mais doenças.”
O estudo permite a primeira afirmação, mas não a segunda.
A grande pergunta que o estudo não consegue responder
Imagine uma pessoa de 82 anos que passa regularmente 16 ou 18 horas sem comer.
Por que razão faz isso?
Pode ser uma pessoa saudável que deliberadamente pratica jejum intermitente.
Mas também pode ser uma pessoa que:
- perdeu o apetite;
- come pequenas quantidades;
- perdeu peso;
- perdeu massa muscular;
- tem dificuldades para preparar refeições;
- vive sozinha;
- tem problemas dentários;
- tem dificuldades para mastigar;
- apresenta fragilidade;
- tem limitações físicas;
- toma vários medicamentos;
- ou simplesmente deixou de sentir fome como anteriormente.
Estas situações podem produzir exatamente o mesmo padrão observado no estudo: muitas horas sem comer.
Mas, nesse caso, o intervalo alimentar pode ser mais um marcador de fragilidade do que a causa da doença.
É uma distinção fundamental.
E se essas pessoas tivessem proteína adequada?
Esta é uma das questões que considero mais interessantes quando analisamos estes resultados.
O envelhecimento está associado à perda progressiva de massa muscular e força.
Por isso, as necessidades proteicas dos adultos mais velhos não devem ser encaradas exatamente da mesma forma que as de adultos jovens.
As recomendações da ESPEN indicam pelo menos 1,0 g de proteína/kg de peso corporal por dia para pessoas idosas, sendo frequentemente sugeridos 1,0–1,2 g/kg/dia para idosos saudáveis. Em determinadas situações clínicas ou de risco nutricional, podem ser necessários valores superiores. (clinicalnutritionjournal.com)
Isto muda bastante a interpretação do jejum.
Uma pessoa pode passar 16 horas sem comer e, durante as restantes 8 horas, conseguir ingerir proteína e energia suficientes.
Outra pode passar as mesmas 16 horas sem comer e terminar o dia com uma ingestão insuficiente.
Fisiologicamente, não são situações equivalentes.
O problema pode ser a ingestão energética insuficiente
Imagine duas pessoas de 80 anos.
A primeira faz uma janela alimentar de oito horas, mas consegue consumir três refeições nutricionalmente completas, suficientes calorias, proteína adequada, legumes, fruta, peixe, ovos, lacticínios, leguminosas e outros alimentos de elevada densidade nutricional.
A segunda faz a mesma janela alimentar, mas tem pouco apetite e acaba por comer apenas uma pequena refeição e um lanche.
Ambas fazem “16 horas de jejum”.
Mas a segunda pessoa pode estar a ingerir muito menos energia e proteína.
Se começar a perder peso e massa muscular, o problema poderá não ser simplesmente o número de horas em jejum.
Poderá ser subnutrição relativa.
E isso é especialmente importante numa pessoa muito idosa.
Massa muscular: a variável que merece mais atenção
Quando falamos de envelhecimento saudável, não devemos olhar apenas para colesterol, glicemia ou peso corporal.
A capacidade de levantar-se de uma cadeira, subir escadas, caminhar, carregar compras e manter independência é extremamente importante.
A perda progressiva de massa e força muscular pode contribuir para fragilidade, quedas e perda de autonomia.
A literatura sobre envelhecimento aponta precisamente para a importância da combinação entre proteína adequada e exercício, incluindo treino de resistência, para preservar a função muscular. (PubMed Central (PMC))
Isto cria uma hipótese interessante relativamente ao novo estudo.
Talvez uma parte da associação observada nos participantes mais velhos esteja relacionada com aquilo que acontece a montante:
longos períodos sem comer → menor oportunidade de ingerir alimentos → menor ingestão energética/proteica → perda de massa muscular e fragilidade → maior vulnerabilidade a doenças.
Isto é apenas uma hipótese.
O estudo não demonstra esta cadeia causal.
Mas é uma hipótese que merece ser estudada.
E se fizessem exercício todos os dias?
A segunda variável fundamental é o exercício.
Uma pessoa de 80 anos fisicamente ativa é biologicamente muito diferente de uma pessoa de 80 anos sedentária e frágil.
A atividade física regular ajuda a preservar capacidade funcional, enquanto o treino de resistência constitui uma das principais ferramentas para combater a perda de força e massa muscular associada ao envelhecimento. As recomendações da ESPEN defendem atividade física diária quando possível e treino de resistência como parte da estratégia para manter a função muscular. (PubMed Central (PMC))
Por isso, seria extremamente interessante saber se a associação encontrada no estudo permaneceria igual depois de controlar de forma muito rigorosa:
proteína + calorias + treino de força + atividade física + massa muscular + fragilidade.
Se permanecesse, teríamos uma evidência muito mais forte de que o próprio padrão de jejum poderia estar relacionado com o risco.
Se diminuísse substancialmente, poderíamos concluir que parte da associação inicialmente observada talvez estivesse relacionada com outros fatores.
Um estudo ideal seria muito diferente
Para responder verdadeiramente à questão, seria interessante realizar um estudo especificamente desenhado para pessoas com mais de 78 anos.
Por exemplo, poderíamos comparar pessoas com diferentes períodos alimentares, mas garantir que todos os grupos recebem:
- proteína adequada à idade;
- ingestão energética suficiente;
- micronutrientes adequados;
- atividade física regular;
- treino de força;
- acompanhamento da massa muscular;
- avaliação da fragilidade;
- acompanhamento do peso e composição corporal.
Depois seria possível acompanhar durante vários anos a incidência de doenças cardiovasculares, diabetes, doenças neurodegenerativas, quedas, incapacidade, perda muscular e mortalidade.
Só então começaríamos a perceber melhor se existe um efeito independente do tempo passado sem comer.
Isto significa que pessoas com mais de 78 anos não devem fazer jejum?
Não.
Seria uma conclusão demasiado forte.
O estudo não demonstra que uma pessoa de 80 anos que faça uma janela alimentar de 8 ou 10 horas esteja a prejudicar a sua saúde.
Também não demonstra que todas as pessoas com mais de 78 anos devam fazer três refeições por dia.
O que demonstra é que períodos habituais muito longos sem comer estiveram associados a uma evolução menos favorável da multimorbilidade, sobretudo entre os participantes mais idosos. (Wiley Online Library)
A associação merece investigação, mas não prova causalidade.
O que pode ser mais importante depois dos 78 anos?
Talvez a pergunta não deva ser:
“Quantas horas devo ficar sem comer?”
Mas sim:
“Consigo manter uma alimentação nutricionalmente adequada durante a minha janela alimentar?”
E ainda:
“Estou a preservar a minha massa muscular e capacidade física?”
Para uma pessoa idosa saudável, manter um peso adequado, consumir proteína suficiente, praticar exercício, fazer treino de força e garantir energia e micronutrientes adequados pode ser muito mais importante do que simplesmente aumentar o número de horas de jejum.
Uma janela alimentar curta que facilite uma alimentação saudável pode ser perfeitamente diferente de um período prolongado sem comer que resulte em ingestão insuficiente.
O jejum pode ser saudável para uns e inadequado para outros
Esta é provavelmente a conclusão mais equilibrada.
O jejum não é automaticamente saudável.
Mas também não é automaticamente prejudicial.
Os seus efeitos podem depender da idade, composição corporal, estado nutricional, atividade física, quantidade total de proteína e energia consumida e existência de doenças ou fragilidade.
E quanto mais avançada for a idade, mais importante se torna evitar que uma estratégia alimentar aparentemente simples provoque involuntariamente perda de peso, perda de músculo ou ingestão insuficiente de nutrientes.
Afinal, o problema é o jejum ou comer pouco?
Ainda não sabemos.
O estudo sueco levanta uma dúvida importante, mas não a resolve.
Pode existir algum efeito do período prolongado sem comer.
Pode também acontecer que as pessoas que passam muitas horas sem comer sejam precisamente aquelas que já apresentam características associadas a maior risco de doença: menor apetite, fragilidade, menor atividade física, menor ingestão energética ou perda muscular.
E podem existir ambas as coisas simultaneamente.
Por isso, a mensagem mais interessante não é:
“Jejum depois dos 78 anos faz mal.”
É:
“Antes de culpar o jejum, precisamos de perceber o que essas pessoas estão realmente a comer, quanto estão a comer, quanta proteína ingerem e quanto músculo e atividade física mantêm.”
Essa distinção pode mudar completamente a interpretação dos resultados.
Posso ajudar
Posso ajudar a estruturar alimentação, proteína e exercício para preservar massa muscular, força e autonomia durante o envelhecimento, de forma individualizada e sustentável.
Nota importante
Este artigo é informativo e não substitui avaliação médica ou nutricional individual. Em pessoas idosas, especialmente com fragilidade, perda involuntária de peso, doença crónica ou múltiplos medicamentos, alterações importantes no padrão alimentar devem ser discutidas com um profissional de saúde.
Referências e links
Journal of Internal Medicine — “Habitual fasting duration and accelerated multimorbidity in older adults”
É o estudo sueco original publicado em agosto de 2026. Analisa 2.981 adultos com 60 ou mais anos e encontrou uma associação entre períodos habituais mais longos sem comer e uma acumulação mais rápida de doenças crónicas, particularmente nos participantes com 78 ou mais anos. Artigo científico original — Journal of Internal Medicine
Karolinska Institutet — “Longer meal intervals linked to faster disease accumulation in older adults”
Resumo institucional do estudo e explicação dos principais resultados e limitações. Notícia do Karolinska Institutet sobre o estudo
ESPEN — Clinical nutrition and hydration in geriatrics
Recomendações europeias para nutrição e hidratação de pessoas idosas, incluindo a importância de assegurar proteína suficiente e ajustar a ingestão às necessidades individuais, atividade física e estado clínico. Recomendações ESPEN para nutrição geriátrica
ESPEN Expert Group — Protein intake and exercise for optimal muscle function with aging
Documento que aborda especificamente a combinação entre proteína e exercício para preservar massa muscular, força e função durante o envelhecimento. Recomendações ESPEN sobre proteína e exercício no envelhecimento
Clinical Nutrition — Protein intervention during resistance training in frail older adults
Estudo publicado em 2026 que analisou proteína durante treino de resistência em idosos frágeis. Os resultados globais foram modestos, mas análises exploratórias sugeriram maiores ganhos de força entre participantes que inicialmente consumiam menos de 1,2 g/kg/dia, especialmente abaixo de 0,8 g/kg/dia. Estudo de 2026 sobre proteína e treino de resistência em idosos frágeis