Beber mais café pode estar associado a menos gordura e mais músculo?

Beber mais café pode estar associado a menos gordura e mais músculo? September 1, 2026Leave a comment

O café é provavelmente uma das bebidas mais consumidas no mundo.

Para muitas pessoas, a primeira coisa do dia é precisamente uma chávena de café. Uns bebem-no pelo sabor, outros para aumentar a concentração e o estado de alerta e outros simplesmente porque faz parte da rotina.

Mas será que o café pode estar relacionado com a composição corporal e as hormonas?

Um estudo muito recente, publicado em 16 de julho de 2026 no European Journal of Nutrition, encontrou uma associação interessante entre o consumo habitual de café, a quantidade de gordura corporal, a massa muscular, alguns marcadores metabólicos e determinadas hormonas sexuais.

Os resultados são particularmente interessantes nos homens, onde um maior consumo de café esteve associado a níveis mais elevados de testosterona total e testosterona biodisponível.

Mas há uma questão fundamental:

isto significa que beber mais café aumenta a testosterona e faz perder gordura?

Não podemos concluir isso a partir deste estudo.

O que foi estudado?

Os investigadores utilizaram dados da Northern Finland Birth Cohort 1966, uma grande coorte populacional finlandesa.

A análise incluiu 2.264 participantes, dos quais aproximadamente 47% eram homens.

Todos tinham 46 anos no momento da avaliação.

Os investigadores analisaram o consumo habitual de café e compararam-no com diferentes características biológicas.

Foram avaliados:

  • composição corporal;
  • gordura corporal total;
  • gordura visceral;
  • massa muscular esquelética;
  • metabolismo da glicose;
  • insulina;
  • aminoácidos;
  • testosterona;
  • SHBG;
  • testosterona livre;
  • outros marcadores cardiometabólicos.

Os investigadores fizeram ainda ajustes estatísticos para vários fatores, incluindo IMC, escolaridade, tabagismo, atividade física e consumo de álcool.

O objetivo era perceber se existiam padrões diferentes entre pessoas com diferentes níveis de consumo de café.

Quem bebia mais café tinha menos gordura

Um dos resultados mais interessantes foi observado na composição corporal.

Os participantes que consumiam mais café apresentavam, em média:

menor percentagem de gordura corporal;

menor quantidade de gordura visceral;

maior massa muscular esquelética.

Curiosamente, o IMC era semelhante entre os diferentes grupos de consumo de café.

Este resultado é particularmente interessante porque mostra uma limitação importante do IMC.

Duas pessoas podem ter exatamente o mesmo IMC e apresentar composições corporais bastante diferentes.

Uma pode ter mais massa muscular e menos gordura.

Outra pode ter menos músculo e mais gordura visceral.

Por isso, quando falamos de saúde metabólica e envelhecimento, olhar apenas para o peso corporal pode não ser suficiente.

O que é a gordura visceral?

A gordura visceral é a gordura armazenada à volta dos órgãos internos.

Não é simplesmente uma questão estética.

Quantidades elevadas de gordura visceral estão associadas a alterações metabólicas, incluindo resistência à insulina, inflamação e maior risco cardiometabólico.

Por isso, o facto de o maior consumo de café estar associado a menor gordura visceral é uma das observações mais interessantes do estudo.

Mas novamente temos de colocar uma palavra importante:

associação.

Não sabemos se foi o café que contribuiu para a menor quantidade de gordura visceral.

É perfeitamente possível que pessoas que bebem mais café tenham outros hábitos de vida que contribuam para uma composição corporal diferente.

Mesmo depois dos ajustes estatísticos, é impossível eliminar completamente todos os fatores de confusão.

E a massa muscular?

Outro resultado interessante foi a associação entre maior consumo de café e maior massa muscular esquelética.

Para quem está interessado em envelhecimento saudável, esta observação é particularmente relevante.

A massa muscular desempenha um papel fundamental na capacidade funcional, força, metabolismo e autonomia.

Mas seria um erro transformar o estudo numa recomendação de beber café para ganhar músculo.

O café não substitui o treino de força.

Não há neste estudo demonstração de que a cafeína ou qualquer outro composto do café tenha provocado aumento de massa muscular.

Na realidade, uma explicação possível é que pessoas com determinados estilos de vida sejam simultaneamente mais propensas a consumir café e a manter maior atividade física.

E a testosterona?

É provavelmente a parte que mais atenção recebeu.

Nos homens, o maior consumo de café esteve associado a maiores concentrações de testosterona total e testosterona biodisponível.

Os investigadores estimaram que cada chávena adicional de café por dia estava associada a aproximadamente:

+0,29 nmol/L de testosterona total;

+0,08 nmol/L de testosterona biodisponível;

+0,57 nmol/L de SHBG.

À primeira vista, parece uma excelente notícia.

Mas há uma surpresa.

A testosterona livre — a fração não ligada às proteínas transportadoras — apresentou uma associação ligeiramente inferior com maior consumo de café.

E o índice de androgénio livre também foi inferior.

Isto acontece porque a testosterona no organismo não deve ser analisada apenas através do valor de testosterona total.

O que é a SHBG?

A SHBG, ou globulina de ligação às hormonas sexuais, é uma proteína produzida principalmente pelo fígado que transporta hormonas sexuais no sangue.

Quando a SHBG aumenta, pode alterar a quantidade de testosterona que permanece livre.

Por isso, dizer simplesmente:

“O café aumenta a testosterona”

é uma simplificação excessiva.

O estudo encontrou um padrão hormonal mais complexo.

Nos homens, maior consumo de café esteve associado a:

  • maior testosterona total;
  • maior testosterona biodisponível;
  • maior SHBG;
  • menor testosterona livre;
  • menor índice de androgénio livre.

Ou seja, não estamos perante uma simples subida generalizada de todas as formas de testosterona.

E nas mulheres?

Os resultados hormonais foram diferentes.

Nas mulheres sem síndrome do ovário poliquístico, o maior consumo de café esteve principalmente associado a:

maior SHBG

e

menores valores de testosterona livre e índice de androgénio livre.

Não foi observada a mesma associação com testosterona total ou biodisponível que apareceu nos homens.

Isto mostra mais uma vez porque é importante não fazer generalizações a partir de estudos hormonais.

Homens e mulheres podem responder de forma diferente aos mesmos fatores alimentares.

O café também esteve relacionado com a insulina

Os investigadores encontraram ainda associações interessantes entre consumo de café e metabolismo da glicose.

Nos homens, maior consumo de café esteve associado a:

  • menor insulina em jejum;
  • menor resposta de insulina durante o teste oral de tolerância à glicose;
  • melhores indicadores de sensibilidade à insulina.

Estas associações foram menos marcadas nas mulheres.

Este resultado é interessante porque já existem muitos estudos epidemiológicos que relacionam o consumo habitual de café com um menor risco de diabetes tipo 2.

Mas este estudo não foi desenhado para provar que o café previne diabetes.

Apenas acrescenta informação sobre possíveis diferenças metabólicas entre consumidores de café.

E os aminoácidos?

Existe ainda outro resultado curioso.

Maior consumo de café esteve associado a menores concentrações de vários aminoácidos de cadeia ramificada, conhecidos pela sigla BCAA.

São eles:

  • leucina;
  • isoleucina;
  • valina.

Os BCAA são essenciais e desempenham funções importantes no metabolismo muscular.

No entanto, níveis circulantes elevados de BCAA também têm sido associados a resistência à insulina e alterações metabólicas.

No estudo finlandês, a associação entre maior consumo de café e menores níveis destes aminoácidos apareceu tanto em homens como em mulheres.

Isto abre uma hipótese interessante sobre a forma como os compostos presentes no café podem estar relacionados com o metabolismo.

Mas ainda não sabemos se existe uma relação causal.

Então o café faz emagrecer?

Não podemos dizer isso.

Esta é talvez a principal conclusão que devemos retirar.

O estudo encontrou uma associação entre maior consumo habitual de café e uma composição corporal aparentemente mais favorável.

Mas isso não demonstra que beber café faça perder gordura.

Imagine duas pessoas.

A primeira bebe quatro cafés por dia, pratica exercício regularmente, dorme adequadamente e mantém uma alimentação equilibrada.

A segunda bebe apenas um café, mas é sedentária, dorme pouco e consome regularmente alimentos ultraprocessados.

O café pode ser apenas um marcador de um estilo de vida diferente.

Mesmo com ajustes estatísticos, não é possível excluir completamente este tipo de explicação.

O café pode aumentar a testosterona?

Também não podemos afirmar isso.

O estudo é transversal.

Isto significa que os investigadores observaram os participantes num determinado momento e analisaram relações entre diferentes variáveis.

Não acompanharam pessoas durante anos para verificar se aumentar o consumo de café provocava uma subida da testosterona.

E também não deram café aleatoriamente a um grupo e placebo a outro.

Por isso, a conclusão correta é:

maior consumo habitual de café esteve associado a um determinado perfil hormonal.

Não:

beber mais café aumenta a testosterona.

Esta diferença parece pequena, mas é fundamental para interpretar corretamente a ciência.

E a cafeína?

O café contém cafeína, mas não é apenas cafeína.

A bebida contém centenas de compostos bioativos, incluindo polifenóis e outros componentes que podem contribuir para os seus efeitos biológicos.

Por isso, não podemos assumir que todos os resultados encontrados neste estudo sejam provocados exclusivamente pela cafeína.

Além disso, o estudo avaliou consumo de café, não simplesmente quantidade de cafeína.

Um café expresso, um café filtrado e uma caneca grande podem fornecer quantidades muito diferentes de cafeína.

A preparação também pode alterar a composição da bebida.

Quanto café é demasiado?

A resposta depende da pessoa.

Algumas pessoas toleram várias chávenas sem problemas.

Outras ficam ansiosas, apresentam palpitações, tremores ou dificuldades em dormir mesmo com quantidades relativamente pequenas.

O horário também é importante.

Uma pessoa pode tolerar perfeitamente dois ou três cafés de manhã e ter problemas de sono se beber a mesma quantidade ao final da tarde.

E dormir mal pode ter consequências muito mais relevantes para a saúde do que qualquer potencial benefício metabólico do café.

Por isso, não faz sentido aumentar deliberadamente o consumo apenas para tentar melhorar a testosterona ou perder gordura.

Café e treino de força

Para quem pratica exercício, o café tem uma vantagem que está muito melhor estabelecida:

a cafeína pode melhorar o desempenho físico em determinadas situações.

Pode aumentar o estado de alerta e reduzir a perceção subjetiva de esforço, sendo por isso frequentemente utilizada antes do exercício.

Mas isso é diferente do resultado deste estudo.

O estudo finlandês não demonstrou que beber café aumente diretamente a massa muscular.

Se o objetivo é preservar ou aumentar músculo, especialmente depois dos 40 anos, os pilares continuam a ser:

treino de força progressivo;

ingestão adequada de proteína;

energia suficiente;

sono adequado;

consistência.

O café pode ser um complemento.

Não é o tratamento.

O que este estudo acrescenta?

A investigação publicada em 16 de julho de 2026 é interessante porque mostra que o café está associado a muito mais do que simplesmente estar acordado.

Entre 2.264 adultos de 46 anos, maior consumo habitual esteve associado a:

menor gordura corporal;

menor gordura visceral;

maior massa muscular esquelética;

menores níveis de alguns BCAA;

melhor perfil de alguns marcadores de insulina, sobretudo nos homens;

e diferenças específicas nas hormonas sexuais.

Mas estes resultados devem ser interpretados como pistas científicas, não como uma receita.

A mensagem mais importante

O café pode perfeitamente fazer parte de uma alimentação saudável.

E a investigação continua a encontrar associações interessantes entre o seu consumo habitual e diferentes indicadores de saúde.

O novo estudo finlandês acrescenta uma dimensão particularmente interessante: composição corporal e hormonas sexuais.

Mas não devemos cair na tentação de transformar:

“quem bebe mais café apresenta menos gordura e um determinado perfil hormonal”

em:

“beber café faz perder gordura e aumenta a testosterona”.

São afirmações completamente diferentes.

O estudo foi transversal, portanto não permite estabelecer causalidade. Os próprios autores salientam a necessidade de estudos longitudinais e de intervenção para determinar se o café ou os seus componentes são responsáveis pelas associações observadas.

Para quem gosta de café, a mensagem é simples:

não há razão para abandonar automaticamente o café por causa das hormonas.

Mas também não existe razão para começar a beber mais café com o objetivo de aumentar a testosterona ou perder gordura.

Se gosta de café, tolera bem a cafeína e não interfere com o seu sono, pode ser perfeitamente compatível com um estilo de vida saudável.

E, para melhorar a composição corporal, provavelmente continuará a ser muito mais importante aquilo que fazemos à mesa, no treino, durante o sono e ao longo de todo o dia do que aquilo que colocamos dentro da chávena.

Posso ajudar

Posso ajudá-lo a avaliar o consumo de café, cafeína, horário e relação com treino, sono, composição corporal e objetivos, integrando estes fatores numa estratégia individualizada.

Nota importante

Este artigo apresenta resultados de investigação científica e tem caráter informativo. O estudo de 2026 é transversal e observacional, pelo que não demonstra que o café cause perda de gordura, aumento de massa muscular ou alterações da testosterona. Os resultados populacionais não permitem prever o efeito do café numa pessoa individual.

Fontes científicas e links

Verroest L, Jokelainen J, Choudhary S, et al. (2026). Associations of habitual coffee intake with testosterone and cardiometabolic markers: the Northern Finland birth cohort 1966 study. European Journal of Nutrition, 65, 215. Estudo publicado online em 16 de julho de 2026, com 2.264 participantes de 46 anos. Avaliou consumo habitual de café, composição corporal, metabolómica, marcadores cardiometabólicos e hormonas sexuais.
Consultar o estudo original na Springer Nature

PubMed — estudo da Northern Finland Birth Cohort 1966. Inclui o resumo científico, métodos, resultados e DOI do trabalho publicado no European Journal of Nutrition.
Consultar o artigo na PubMed

PMC — texto integral do estudo. Versão de acesso livre do artigo, incluindo a metodologia, análise estatística, resultados relativos à testosterona, SHBG, composição corporal e marcadores metabólicos.
Consultar o texto integral no PubMed Central

University of Oulu — repositório científico. Página institucional do estudo, com autores, data de publicação e ligação para o documento científico.
Consultar o estudo no repositório da University of Oulu