A perda de massa muscular e de força é uma das alterações mais importantes associadas ao envelhecimento. Depois dos 60 anos, pode tornar-se progressivamente mais difícil subir escadas, levantar-se de uma cadeira, transportar compras ou realizar determinadas tarefas do quotidiano.
Quando esta perda de músculo, força e função atinge níveis clinicamente relevantes, pode surgir a sarcopenia.
Mas será possível combater este processo através da alimentação e do exercício?
A evidência científica mais recente aponta para uma resposta interessante: combinar exercício com uma nutrição adequada pode ser mais eficaz do que utilizar apenas uma destas estratégias.
Uma grande revisão sistemática e network meta-analysis publicada em 2026 reuniu 115 ensaios clínicos randomizados, envolvendo 10.967 participantes, com idade média de aproximadamente 75 anos. Foram comparadas 27 intervenções diferentes para perceber quais apresentavam melhores resultados na sarcopenia.
O que é a sarcopenia?
A sarcopenia é caracterizada pela perda progressiva de força muscular, massa muscular e desempenho físico associada ao envelhecimento.
Não significa simplesmente “ter pouca massa muscular”.
Uma pessoa pode ter uma quantidade razoável de músculo, mas apresentar pouca força ou baixa capacidade funcional.
Por isso, atualmente, a avaliação da sarcopenia não deve concentrar-se apenas no tamanho dos músculos.
A força muscular e o desempenho físico são componentes fundamentais.
Esta distinção é importante porque o objetivo de uma intervenção não deve ser apenas aumentar a massa muscular.
É necessário conseguir utilizar esse músculo de forma eficaz.
O estudo que analisou quase 11 mil pessoas
A investigação publicada em 2026 na Archives of Gerontology and Geriatrics comparou diferentes estratégias de intervenção.
Foram analisados 115 ensaios clínicos randomizados, com 10.967 participantes, e um total de 27 intervenções.
Os investigadores utilizaram uma network meta-analysis, uma metodologia que permite comparar várias intervenções, mesmo quando nem todas foram diretamente comparadas entre si nos mesmos ensaios.
A idade média dos participantes era de 74,85 anos, tornando os resultados particularmente relevantes para a população mais velha.
Entre as estratégias analisadas estavam diferentes formas de exercício, intervenções nutricionais e combinações de exercício e nutrição.
A combinação parece ser particularmente interessante
Um dos resultados mais relevantes foi observado quando a nutrição foi combinada com exercício aeróbico e treino de resistência.
Esta combinação apresentou uma melhoria significativa da força muscular, com um tamanho de efeito de 1,25, e também da capacidade física, com um tamanho de efeito de 1,73.
Isto ajuda a responder à pergunta do título.
Se uma pessoa depois dos 60 anos pretende preservar ou recuperar músculo e força, provavelmente não deve pensar em alimentação e exercício como alternativas.
O exercício fornece o estímulo. A alimentação fornece os recursos necessários para responder a esse estímulo.
Porque é que o exercício é tão importante?
O músculo precisa de um estímulo para se adaptar.
Quando realizamos treino de resistência, os músculos são submetidos a uma carga que obriga o organismo a responder.
Com a repetição desse estímulo e uma recuperação adequada, podem ocorrer adaptações que melhoram a força e a capacidade funcional.
O treino de resistência pode ser realizado através de:
- pesos livres;
- máquinas;
- bandas elásticas;
- exercícios com o peso corporal;
- exercícios funcionais progressivos.
Não é obrigatório começar com cargas elevadas.
Para uma pessoa sedentária ou com sarcopenia, o programa deve começar de acordo com a capacidade atual e progredir gradualmente.
O treino de resistência pode melhorar a força mesmo com idade avançada
Existe ainda um mito segundo o qual o treino de força deixa de funcionar depois dos 60 ou 70 anos.
A evidência não apoia essa ideia.
Uma posição do American College of Sports Medicine publicada em 2026, baseada numa síntese de 137 revisões sistemáticas e mais de 30.000 participantes, concluiu que o treino de resistência melhora força, hipertrofia, potência e vários componentes da função física em adultos saudáveis.
Embora essa revisão não tenha sido exclusivamente dedicada à sarcopenia, reforça uma mensagem importante:
o músculo continua a responder ao treino de resistência durante o envelhecimento.
E a proteína?
A proteína é fundamental para a manutenção e reparação do tecido muscular.
Com o envelhecimento, vários mecanismos relacionados com a síntese de proteína muscular podem tornar-se menos eficientes.
Por isso, garantir uma ingestão proteica adequada pode ser particularmente importante quando existe risco de perda de massa muscular.
Mas existe uma diferença importante entre:
ter proteína suficiente na alimentação
e
tomar suplementos de proteína sem necessidade.
Mais proteína não significa automaticamente mais músculo.
A quantidade adequada depende da idade, peso corporal, atividade física, estado nutricional, ingestão energética e condições de saúde.
Em pessoas com determinadas doenças, especialmente doença renal, a ingestão de proteína deve ser individualizada com orientação de um profissional de saúde.
Proteína sem exercício chega?
Pode ajudar, mas provavelmente não é suficiente para obter todos os benefícios desejados.
A própria network meta-analysis de 2026 encontrou resultados que favorecem a integração entre exercício e nutrição.
A revisão concluiu que a suplementação nutricional isolada não deve ser encarada como solução suficiente para combater a sarcopenia. Os autores destacaram a necessidade de estratégias multimodais que combinem diferentes componentes.
Isto faz sentido fisiologicamente.
Se o objetivo é aumentar a capacidade muscular, é necessário fornecer ao músculo uma razão para se adaptar.
Essa razão é, em grande parte, o exercício.
E fazer exercício sem cuidar da alimentação?
Também pode produzir benefícios.
O exercício, sobretudo o treino de resistência, é uma das estratégias mais importantes para preservar força e função.
Mas uma alimentação insuficiente pode limitar a recuperação.
Uma pessoa que treina regularmente mas consome energia e proteína insuficientes pode ter maior dificuldade em manter ou desenvolver massa muscular.
Por isso, a combinação tende a ser mais lógica:
treino adequado + alimentação adequada + recuperação adequada.
Não é apenas uma questão de comer mais proteína
Quando se fala em sarcopenia, existe frequentemente uma concentração excessiva na proteína.
A alimentação saudável é muito mais abrangente.
Uma dieta equilibrada pode incluir:
- peixe;
- ovos;
- carne e aves em quantidades adequadas;
- leite, iogurte e outros laticínios;
- leguminosas;
- frutos secos;
- sementes;
- vegetais;
- fruta;
- cereais integrais;
- azeite e outras fontes de gordura insaturada.
A qualidade global da alimentação continua a ser importante.
Além disso, a ingestão energética deve ser suficiente para suportar as necessidades do organismo.
Uma dieta extremamente restritiva pode dificultar a preservação da massa muscular, especialmente quando acompanhada por perda rápida de peso.
E se a pessoa também tiver excesso de gordura?
Aqui a situação pode tornar-se mais complexa.
É possível apresentar simultaneamente excesso de gordura corporal e baixa massa ou força muscular.
Esta situação é frequentemente descrita como obesidade sarcopénica.
Nesses casos, simplesmente reduzir o peso corporal pode não ser o objetivo ideal.
Uma perda de peso rápida pode resultar também em perda de massa muscular.
O objetivo deve ser melhorar a composição corporal, procurando preservar ou aumentar a capacidade muscular enquanto se reduz gordura quando isso for clinicamente indicado.
O treino de resistência assume novamente um papel importante.
O exercício aeróbico também interessa
O treino de resistência é fundamental para a força, mas isso não significa que o exercício aeróbico deva ser ignorado.
Caminhar, pedalar, nadar ou realizar outras atividades cardiovasculares pode contribuir para melhorar a resistência, saúde cardiovascular e capacidade funcional.
Na análise de 2026, o exercício aeróbico também apresentou benefícios em determinados resultados, incluindo redução da gordura corporal, marcadores inflamatórios e melhoria da qualidade de vida.
Por isso, a melhor estratégia não precisa de escolher entre força e exercício cardiovascular.
Pode combinar ambos.
Uma abordagem multimodal parece ser a mais interessante
A conclusão geral da grande meta-análise de 2026 foi que uma abordagem multimodal, combinando treino de resistência, exercício aeróbico e nutrição direcionada, pode ser particularmente eficaz para a gestão da sarcopenia.
É uma conclusão importante porque a sarcopenia não resulta de um único problema.
O envelhecimento envolve alterações musculares, neurológicas, hormonais, metabólicas e comportamentais.
Além disso, muitas pessoas tornam-se menos ativas à medida que envelhecem.
Menos movimento significa menos estímulo para os músculos.
Ao mesmo tempo, alterações no apetite, doenças, medicamentos ou dificuldades de mastigação e digestão podem afetar a alimentação.
Uma estratégia única dificilmente consegue abordar todos estes fatores.
Quanto exercício é necessário?
Não existe uma quantidade universal que funcione para todas as pessoas.
Uma pessoa de 65 anos saudável e fisicamente ativa terá necessidades diferentes das de uma pessoa de 80 anos com sarcopenia, fragilidade e várias doenças.
O treino deve ser individualizado.
De uma forma geral, o programa deve incluir exercícios que envolvam os principais grupos musculares e padrões de movimento.
É importante trabalhar:
- pernas;
- ancas;
- costas;
- peito;
- ombros;
- braços;
- tronco.
O treino pode começar com exercícios simples e aumentar progressivamente a dificuldade.
A progressão é fundamental.
Sem aumento gradual do estímulo, a adaptação pode ficar limitada.
A força é mais importante do que o peso na balança
Uma das melhores formas de avaliar a evolução de uma pessoa mais velha não é olhar apenas para o peso corporal.
É também importante observar se consegue:
levantar-se mais facilmente de uma cadeira, subir escadas com menos dificuldade, caminhar mais depressa, transportar objetos ou realizar atividades quotidianas com maior autonomia.
Estes resultados têm impacto direto na qualidade de vida.
A manutenção da força muscular pode ajudar a preservar a independência e a capacidade de realizar tarefas do dia a dia.
E a idade? Já é tarde para começar?
Não.
Nunca é necessário esperar que a perda muscular avance para começar a intervir.
Quanto mais cedo forem adotados hábitos adequados de atividade física e alimentação, maior poderá ser a capacidade de preservar a função muscular.
Mas mesmo quando já existe perda de força, isso não significa que seja tarde demais.
A intervenção deve simplesmente ser adaptada ao nível funcional atual.
Uma pessoa com grande fragilidade não deve começar com o mesmo treino de alguém que já pratica musculação há vários anos.
O que devemos retirar deste estudo?
A grande mensagem da investigação de 2026 é que a sarcopenia deve ser abordada de forma global.
A alimentação fornece nutrientes importantes.
A proteína fornece aminoácidos necessários para a manutenção do músculo.
O exercício fornece o estímulo para desenvolver força e função.
O exercício aeróbico ajuda a melhorar a capacidade cardiovascular e funcional.
E a recuperação permite que o organismo se adapte.
Não se trata, portanto, de escolher entre proteína ou exercício.
A combinação pode ser mais poderosa do que apostar numa única estratégia.
Uma nota importante sobre a qualidade da evidência
Apesar dos resultados promissores, é importante não apresentar a meta-análise como uma prova definitiva de que uma determinada combinação funcionará igualmente para todas as pessoas.
Os próprios autores salientam limitações na certeza da evidência. A análise inclui intervenções muito diferentes, populações distintas e programas com características variadas.
Além disso, uma network meta-analysis permite comparar várias intervenções de forma estatística, mas a qualidade das conclusões continua dependente da qualidade dos ensaios originais.
Por isso, os resultados devem ser utilizados para orientar decisões, e não como uma receita universal.
Conclusão
A evidência científica de 2026 reforça uma ideia simples, mas importante:
depois dos 60 anos, exercício e alimentação não devem ser vistos como alternativas para combater a perda muscular. Devem trabalhar em conjunto.
A grande revisão publicada na Archives of Gerontology and Geriatrics, com 115 ensaios clínicos randomizados e 10.967 participantes, concluiu que uma abordagem multimodal envolvendo exercício de resistência, atividade aeróbica e nutrição direcionada apresenta resultados particularmente promissores para a sarcopenia.
A proteína pode fornecer a matéria-prima.
O exercício fornece o estímulo.
E a recuperação permite a adaptação.
Por isso, se o objetivo é preservar força, músculo e independência depois dos 60 anos, a melhor pergunta talvez não seja “devo comer mais proteína ou fazer exercício?”
A pergunta mais adequada é:
“Como posso combinar uma alimentação adequada com um programa de exercício adaptado à minha capacidade?”
É nessa combinação que poderá estar uma das estratégias mais importantes para envelhecer com mais força, mobilidade e autonomia.
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Fontes e links
Fontes e links
- Estudo principal — Archives of Gerontology and Geriatrics / ScienceDirect
https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0167494326001081 - Estudo principal — PubMed
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41996930/ - ACSM — Resistance Training Prescription for Muscle Function, Hypertrophy, and Physical Performance, 2026
https://doi.org/10.1249/MSS.0000000000003897 - Network meta-analysis sobre exercício e nutrição na sarcopenia
https://www.frontiersin.org/journals/nutrition/articles/10.3389/fnut.2026.1892302/full
Nota: este artigo tem caráter informativo e não substitui avaliação médica ou nutricional. A quantidade de proteína, o tipo de exercício e a intensidade do treino devem ser individualizados, especialmente em pessoas com doenças crónicas, fragilidade ou limitações funcionais.