Pré-reabilitação antes da cirurgia: exercício, nutrição e preparação do organismo para recuperar melhor
Quando pensamos numa cirurgia, é natural imaginar que a recuperação começa depois da operação.
Mas a ciência tem vindo a explorar uma ideia diferente: e se a recuperação começasse antes da cirurgia?
É este o princípio da pré-reabilitação, uma estratégia que procura preparar fisicamente e nutricionalmente uma pessoa antes de ser submetida a uma intervenção cirúrgica.
A ideia é relativamente simples.
Se uma cirurgia representa uma agressão importante para o organismo, chegar à operação com maior capacidade física, melhor estado nutricional e maior reserva funcional poderá ajudar o corpo a enfrentar melhor o período pós-operatório.
Uma nova revisão sistemática e network meta-analysis, publicada online em 9 de junho de 2026, analisou precisamente esta questão em pessoas com cancro colorretal. O estudo comparou diferentes estratégias de pré-reabilitação: exercício, nutrição, combinação de exercício e nutrição e programas multimodais que acrescentavam apoio psicológico. Foram incluídos 22 ensaios clínicos randomizados, envolvendo 1545 participantes. (PubMed)
Os resultados são interessantes, mas também mostram que não devemos simplificar a mensagem.
O que é a pré-reabilitação?
A pré-reabilitação, ou prehabilitation, consiste em preparar a pessoa antes de uma cirurgia através de uma ou várias intervenções.
Pode incluir:
- exercício físico;
- treino de força;
- exercício aeróbio;
- treino funcional;
- aconselhamento nutricional;
- otimização da ingestão de proteína e energia;
- apoio psicológico;
- educação sobre o período pós-operatório.
Quando várias destas estratégias são combinadas, fala-se em pré-reabilitação multimodal.
O objetivo não é necessariamente tornar a pessoa “mais saudável” de uma forma abstrata.
O objetivo é aumentar a sua reserva funcional antes de enfrentar uma situação que vai exigir bastante do organismo.
Porque é que o exercício pode ser importante antes de uma cirurgia?
Uma cirurgia pode ser acompanhada por perda de força, redução da mobilidade, fadiga e diminuição da capacidade funcional.
Se uma pessoa já chega à cirurgia com pouca massa muscular, baixa força ou reduzida capacidade cardiorrespiratória, poderá ter menos margem para enfrentar esse período.
O exercício procura aumentar essa reserva.
O treino pode incluir caminhada, bicicleta, exercícios aeróbios, treino de força ou exercícios funcionais, dependendo da condição clínica e do tipo de cirurgia.
Não significa que uma pessoa deva começar um programa intenso de exercício imediatamente antes de uma operação.
Pelo contrário.
A intensidade e o tipo de exercício devem ser adaptados à situação clínica, ao tempo disponível até à cirurgia, à capacidade física e às indicações da equipa médica.
A pré-reabilitação é preparação, não uma competição.
E a nutrição?
A alimentação é outra peça importante.
Uma cirurgia pode aumentar as necessidades do organismo durante o processo de recuperação. Ao mesmo tempo, algumas pessoas que vão ser submetidas a cirurgia, particularmente no contexto de doença oncológica, podem apresentar perda de peso, redução de massa muscular ou ingestão alimentar insuficiente.
Por isso, a avaliação nutricional pode ser particularmente importante.
O objetivo não é simplesmente “comer mais”.
É garantir que a alimentação fornece energia e nutrientes suficientes para suportar a manutenção dos tecidos, da massa muscular e dos processos de recuperação.
A proteína assume aqui particular interesse, porque a manutenção da massa muscular é relevante para a força e para a capacidade funcional.
Mas a nutrição pré-operatória deve ser individualizada. Uma estratégia alimentar adequada para uma pessoa pode não ser adequada para outra, sobretudo quando existem doenças, alterações metabólicas ou restrições específicas.
O que mostrou o estudo mais recente?
A revisão publicada em junho de 2026 comparou cinco abordagens principais:
- exercício isolado;
- nutrição isolada;
- exercício + nutrição;
- exercício + nutrição + apoio psicológico;
- cuidados habituais.
O principal resultado analisado foi a distância percorrida no teste de caminhada de seis minutos após a cirurgia.
No conjunto dos estudos, a pré-reabilitação melhorou significativamente a capacidade funcional pós-operatória em comparação com os cuidados habituais.
Na network meta-analysis, o programa que combinava exercício, nutrição e apoio psicológico apresentou a melhor classificação para a recuperação funcional medida através do teste de caminhada de seis minutos. (PubMed)
Este resultado é particularmente interessante.
Sugere que a preparação para uma cirurgia pode beneficiar de uma abordagem que não olha apenas para uma variável.
O organismo não funciona por compartimentos.
Força, capacidade cardiovascular, alimentação, estado psicológico e autonomia funcional estão relacionados.
Recuperar mais depressa significa ficar menos tempo no hospital?
Aqui é necessário algum cuidado.
A revisão mais recente não encontrou efeitos consistentes da pré-reabilitação sobre a duração do internamento hospitalar, readmissões ou complicações pós-operatórias. (PubMed)
Isto significa que seria incorreto afirmar que “fazer exercício antes da cirurgia reduz sempre os dias de internamento”.
A evidência não permite essa conclusão.
O benefício mais consistente observado neste estudo foi relacionado com a recuperação funcional.
E esta distinção é importante.
Uma pessoa pode recuperar melhor a sua capacidade de caminhar ou realizar determinadas tarefas sem necessariamente sair do hospital muito mais cedo.
Exercício + nutrição: será melhor do que apenas exercício?
É uma das questões mais interessantes.
Uma revisão publicada em julho de 2026 analisou 23 ensaios clínicos randomizados, envolvendo 2182 participantes, em diferentes contextos cirúrgicos. Globalmente, programas baseados em exercício ou nutrição estiveram associados a menos complicações e a uma pequena redução do tempo de internamento. (PubMed)
Nesse trabalho, a nutrição isolada apresentou uma redução do tempo de internamento superior à observada com exercício isolado.
Mas isto não significa que a nutrição seja “melhor” do que o exercício.
Os estudos analisados eram diferentes entre si e incluíam diferentes tipos de cirurgia e diferentes protocolos.
Além disso, quando olhamos especificamente para cirurgia colorretal, a evidência mais recente sugere que a combinação de diferentes componentes pode ser especialmente interessante para a capacidade funcional.
O músculo pode ser uma espécie de reserva
Esta questão é particularmente relevante no envelhecimento.
A massa muscular não serve apenas para levantar pesos.
Está relacionada com a capacidade de caminhar, levantar-se de uma cadeira, subir escadas, manter o equilíbrio e realizar atividades quotidianas.
Uma pessoa com maior capacidade física antes de uma cirurgia pode ter uma margem funcional diferente de alguém que já apresenta baixa força e pouca mobilidade.
Por isso, a pré-reabilitação pode ser encarada como uma tentativa de aumentar essa reserva antes de um período potencialmente exigente.
É uma mudança interessante de paradigma:
em vez de esperar que o corpo recupere depois da cirurgia, procurar prepará-lo antes dela.
E se só houver poucas semanas?
Não é necessário imaginar que a pré-reabilitação exige meses.
Os programas estudados apresentam grande diversidade.
Uma revisão publicada em junho de 2026 sobre pré-reabilitação em cirurgia colorretal encontrou programas multimodais frequentemente realizados durante duas a oito semanas, com exercício aproximadamente duas a cinco vezes por semana e sessões de cerca de 30 a 60 minutos. (Springer Nature)
Naturalmente, não existe uma duração universal.
Se a cirurgia estiver marcada para breve, o objetivo pode ser simplesmente melhorar aquilo que é possível dentro do tempo disponível.
Isso pode significar aumentar gradualmente a atividade física, preservar força, corrigir défices nutricionais ou melhorar a confiança e autonomia para o período pós-operatório.
O treino deve ser individualizado
Uma das maiores limitações de transportar estes resultados diretamente para a prática é que os participantes dos estudos não são todos iguais.
Existem diferenças de idade, condição física, estado nutricional, tipo de cancro, cirurgia prevista e estado clínico.
Por isso, um programa de exercício antes de uma cirurgia não deve ser copiado de um estudo de forma automática.
O princípio pode ser aproveitado.
A aplicação deve ser personalizada.
Por exemplo, uma pessoa fisicamente ativa poderá beneficiar de treino de força e exercício aeróbio estruturado.
Outra pessoa, mais debilitada, poderá começar com caminhadas, exercícios de levantar e sentar, trabalho de equilíbrio e movimentos funcionais.
O objetivo não é atingir uma determinada carga.
É chegar à cirurgia na melhor condição funcional possível e com segurança.
Preparar também a recuperação
Existe ainda outro benefício potencial da pré-reabilitação: ensinar movimentos e estratégias que serão úteis depois da cirurgia.
Se uma pessoa já estiver habituada a caminhar regularmente, a realizar exercícios simples de força e a controlar a sua respiração e movimento, poderá ser mais fácil retomar alguma atividade depois da operação, sempre de acordo com as orientações da equipa clínica.
A pré-reabilitação pode, portanto, funcionar como uma ponte entre o período pré-operatório e a reabilitação pós-operatória.
O papel do profissional de exercício
Este tema mostra também que o trabalho de um profissional de exercício não precisa de começar apenas quando alguém “está saudável”.
Existe um espaço importante entre o diagnóstico e a cirurgia.
O profissional pode trabalhar em articulação com médicos, fisioterapeutas e nutricionistas para adaptar o exercício às necessidades da pessoa.
O objetivo não é tratar a doença ou substituir a equipa médica.
É ajudar a melhorar aquilo que o exercício consegue modificar: força, capacidade física, mobilidade, equilíbrio, resistência e função.
Quando existe também necessidade de intervenção nutricional, essa componente deve ser acompanhada por um profissional devidamente qualificado.
Afinal, treinar e melhorar a alimentação antes de uma cirurgia pode acelerar a recuperação?
A resposta mais rigorosa é: pode ajudar a melhorar a recuperação funcional, mas ainda não podemos afirmar que todas as formas de pré-reabilitação aceleram igualmente a recuperação ou reduzem de forma consistente o internamento e as complicações.
A evidência mais recente em cirurgia colorretal aponta para um benefício funcional, particularmente com abordagens multimodais que combinam exercício, nutrição e apoio psicológico. (PubMed)
O mais interessante talvez seja a mudança de perspectiva.
A preparação para uma cirurgia não precisa de começar no bloco operatório.
Pode começar semanas antes.
Melhorar a força.
Manter ou recuperar massa muscular.
Aumentar a capacidade aeróbia.
Preservar mobilidade.
Garantir uma alimentação adequada.
E preparar psicologicamente a pessoa para o processo.
Tudo isto pode contribuir para chegar à cirurgia com uma maior reserva funcional.
O objetivo não é apenas sobreviver à cirurgia. É estar preparado para recuperar a função depois dela.
Posso ajudar
Posso ajudar a preparar um programa de exercício seguro antes da cirurgia, focado em força, mobilidade, resistência e capacidade funcional, sempre em articulação com a equipa clínica responsável.
Referências
Xiang X, Chen Q, Yu Y. Comparative effectiveness of preoperative prehabilitation modalities for postoperative recovery in colorectal cancer: A systematic review and network meta-analysis. Journal of Gastrointestinal Surgery, 2026. Publicado online em 9 de junho de 2026.
Artigo científico – Journal of Gastrointestinal Surgery
Cascavita CT, Hall AE, Shariati K, et al. Exercise- and Nutrition-Based Prehabilitation Programs in Surgery: A Systematic Review and Meta-Analysis. Journal of the American College of Surgeons, 2026.
Artigo científico – PubMed
Tadesse MA, Alimawu AA, Matrisch L, et al. Prehabilitation and postoperative outcomes in colorectal surgery: an umbrella review. Journal of Anesthesia, Analgesia and Critical Care, 2026.
Artigo científico – Springer Nature
Zhang HH, Yan PJ, Geng J, Xu XD, Liu M. Effectiveness of prehabilitation for patients with colorectal surgery: a systematic review and network meta-analysis. Updates in Surgery, 2026.
Artigo científico – PubMed