Quando pensamos nos benefícios do exercício, normalmente pensamos em músculos, coração, peso corporal ou condição física.
Mas será que a atividade física também pode influenciar a forma como tomamos decisões alimentares?
Um estudo publicado na revista Appetite em 1 de setembro de 2026 analisou precisamente esta questão, procurando perceber a relação entre atividade física habitual, funcionamento cognitivo e escolhas alimentares.
Os resultados são interessantes porque sugerem que a relação entre exercício e alimentação pode passar, pelo menos parcialmente, pelo cérebro.
Pessoas fisicamente mais ativas apresentaram melhor desempenho em algumas tarefas cognitivas e, particularmente entre aquelas com maior atividade física vigorosa, demonstraram maior controlo durante as escolhas alimentares e maior tendência para dar prioridade à saúde em vez do sabor. (ScienceDirect)
Mas será que fazer exercício pode realmente mudar aquilo que escolhemos comer?
O estudo que liga exercício, cérebro e alimentação
O trabalho foi realizado por investigadores da Universidade de Birmingham e da Universidade de Maastricht e envolveu 660 participantes entre os 18 e os 65 anos.
Os participantes responderam a diferentes testes para avaliar funções cognitivas, incluindo o Stroop, utilizado para estudar controlo inibitório, e o N-back, utilizado para avaliar memória de trabalho.
Também realizaram uma tarefa relacionada com escolhas alimentares.
A atividade física habitual foi avaliada através do International Physical Activity Questionnaire (IPAQ), incluindo uma medida global de atividade física e uma medida específica de atividade física vigorosa. (PubMed)
A ideia central era perceber se pessoas fisicamente mais ativas apresentavam diferenças na capacidade de controlar respostas automáticas e se essa capacidade poderia estar relacionada com a forma como escolhiam os alimentos.
E aqui está uma das partes mais interessantes.
O exercício pode treinar mais do que os músculos
Quando realizamos exercício, não estamos apenas a utilizar os músculos.
Estamos também a exigir trabalho ao cérebro.
Precisamos de coordenar movimentos, manter atenção, controlar impulsos, adaptar-nos ao ambiente, tomar decisões e, dependendo da atividade, responder rapidamente a estímulos.
Durante uma corrida, por exemplo, podemos ter de alterar o ritmo, evitar obstáculos e ajustar continuamente o movimento.
Num treino de força, precisamos de controlar a técnica e a execução.
Num desporto coletivo, a exigência cognitiva pode ser ainda maior.
E algumas destas capacidades estão relacionadas com aquilo que os investigadores chamam controlo executivo.
O controlo executivo inclui processos como inibição, atenção, memória de trabalho, flexibilidade cognitiva e tomada de decisão.
Estas funções também são importantes quando decidimos o que comer.
Escolher uma maçã ou um bolo também envolve o cérebro
Imagine que está com fome e tem duas opções.
Uma maçã.
E um bolo de chocolate.
A decisão não depende apenas do sabor.
O cérebro avalia diferentes características:
“O que me apetece?”
“O que é mais saudável?”
“Estou mesmo com fome?”
“Quero comer isto agora ou prefiro manter o meu objetivo?”
“Vale a pena escolher aquilo que sabe melhor ou aquilo que considero melhor para a minha saúde?”
É aqui que entra o controlo inibitório.
Uma pessoa pode desejar imediatamente determinado alimento, mas conseguir parar, analisar a situação e escolher uma alternativa diferente.
Isso não significa eliminar o desejo.
Significa conseguir regular a resposta ao desejo.
O que encontraram os investigadores?
Os resultados mostraram que níveis mais elevados de atividade física estavam associados a melhor desempenho em algumas medidas cognitivas.
A atividade física vigorosa apresentou uma associação particularmente interessante com o desempenho no teste de Stroop.
Os participantes com maior atividade física vigorosa apresentaram maior precisão em determinadas condições do teste.
Também foram observadas respostas mais rápidas no teste N-back, embora os resultados relacionados com a precisão não fossem igualmente significativos. (ScienceDirect)
Mas o resultado mais interessante para a alimentação surgiu nas escolhas alimentares.
A maior participação em atividade física vigorosa esteve associada a escolhas alimentares mais controladas.
Além disso, estes participantes demonstraram maior tendência para priorizar aspetos relacionados com a saúde em vez do sabor. (PubMed)
Isto levanta uma hipótese muito interessante:
a atividade física poderá estar relacionada com a capacidade cognitiva necessária para resistir a determinadas escolhas alimentares automáticas.
O controlo inibitório parece ser importante
Os investigadores foram ainda mais longe.
Realizaram análises de mediação para perceber se determinadas funções cognitivas poderiam ajudar a explicar a relação entre atividade física vigorosa e escolhas alimentares.
O resultado mais interessante foi encontrado para o controlo inibitório.
O controlo inibitório mediou a relação entre atividade física vigorosa e determinadas decisões alimentares, sobretudo quando os participantes eram confrontados com alimentos mais apelativos pelo sabor.
Já a memória de trabalho não apresentou o mesmo papel mediador. (PubMed)
Isto sugere que o possível mecanismo não será simplesmente:
“Faço exercício → fico mais inteligente → como melhor.”
É muito mais específico.
Uma possibilidade é:
mais atividade física → melhor controlo cognitivo → maior capacidade para regular escolhas alimentares.
Mas é importante utilizar a palavra possibilidade.
O estudo não demonstrou que o exercício tenha causado diretamente alterações nas escolhas alimentares.
Exercício não significa automaticamente alimentação saudável
Esta distinção é muito importante.
É perfeitamente possível encontrar uma pessoa fisicamente ativa que tenha uma alimentação pouco saudável.
Da mesma forma, uma pessoa sedentária pode ter excelentes hábitos alimentares.
Por isso, não devemos transformar este estudo numa nova regra:
“Faça exercício e automaticamente vai começar a comer bem.”
A ciência não permite afirmar isso.
O estudo foi realizado online e avaliou associações entre comportamentos e desempenho cognitivo num determinado momento.
Não foi um ensaio clínico em que os investigadores obrigaram um grupo de pessoas a fazer exercício durante vários meses e depois compararam as alterações alimentares com um grupo sedentário.
Consequentemente, não podemos excluir outras explicações.
Por exemplo, pessoas que já têm maior preocupação com a saúde podem simultaneamente fazer mais exercício e fazer escolhas alimentares diferentes.
É uma das limitações importantes do trabalho.
A atividade física pode fazer parte de um ciclo positivo
Apesar das limitações, existe uma hipótese comportamental interessante.
Imagine uma pessoa que começa a fazer exercício regularmente.
Ao longo do tempo, pode começar a prestar mais atenção ao sono.
Depois começa a preocupar-se mais com aquilo que come.
Passa a perceber melhor como determinados alimentos afetam a energia e a recuperação.
Começa a valorizar proteínas, legumes, fruta, leguminosas e alimentos menos processados.
E passa a questionar alguns alimentos que anteriormente consumia automaticamente.
Não significa que o exercício tenha provocado diretamente todas estas mudanças.
Pode existir uma espécie de ciclo de comportamentos saudáveis.
Uma mudança pode facilitar outras.
E este conceito é particularmente interessante quando pensamos na prevenção e no envelhecimento saudável.
O exercício pode mudar a relação com a comida?
Talvez.
Mas provavelmente não através de uma transformação mágica do apetite.
A relação entre exercício e alimentação é complexa.
A atividade física pode influenciar fome, saciedade, metabolismo, humor, stress, sono e comportamento.
E agora este novo estudo acrescenta outra possibilidade:
a cognição e o controlo inibitório podem fazer parte desta relação.
Isto significa que o exercício poderá não influenciar apenas aquilo que o organismo necessita energeticamente.
Pode também influenciar a forma como decidimos responder aos estímulos alimentares.
Porque é que isto é importante depois dos 40?
Esta questão torna-se especialmente interessante à medida que envelhecemos.
As funções executivas e determinadas capacidades cognitivas podem sofrer alterações com a idade.
Ao mesmo tempo, aumentam os riscos associados ao excesso de peso, diabetes tipo 2, doença cardiovascular e outras doenças metabólicas.
Por isso, manter uma boa condição física pode representar mais do que preservar músculos e capacidade cardiovascular.
Pode fazer parte de uma estratégia global para manter o cérebro funcional.
Treinar força, caminhar, correr, praticar desporto ou realizar exercícios que envolvam coordenação e tomada de decisão pode estimular simultaneamente diferentes sistemas.
O objetivo não deveria ser apenas:
“Quantas calorias queimei?”
Poderia ser:
“Que capacidade estou a preservar?”
Nem todo o exercício é cognitivamente igual
Outro ponto interessante é que a investigação encontrou associações particularmente relevantes com atividade física vigorosa.
Isto não significa que exercício leve ou moderado não tenha benefícios.
Muito pelo contrário.
Caminhar continua a ser uma excelente forma de aumentar a atividade física.
Mas diferentes formas de exercício produzem diferentes exigências fisiológicas e cognitivas.
Uma caminhada tranquila.
Uma corrida.
Treino de força.
Artes marciais.
Desportos coletivos.
Exercícios de equilíbrio.
Treino com mudanças rápidas de direção.
Todos podem estimular o cérebro de formas diferentes.
Por isso, quando pensamos em exercício para saúde cerebral, talvez seja interessante não procurar apenas quantidade.
A variedade e a qualidade do estímulo também podem ser importantes.
O exercício pode ajudar a combater decisões automáticas?
Vivemos num ambiente alimentar particularmente desafiante.
Alimentos muito saborosos estão disponíveis praticamente em todo o lado.
Publicidade, embalagens, promoções, aplicações de entrega de comida e exposição constante a estímulos alimentares tornam difícil tomar decisões exclusivamente baseadas na fome.
Muitas escolhas alimentares acontecem quase automaticamente.
É precisamente aqui que o controlo inibitório pode assumir importância.
Não precisamos de deixar de gostar de alimentos saborosos.
Precisamos de conseguir escolher conscientemente quando os consumir.
Se a atividade física ajudar a melhorar determinadas capacidades de controlo cognitivo, poderá existir uma vantagem comportamental adicional.
Mas esta hipótese ainda precisa de ser estudada através de intervenções experimentais.
Não é apenas uma questão de perder peso
Este estudo também ajuda a mudar a forma como pensamos sobre exercício.
Muitas pessoas começam a treinar porque querem perder peso.
É um objetivo legítimo.
Mas o exercício pode ter efeitos muito mais amplos.
Pode ajudar a preservar massa muscular.
Melhorar a capacidade cardiorrespiratória.
Aumentar força e equilíbrio.
Contribuir para a saúde cerebral.
Melhorar determinados aspetos da função cognitiva.
E, potencialmente, relacionar-se com a forma como fazemos escolhas alimentares.
Ou seja:
o exercício pode ser uma ferramenta para melhorar o comportamento, não apenas o corpo.
O que podemos retirar deste estudo?
O trabalho publicado na Appetite em 1 de setembro de 2026 acrescenta uma peça interessante ao puzzle entre atividade física, cognição e alimentação.
Em 660 adultos, maior atividade física esteve associada a melhor desempenho em determinadas tarefas cognitivas.
A atividade física vigorosa esteve associada a escolhas alimentares mais controladas e a maior prioridade dada à saúde relativamente ao sabor.
E o controlo inibitório pareceu mediar parte da relação entre atividade física vigorosa e determinadas escolhas alimentares. (PubMed)
Mas é fundamental não exagerar as conclusões.
O estudo não prova que fazer exercício obrigatoriamente faça uma pessoa comer melhor.
Mostra uma associação e apresenta uma hipótese sobre um possível mecanismo cognitivo.
São necessários estudos longitudinais e, sobretudo, ensaios de intervenção para perceber se aumentar deliberadamente a atividade física provoca alterações duradouras no controlo cognitivo e nas escolhas alimentares.
Ainda assim, a ideia é fascinante.
Talvez quando treinamos o corpo também estejamos, de alguma forma, a treinar capacidades que usamos quando tomamos decisões.
E uma dessas decisões acontece várias vezes por dia:
o que vamos escolher para comer?
Posso ajudar
Posso integrar exercício de força, coordenação, equilíbrio e estímulos cognitivos num programa individualizado, ajudando a desenvolver corpo e cérebro para um envelhecimento mais funcional.
Referências
https://doi.org/10.1016/j.appet.2026.108562
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41999991/
https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0195666326001248