72 horas sem smartphone podem alterar o cérebro, a dopamina e a serotonina?

72 horas sem smartphone podem alterar o cérebro, a dopamina e a serotonina? September 4, 2026Leave a comment

Passar 72 horas sem utilizar um smartphone pode provocar alterações mensuráveis na atividade cerebral, sobretudo em regiões relacionadas com recompensa, atenção, controlo e desejo de utilizar o dispositivo. Mas será que três dias sem smartphone conseguem realmente “baixar a dopamina e aumentar a serotonina”? A ciência é mais complexa do que essa afirmação.

Um estudo recente realizado com recurso a ressonância magnética funcional encontrou alterações na atividade cerebral depois de 72 horas de restrição do smartphone. Os investigadores observaram mudanças em várias regiões envolvidas no processamento da recompensa e do controlo comportamental.

Mais interessante ainda: algumas dessas alterações estavam associadas a sistemas de recetores relacionados com dopamina e serotonina.

O estudo mais recente relacionado com este fenómeno foi publicado em março de 2026, na revista Addictive Behaviors. Incluiu 36 jovens adultos, dos quais 19 apresentavam utilização problemática do smartphone e 17 pertenciam ao grupo sem utilização problemática. Os participantes realizaram exames de ressonância magnética antes e depois de 72 horas de restrição. (PubMed)

Mas é importante esclarecer uma ideia que tem circulado nas redes sociais: o estudo não demonstrou que os níveis de dopamina ou serotonina tenham simplesmente aumentado ou diminuído.

O que acontece ao cérebro depois de 72 horas?

O estudo de 2026 analisou a chamada atividade neural intrínseca, ou seja, a atividade cerebral observada em repouso.

Depois das 72 horas de restrição foram identificadas diferenças em várias regiões cerebrais, incluindo o córtex pré-frontal, o córtex cingulado posterior, regiões motoras e áreas occipitais.

Os resultados foram diferentes entre pessoas com utilização problemática do smartphone e pessoas sem esse padrão.

Nos participantes com utilização problemática, algumas regiões pré-frontais e cinguladas apresentaram diminuição da atividade ao longo do período de restrição, enquanto determinadas regiões sensoriais e occipitais apresentaram aumento. (PubMed)

Isto sugere que o cérebro não responde à ausência do smartphone de uma única maneira.

A resposta depende, entre outros fatores, da relação que cada pessoa tem com o dispositivo.

Dopamina: o verdadeiro papel do neurotransmissor

A dopamina é frequentemente descrita como a “substância química do prazer”.

Esta explicação é demasiado simples.

A dopamina participa em vários processos cerebrais, incluindo motivação, aprendizagem, recompensa, atenção e comportamento orientado para objetivos.

Quando recebemos uma notificação, vemos uma mensagem, encontramos uma publicação interessante ou esperamos uma nova recompensa, determinados circuitos cerebrais relacionados com a motivação e recompensa podem ser ativados.

Isto não significa que cada notificação provoque simplesmente uma descarga de dopamina.

O sistema dopaminérgico é muito mais complexo.

Por isso, dizer que o smartphone “liberta dopamina” e que três dias sem smartphone “fazem baixar a dopamina” é uma simplificação que não corresponde ao que este estudo demonstrou.

E a serotonina?

A serotonina também desempenha funções muito diversas no cérebro e no organismo.

Está envolvida na regulação do humor, sono, apetite, ansiedade, comportamento e vários outros processos fisiológicos.

No estudo que avaliou 72 horas de restrição, as alterações na atividade cerebral foram associadas a mapas de probabilidade de determinados sistemas de recetores, incluindo sistemas relacionados com dopamina e serotonina.

Ou seja, os investigadores encontraram uma relação entre as alterações observadas na atividade cerebral e regiões onde determinados recetores destes neurotransmissores são mais prováveis de estar presentes.

Isto não é o mesmo que medir a concentração de dopamina ou serotonina no cérebro. (ScienceDirect)

Esta distinção é essencial para interpretar corretamente os resultados.

O que mudou nas regiões de recompensa?

Num estudo publicado em 2025, os investigadores já tinham estudado especificamente o efeito de 72 horas de restrição do smartphone através de uma tarefa de reação a estímulos relacionados com o telefone.

Participaram 25 jovens adultos.

Depois das 72 horas, foram observadas alterações particularmente relevantes no núcleo accumbens e no córtex cingulado anterior.

Estas regiões estão envolvidas em processos relacionados com recompensa, saliência, motivação, controlo e comportamento. (ScienceDirect)

Os investigadores encontraram ainda associações entre as alterações cerebrais e sistemas de recetores dopaminérgicos e serotoninérgicos.

É precisamente este resultado que provavelmente deu origem à afirmação de que “72 horas sem smartphone alteram a dopamina e a serotonina”.

Contudo, a conclusão científica correta é mais cuidadosa:

72 horas de restrição do smartphone estão associadas a alterações da atividade cerebral em regiões relacionadas com recompensa, e essas alterações apresentam relações com sistemas de recetores dopaminérgicos e serotoninérgicos.

O cérebro pode sentir falta do smartphone?

Sim.

E esta não é uma ideia completamente nova.

Um estudo experimental publicado anteriormente avaliou 127 participantes durante três dias de restrição do smartphone.

Os participantes foram divididos entre um grupo sujeito à restrição e um grupo de controlo.

Os resultados mostraram aumento dos sintomas relacionados com abstinência e do medo de ficar de fora — conhecido como fear of missing out, ou FOMO — sobretudo entre pessoas com maior tendência para utilização problemática do smartphone. (Sage Journals)

Isto não significa que o smartphone provoque uma dependência química equivalente à nicotina, álcool ou outras drogas.

A utilização problemática do smartphone é um fenómeno comportamental complexo.

O cérebro pode aprender a associar determinadas situações ao uso do dispositivo, criando expectativas, hábitos e respostas automáticas.

Porque é que sentimos vontade de verificar o telefone?

Imagine uma pessoa que verifica o smartphone dezenas de vezes por dia.

Recebe uma notificação.

Verifica.

Não tem nenhuma notificação.

Volta a verificar alguns minutos depois.

Vê uma mensagem.

Recebe uma reação numa rede social.

Lê uma notícia.

Passa para outro conteúdo.

Este comportamento cria um ambiente de recompensas variáveis e imprevisíveis.

Do ponto de vista comportamental, recompensas imprevisíveis podem ser particularmente eficazes para manter determinados comportamentos.

O cérebro aprende associações entre o contexto e a possibilidade de recompensa.

É por isso que uma pessoa pode pegar no telefone quase automaticamente, mesmo sem ter recebido qualquer notificação.

O que acontece durante as primeiras 72 horas?

A investigação disponível não permite estabelecer uma sequência universal para todas as pessoas.

Alguns indivíduos podem sentir inicialmente:

  • vontade de verificar o telefone;
  • irritabilidade;
  • inquietação;
  • sensação de estar a perder alguma coisa;
  • dificuldade em resistir ao impulso;
  • preocupação com mensagens;
  • necessidade de procurar estímulos alternativos.

Estas respostas parecem ser mais relevantes em pessoas com utilização problemática do smartphone.

No estudo de 2026, a intensidade do desejo de utilizar o smartphone esteve relacionada com alterações na atividade cerebral em determinadas regiões. (PubMed)

Mas nem todas as pessoas apresentam sintomas significativos.

Três dias sem smartphone melhoram o humor?

Não podemos afirmar isso de forma universal.

Num estudo de 2025 que analisou especificamente a resposta cerebral depois de 72 horas, não foram observadas alterações significativas nas medidas psicológicas de depressão ou desejo (craving) quando os participantes foram analisados globalmente.

Apesar disso, alguns participantes relataram subjetivamente melhoria do humor e da qualidade de vida. (ScienceDirect)

Isto mostra uma diferença importante entre:

o que uma pessoa sente

e

o que pode ser demonstrado objetivamente numa investigação científica.

Nem sempre os dois resultados coincidem.

E o sono?

O smartphone pode interferir com o sono por vários mecanismos.

Um deles é simplesmente substituir tempo de descanso por tempo de utilização.

Outro está relacionado com estímulos emocionais e cognitivos: mensagens, notícias, redes sociais, vídeos e outros conteúdos podem manter o cérebro ativo quando seria desejável começar a relaxar.

No estudo de 2025, algumas alterações na atividade cerebral depois da restrição de 72 horas apresentaram associações com interferência do smartphone no sono. (ScienceDirect)

Isto não prova que três dias sem smartphone curem problemas de sono.

Mas reforça a importância de analisar quando, durante quanto tempo e com que finalidade utilizamos o telefone.

É necessário ficar 72 horas sem smartphone?

Provavelmente não para toda a gente.

Um estudo experimental com 619 utilizadores de smartphone comparou abstinência completa durante sete dias com uma redução de apenas uma hora diária.

Ambas as estratégias produziram melhorias em algumas medidas relacionadas com utilização problemática, sintomas psicológicos, satisfação com a vida e atividade física.

Interessantemente, alguns efeitos foram mais fortes e mais estáveis no grupo que simplesmente reduziu o tempo de utilização. (PubMed)

Isto é relevante porque sugere que não é obrigatório desaparecer completamente do mundo digital para obter benefícios.

Para muitas pessoas, uma redução estruturada pode ser mais realista.

Como fazer uma experiência de 72 horas?

Se quiser experimentar uma pausa prolongada, pode ser útil estabelecer algumas regras.

1. Retire notificações

Mesmo sem abrir o telefone, uma notificação pode desencadear o impulso de verificar o dispositivo.

2. Retire as aplicações mais estimulantes

Redes sociais, vídeos curtos e aplicações que utiliza compulsivamente podem ser particularmente difíceis de abandonar.

3. Substitua o hábito

Não basta retirar o smartphone.

É importante criar alternativas: caminhar, ler, conversar, treinar, cozinhar, ouvir música ou passar tempo ao ar livre.

4. Não substitua o smartphone por outro ecrã

Se retirar o telefone mas passar três horas no computador ou televisão, o benefício pode ser bastante diferente.

5. Observe o que acontece

Preste atenção à vontade de verificar o telefone, concentração, sono, humor e tempo disponível.

O objetivo não é demonstrar que o smartphone é “mau”.

É perceber qual é a influência que ele tem sobre o seu comportamento.

A grande lição do estudo

A investigação recente não mostra que três dias sem smartphone façam simplesmente “baixar a dopamina” ou “aumentar a serotonina”.

Mostra algo mais interessante.

O cérebro adapta-se aos padrões de utilização do smartphone e a sua atividade pode mudar quando esse estímulo é retirado.

As alterações observadas envolvem regiões cerebrais relacionadas com recompensa, saliência, controlo executivo, processamento sensorial e desejo de utilização.

E algumas dessas alterações apresentam relações com sistemas de recetores associados à dopamina e serotonina. (ScienceDirect)

Portanto, a expressão “72 horas sem smartphone alteram a dopamina e a serotonina” tem uma base científica, mas precisa de ser apresentada com rigor.

Não foram medidos diretamente níveis de dopamina e serotonina no cérebro. Foram observadas alterações da atividade cerebral associadas a sistemas de recetores desses neurotransmissores.

Esta diferença parece pequena, mas é fundamental para não transformar uma descoberta científica interessante numa promessa exagerada.

Conclusão

Passar 72 horas sem smartphone parece ser suficiente para produzir alterações mensuráveis na atividade cerebral, particularmente em circuitos envolvidos na recompensa, atenção, controlo e processamento de estímulos relacionados com o telefone.

Os estudos mais recentes reforçam a ideia de que a utilização problemática do smartphone não é apenas uma questão de “falta de força de vontade”. Existem mecanismos comportamentais e neurofuncionais envolvidos.

Ainda assim, não podemos afirmar que um detox digital de 72 horas “reinicia a dopamina”, “aumenta a serotonina” ou “cura a dependência do telemóvel”.

A evidência disponível é mais interessante e mais complexa.

Reduzir a utilização do smartphone pode alterar a forma como o cérebro responde aos estímulos associados ao dispositivo — e, para algumas pessoas, isso pode ser uma oportunidade para recuperar tempo, concentração e controlo sobre os próprios hábitos.

Posso ajudar

Posso ajudar a criar um plano de 72 horas sem smartphone, adaptado à sua rotina, trabalho, treino, sono e necessidade de comunicação, sem isolamento digital desnecessário.

Nota

Este artigo tem caráter informativo e não substitui avaliação médica ou psicológica. A utilização problemática do smartphone pode ter causas e consequências diferentes entre pessoas.

Links descritos no final do texto

Smartphone restriction modulates intrinsic neural activity in problematic smartphone users: Evidence from resting-state fMRI — Addictive Behaviors, março de 2026
Consultar o estudo de 2026

Effects of smartphone restriction on cue-related neural activity — Computers in Human Behavior, 2025
Consultar o estudo sobre 72 horas de restrição e sistemas dopaminérgicos/serotoninérgicos

Smartphone Addiction and Subjective Withdrawal Effects: A Three-Day Experimental Study — 2023
Consultar o estudo experimental de três dias

Smartphone Restriction and Its Effect on Subjective Withdrawal Related Scores — 2018
Consultar o estudo sobre sintomas de abstinência

Finding the “sweet spot” of smartphone use — Journal of Experimental Psychology: Applied, 2023
Consultar o estudo sobre redução versus abstinência