Xantelasma pode ser um sinal de maior risco de enfarte e AVC

Xantelasma pode ser um sinal de maior risco de enfarte e AVC September 7, 2026Leave a comment

Aparecem pequenas placas amareladas nas pálpebras? Um estudo publicado em 2026 sugere que o xantelasma pode estar associado a um risco significativamente maior de enfarte do miocárdio, AVC e acidente isquémico transitório.

O xantelasma é frequentemente encarado como uma alteração estética. São pequenas placas ou depósitos amarelados que surgem habitualmente nas pálpebras, sobretudo junto ao canto interno dos olhos.

No entanto, um novo estudo publicado na revista científica Atherosclerosis, em 17 de abril de 2026, levanta uma questão importante: será que o xantelasma pode funcionar como um marcador visível de risco cardiovascular?

Os resultados sugerem que sim.

Os investigadores encontraram uma incidência significativamente maior de enfarte do miocárdio, acidente vascular cerebral (AVC) e acidente isquémico transitório (AIT) entre pessoas com xantelasma, tanto no curto como no longo prazo. (Atherosclerosis Journal)

O que é o xantelasma?

O xantelasma palpebral é uma alteração da pele caracterizada pelo aparecimento de placas ou pequenas elevações amareladas nas pálpebras.

Estas lesões são constituídas por células que acumulam lípidos, incluindo colesterol.

Podem surgir em homens e mulheres e são particularmente frequentes a partir da quarta e quinta décadas de vida.

O xantelasma é geralmente benigno do ponto de vista local. Ou seja, a própria lesão não costuma provocar problemas graves no olho nem significa necessariamente que exista uma doença cardiovascular.

A questão é outra.

A presença destas acumulações de lípidos pode, em determinadas pessoas, refletir alterações metabólicas ou vasculares que também estão relacionadas com a aterosclerose.

Por isso, os investigadores têm procurado perceber se o xantelasma pode ser mais do que uma alteração dermatológica.

Xantelasma significa colesterol elevado?

Não necessariamente.

Esta é uma das principais mensagens que devemos retirar do estudo.

Uma pessoa pode apresentar xantelasma sem ter um colesterol LDL muito elevado.

Da mesma forma, uma pessoa pode apresentar colesterol elevado e nunca desenvolver xantelasma.

Existem múltiplos fatores envolvidos no metabolismo dos lípidos, incluindo genética, idade, alimentação, composição corporal, resistência à insulina e outras características individuais.

O xantelasma não deve, portanto, ser utilizado como um “teste” para diagnosticar colesterol elevado.

Mas a sua presença pode ser uma oportunidade para olhar para o risco cardiovascular de forma mais completa.

O que analisou o estudo de 2026?

Os investigadores utilizaram dados da TriNetX, uma grande rede de registos eletrónicos de saúde.

Foram identificados adultos com diagnóstico de xantelasma e comparados com um grupo de controlo constituído por pessoas com presbiopia, mas sem xantelasma.

Foram excluídas pessoas que já tinham sofrido enfarte do miocárdio, AVC ou AIT antes do momento de entrada no estudo.

Depois da correspondência estatística por propensity score, ficaram 17.925 pessoas em cada grupo, permitindo comparar os acontecimentos cardiovasculares e cerebrovasculares ao longo do tempo. (ScienceDirect)

Os investigadores avaliaram os resultados ao fim de:

  • 1 ano;
  • 5 anos;
  • 10 anos.

Esta dimensão temporal é particularmente interessante porque permite perceber se a associação observada se limita ao curto prazo ou permanece durante muitos anos.

Maior risco de enfarte

Ao fim de um ano, a incidência de enfarte do miocárdio foi de:

1,00% nas pessoas com xantelasma

contra

0,35% no grupo de controlo.

O risco relativo estimado através do hazard ratio foi de 2,92.

Isto significa que, nesta população estudada, as pessoas com xantelasma apresentaram uma taxa de enfarte aproximadamente três vezes superior à do grupo de controlo durante o primeiro ano.

A diferença manteve-se ao longo do tempo.

Aos cinco anos, o enfarte ocorreu em 2,26% das pessoas com xantelasma contra 1,13% dos controlos.

Aos dez anos, os valores foram de 3,13% contra 1,73%.

O hazard ratio aos dez anos foi de 2,14. (ScienceDirect)

E o risco de AVC?

A associação foi ainda mais evidente para o acidente vascular cerebral.

Durante o primeiro ano, ocorreram AVC em:

0,95% das pessoas com xantelasma;

0,30% do grupo de controlo.

O hazard ratio foi de 3,35.

A diferença permaneceu aos cinco e dez anos.

Aos cinco anos:

2,25% no grupo com xantelasma;

1,03% no grupo de controlo.

Aos dez anos:

3,00% contra 1,53%.

O hazard ratio aos dez anos foi de 2,32. (ScienceDirect)

Estes números sugerem uma associação particularmente forte entre a presença de xantelasma e o risco de AVC.

O que acontece com os acidentes isquémicos transitórios?

O estudo também analisou os acidentes isquémicos transitórios, conhecidos como AIT.

Um AIT acontece quando existe uma interrupção temporária do fluxo sanguíneo para uma determinada região do cérebro, provocando sintomas semelhantes aos de um AVC, mas que desaparecem.

Embora tradicionalmente se fale de “mini-AVC”, um AIT deve ser encarado como um importante sinal de alerta.

No estudo, aos dez anos, a incidência de AIT foi:

2,00% nas pessoas com xantelasma;

1,13% nos controlos.

O hazard ratio foi de 2,10.

Mais uma vez, a diferença foi estatisticamente significativa. (ScienceDirect)

O que significa um hazard ratio de 2,32?

Este conceito merece alguma explicação.

Um hazard ratio de 2,32 não significa necessariamente que uma pessoa com xantelasma tenha exatamente 2,32 vezes mais probabilidade absoluta de sofrer um AVC.

Representa uma comparação das taxas de ocorrência do acontecimento entre os dois grupos ao longo do período analisado.

Por isso, devemos olhar simultaneamente para o risco relativo e para o risco absoluto.

No caso do AVC aos dez anos, por exemplo, foram observados:

3,00% com xantelasma

versus

1,53% sem xantelasma.

A diferença absoluta foi de aproximadamente 1,47 pontos percentuais.

Esta distinção é importante para evitar interpretações exageradas dos resultados.

Xantelasma e aterosclerose

Porque poderia existir esta associação?

Uma das hipóteses está relacionada com o metabolismo dos lípidos.

A aterosclerose desenvolve-se quando partículas lipoproteicas aterogénicas, especialmente as que contêm apolipoproteína B, entram e ficam retidas na parede arterial, desencadeando processos inflamatórios que podem contribuir para a formação e progressão das placas ateroscleróticas.

O xantelasma também envolve acumulação de lípidos em células presentes na pele.

Embora os mecanismos não sejam necessariamente iguais, pode existir um contexto metabólico comum.

Os próprios autores referem que estudos anteriores já tinham encontrado associações entre xantelasma e indicadores de aterosclerose, incluindo alterações observadas nas artérias carótidas e calcificação coronária. (Atherosclerosis Journal)

Mas o xantelasma não prova que exista aterosclerose

Esta distinção é fundamental.

Ter xantelasma não significa automaticamente ter artérias obstruídas.

O estudo demonstra uma associação populacional entre xantelasma e maior incidência de determinados acontecimentos cardiovasculares e cerebrovasculares.

Não demonstra que todas as pessoas com xantelasma tenham aterosclerose.

Também não prova que o xantelasma seja diretamente responsável pelo aumento do risco.

Pode simplesmente funcionar como um marcador visível de determinados fatores de risco que também contribuem para a doença cardiovascular.

O colesterol continua a ser importante

Embora o xantelasma possa surgir com valores normais de colesterol, a avaliação do perfil lipídico continua a ser importante.

Uma pessoa que desenvolva xantelasma pode aproveitar essa oportunidade para verificar:

  • colesterol total;
  • colesterol LDL;
  • colesterol HDL;
  • triglicéridos;
  • não-HDL;
  • apolipoproteína B, quando clinicamente apropriado;
  • lipoproteína(a), especialmente quando existem antecedentes familiares ou outros fatores de risco.

Não é necessário realizar todos estes exames em todas as pessoas.

A avaliação deve ser individualizada de acordo com o risco cardiovascular global.

E se o LDL estiver elevado?

Se uma pessoa com xantelasma apresentar LDL elevado, o achado torna-se ainda mais relevante do ponto de vista preventivo.

A redução do LDL é uma das estratégias mais importantes para diminuir o risco cardiovascular em pessoas que apresentam indicação para tratamento.

Dependendo do risco individual, as estratégias podem incluir alterações alimentares, aumento da atividade física, controlo do peso, abandono do tabaco e, quando indicado, medicamentos para reduzir o colesterol.

O objetivo não deve ser simplesmente “ter um colesterol bonito” nas análises.

O objetivo é reduzir o risco de enfarte, AVC e outras manifestações da doença cardiovascular.

E os medicamentos para o colesterol?

O estudo observou também a utilização de medicamentos hipolipemiantes.

A utilização de fármacos para reduzir os lípidos foi superior no grupo com xantelasma durante os períodos de acompanhamento.

Aos dez anos, 41,26% das pessoas com xantelasma tinham utilizado medicamentos hipolipemiantes, comparativamente com 38,06% no grupo de controlo. (Atherosclerosis Journal)

Esta diferença mostra também que os participantes com xantelasma tinham maior probabilidade de receber tratamento relacionado com o colesterol.

No entanto, o estudo não demonstra que tomar ou não tomar estatinas seja a causa da diferença nos acontecimentos cardiovasculares.

A decisão de iniciar tratamento deve depender do risco cardiovascular individual e das recomendações clínicas.

O estilo de vida continua a contar

Mesmo quando existe predisposição genética ou fatores que não podemos modificar, existem comportamentos que podem ajudar a reduzir o risco cardiovascular.

Entre os mais importantes estão:

Atividade física regular. O exercício contribui para melhorar a capacidade cardiorrespiratória, a pressão arterial, a sensibilidade à insulina e vários parâmetros metabólicos.

Alimentação saudável. Um padrão alimentar rico em vegetais, fruta, leguminosas, cereais integrais, frutos secos e peixe e com menor consumo de alimentos ultraprocessados e gorduras saturadas pode ajudar a melhorar o perfil cardiovascular.

Não fumar. O tabagismo é um dos principais fatores modificáveis de doença cardiovascular.

Controlar a pressão arterial. A hipertensão pode permanecer silenciosa durante muitos anos e aumentar significativamente o risco de AVC e doença coronária.

Manter um peso saudável. O excesso de gordura visceral está associado a resistência à insulina, alterações lipídicas e maior risco cardiovascular.

Devemos retirar o xantelasma?

O xantelasma pode ser tratado por razões estéticas, utilizando técnicas como laser, cirurgia ou outros procedimentos dermatológicos.

Mas retirar a lesão não significa eliminar o risco cardiovascular associado.

Se o xantelasma estiver a funcionar como marcador de risco, remover a placa amarelada da pálpebra não altera necessariamente os fatores metabólicos ou vasculares que podem estar por trás dessa associação.

Por isso, a questão mais importante não é apenas “como eliminar o xantelasma?”, mas também:

“Porque apareceu e qual é o meu risco cardiovascular?”

O que fazer se aparecer xantelasma?

Não é necessário entrar em pânico.

O xantelasma é geralmente uma lesão benigna e muitas pessoas com esta alteração nunca sofrerão um evento cardiovascular.

Contudo, sobretudo em adultos de meia-idade ou quando existem outros fatores de risco, pode ser sensato aproveitar o aparecimento da lesão para fazer uma avaliação cardiovascular.

Essa avaliação pode incluir a medição da pressão arterial, análise do colesterol, glicemia ou HbA1c, avaliação do peso e da composição corporal, hábitos de atividade física, tabagismo, antecedentes familiares e outros fatores relevantes.

Em situações específicas, o médico poderá considerar exames adicionais.

A principal mensagem do estudo

O trabalho publicado em 17 de abril de 2026 na revista Atherosclerosis não demonstra que o xantelasma cause enfarte ou AVC.

Mas demonstra uma associação relevante.

Num grupo de 17.925 pessoas com xantelasma, comparado com um grupo de igual dimensão, o risco de enfarte, AVC e AIT foi significativamente superior ao longo de 1, 5 e 10 anos.

Aos dez anos, as taxas foram:

Enfarte: 3,13% vs. 1,73%;

AVC: 3,00% vs. 1,53%;

AIT: 2,00% vs. 1,13%.

Os investigadores concluem que o xantelasma pode ser considerado um marcador visível que justifica uma avaliação mais abrangente do risco cardiovascular e cerebrovascular. (ScienceDirect)

Portanto, se surgirem placas amareladas nas pálpebras, não é necessário alarmismo.

Mas também não devemos olhar para elas apenas como uma questão estética.

O xantelasma pode ser uma oportunidade para olhar para o colesterol, pressão arterial, glicemia, estilo de vida e risco cardiovascular global.

E essa avaliação pode ser muito mais importante do que a própria aparência da lesão.

Posso ajudar

Posso analisar os seus valores de LDL, HDL, triglicéridos e pressão arterial e explicar quais fatores podem estar a aumentar o seu risco cardiovascular.

Links e fontes

Estudo original — Atherosclerosis:
Yavari N, Wai KM, Alsoudi AF, et al. Xanthelasma and its association with developing major cardio-cerebrovascular events. Atherosclerosis. 2026;416:120647. Publicado online em 17 de abril de 2026. (Atherosclerosis Journal)
Ver o estudo completo na revista Atherosclerosis

PubMed — resumo e referência científica:
Registo bibliográfico do estudo, incluindo autores, DOI e publicação na edição de maio de 2026. (PubMed)
Consultar o estudo no PubMed

ScienceDirect — artigo completo:
Versão do artigo na plataforma ScienceDirect, incluindo resultados, metodologia e conclusões. (ScienceDirect)
Ler o artigo na ScienceDirect