O cérebro decide antes de agirmos?

O cérebro decide antes de agirmos? September 9, 2026Leave a comment

Primeiro decidimos e depois agimos?

Quando temos de tomar uma decisão, normalmente imaginamos que o processo acontece de uma forma relativamente simples.

Vemos uma situação, pensamos nas diferentes possibilidades, tomamos uma decisão e, finalmente, executamos uma ação.

Por exemplo, vemos uma bola a aproximar-se, decidimos onde colocar a mão e depois fazemos o movimento para a apanhar.

Esta sequência parece intuitiva:

perceção → pensamento → decisão → ação.

Mas será que o cérebro funciona realmente desta maneira?

Um novo artigo publicado na Journal of Cognitive Neuroscience, em 1 de junho de 2026, propõe uma perspetiva diferente.

O trabalho, da autoria de Thomas W. James, da Indiana University Bloomington, defende que as decisões não devem necessariamente ser consideradas a causa das ações. Em vez disso, tanto as decisões como as ações podem resultar da atividade de processos sensório-motores que envolvem continuamente o cérebro, o corpo e o ambiente. (PubMed)

É uma ideia que pode mudar a forma como pensamos sobre o cérebro, movimento e comportamento.

O que são processos sensório-motores?

O termo sensório-motor junta duas componentes:

Sensorial: receber informação através dos sentidos.

Motor: produzir movimentos e ações.

O cérebro está constantemente a combinar estas duas dimensões.

Quando caminhamos, por exemplo, os olhos fornecem informação sobre o ambiente, o sistema vestibular informa sobre equilíbrio e posição da cabeça, os músculos e articulações fornecem informação sobre a posição do corpo e o cérebro utiliza toda essa informação para ajustar continuamente o movimento.

Não existe necessariamente uma separação rígida entre “ver”, “pensar” e “mexer”.

O movimento altera aquilo que vemos.

Aquilo que vemos altera o movimento.

E o resultado do movimento fornece nova informação que volta a influenciar o comportamento.

É um ciclo contínuo.

A teoria tradicional: sentir, pensar e agir

Durante muito tempo, uma forma intuitiva de explicar o comportamento humano foi através de uma sequência semelhante a:

sentir → pensar → agir.

Na neurociência cognitiva, esta ideia é frequentemente associada ao chamado modelo “sandwich”, no qual processos sensoriais, cognitivos e motores aparecem como componentes relativamente separados.

Nesta perspetiva, o cérebro receberia informação sensorial, processaria essa informação através de mecanismos cognitivos e, posteriormente, enviaria uma ordem para os sistemas motores.

A decisão estaria no meio da sequência.

Thomas W. James questiona esta interpretação.

O autor argumenta que este modelo pode ser demasiado simples para explicar a forma como organismos vivos interagem com o ambiente. (ResearchGate)

E se a decisão não causar diretamente a ação?

Esta é a ideia central do artigo.

Quando pensamos:

“Eu decidi levantar-me e ir buscar um copo de água”,

parece lógico concluir que a decisão foi a causa do movimento.

Mas, segundo esta perspetiva, decisão e ação podem ser dois resultados diferentes de processos neurais e sensório-motores subjacentes.

Ou seja:

processos neurais → decisão

e simultaneamente:

processos neurais → ação

A decisão e a ação podem estar fortemente relacionadas sem que a primeira seja necessariamente a causa direta da segunda.

É uma distinção subtil, mas importante.

Um exemplo simples

Imagine que está sentado e percebe que tem sede.

Olha para a garrafa de água.

O cérebro recebe informação visual.

Ao mesmo tempo, existe informação sobre a posição do corpo, o equilíbrio, a distância até à garrafa e a possibilidade de agarrá-la.

Quando começa a mover o braço, a posição da garrafa relativamente à mão muda.

A informação visual também muda.

O cérebro atualiza continuamente o movimento.

Não existe necessariamente um momento perfeitamente identificável em que o cérebro “termina a decisão” e começa a ação.

Decisão e movimento podem desenvolver-se em conjunto.

Esta ideia aproxima-se de conceitos como cognição incorporada, ou embodied cognition, segundo os quais a cognição não deve ser entendida exclusivamente como algo que acontece isoladamente dentro do cérebro.

O corpo também participa na tomada de decisão

Uma das implicações desta perspetiva é que o corpo não deve ser visto apenas como um instrumento que executa ordens do cérebro.

O corpo fornece constantemente informação ao sistema nervoso.

A posição das articulações, a tensão muscular, o equilíbrio, a respiração, a visão e o contacto com objetos fornecem informação que influencia o comportamento.

Pense, por exemplo, em caminhar numa superfície irregular.

Não precisa de parar, analisar conscientemente cada pedra e decidir como colocar cada pé.

O sistema sensório-motor adapta continuamente os movimentos.

O corpo sente.

O cérebro interpreta.

O movimento muda.

O ambiente fornece nova informação.

E o ciclo continua.

O ambiente também faz parte do processo

O artigo propõe uma visão ainda mais ampla.

A interação não ocorre apenas entre cérebro e corpo.

O ambiente também participa na sequência causal.

Quando caminhamos, por exemplo, o cérebro não precisa de construir uma representação absolutamente completa do mundo para cada movimento.

Interage diretamente com o ambiente através dos sentidos e da ação.

Se existe um degrau, ajustamos o passo.

Se o chão está escorregadio, modificamos a velocidade e a amplitude dos movimentos.

Se aparece um obstáculo, mudamos a trajetória.

Estas alterações podem acontecer rapidamente e sem uma longa decisão consciente.

O papel da aprendizagem

Um dos conceitos importantes nesta abordagem é a aprendizagem sensório-motora.

Ao repetir uma ação, o sistema nervoso aprende relações entre perceção e movimento.

Uma criança que aprende a andar passa por milhares de experiências.

Cai.

Corrige.

Experimenta novamente.

Aprende a equilibrar-se.

Com o tempo, determinadas relações entre informação sensorial e movimento tornam-se cada vez mais eficientes.

O mesmo acontece em atividades desportivas.

Um jogador de ténis experiente não calcula conscientemente todas as variáveis físicas antes de cada pancada.

A experiência permite atualizar rapidamente a resposta motora através da interação entre perceção, movimento e ambiente.

Isto é importante para o exercício físico

Esta teoria pode ter implicações interessantes para o treino.

Quando ensinamos um movimento, podemos pensar apenas em instruções cognitivas:

“Levanta o braço.”

“Mantém o joelho nesta posição.”

“Desloca o peso para a perna direita.”

Estas instruções podem ser úteis.

Mas o movimento também pode ser aprendido através da experiência sensorial e da interação com o ambiente.

Por exemplo, exercícios que exigem equilíbrio, reação, coordenação ou adaptação a diferentes estímulos podem obrigar o sistema nervoso a atualizar continuamente as relações entre perceção e movimento.

Isto aproxima-se de abordagens modernas de treino motor e aprendizagem motora.

O treino não deve ser apenas repetir movimentos

Se o cérebro aprende através da interação entre perceção e ação, a forma como treinamos pode ser importante.

Repetir exatamente o mesmo movimento dezenas de vezes pode desenvolver determinadas competências.

Mas introduzir pequenas alterações pode obrigar o sistema nervoso a adaptar-se.

Podemos modificar:

  • velocidade;
  • direção;
  • superfície;
  • distância;
  • carga;
  • posição corporal;
  • estímulos visuais;
  • estímulos auditivos;
  • necessidade de reação.

O objetivo não é tornar o treino artificialmente complicado.

É permitir que o sistema sensório-motor aprenda a adaptar-se.

Decisões durante o exercício

Imagine um exercício em que uma pessoa precisa de tocar rapidamente num determinado alvo.

Se o alvo muda de posição, o cérebro recebe nova informação visual e o movimento adapta-se.

Não existe necessariamente uma sequência:

ver → pensar → decidir → mover.

O sistema pode funcionar de uma forma muito mais dinâmica:

ver → mover → receber nova informação → ajustar → continuar a mover.

Esta abordagem pode ser especialmente interessante em modalidades como futebol, ténis, artes marciais, dança ou atividades que exigem reação rápida.

E o livre-arbítrio?

O artigo levanta também questões filosóficas importantes.

Se as ações resultam de processos neurais e sensório-motores, isso significa que não temos livre-arbítrio?

Não necessariamente.

O estudo não demonstra que o livre-arbítrio seja uma ilusão.

O autor está principalmente a questionar uma determinada explicação causal: a ideia de que uma decisão mental separada funciona como uma espécie de comando que posteriormente provoca uma ação física.

São questões diferentes.

Podemos continuar a considerar que uma pessoa toma decisões e é responsável pelas suas ações sem assumir que existe uma etapa cerebral isolada chamada “decisão” que envia uma ordem para o corpo.

Não significa que as decisões sejam falsas

É importante não interpretar mal a proposta.

O artigo não diz que “não tomamos decisões”.

Também não diz que pensar é inútil.

As decisões continuam a ser fenómenos psicológicos reais.

O que está em causa é a forma como descrevemos a relação entre:

  • decisões;
  • ações;
  • cérebro;
  • corpo;
  • ambiente.

O autor propõe que as decisões podem ser entendidas como fenómenos que emergem da interação dinâmica dos processos sensório-motores, em vez de serem consideradas uma etapa causal separada. (PubMed)

Porque é que os estudos tradicionais podem ter limitações?

Grande parte da investigação em neurociência cognitiva utiliza tarefas muito controladas.

Um participante pode estar sentado diante de um computador e responder pressionando um botão.

Este tipo de experiência permite controlar muitas variáveis.

Mas existe uma diferença enorme entre pressionar um botão num laboratório e interagir com o mundo real.

No quotidiano:

  • movimentamo-nos;
  • exploramos o ambiente;
  • recebemos múltiplos estímulos;
  • cometemos erros;
  • corrigimos movimentos;
  • aprendemos;
  • antecipamos acontecimentos;
  • modificamos aquilo que vemos através dos nossos próprios movimentos.

Por isso, James defende uma maior utilização de ambientes de investigação mais ecológicos, nos quais os participantes tenham maior controlo sobre as próprias ações. (PubMed)

A importância da “perceção ativa”

Outro conceito relevante é o de active sensing, ou perceção ativa.

Não somos simplesmente recetores passivos de informação.

Movemo-nos para obter informação.

Se queremos ver melhor um objeto, aproximamo-nos.

Se queremos ouvir melhor, podemos virar a cabeça.

Se queremos perceber se uma superfície é estável, podemos tocar-lhe.

Se queremos avaliar o peso de um objeto, podemos levantá-lo.

A ação modifica a informação sensorial disponível.

Portanto, perceção e ação estão permanentemente ligadas.

O que isto pode significar para a reabilitação?

Esta abordagem também pode ser interessante na reabilitação motora.

Depois de uma lesão, cirurgia ou período prolongado de inatividade, o problema não é simplesmente recuperar força muscular.

É necessário recuperar a relação entre:

sensação → movimento → feedback → adaptação.

Exercícios que desafiem equilíbrio, proprioceção, coordenação e reação podem ajudar o sistema nervoso a reaprender determinadas relações sensório-motoras.

Naturalmente, cada situação clínica exige avaliação individual.

Mas a ideia de que o movimento é aprendido através da interação contínua entre corpo, cérebro e ambiente pode ser importante para desenvolver melhores estratégias de treino e reabilitação.

Uma nova forma de pensar o cérebro

A principal mensagem do artigo é que talvez devamos abandonar uma visão excessivamente linear do comportamento.

Em vez de:

perceção → decisão → ação

podemos imaginar:

perceção ↔ cérebro ↔ corpo ↔ ação ↔ ambiente

num ciclo contínuo.

Cada movimento altera o ambiente.

Cada alteração do ambiente produz nova informação.

Essa informação modifica os processos sensório-motores.

E estes processos influenciam novamente o comportamento.

É um sistema dinâmico.

O estudo mais recente

O artigo de Thomas W. James, publicado na Journal of Cognitive Neuroscience em 1 de junho de 2026, é o estudo mais recente diretamente relacionado com esta proposta que foi identificado para este artigo. O trabalho tem 12 páginas, ocupa as páginas 1089–1100 do volume 38, número 6, e apresenta o DOI 10.1162/JOCN.a.2484. (PubMed)

É importante salientar que se trata de um artigo de perspetiva, não de um ensaio clínico nem de uma experiência que tenha demonstrado definitivamente que todas as decisões humanas funcionam desta forma.

A proposta é sobretudo teórica e procura orientar futuras investigações.

Conclusão

Um novo artigo publicado em junho de 2026 questiona uma das ideias mais intuitivas sobre o funcionamento do cérebro: a ideia de que primeiro percebemos, depois decidimos e finalmente agimos.

Thomas W. James propõe que decisões e ações podem ser entendidas como resultados de processos sensório-motores dinâmicos, nos quais cérebro, corpo e ambiente interagem continuamente. (PubMed)

Esta perspetiva aproxima-se da cognição incorporada e da psicologia ecológica e pode ter implicações para a investigação sobre tomada de decisão, aprendizagem motora, desporto, reabilitação e comportamento humano.

Para quem trabalha com movimento, a mensagem é particularmente interessante:

o cérebro não aprende apenas através de informação e instruções. Aprende também através da ação.

Quanto mais rica for a interação entre percepção, movimento e ambiente, maior pode ser a oportunidade para o sistema nervoso adaptar e aperfeiçoar as suas respostas.

Posso ajudar

Posso ajudá-lo a desenvolver exercícios que estimulem força, equilíbrio, coordenação, proprioceção e aprendizagem motora, adaptando-os à idade e capacidade de cada pessoa.

Nota importante

Este artigo apresenta uma perspetiva teórica em neurociência e não demonstra que as decisões conscientes sejam uma ilusão. As implicações para treino e reabilitação devem ser interpretadas em conjunto com a evidência clínica disponível.

Links e fontes

Estudo original — Journal of Cognitive Neuroscience: Sensorimotor Mechanisms of Decisions and Actions, de Thomas W. James, publicado em 1 de junho de 2026, volume 38, número 6, páginas 1089–1100. (PubMed)

Artigo original na Journal of Cognitive Neuroscience — MIT Press

PubMed: referência bibliográfica, resumo, autor, data de publicação e DOI do artigo. (PubMed)

Referência do estudo no PubMed

Preprint de 2025: versão preliminar do trabalho, publicada em julho de 2025, que apresenta a fundamentação teórica desenvolvida posteriormente no artigo de 2026. (Preprints)

Versão preliminar do estudo — Preprints.org