Em Portugal, a maioria dos adultos não cumpre níveis suficientes de atividade física. Segundo os dados mais recentes da OCDE, publicados no Health at a Glance 2025, 56% dos adultos portugueses não realizam atividade física suficiente, uma proporção muito superior à média da OCDE, de 30%. (OECD)
Perante estes números, vale a pena colocar uma questão que raramente é discutida desta forma:
E se investir mais dinheiro para incentivar os portugueses a mexerem-se pudesse, a médio e longo prazo, reduzir a despesa pública com a doença?
A resposta da ciência económica não é simplesmente “sim”, mas os dados disponíveis sugerem que a atividade física pode ser encarada como um investimento em saúde, e não apenas como uma questão de estilo de vida.
Portugal tem um problema de inatividade física
A atividade física não significa apenas praticar desporto ou frequentar um ginásio.
Caminhar, andar de bicicleta, subir escadas, deslocar-se a pé, realizar determinadas tarefas domésticas ou profissionais e praticar exercício estruturado são diferentes formas de movimento.
Quando se fala de saúde pública, o problema não é apenas a ausência de treino.
É a combinação de pouco movimento diário, muitas horas sentado e baixos níveis de exercício estruturado.
Os dados portugueses são preocupantes.
A OCDE estima que 56% dos adultos em Portugal não realizam atividade física suficiente, enquanto a média dos países da organização é de 30%. (OECD)
O Country Health Profile 2025 apresenta outro indicador relevante: apenas cerca de 26% dos adultos portugueses referem praticar exercício mais de três vezes por semana, abaixo da média europeia de 31%. (OECD)
Isto significa que Portugal enfrenta um problema que ultrapassa largamente o universo das pessoas que não frequentam ginásios.
É um problema populacional.
O problema chega ao SNS
A inatividade física não é apenas uma questão de condição física.
Está associada a maior risco de várias doenças crónicas, incluindo doença cardiovascular, diabetes tipo 2 e alguns tipos de cancro. Também está relacionada com pior saúde mental e perda de capacidade funcional.
Estas doenças têm custos para o indivíduo, mas também para o sistema de saúde.
Consultas.
Medicamentos.
Exames.
Internamentos.
Cirurgias.
Reabilitação.
Cuidados continuados.
Baixas médicas.
E, numa população envelhecida, necessidades crescentes de cuidados associados à perda de autonomia.
A OCDE identifica a atividade física insuficiente como um dos fatores de risco que contribuem para a carga das doenças não transmissíveis. A análise mais recente da organização sobre os benefícios económicos de combater estas doenças foi publicada em 15 de abril de 2026. (OECD)
Por isso, a pergunta deixa de ser apenas “como podemos pôr os portugueses a fazer mais exercício?”
Passa a ser:
quanto custa não o fazer?
Prevenir pode ser mais barato do que tratar?
Esta é provavelmente a questão mais importante.
Se uma pessoa fisicamente inativa aumentar progressivamente a sua atividade física, poderá reduzir o risco de desenvolver determinadas doenças.
Mas isso não significa que cada euro investido em exercício produza automaticamente um euro de poupança no SNS.
É necessário distinguir duas coisas.
Investimento em prevenção e poupança imediata não são a mesma coisa.
Um programa público de atividade física pode ter custos hoje, enquanto parte dos benefícios económicos só aparece vários anos depois.
Por exemplo, se uma pessoa de 50 anos melhora a sua força, capacidade cardiovascular e composição corporal, o benefício pode traduzir-se em menor risco de doença cardiovascular, diabetes ou incapacidade aos 60, 70 ou 80 anos.
O retorno pode, portanto, ser de longo prazo.
E é precisamente por isso que a prevenção é tão difícil de avaliar politicamente: o custo aparece no orçamento atual, enquanto parte da poupança surge no futuro.
Quanto poderia a atividade física poupar?
A OCDE e a Organização Mundial da Saúde já fizeram esta análise à escala europeia.
O relatório Step Up! Tackling the Burden of Insufficient Physical Activity in Europe estimou que, se todos os países da União Europeia conseguissem aumentar a atividade física da população para pelo menos os níveis recomendados, poderiam poupar, em média, cerca de 0,6% da despesa total em saúde.
À escala da União Europeia, isso corresponde a quase 8 mil milhões de euros PPP por ano. (Organização Mundial da Saúde)
É importante interpretar corretamente este número.
Não significa que Portugal possa simplesmente pegar nos seus gastos atuais e retirar 0,6%.
Trata-se de uma estimativa baseada num modelo económico e num cenário de aumento generalizado da atividade física.
Mas demonstra uma coisa importante:
a inatividade física tem um custo económico mensurável.
E esse custo não desaparece porque não aparece numa fatura intitulada “inatividade física”.
O dinheiro gasto em exercício pode ser dinheiro poupado em medicamentos?
Esta é uma hipótese interessante, mas deve ser analisada com cuidado.
Uma população mais ativa pode apresentar menor incidência de determinadas doenças e, consequentemente, menor utilização de alguns serviços de saúde.
Mas o objetivo de uma política de atividade física não deveria ser simplesmente reduzir a prescrição de medicamentos.
O objetivo deveria ser aumentar anos de vida saudável e capacidade funcional.
Se isso acontecer, a redução da despesa médica poderá ser uma consequência.
E existe outra vantagem económica.
Uma pessoa saudável e fisicamente capaz não é apenas um menor consumidor potencial de cuidados de saúde.
Pode também ter maior capacidade para trabalhar, menor risco de incapacidade e maior autonomia.
Ou seja, os benefícios económicos da atividade física ultrapassam o orçamento do Ministério da Saúde.
Onde deveria Portugal investir?
A resposta provavelmente não passa simplesmente por construir mais ginásios.
Se quisermos alterar o comportamento de milhões de pessoas, precisamos de tornar a atividade física mais acessível e mais fácil de integrar na vida quotidiana.
Algumas possibilidades seriam:
Prescrição de exercício nos cuidados de saúde primários.
Os profissionais de saúde poderiam identificar pessoas sedentárias e encaminhá-las para programas adequados de atividade física.
Profissionais de exercício integrados em programas de prevenção.
Nem todas as pessoas precisam do mesmo tipo de exercício. Uma pessoa de 30 anos saudável e uma pessoa de 70 anos com baixa força, excesso de peso e problemas de equilíbrio necessitam de estratégias diferentes.
Programas específicos para adultos a partir dos 40 ou 50 anos.
Esta pode ser uma fase particularmente importante para começar a prevenir perda de massa muscular, força e capacidade cardiovascular.
Programas comunitários.
Caminhadas, treino de força, equilíbrio e mobilidade podem ser promovidos em municípios, centros comunitários e espaços públicos.
Cidades que facilitem o movimento.
Passeios seguros, ciclovias, escadas acessíveis e espaços públicos adequados podem transformar deslocações quotidianas em atividade física.
Combate ao sedentarismo no trabalho.
Não basta recomendar 150 minutos de exercício semanal se o restante dia for passado sentado.
Portugal já começou a mexer-se
É importante não dizer que nada está a ser feito.
Portugal já possui iniciativas de promoção da atividade física integradas no sistema de saúde. O Country Health Profile 2025 refere que o programa de promoção da atividade física nos cuidados de saúde primários já realizou centenas de milhares de avaliações. No entanto, apenas cerca de um terço das pessoas avaliadas atingia os 150 minutos semanais recomendados. (OECD)
Isto revela uma realidade interessante.
O problema não é apenas convencer as pessoas de que o exercício faz bem.
É conseguir transformar conhecimento em comportamento.
Saber que devemos fazer exercício não significa necessariamente fazê-lo.
É aqui que uma política pública pode ter um papel importante.
E se o Estado pagasse para as pessoas se mexerem?
Esta ideia pode parecer estranha.
Mas pensemos no problema de outra forma.
O Estado já financia tratamentos para doenças que poderiam, em parte, ser prevenidas através de estilos de vida mais saudáveis.
Então porque não investir mais na prevenção?
Não significa obrigar ninguém a fazer exercício.
Significa criar condições para que seja mais fácil fazê-lo.
Por exemplo, investir 100 euros por pessoa num programa de atividade física não deve ser avaliado apenas perguntando quanto custou o programa.
É necessário perguntar:
quantos casos de doença conseguiu evitar?
quantos internamentos conseguiu reduzir?
quantos anos de vida saudável acrescentou?
quantas pessoas mantiveram a autonomia durante mais tempo?
qual foi o custo por ano de vida saudável ganho?
É esta lógica que permite transformar o exercício numa verdadeira intervenção de saúde pública.
O exercício pode ser uma das intervenções mais baratas da medicina
Existe ainda uma característica extraordinária da atividade física.
Não é necessário inventar um novo medicamento.
Não exige tecnologia extremamente sofisticada.
E muitas das suas formas são praticamente gratuitas.
Caminhar não exige uma mensalidade.
Subir escadas não exige equipamento.
Andar de bicicleta pode ser simultaneamente transporte e exercício.
Um programa simples de força pode exigir pouco equipamento.
O grande desafio é comportamental.
É conseguir que uma pessoa sedentária comece, mantenha e aumente progressivamente a sua atividade.
Por isso, o investimento público deveria talvez deixar de estar centrado exclusivamente na informação.
Não basta dizer às pessoas para fazerem exercício. É necessário criar condições para que o façam.
Quanto poderia Portugal poupar?
Não existe atualmente uma resposta simples e rigorosa para afirmar: “Portugal pouparia exatamente X euros se toda a população fizesse exercício”.
Seria cientificamente incorreto apresentar esse número como uma certeza.
Existem, contudo, modelos económicos internacionais que demonstram que a inatividade física representa uma carga relevante para os sistemas de saúde e que aumentar a atividade física da população pode reduzir essa carga. (Organização Mundial da Saúde)
A questão que Portugal deveria colocar é, portanto, outra:
quanto estamos dispostos a investir hoje para evitar uma parte da despesa de saúde de amanhã?
Porque o verdadeiro custo pode estar precisamente em não investir.
Mais exercício, menos doença e mais autonomia
A atividade física não substitui a medicina.
Não substitui medicamentos quando estes são necessários.
Não substitui cirurgia, fisioterapia ou outros tratamentos.
Mas pode funcionar antes de muitos desses problemas aparecerem.
Pode ajudar a preservar força.
Pode melhorar a capacidade cardiovascular.
Pode reduzir fatores de risco metabólicos.
Pode contribuir para a saúde mental.
Pode ajudar a manter independência funcional.
E pode permitir que uma pessoa chegue aos 70, 80 ou 90 anos com maior capacidade para viver autonomamente.
Por isso, talvez seja altura de mudar a forma como encaramos o exercício em Portugal.
Atividade física não é apenas desporto.
Não é apenas estética.
Não é apenas uma responsabilidade individual.
É também uma questão de saúde pública e, potencialmente, de sustentabilidade económica do sistema de saúde.
Se 56% dos adultos portugueses não atingem níveis suficientes de atividade física, como mostram os dados mais recentes da OCDE, talvez a pergunta não deva ser apenas quanto custa investir na promoção do exercício.
Talvez devêssemos perguntar:
quanto custa ao país continuar a não investir suficientemente nela? (OECD)
Posso ajudar
Posso avaliar a sua condição física e criar um programa progressivo de força, resistência, mobilidade e equilíbrio, adaptado à idade, objetivos, limitações e experiência individual de treino.
Referências
https://www.oecd.org/en/publications/health-at-a-glance-2025_15a55280-en/portugal_362f7cea-en.html