Portugal bebe demasiado? O problema do álcool na saúde, no cérebro e nos jovens

Portugal bebe demasiado? O problema do álcool na saúde, no cérebro e nos jovens September 11, 2026Leave a comment

Portugal é frequentemente associado à dieta mediterrânica, ao vinho e à ideia de que uma pequena quantidade de álcool pode fazer parte de um estilo de vida saudável.

Mas os dados mais recentes obrigam-nos a olhar para esta questão de outra forma.

Segundo o Health at a Glance 2025, publicado pela OCDE em novembro de 2025, o consumo de álcool em Portugal atingiu 11,9 litros de álcool puro por pessoa, muito acima da média da OCDE, de 8,5 litros. (OECD)

E os dados do Country Health Profile 2025 são ainda mais preocupantes: em 2022, Portugal registou o maior consumo de álcool per capita da União Europeia, 21% acima da média europeia. (OBS)

Isto transforma o álcool numa questão que ultrapassa largamente a escolha individual.

É um problema de saúde pública.

Portugal bebe mais do que deveria?

Os números sugerem que sim.

Em 2022, o consumo de álcool em Portugal chegou aos 11,9 litros de álcool puro por pessoa, depois de ter aumentado quase 40% desde o mínimo registado durante a pandemia. O valor ficou também acima do registado em 2010. (OECD)

Para perceber o que significa esta quantidade, não estamos a falar de 11,9 litros de vinho.

Estamos a falar do equivalente a 11,9 litros de etanol puro.

O álcool está presente em diferentes bebidas e concentrações, mas o organismo não distingue se o etanol veio de vinho, cerveja ou bebidas espirituosas.

É o etanol que produz os principais efeitos biológicos.

E aqui existe uma ideia cultural que merece ser questionada:

o facto de uma bebida fazer parte da cultura portuguesa não significa que seja biologicamente inofensiva.

O álcool não é apenas um problema do fígado

Quando pensamos nos efeitos do álcool, normalmente lembramo-nos do fígado.

Mas o álcool afeta praticamente todo o organismo.

Está associado a doenças cardiovasculares, doença hepática, vários tipos de cancro, acidentes, lesões, perturbações relacionadas com o consumo de álcool e problemas de saúde mental. A Organização Mundial da Saúde considera que o álcool tem um papel causal em mais de 200 doenças, lesões e outras condições de saúde. (Organização Mundial da Saúde)

O problema é particularmente importante porque o álcool é uma substância psicoativa.

Atua diretamente no cérebro.

E quanto mais frequentemente e em maior quantidade é consumido, maior tende a ser o risco de consequências negativas.

O álcool mata neurónios?

Esta é uma das perguntas mais frequentes.

A resposta exige alguma precisão.

O álcool pode provocar neurotoxicidade e morte neuronal.

Não é correto, contudo, afirmar que é “a única coisa que mata neurónios”.

Existem muitas situações, doenças e substâncias capazes de provocar lesão ou morte neuronal.

O que torna o álcool particularmente relevante é a combinação entre toxicidade direta, alterações metabólicas, stress oxidativo, neuroinflamação, alterações dos neurotransmissores e efeitos sobre a estrutura e funcionamento do cérebro.

Uma revisão científica publicada em 25 de junho de 2026, Developmental Neurotoxicity of Alcohol from Neuronal Basis to Behavioural Outcomes, descreveu vários mecanismos através dos quais a exposição ao álcool pode interferir com o desenvolvimento cerebral, incluindo apoptose, stress oxidativo, alterações da proliferação e migração neuronal, disfunção dos neurotransmissores, alterações das células gliais e modificações epigenéticas. (PubMed)

É atualmente a revisão mais recente utilizada neste artigo.

O cérebro dos adolescentes é especialmente vulnerável

É aqui que o problema se torna ainda mais preocupante.

O cérebro não termina o seu desenvolvimento durante a infância.

A adolescência é um período de intensa reorganização cerebral, incluindo alterações importantes no córtex pré-frontal, região envolvida no controlo dos impulsos, tomada de decisões, planeamento e regulação do comportamento.

Uma revisão de estudos longitudinais em adolescentes encontrou associações entre consumo intenso de álcool e pior desempenho em aprendizagem, memória, atenção, funções executivas e controlo dos impulsos. Também foram observadas alterações na matéria cinzenta e na matéria branca. (PubMed)

Isto não significa que qualquer adolescente que consuma uma bebida alcoólica vá desenvolver uma lesão cerebral permanente.

A ciência é mais complexa.

Mas significa que começar a beber cedo, sobretudo com consumo frequente ou episódios de intoxicação, acontece numa fase em que o cérebro ainda está em desenvolvimento.

E isso merece uma atenção especial.

E o que acontece em Portugal?

Os dados portugueses mostram uma situação curiosa.

Apesar de a proporção de jovens de 15 anos que tinham estado embriagados pelo menos duas vezes ter descido de 14% em 2018 para 8% em 2022, Portugal continuava a apresentar problemas relevantes de acesso e consumo de álcool entre jovens. (OECD)

Em 2019, 72% dos jovens de 16 anos consideravam fácil ou muito fácil obter cerveja.

E cerca de um quarto dos jovens entre os 13 e os 17 anos tinha comprado álcool no mês anterior. (OECD)

Entre estudantes universitários, os números são particularmente preocupantes: em 2022, 47% relataram binge drinking e 49% disseram ter ficado embriagados no mês anterior. (OECD)

Portanto, o problema não desapareceu.

Pode ter mudado de forma.

Álcool e saúde mental: uma relação perigosa

Outro ponto fundamental é a relação entre álcool e saúde mental.

É frequente ouvir que uma pessoa bebe para relaxar, esquecer problemas, diminuir a ansiedade ou conseguir dormir.

O problema é que aquilo que parece funcionar no imediato pode agravar o problema posteriormente.

O álcool altera os sistemas neurotransmissores envolvidos na recompensa, ansiedade, sono e controlo comportamental.

Uma pessoa pode sentir temporariamente menos ansiedade depois de beber.

Mas isso não significa que o álcool esteja a tratar a ansiedade.

Pode estar simplesmente a alterar a perceção e a resposta do sistema nervoso.

A longo prazo, o consumo excessivo está associado a depressão, ansiedade e perturbações relacionadas com o consumo de álcool. (Organização Mundial da Saúde)

E existe uma relação particularmente preocupante nos adolescentes.

Um estudo publicado em 18 de janeiro de 2025 encontrou relações recíprocas entre dificuldades de saúde mental e consumo de álcool durante a adolescência: problemas de saúde mental podem aumentar o risco de consumo, enquanto o consumo também pode contribuir para dificuldades posteriores. (Springer Nature)

Ou seja:

não é necessariamente “o álcool causa depressão” ou “a depressão causa consumo de álcool”.

Em muitos casos, pode existir um ciclo.

Problemas emocionais levam ao consumo.

O consumo agrava determinados problemas.

E esses problemas podem aumentar novamente a probabilidade de beber.

O álcool também pode afetar a memória

O hipocampo é uma estrutura cerebral fundamental para a aprendizagem e memória.

O álcool pode interferir com processos relacionados com a plasticidade neuronal e a neurogénese no hipocampo.

Uma revisão recente sobre os mecanismos da neurotoxicidade do álcool descreveu precisamente a interferência do álcool com a neurogénese hipocampal e os processos envolvidos na memória. (PubMed)

Isto ajuda a explicar porque episódios de consumo excessivo podem provocar problemas de memória mesmo no curto prazo.

O chamado blackout alcoólico não é simplesmente “ter bebido demais e esquecer uma noite”.

É uma perturbação da capacidade do cérebro para formar novas memórias durante um determinado período.

O álcool aumenta o risco de cancro

Existe outro problema importante: a ideia de que vinho, por ser tradicionalmente associado à dieta mediterrânica, seria uma exceção.

Não é.

A Organização Mundial da Saúde e a Agência Internacional para a Investigação do Cancro consideram o álcool um carcinogénio.

O álcool está associado a pelo menos sete tipos de cancro, incluindo cancro da mama, fígado, colorretal, esófago e cabeça e pescoço. (Organização Mundial da Saúde)

A OMS é clara: não existe um nível de consumo de álcool que possa ser considerado seguro relativamente ao risco de cancro. Mesmo pequenas quantidades aumentam o risco, embora o risco aumente substancialmente com o consumo. (Organização Mundial da Saúde)

Isto não significa que uma pessoa que bebe ocasionalmente vá inevitavelmente desenvolver cancro.

Significa que, em termos populacionais, quanto menor for o consumo, menor tende a ser o risco atribuível ao álcool.

Portugal gasta demasiado pouco na prevenção?

Há aqui uma questão de saúde pública interessante.

Os dados da OCDE mostram que Portugal gasta 2,3% da despesa corrente em saúde em prevenção, abaixo da média da OCDE de 3,4%. Ao mesmo tempo, o país apresenta consumo de álcool superior à média da organização. (OECD)

Isto levanta uma questão legítima:

será que Portugal deveria investir mais na prevenção do consumo excessivo de álcool?

Não significa simplesmente dizer às pessoas “não bebam”.

Uma política eficaz pode envolver educação, limitação da exposição dos menores, controlo da disponibilidade, informação clara sobre riscos, políticas fiscais e tratamento acessível para quem desenvolveu dependência.

E existe uma razão particularmente forte para começar pelos jovens.

Quanto mais cedo começa o consumo regular e intenso, maior é a oportunidade de interferir numa trajetória de risco antes de ela se consolidar.

O álcool não é apenas uma escolha individual

É importante evitar dois extremos.

Por um lado, não devemos transformar qualquer pessoa que consuma álcool num “doente”.

Por outro, também não devemos tratar o consumo excessivo como uma questão exclusivamente privada.

Quando uma substância está associada a doenças crónicas, acidentes, violência, problemas familiares, perda de produtividade, dependência, problemas de saúde mental e utilização de serviços de saúde, estamos perante um problema de saúde pública.

Portugal já tem indicadores suficientemente fortes para justificar uma discussão séria.

11,9 litros de álcool puro por pessoa.

21% acima da média europeia.

40 mil internamentos hospitalares relacionados com álcool em 2023.

3,5% dos portugueses entre os 15 e os 74 anos a reportarem abuso ou dependência em 2022. (OECD)

Estes números não representam apenas litros de bebida.

Representam doença, sofrimento, acidentes, dependência, perda de qualidade de vida e custos para o sistema de saúde.

O que podemos fazer?

A primeira mudança talvez seja cultural.

Precisamos de deixar de confundir tradição com benefício para a saúde.

O vinho pode fazer parte da cultura portuguesa.

Mas o álcool continua a ser álcool.

Também precisamos de falar mais sobre o consumo entre adolescentes.

Não apenas sobre dependência.

É necessário falar sobre cérebro em desenvolvimento, memória, aprendizagem, saúde mental e comportamento.

E precisamos de transmitir uma mensagem simples aos adultos:

beber menos é mais seguro do que beber mais.

Não é necessário esperar por uma doença hepática, por um problema de memória ou por uma dependência para reconsiderar o consumo.

A mensagem mais importante

O álcool é uma das substâncias psicoativas mais normalizadas na nossa sociedade.

E talvez seja precisamente essa normalização que dificulta a percepção do risco.

Portugal tem um consumo de álcool muito superior à média da OCDE e, segundo os dados mais recentes disponíveis, foi o país da União Europeia com maior consumo per capita em 2022. (OECD)

O problema não está apenas no fígado.

Está no cérebro.

Na saúde mental.

No desenvolvimento dos adolescentes.

Na memória.

No risco de cancro.

No coração.

Nos acidentes.

E na capacidade de muitas pessoas controlarem o próprio consumo.

O álcool não é a única substância capaz de matar ou lesar neurónios, mas é certamente uma das substâncias de consumo recreativo mais relevantes quando falamos de neurotoxicidade e saúde pública.

E talvez a pergunta mais importante não seja:

“Qual é a quantidade de álcool que ainda posso beber?”

Mas sim:

“Quanto da minha saúde estou disposto a trocar pelos efeitos de uma substância que, do ponto de vista biológico, não é necessária?”

Posso ajudar

Posso ajudar a melhorar força, condição física, sono e gestão do stress através do exercício, estratégias que podem integrar uma abordagem mais saudável à prevenção e ao bem-estar.

Referências

https://www.oecd.org/en/publications/health-at-a-glance-2025_15a55280-en/portugal_362f7cea-en.html

https://www.oecd.org/content/dam/oecd/en/publications/reports/2025/12/country-health-profile-2025-country-notes_7e72146d/portugal_6d4acb43/56041c8e-en.pdf

https://doi.org/10.3390/neurolint18070123

https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/42506045/

https://www.who.int/europe/news-room/fact-sheets/item/alcohol-and-cancer

https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/alcohol

https://www.oecd.org/en/publications/health-at-a-glance-2025_8f9e3f98-en/full-report/alcohol-consumption-among-adolescents_28bb306b.html

https://doi.org/10.1007/s00787-025-02644-6

https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/32179028/

https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40676366/