A dor na parte lateral da anca é uma queixa frequente, sobretudo em pessoas fisicamente activas e em adultos de meia-idade e mais velhos. Durante muito tempo, alterações observadas em exames de imagem, como a ressonância magnética, foram muitas vezes interpretadas como a principal explicação para a dor. Actualmente, sabemos que a relação entre alterações estruturais e sintomas é mais complexa.
Um estudo publicado em 11 de setembro de 2026 avaliou um programa de educação e exercício orientado por fisioterapeutas em pessoas com dor lateral da anca há mais de seis meses e com patologia dos tendões abdutores confirmada por ressonância magnética.
Depois de três meses de intervenção, os participantes apresentaram uma melhoria clinicamente relevante da dor, além de melhorias em várias medidas relacionadas com a função da anca, qualidade de vida e capacidade para realizar o teste de levantar e sentar durante 30 segundos.
O estudo é particularmente interessante porque combina duas componentes fundamentais da reabilitação: gestão da carga e exercício progressivo.
O que é a tendinopatia dos abdutores da anca?
Os músculos abdutores da anca têm um papel essencial na estabilidade da bacia e no controlo do membro inferior durante actividades como caminhar, correr, subir escadas ou permanecer apoiado numa só perna.
Entre os principais músculos envolvidos encontram-se o glúteo médio e o glúteo mínimo, cujos tendões se inserem na região lateral do fémur.
Quando estes tendões apresentam alterações estruturais associadas a dor e perda de função, pode utilizar-se o termo tendinopatia dos abdutores da anca.
Uma das manifestações mais conhecidas é a chamada dor lateral da anca. A dor pode surgir ao caminhar, correr, subir escadas, permanecer muito tempo deitado sobre o lado afectado ou realizar movimentos que exigem estabilização da bacia.
Nem toda a alteração na ressonância significa dor
Um dos aspectos importantes deste tema é a interpretação dos exames de imagem.
A ressonância magnética consegue identificar alterações nos tendões, incluindo alterações da estrutura tendinosa. No entanto, uma alteração observada numa imagem não significa necessariamente que seja a causa exclusiva da dor.
É possível encontrar alterações estruturais em pessoas com poucos sintomas ou mesmo sem dor significativa.
Por isso, uma avaliação adequada deve considerar simultaneamente sintomas, capacidade funcional, força, tolerância à carga, actividade física e exame clínico.
Este estudo é interessante precisamente porque os participantes tinham alterações confirmadas por ressonância magnética, mas a intervenção não se limitou a tentar modificar a imagem.
Como foi realizado o estudo?
Os investigadores realizaram um estudo de coorte prospectivo num hospital universitário público dinamarquês.
Foram incluídos 60 participantes com dor lateral da anca há mais de seis meses e patologia dos tendões abdutores confirmada clinicamente e por ressonância magnética.
A idade dos participantes variava entre 18 e 75 anos, com uma idade média de 58,2 anos.
Todos os participantes eram mulheres, uma característica importante que deve ser considerada quando tentamos extrapolar os resultados para homens.
Dos 60 participantes inicialmente incluídos, 55 completaram a intervenção.
O programa durou três meses
A intervenção teve uma duração de três meses e foi conduzida por fisioterapeutas.
Durante este período foram realizadas sete sessões orientadas por profissionais, nas quais os participantes receberam educação sobre gestão da carga e modificação das actividades diárias.
Além da educação, cada participante realizou um programa de exercício domiciliário individualizado e progressivo.
Esta combinação é importante porque a reabilitação de uma tendinopatia não depende apenas da escolha de determinados exercícios.
É também necessário perceber quanto esforço o tendão consegue tolerar, como distribuir a carga ao longo da semana e de que forma aumentar progressivamente a exigência sem provocar uma exacerbação persistente dos sintomas.
O que aconteceu à dor?
A principal medida utilizada pelos investigadores foi a subescala de dor do revised Copenhagen Hip and Groin Outcome Score, conhecida como HAGOS.
No início do estudo, a pontuação média relacionada com a dor era de 46,4 pontos.
Depois de três meses, a pontuação média aumentou para 60,1 pontos.
Os investigadores consideraram esta alteração clinicamente relevante.
É importante compreender que este estudo não teve um grupo de controlo. Portanto, não é possível afirmar com o mesmo grau de certeza que toda a melhoria observada tenha sido causada exclusivamente pelo programa de exercício.
Factores como a evolução natural da condição, alteração das actividades, expectativas dos participantes e contacto regular com profissionais podem também ter contribuído para os resultados.
A adesão ao exercício foi elevada
Um dos resultados interessantes foi a adesão ao programa de exercício.
A adesão média foi de 85%, o que significa que os participantes realizaram a grande maioria das sessões de exercício prescritas.
Este aspecto é relevante na prática clínica.
Um programa teoricamente eficaz tem pouca utilidade se for demasiado complexo, doloroso ou difícil de integrar na vida diária.
Um programa domiciliário individualizado, acompanhado por um profissional e ajustado progressivamente pode facilitar a continuidade do tratamento.
A força melhorou?
Foram observadas melhorias menores na força muscular isométrica da anca.
Este resultado merece atenção porque a redução da dor pode acontecer sem uma grande alteração da força máxima medida num teste específico.
A reabilitação não deve, por isso, ser avaliada exclusivamente através da força.
O objectivo pode ser recuperar simultaneamente tolerância à carga, função, confiança no movimento e capacidade para realizar actividades quotidianas.
Melhorou a capacidade funcional?
Uma das medidas utilizadas foi o teste de levantar e sentar durante 30 segundos.
No início, os participantes realizavam em média 11,7 repetições.
Depois dos três meses, a média aumentou para 14,2 repetições.
Esta alteração mostra uma melhoria da capacidade funcional global do membro inferior.
Embora o teste não seja específico para os tendões abdutores da anca, levantar e sentar exige a participação coordenada de vários grupos musculares e fornece uma medida relativamente simples da capacidade funcional.
Por que razão a educação é importante?
Uma parte frequentemente subestimada da reabilitação é a educação do paciente.
Quando uma pessoa interpreta qualquer dor durante o movimento como sinal de lesão adicional, pode começar a evitar actividades importantes.
Essa redução da actividade pode levar a perda de força, menor tolerância à carga e maior receio de determinados movimentos.
A educação sobre gestão da carga permite explicar que o objectivo não é necessariamente eliminar qualquer sensação durante o exercício, mas encontrar uma quantidade de estímulo que possa ser tolerada e progressivamente aumentada.
Esta abordagem pode ajudar a pessoa a recuperar confiança na utilização da anca.
O que significa gestão da carga?
Gestão da carga não significa simplesmente descansar.
Significa ajustar a quantidade, frequência, intensidade e tipo de actividade às capacidades actuais da pessoa.
Por exemplo, uma pessoa que apresenta dor lateral da anca pode precisar temporariamente de modificar determinadas actividades que provocam uma elevada carga sobre os tendões.
Isso não significa necessariamente parar toda a actividade física.
O exercício pode ser mantido através de movimentos e intensidades que sejam adequados à fase de recuperação, enquanto a capacidade dos tecidos é progressivamente desenvolvida.
Exercício progressivo para os tendões
Os tendões adaptam-se às cargas mecânicas aplicadas de forma adequada e progressiva.
Na tendinopatia dos abdutores da anca, o treino pode incluir diferentes formas de contracção e exercícios destinados a aumentar progressivamente a capacidade dos músculos e tendões.
A selecção exacta dos exercícios deve depender da avaliação individual.
O objectivo não é encontrar um exercício mágico para a tendinopatia, mas criar uma progressão suficientemente estimulante e simultaneamente tolerável.
À medida que a capacidade aumenta, podem ser introduzidos exercícios mais exigentes, maior resistência, maior amplitude de movimento ou tarefas mais próximas das actividades que a pessoa pretende recuperar.
E correr com dor lateral da anca?
Para pessoas que correm, a questão mais importante é frequentemente saber quando e como regressar à corrida.
A resposta não deve ser igual para todas as pessoas.
A capacidade de caminhar sem agravamento significativo dos sintomas, a força, a tolerância a cargas unilaterais e a resposta ao exercício devem ser consideradas antes de aumentar progressivamente o impacto.
Uma estratégia de regresso à corrida pode começar com volumes reduzidos e aumentar gradualmente, observando a resposta da anca nas horas seguintes e no dia seguinte.
O objectivo é recuperar a capacidade de tolerar a carga específica da corrida, em vez de simplesmente esperar que toda a dor desapareça antes de voltar a correr.
O que este estudo demonstra?
Este estudo demonstra que um programa de três meses de educação sobre gestão da carga combinado com exercício individualizado e progressivo esteve associado a melhorias clinicamente relevantes em pessoas com dor lateral da anca e patologia dos tendões abdutores confirmada por ressonância magnética.
Também foram observadas melhorias em medidas relacionadas com a função da anca, qualidade de vida e desempenho no teste de levantar e sentar.
Contudo, por ser um estudo de coorte sem grupo de controlo, não permite estabelecer com a mesma força causalidade.
São necessários ensaios clínicos randomizados para comparar esta abordagem com outras intervenções e determinar quais os componentes do tratamento que contribuem mais para a recuperação.
O que podemos retirar para a prática?
A principal mensagem para quem apresenta dor lateral da anca é que uma ressonância magnética com alterações tendinosas não significa necessariamente que a solução seja repousar ou evitar movimento.
A reabilitação pode envolver educação, modificação temporária das actividades, fortalecimento progressivo e recuperação gradual da capacidade de carga.
Também é importante não confundir uma alteração estrutural com uma indicação automática para cirurgia ou para tratamentos passivos.
A avaliação clínica deve determinar a relação entre os achados da imagem, os sintomas e as limitações funcionais.
Conclusão
O estudo publicado em 11 de setembro de 2026 acompanhou 60 pessoas com dor lateral da anca há mais de seis meses e alterações dos tendões abdutores confirmadas por ressonância magnética.
Depois de três meses de educação orientada por fisioterapeutas e exercício domiciliário individualizado e progressivo, a dor apresentou uma melhoria clinicamente relevante. Também foram observadas melhorias funcionais e na qualidade de vida.
A adesão ao exercício foi elevada, atingindo 85%, enquanto o desempenho no teste de levantar e sentar durante 30 segundos aumentou de 11,7 para 14,2 repetições.
O estudo não prova que esta abordagem seja superior a outras estratégias, porque não teve grupo de controlo. No entanto, reforça uma abordagem de reabilitação baseada na gestão da carga, educação e exercício progressivo.
Para pessoas com tendinopatia dos abdutores da anca, o objectivo não deve ser simplesmente proteger o tendão de qualquer carga, mas desenvolver progressivamente a capacidade necessária para voltar às actividades que realmente importam.
Posso ajudar
Posso ajudar a avaliar a tolerância à carga e a estruturar uma progressão de força e movimento para recuperar função da anca, adaptada aos sintomas e objectivos.
Referências
- Physiotherapist-led education and exercise for patients with MRI-verified hip abductor tendon pathology: a prospective cohort study — BMJ Open, publicado em 11 de setembro de 2026.
- DOI 10.1136/bmjopen-2026-120837 — artigo científico completo sobre educação e exercício na patologia dos tendões abdutores da anca.
- ClinicalTrials.gov — NCT06418217, registo do estudo sobre reabilitação da dor lateral da anca.