Calor, frio e saúde cerebral: como a temperatura pode influenciar o risco de morte por doenças neurodegenerativas

Calor, frio e saúde cerebral: como a temperatura pode influenciar o risco de morte por doenças neurodegenerativas September 20, 2026Leave a comment

As temperaturas extremas são frequentemente associadas a problemas cardiovasculares, respiratórios e metabólicos. No entanto, o impacto do ambiente térmico pode ser muito mais abrangente. Um estudo publicado na revista Nature Communications analisou a relação entre a temperatura ambiente e a mortalidade por várias doenças neurodegenerativas, incluindo demência, doença de Alzheimer e doença de Parkinson.

Os resultados sugerem que tanto as temperaturas muito baixas como as temperaturas muito elevadas estão associadas a um aumento do risco de morte em pessoas com doenças neurodegenerativas. Mais importante ainda, os investigadores estimaram que o aquecimento global poderá alterar progressivamente este equilíbrio, reduzindo parte da mortalidade relacionada com o frio, mas aumentando a mortalidade associada ao calor.

O que são doenças neurodegenerativas?

As doenças neurodegenerativas caracterizam-se pela perda progressiva da estrutura ou da função das células do sistema nervoso. Entre as mais conhecidas encontram-se a doença de Alzheimer, outras formas de demência e a doença de Parkinson.

Estas doenças tornam-se particularmente relevantes numa população que está a envelhecer. A idade é um dos principais fatores associados ao desenvolvimento de várias doenças neurodegenerativas e, por isso, alterações ambientais que afetem a saúde das pessoas mais velhas podem assumir uma importância crescente.

O estudo analisou precisamente esta questão: será que temperaturas fora de uma determinada faixa estão associadas a um maior risco de morte entre pessoas com doenças neurodegenerativas?

Um estudo com mais de 437 mil mortes

Os investigadores utilizaram dados do sistema nacional de registo de mortalidade da China e analisaram 437 218 mortes relacionadas com doenças neurodegenerativas ocorridas entre 2013 e 2019.

Foram consideradas quatro categorias principais: doenças neurodegenerativas no seu conjunto, demência, doença de Alzheimer, demência não relacionada com Alzheimer e doença de Parkinson.

Cerca de 92% das pessoas incluídas tinham pelo menos 65 anos de idade. A análise permitiu ainda estudar diferenças relacionadas com sexo, idade, nível de escolaridade e diferentes zonas climáticas.

Em vez de simplesmente comparar regiões mais quentes com regiões mais frias, os investigadores utilizaram um desenho epidemiológico do tipo case-crossover. Este método permite comparar diferentes períodos de exposição à temperatura dentro do próprio indivíduo, reduzindo o impacto de vários fatores pessoais que não mudam ao longo do tempo.

Tanto o calor como o frio podem ser relevantes

Uma das principais conclusões foi a existência de uma relação não linear entre temperatura e mortalidade por doenças neurodegenerativas.

De uma forma simplificada, as temperaturas próximas de uma determinada faixa apresentaram menor risco relativo, enquanto temperaturas mais afastadas desse intervalo, tanto para baixo como para cima, estiveram associadas a maior risco.

Para a maioria das doenças estudadas, as temperaturas associadas à menor mortalidade situaram-se aproximadamente entre 24 e 26 ºC. Para a doença de Parkinson, o valor identificado foi mais baixo, cerca de 18,3 ºC.

Isto não significa que 25 ºC seja uma temperatura universalmente ideal para todas as pessoas, nem que temperaturas inferiores ou superiores provoquem diretamente uma doença neurodegenerativa. Estes valores correspondem às relações observadas nesta população específica e foram utilizados pelos investigadores como temperaturas de referência para a análise.

O efeito do calor parece ser mais rápido

Outro resultado interessante está relacionado com o tempo que separa a exposição à temperatura do aumento do risco observado.

No caso das temperaturas extremamente elevadas, o risco foi mais elevado no próprio dia da exposição e permaneceu significativo durante vários dias, diminuindo posteriormente.

Para as temperaturas extremamente baixas, o padrão foi diferente. O aumento do risco tornou-se mais evidente alguns dias depois da exposição, atingindo um pico aproximadamente no sexto dia e diminuindo progressivamente até ao 14.º dia.

Esta diferença é importante porque mostra que os efeitos das temperaturas extremas não têm necessariamente de ocorrer imediatamente. Uma exposição ao frio pode desencadear uma sequência de alterações fisiológicas cujo impacto se manifesta ao longo de vários dias.

Porque é que o calor pode ser particularmente importante?

O organismo humano necessita de manter a temperatura corporal dentro de limites relativamente estreitos. Quando a temperatura ambiente aumenta significativamente, o corpo aumenta a dissipação de calor através de mecanismos como a vasodilatação e a transpiração.

Em pessoas mais velhas ou com doenças crónicas, estes mecanismos de adaptação podem ser menos eficazes. Além disso, doenças neurodegenerativas podem coexistir com alterações da mobilidade, autonomia, perceção da temperatura, hidratação e capacidade de responder adequadamente a condições ambientais adversas.

O calor também aumenta a exigência sobre o sistema cardiovascular e pode favorecer desidratação e alterações do equilíbrio hidroeletrolítico.

Por isso, uma onda de calor não deve ser encarada apenas como um problema de conforto térmico. Em determinadas pessoas, pode representar um fator adicional de stress fisiológico.

E o frio?

O frio também apresentou uma associação importante com a mortalidade por doenças neurodegenerativas.

A exposição a temperaturas baixas pode provocar vasoconstrição periférica, aumentar a pressão arterial e alterar a resposta cardiovascular. O organismo necessita ainda de produzir mais calor para manter a temperatura corporal.

Os investigadores observaram que os efeitos associados ao frio apresentavam uma duração mais prolongada do que os efeitos associados ao calor.

Este resultado ajuda a explicar por que razão não devemos olhar para as alterações climáticas apenas através da perspetiva do aumento das temperaturas. O aquecimento global pode diminuir alguns riscos relacionados com o frio, mas simultaneamente aumentar os riscos associados ao calor.

O que poderá acontecer com o aquecimento global?

Uma das partes mais relevantes do estudo foi a projeção do impacto futuro das alterações climáticas.

Os investigadores utilizaram diferentes cenários climáticos para estimar a evolução da mortalidade atribuível ao calor e ao frio ao longo do século XXI.

De acordo com os modelos utilizados, a mortalidade relacionada com temperaturas elevadas deverá aumentar progressivamente, enquanto a mortalidade atribuível ao frio deverá diminuir.

Consequentemente, a partir de meados do século, o balanço global associado às temperaturas não ideais poderá tornar-se mais desfavorável, sobretudo nos cenários caracterizados por maiores emissões.

As projeções foram particularmente relevantes para a doença de Parkinson, na qual a contribuição estimada das temperaturas elevadas foi mais importante do que a observada para algumas das outras doenças analisadas.

O papel do envelhecimento da população

Existe aqui uma questão particularmente importante: o envelhecimento populacional e as alterações climáticas podem ocorrer simultaneamente.

À medida que aumenta a proporção de pessoas mais velhas, aumenta também o número de pessoas potencialmente vulneráveis a temperaturas extremas.

Uma determinada temperatura que seja facilmente tolerada por um adulto saudável pode representar um desafio maior para uma pessoa idosa com doença neurodegenerativa, mobilidade reduzida, doença cardiovascular ou dificuldade em regular a ingestão de líquidos.

Por isso, a prevenção não deve limitar-se ao tratamento da doença depois de esta surgir. O ambiente em que uma pessoa vive também pode fazer parte da gestão do risco.

O que podemos fazer individualmente?

Os resultados deste estudo não significam que uma pessoa possa prevenir Alzheimer ou Parkinson simplesmente controlando a temperatura ambiente. A investigação também não demonstra que o calor ou o frio sejam causas diretas destas doenças.

O que demonstra é uma associação entre temperaturas não ótimas e mortalidade entre pessoas com doenças neurodegenerativas.

Na prática, isto reforça a importância de medidas simples durante períodos de temperaturas extremas, sobretudo em pessoas mais velhas ou com doença crónica: manter uma hidratação adequada, evitar exposição prolongada ao calor intenso, garantir um ambiente termicamente confortável e prestar atenção a sinais de desidratação ou alteração do estado geral.

A atividade física também deve ser adaptada às condições ambientais. Durante períodos de calor intenso, o horário, a intensidade e a duração do exercício podem necessitar de ajustes. O objetivo não é deixar de treinar, mas reduzir uma exposição térmica desnecessariamente elevada.

O exercício e a saúde cerebral

É importante colocar estes resultados no contexto mais amplo da prevenção das doenças neurodegenerativas.

A atividade física regular está associada a múltiplos benefícios para a saúde cardiovascular e metabólica e faz parte das estratégias utilizadas para preservar a capacidade funcional durante o envelhecimento.

O exercício contribui para manter força muscular, equilíbrio, autonomia e capacidade cardiorrespiratória. Estes fatores são particularmente relevantes à medida que envelhecemos.

No entanto, a resposta ao exercício depende do contexto. Uma sessão de exercício intenso realizada num ambiente extremamente quente pode representar uma carga fisiológica muito diferente da mesma sessão realizada numa temperatura confortável.

Assim, saúde cerebral, exercício, envelhecimento e ambiente não devem ser analisados como temas completamente independentes.

Limitações importantes do estudo

Apesar da dimensão da investigação, existem limitações que devem ser consideradas antes de extrapolar os resultados.

Em primeiro lugar, os dados foram obtidos na China continental. As características climáticas, sociais, económicas, habitacionais e de adaptação ao frio e ao calor podem ser diferentes noutros países.

Em segundo lugar, as projeções para o futuro dependem de modelos climáticos e assumem que determinadas relações entre temperatura e mortalidade se mantêm ao longo do tempo.

As pessoas podem adaptar-se a alterações climáticas, e também podem mudar as condições das habitações, os sistemas de climatização, os cuidados de saúde e as estratégias de prevenção.

Além disso, o estudo analisou mortalidade, não todos os casos de doença ou todas as alterações funcionais provocadas por temperaturas extremas. Portanto, os resultados não devem ser interpretados como uma medida completa do impacto do calor ou do frio sobre todas as pessoas com doenças neurodegenerativas.

O que este estudo nos ensina?

O principal ensinamento é que a relação entre temperatura e saúde neurológica pode ser mais complexa do que simplesmente considerar o calor como um problema.

Tanto temperaturas muito baixas como temperaturas muito elevadas estiveram associadas a maior risco de morte entre pessoas com doenças neurodegenerativas. O frio apresentou efeitos mais prolongados, enquanto o calor apresentou uma resposta mais rápida.

As projeções indicam ainda que o aumento da temperatura global poderá alterar progressivamente este equilíbrio, com uma redução da mortalidade atribuível ao frio mas um aumento da mortalidade relacionada com o calor.

Num mundo em envelhecimento, compreender esta interação entre clima, envelhecimento e saúde cerebral poderá tornar-se cada vez mais importante.

Posso ajudar

Posso ajudar a adaptar o exercício à idade, condição física e ambiente, promovendo força, mobilidade, capacidade cardiovascular e autonomia ao longo do envelhecimento.

Referências