Manter massa muscular, força e capacidade funcional torna-se cada vez mais importante com o avançar da idade. A sarcopenia e a fragilidade estão associadas à perda de desempenho físico e de autonomia, tornando o exercício e a nutrição componentes importantes das estratégias de prevenção e intervenção.
Um estudo publicado no Journal of Sports Sciences analisou precisamente esta questão, comparando diferentes estratégias de exercício e intervenção nutricional relativamente aos níveis sanguíneos de IGF-1, uma hormona envolvida em processos relacionados com crescimento, metabolismo e manutenção dos tecidos.
O que é o IGF-1?
O fator de crescimento semelhante à insulina tipo 1, conhecido pela sigla IGF-1, é uma molécula produzida principalmente no fígado em resposta à hormona do crescimento, embora também possa ser produzida localmente em vários tecidos.
O IGF-1 participa em mecanismos relacionados com síntese proteica, crescimento e manutenção dos tecidos. No músculo, está envolvido em processos que regulam a adaptação ao exercício e a manutenção da massa muscular.
Por esse motivo, níveis reduzidos de IGF-1 têm sido estudados no contexto do envelhecimento, fragilidade e sarcopenia. No entanto, é importante não transformar este biomarcador num objetivo isolado. A capacidade funcional de uma pessoa não pode ser avaliada apenas através de uma análise sanguínea.
O que analisou o novo estudo?
Os investigadores realizaram uma revisão sistemática e meta-análise em rede, procurando comparar diferentes intervenções em adultos mais velhos com fragilidade e/ou sarcopenia.
Foram incluídos 19 ensaios clínicos randomizados. As intervenções foram agrupadas em diferentes categorias: ausência de intervenção ou controlo, suplementação nutricional, treino aeróbio, treino de força, treino combinado, treino de força associado a nutrição e treino combinado associado a nutrição.
O objetivo principal foi perceber quais destas estratégias estavam associadas a alterações nos níveis séricos de IGF-1.
O treino de força aumentou o IGF-1
Quando comparado com os grupos de controlo, o treino de força apresentou uma melhoria estatisticamente significativa dos níveis de IGF-1.
A diferença correspondeu a um tamanho de efeito padronizado de 0,47, com intervalo de confiança de 95% entre 0,11 e 0,84.
Também o treino combinado, que integra diferentes formas de exercício, apresentou uma melhoria significativa, com um tamanho de efeito de 0,53 e intervalo de confiança de 95% entre 0,07 e 0,99.
Estes resultados são interessantes porque reforçam a importância do exercício físico estruturado no contexto do envelhecimento, particularmente quando existe perda de massa muscular ou capacidade funcional.
E quando se junta nutrição ao treino?
Uma das partes mais interessantes da análise foi a combinação entre exercício e intervenção nutricional.
O grupo que combinava treino de força e nutrição apresentou o maior tamanho de efeito estimado sobre o IGF-1: 0,89. Contudo, o intervalo de confiança foi de -0,02 a 1,80, o que significa que o resultado não atingiu significância estatística.
Este detalhe é fundamental. O facto de uma intervenção apresentar o maior valor estimado não significa automaticamente que seja superior às restantes.
Os investigadores utilizaram também a metodologia SUCRA para ordenar probabilisticamente as intervenções. O treino de força associado a nutrição apresentou 87,6%, seguido pelo treino combinado, com 73,9%, e pelo treino de força, com 68,6%.
Contudo, os próprios autores alertam que estes valores de ranking devem ser interpretados com cautela, sobretudo porque a certeza global da evidência foi considerada baixa a muito baixa.
O que significa isto para a sarcopenia?
A sarcopenia não é simplesmente ter menos músculo. A avaliação clínica envolve diferentes componentes, incluindo massa muscular, força e desempenho físico.
Por isso, um aumento do IGF-1 não deve ser interpretado como sinónimo de aumento de força ou de massa muscular.
Uma pessoa pode apresentar alterações hormonais ou metabólicas sem que isso se traduza automaticamente numa melhoria funcional significativa. Da mesma forma, uma intervenção pode melhorar força, equilíbrio ou capacidade de caminhar sem produzir grandes alterações num determinado biomarcador.
Na prática, o objetivo do exercício deve continuar centrado em resultados funcionais relevantes: conseguir levantar-se de uma cadeira, subir escadas, caminhar, transportar objetos, manter equilíbrio e preservar independência.
Porque é que o treino de força é tão importante com a idade?
O envelhecimento está associado a alterações progressivas na massa muscular, força e capacidade neuromuscular. A redução da atividade física pode acelerar este processo.
O treino de força fornece um estímulo mecânico que pode promover adaptações musculares e neuromusculares. Além da hipertrofia, pode melhorar a capacidade de produzir força, a coordenação e a realização das tarefas quotidianas.
Em adultos mais velhos, o treino deve ser ajustado à experiência, condição física, limitações articulares, equilíbrio, histórico de exercício e objetivos individuais.
Não é necessário utilizar sempre cargas muito elevadas. A progressão pode ser construída através de alterações na carga, número de repetições, séries, amplitude de movimento, velocidade de execução, frequência semanal ou complexidade dos exercícios.
Treino combinado: força e componente cardiovascular
O estudo encontrou também uma associação positiva entre treino combinado e IGF-1.
Esta abordagem pode ser particularmente interessante porque permite trabalhar simultaneamente diferentes componentes da aptidão física. O treino de força pode contribuir para preservar força e massa muscular, enquanto o exercício cardiovascular melhora a capacidade cardiorrespiratória e a tolerância ao esforço.
Contudo, não existe uma necessidade de escolher uma única modalidade. Em muitos casos, uma programação equilibrada pode incluir força, exercício aeróbio, mobilidade e tarefas específicas de equilíbrio ou capacidade funcional.
Nutrição: importante, mas não uma solução isolada
A nutrição também pode desempenhar um papel relevante na manutenção muscular, especialmente quando existe ingestão energética ou proteica insuficiente.
Uma alimentação adequada deve considerar quantidade total de energia, ingestão proteica, distribuição das refeições, qualidade alimentar e necessidades individuais.
Este estudo, contudo, não permite concluir que aumentar simplesmente a ingestão de proteína seja suficiente para aumentar o IGF-1 ou prevenir a sarcopenia. As intervenções nutricionais analisadas foram diferentes e a qualidade da evidência foi limitada.
É também importante evitar a ideia de que um determinado marcador sanguíneo deve ser maximizado. Mais IGF-1 não significa necessariamente melhor saúde ou maior longevidade.
As limitações do estudo
A principal limitação é a baixa ou muito baixa certeza da evidência. Os autores referem problemas relacionados com risco de viés e imprecisão dos resultados.
Além disso, os estudos incluídos utilizaram diferentes programas de exercício, intervenções nutricionais, durações e características dos participantes.
Consequentemente, os resultados não permitem determinar qual é a melhor frequência semanal, intensidade, duração ou combinação de exercícios para aumentar o IGF-1.
Também não demonstram que aumentar o IGF-1 seja, por si só, responsável por melhores resultados clínicos em pessoas com sarcopenia ou fragilidade.
O que podemos retirar para a prática?
A mensagem mais útil não é procurar aumentar uma hormona específica. É construir um programa de exercício capaz de preservar a capacidade física à medida que envelhecemos.
O treino de força apresenta neste estudo uma associação positiva com os níveis de IGF-1 e continua a ser uma ferramenta importante para trabalhar força e função muscular.
O treino combinado também apresentou resultados favoráveis. A nutrição pode complementar o exercício quando existe necessidade de melhorar a ingestão energética ou proteica, mas os resultados deste estudo não permitem estabelecer uma estratégia nutricional universal.
Mais importante ainda, a intervenção deve ser individualizada. A idade cronológica, experiência de treino, capacidade funcional, limitações, objetivos e recuperação devem influenciar a programação.
Conclusão
Esta revisão sistemática e meta-análise em rede sugere que o treino de força e o treino combinado podem melhorar os níveis séricos de IGF-1 em adultos mais velhos com fragilidade e/ou sarcopenia.
A combinação de treino de força com intervenção nutricional apresentou o maior efeito estimado, mas esse resultado não foi estatisticamente significativo e a certeza da evidência foi baixa a muito baixa.
Assim, o estudo reforça a importância de olhar para o exercício como uma intervenção multifatorial. Em vez de procurar apenas alterações laboratoriais, a prioridade deve ser preservar força, mobilidade, capacidade cardiovascular, autonomia e qualidade de vida ao longo do envelhecimento.
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Referências
- Chu R, Li M, Xie Y, Du Y, Ni T. Comparative efficacy of exercise and nutritional interventions on serum IGF-1 levels in older adults with frailty and/or sarcopenia: A systematic review and network meta-analysis. Journal of Sports Sciences. 2026; publicação online em 16 de setembro de 2026. DOI: 10.1080/02640414.2026.2732603. PubMed