O princípio da especificidade é um dos conceitos fundamentais da ciência do treino. A sua ideia central é simples: para melhorar uma determinada capacidade física, é necessário proporcionar ao organismo estímulos suficientemente relacionados com essa capacidade.
Se o objetivo é aumentar a força, o treino deve desenvolver força. Se o objetivo é melhorar a corrida, é necessário correr. Se pretendemos aumentar a mobilidade, precisamos de trabalhar os movimentos e amplitudes que queremos melhorar. Se queremos desenvolver potência, o treino deve incluir estímulos que exijam produzir força rapidamente.
Esta relação não significa que cada exercício tenha de reproduzir exatamente a atividade final. Significa que existe uma relação entre o estímulo utilizado e a adaptação que pretendemos obter.
O princípio da especificidade ajuda, por isso, a responder a uma pergunta essencial na construção de um programa de treino: este exercício está realmente a contribuir para aquilo que a pessoa pretende melhorar?
O que é o princípio da especificidade?
A especificidade descreve o facto de as adaptações ao treino serem, em grande parte, determinadas pelas características do estímulo aplicado.
O organismo adapta-se às exigências que lhe são colocadas. A natureza dessa adaptação depende de fatores como o tipo de exercício, intensidade, duração, velocidade de execução, amplitude de movimento, frequência e contexto em que o estímulo é realizado.
Por isso, não existe simplesmente um conceito de “estar em forma”. Uma pessoa pode ter excelente resistência aeróbia e pouca força máxima. Outra pode ser muito forte e apresentar pouca capacidade de correr durante longos períodos. Outra pode possuir grande mobilidade, mas pouca potência.
A condição física é composta por várias capacidades, e cada uma requer estímulos relativamente específicos.
Especificidade não significa fazer apenas o gesto final
Uma interpretação demasiado rígida da especificidade poderia levar à ideia de que devemos treinar exclusivamente a atividade que queremos melhorar. Na prática, não é assim.
O treino pode utilizar exercícios diferentes da atividade final, desde que esses exercícios contribuam para desenvolver capacidades relevantes.
Por exemplo, uma pessoa que pretende melhorar a corrida pode utilizar treino de força. O agachamento não é corrida, mas pode contribuir para desenvolver capacidades musculares importantes. Da mesma forma, um atleta pode utilizar exercícios de potência, mobilidade ou controlo motor que não reproduzem exatamente o gesto desportivo.
A questão não é copiar permanentemente a atividade. É compreender que adaptações são necessárias e quais os estímulos que melhor contribuem para as desenvolver.
Especificidade no treino de força
No desenvolvimento da força, a especificidade assume uma importância particularmente evidente.
Uma pessoa que pretende aumentar a sua força num determinado exercício beneficia da prática desse movimento ou de movimentos suficientemente semelhantes. A adaptação não depende apenas do músculo utilizado. Existe também uma componente técnica e neuromuscular.
Aprender a produzir força num determinado padrão de movimento exige prática desse padrão.
Por exemplo, melhorar a força no agachamento não depende exclusivamente de fortalecer as pernas. É também necessário aprender a coordenar o movimento, controlar a posição corporal e produzir força no padrão específico do exercício.
Por isso, exercícios gerais e exercícios específicos podem desempenhar funções diferentes dentro do mesmo programa.
Especificidade e hipertrofia
Na hipertrofia, a especificidade pode ser interpretada de uma forma diferente.
Se o objetivo é aumentar a massa muscular de determinado grupo muscular, é necessário proporcionar estímulos que produzam tensão suficiente nesse tecido.
Não é obrigatório utilizar um único exercício. Podem existir diferentes movimentos capazes de estimular o mesmo músculo, com diferentes amplitudes, posições articulares e curvas de resistência.
Um programa de hipertrofia pode, por isso, utilizar exercícios compostos e exercícios mais específicos. A escolha deve considerar o músculo que se pretende desenvolver, a capacidade de executar o exercício, a tolerância individual e a possibilidade de progredir.
Mais uma vez, a especificidade não significa rigidez. Significa manter uma relação lógica entre o estímulo e o objetivo.
Especificidade na corrida
A corrida é um exemplo particularmente claro.
Uma pessoa que pretende melhorar os seus tempos de corrida precisa de correr. O treino de bicicleta pode melhorar a condição cardiovascular, mas não substitui completamente a prática específica da corrida.
A corrida envolve não apenas o sistema cardiorrespiratório, mas também coordenação, economia de movimento, capacidade muscular e adaptação ao impacto.
O treino complementar pode ser muito útil, mas a atividade principal continua a ter um papel central quando o objetivo é melhorar o desempenho nessa atividade.
Também aqui existe uma diferença entre melhorar a condição física geral e melhorar o desempenho específico.
Especificidade e mobilidade
A mobilidade também apresenta características específicas.
Ter boa amplitude de movimento numa articulação não significa necessariamente possuir a mesma amplitude durante todos os movimentos ou em todas as posições.
Se uma pessoa pretende melhorar a mobilidade de determinado movimento, é necessário trabalhar as amplitudes e posições relevantes para esse movimento.
Além da amplitude passiva, pode ser importante desenvolver controlo ativo, força nas amplitudes disponíveis e capacidade de utilizar essa amplitude durante movimentos funcionais.
Assim, mobilidade não deve ser entendida apenas como a capacidade de “ir mais longe”. É também a capacidade de controlar e utilizar a amplitude de movimento.
Especificidade e potência
A potência é a capacidade de produzir força rapidamente. Por isso, o treino de potência apresenta exigências diferentes do treino destinado simplesmente a aumentar a força máxima.
Uma pessoa pode ser muito forte e não possuir necessariamente a mesma capacidade de produzir força rapidamente.
O treino de potência deve, portanto, incluir movimentos realizados com intenção de elevada velocidade e exercícios adequados ao nível do praticante.
Saltos, lançamentos e determinados movimentos explosivos são exemplos de exercícios que podem ser utilizados para desenvolver componentes relacionadas com potência.
A escolha deve considerar sempre a experiência e capacidade do praticante, porque produzir força rapidamente também exige controlo do movimento.
Especificidade no desporto
Nos desportos, a especificidade torna-se ainda mais complexa.
Um atleta não precisa apenas de força ou resistência. Pode necessitar de combinar velocidade, potência, coordenação, mobilidade, capacidade aeróbia, capacidade anaeróbia e tomada de decisão.
Além disso, cada modalidade possui padrões de movimento, velocidades, durações e exigências diferentes.
O treino físico deve, por isso, aproximar-se progressivamente das exigências do desporto à medida que o objetivo se torna mais específico.
Um treino geral pode construir uma base física. Um treino mais específico pode depois transformar essa capacidade em desempenho relacionado com a modalidade.
Preparação geral e preparação específica
Uma das melhores formas de compreender a especificidade é distinguir entre preparação geral e preparação específica.
A preparação geral procura desenvolver capacidades físicas amplas. Pode incluir força geral, resistência, mobilidade, coordenação e controlo corporal.
A preparação específica aproxima progressivamente essas capacidades das exigências concretas do objetivo.
As duas não são concorrentes. Podem complementar-se.
Uma pessoa que começa a treinar pode beneficiar bastante de exercícios gerais. Um atleta próximo de uma competição pode necessitar de estímulos progressivamente mais específicos.
A proporção entre os dois tipos de trabalho pode, portanto, mudar ao longo do processo.
Especificidade e progressão
A especificidade também deve ser acompanhada por progressão.
Repetir indefinidamente o mesmo estímulo pode deixar de produzir uma adaptação relevante quando o organismo já está habituado àquela exigência.
É necessário encontrar formas de aumentar progressivamente o desafio: mais carga, maior velocidade, maior distância, maior complexidade, maior amplitude, melhor execução ou outra variável relevante para o objetivo.
O princípio da especificidade não elimina, portanto, o princípio da sobrecarga progressiva. Os dois trabalham em conjunto.
Especificidade e idade
O princípio da especificidade aplica-se a qualquer idade, mas a sua utilização deve considerar o contexto da pessoa.
Para alguém com mais de 40 anos que pretende manter força, mobilidade e capacidade funcional, não é necessário transformar todo o treino numa preparação altamente específica para uma determinada modalidade.
Pode ser mais útil desenvolver várias capacidades em simultâneo, utilizando exercícios que tenham transferência para as atividades que a pessoa pretende realizar.
Já para um atleta competitivo, a necessidade de especificidade pode aumentar à medida que a competição se aproxima.
O princípio é o mesmo. O grau de especificidade é que pode mudar.
Especificidade e treino para a vida real
Nem todos os objetivos são desportivos.
Uma pessoa pode querer subir escadas sem ficar demasiado cansada, brincar com os filhos, caminhar durante várias horas, transportar objetos, manter independência física ou continuar a praticar uma modalidade recreativa.
Nestes casos, o treino deve ser suficientemente específico para as capacidades que realmente importam na vida dessa pessoa.
Isso pode significar trabalhar força, equilíbrio, resistência, mobilidade e potência em diferentes proporções.
O exercício não precisa de reproduzir literalmente todas as tarefas da vida quotidiana. Deve desenvolver as capacidades que permitem realizar essas tarefas com maior competência.
Quando a especificidade pode ser excessiva?
A especificidade é importante, mas pode ser levada demasiado longe.
Treinar exclusivamente um movimento pode criar lacunas noutras capacidades físicas. Além disso, repetir continuamente o mesmo padrão pode aumentar a exposição a determinados estímulos enquanto deixa outras capacidades pouco desenvolvidas.
É por isso que um programa equilibrado pode utilizar exercícios diferentes, mesmo quando existe um objetivo específico.
A especificidade deve orientar o treino, não limitar desnecessariamente as possibilidades.
O princípio da especificidade na construção de um programa
Antes de escolher exercícios, é importante definir o objetivo.
Se o objetivo for hipertrofia, devemos perguntar quais os músculos que queremos desenvolver e como proporcionar-lhes estímulo suficiente.
Se o objetivo for força, devemos considerar quais os movimentos ou capacidades de força que precisam de ser melhorados.
Se for corrida, devemos considerar distância, velocidade, técnica e capacidade energética.
Se for mobilidade, devemos identificar quais os movimentos e amplitudes que precisam de ser melhorados.
Se for potência, devemos considerar a capacidade de produzir força rapidamente.
Se for um desporto, devemos analisar as exigências físicas e técnicas da modalidade.
A partir daí, a seleção dos exercícios torna-se mais lógica.
Conclusão
O princípio da especificidade é uma das bases da programação do treino. O organismo adapta-se às exigências que recebe e, por isso, o estímulo utilizado deve ter uma relação adequada com aquilo que pretendemos melhorar.
Para desenvolver força, é necessário treinar força. Para aumentar massa muscular, é necessário proporcionar estímulo suficiente aos músculos. Para melhorar a corrida, é necessário correr. Para desenvolver mobilidade, é necessário trabalhar as amplitudes relevantes. Para aumentar potência, é necessário treinar a capacidade de produzir força rapidamente.
Mas especificidade não significa utilizar apenas um exercício ou reproduzir permanentemente a atividade final. O treino pode combinar preparação geral e preparação específica, dependendo do objetivo, experiência e momento do processo.
Um bom programa começa, por isso, pela pergunta mais simples: o que queremos melhorar?
A partir dessa resposta, podemos decidir quais os estímulos que fazem sentido, quanto treino é necessário e como progredir ao longo do tempo.
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Referências
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- Suchomel TJ, Nimphius S, Bellon CR, Stone MH. The Importance of Muscular Strength: Training Considerations. Sports Medicine. 2018;48(4):765-785.
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